As obras começaram na segunda-feira seguinte àquela primeira reunião. Vanessa chegou cedo, por volta das oito e meia, com o SUV preto brilhante estacionado na garagem como se sempre tivesse pertencido ali. Dessa vez ela estava mais casual: calça jeans escura justa nas pernas longas, camiseta branca de algodão macio que marcava levemente os seios, tênis brancos limpos e o cabelo loiro preso num rabo de cavalo alto que balançava enquanto ela andava. Carregava uma pasta de couro, uma trena laser e um sorriso que parecia dizer “hoje vamos fazer mágica”.
Eu e o Vini já estávamos na cozinha tomando café. Eu de short jeans curtinho e regata fina cinza (sem sutiã, porque em casa eu vivo assim quando o calor aperta), ele de bermuda tactel e camiseta velha da banda de rock que ele curtia na adolescência. Oferecemos café forte, pão de queijo quentinho que eu tinha feito na airfryer. Vanessa aceitou o café, recusou o pão (“estou de dieta hoje, mas amanhã eu como dois”), e sentamos na mesa da varanda pra rever o cronograma.
— Segunda e quarta eu venho de manhã até o fim da tarde. Quinta e sexta, só à tarde, porque tenho outra obra na capital. Mas qualquer emergência eu venho correndo — explicou ela, abrindo a pasta.
O Vini sorriu.
— Emergência tipo “Adriana quer trocar a cor da parede pela terceira vez”?
Eu dei um tapa leve no braço dele.
— Ei, eu sou a cliente. Cliente tem direito de mudar de ideia.
Vanessa riu, aquela risada grave e suave que parecia acariciar o ar.
— Pode mudar quantas vezes quiser. Meu trabalho é fazer vocês se sentirem em casa de verdade.
E assim começou. Os pedreiros chegaram logo depois, barulho de britadeira, cheiro de cimento fresco, poeira controlada (mais ou menos). Vanessa supervisionava tudo com uma calma impressionante: media, apontava, conversava com os operários sem levantar a voz, mas com autoridade natural. Eu ficava na sala tentando trabalhar, mas minha atenção desviava toda hora pra ela. O jeito como ela se abaixava pra conferir uma tomada, a curva da cintura, o jeito como limpava o suor da testa com o dorso da mão… Era hipnótico.
Teve um dia, umas duas semanas depois, que o fornecedor de azulejos chegou bem na hora errada. Vanessa estava na sala, debruçada sobre a mesa de jantar coberta de plantas e amostras, explicando pro Vini como a iluminação indireta ia valorizar as prateleiras novas do escritório. O cara — um senhor de uns 55 anos, bigode grisalho, camisa polo suada — parou na porta, olhou pra ela de cima a baixo e soltou, num tom que pretendia ser discreto mas não foi:
— Essa arquiteta aí é travesti, né? Que negócio esquisito ver uma mulher assim num canteiro de obra desses.
O silêncio foi imediato. Os pedreiros que estavam no corredor pararam o que faziam. Eu senti o sangue subir pro rosto como se alguém tivesse ligado um fogão na minha cabeça. Antes que Vanessa pudesse reagir, eu me levantei da cadeira com tanta força que ela rangeu no piso.
— Esquisito é o senhor achar que tem direito de opinar sobre o corpo ou a identidade de quem está trabalhando aqui. Vanessa é uma das melhores profissionais que já contratamos. Respeito não custa nada, viu? E se custasse, o senhor ainda estaria devendo.
O Vini, que estava trazendo uma garrafa d’água da cozinha, parou no batente da porta. Ele normalmente é o mais tranquilo da casa, mas quando fica sério, a voz baixa uns dois tons e ganha peso.
— Se o senhor tem problema com isso, pode deixar as caixas de azulejo ali na garagem e ir embora. Aqui não tem espaço pra esse tipo de pensamento. Nem agora, nem nunca.
O homem resmungou alguma coisa sobre “só ter comentado a verdade”, largou a prancheta na mesa com força e saiu pisando duro. Quando o portão bateu, Vanessa respirou fundo, os ombros descendo devagar. Seus olhos estavam brilhando — não de raiva, mas de algo mais profundo.
— Vocês… não precisavam ter feito isso — disse ela baixinho.
Eu fui até ela primeiro, abracei de lado, sentindo o corpo quente e firme contra o meu.
— Precisávamos sim. Ninguém vai te desrespeitar na nossa casa. Nunca.
O Vini se aproximou pelo outro lado, colocou a mão grande no ombro dela.
— Aqui é zona livre de babaca. Regra da casa. E a regra vale pra todo mundo.
Vanessa riu, mas era um riso trêmulo, emocionado. Ela nos abraçou de volta — primeiro eu, depois ele, depois os dois juntos. O abraço durou mais do que o normal. Quando nos soltamos, o clima tinha mudado. Algo se abriu ali, uma porta que ninguém sabia que existia.
A partir daquele dia, Vanessa começou a ficar mais tempo. Almoçava com a gente, contava histórias da faculdade de arquitetura, das viagens que fez antes da transição, das pequenas vitórias no dia a dia. Eu contava minhas loucuras de acumuladora (“Sério, Adriana, você realmente precisa de três liquidificadores quebrados guardados no armário?”), o Vini contava as trapalhadas do home office (“Meu chefe canadense me viu de pijama de estampa de dinossauro na reunião de ontem. Ele achou fofo e pediu foto pro filho dele”).
Uma quinta-feira à tarde, o Vini precisou ir até a capital resolver uma parada urgente da empresa — uma reunião presencial de emergência que não dava pra escapar por vídeo. Ele saiu por volta das duas da tarde, prometendo voltar antes das sete. Ficamos só eu e Vanessa na casa.
O calor estava insuportável. Eu tirei a regata e fiquei só de top cropped fino, short jeans curtinho. Vanessa tirou a camiseta e ficou de regata preta justa, o sutiã rendado aparecendo levemente nas laterais. Estávamos na sala revisando amostras de piso laminado, mas o papo logo derivou pra coisas mais pessoais.
— Eu namoro pouco desde a transição — ela confessou, mexendo distraidamente numa placa de madeira. — Sempre tenho medo de que a pessoa descubra e… mude de ideia na hora H.
Eu parei o que estava fazendo e olhei pra ela.
— Vanessa… você é linda. Inteligente pra caralho. Talentosa. Tem um corpo que parece esculpido. Quem não te quiser é que tá perdendo feio.
Ela me olhou nos olhos. O ar ficou pesado, elétrico, como antes de uma tempestade. Me inclinei devagar e a beijei. Foi suave no começo — só lábios se tocando, testando. Ela correspondeu, a mão subindo pro meu pescoço, dedos longos se enroscando no meu cabelo curto. O beijo aprofundou rápido. Línguas se encontrando, respiração acelerando. Minhas mãos desceram pela cintura dela, sentindo as curvas firmes, depois subiram pelas costas, desabotoando o sutiã por baixo da regata.
Quando nos separamos pra respirar, ela sussurrou:
— Adriana… você sabe que eu sou trans. Tem… tudo.
Eu sorri, mordendo o lábio inferior.
— Eu sei. E tô morrendo de curiosidade pra conhecer cada centímetro.
Fomos pro quarto de visitas — o mais próximo, o único com cama arrumada e lençóis limpos. Tirei a regata dela devagar, beijando o pescoço, a clavícula, descendo pros seios. Os mamilos endurecidos sob minha língua. Ela gemeu baixinho, as mãos nas minhas costas, tirando meu top. Ficamos as duas de topless, corpos colados, pele quente contra pele quente.
Baixei a calça jeans dela junto com a cueca boxer preta. O pau dela saltou livre, já semi-duro. Meu Deus… era impressionante. Grosso na base, uns 22 centímetros de comprimento, veias marcadas, cabeça rosada brilhando de pré-gozo. Eu ri, nervosa e excitada.
— Vanessa… você tá de sacanagem comigo? Isso é… enorme.
Ela riu também, corando um pouco.
— Surpresa boa?
— Surpresa ótima pra caralho.
Peguei nele com as duas mãos, sentindo o peso, a pulsação quente sob a pele macia. Chupei devagar, explorando a língua na glande, lambendo a fenda, depois descendo o máximo que conseguia. Ela gemia baixinho, as mãos no meu cabelo curto, guiando sem forçar. Depois ela me deitou na cama, tirou meu short e a calcinha com um puxão decidido. Abriu minhas pernas e lambeu minha buceta com vontade — língua girando no clitóris, enfiando dois dedos enquanto chupava. Eu gozei rápido, tremendo, apertando as coxas na cabeça dela, gemendo alto o nome dela.
Quando me recuperei, pedi com a voz rouca:
— Quero você dentro de mim… mas também quero experimentar… atrás.
Ela ergueu uma sobrancelha, surpresa e visivelmente excitada.
— Anal? Tem certeza?
— Tenho. Nunca fui muito fã, sempre doeu e parei. Mas com você… quero tentar. Quero sentir você inteira.
Ela pegou o lubrificante na bolsa (sempre preparada, a safada). Passou bastante nos dedos e no pau. Começou me abrindo com um dedo, devagar, fazendo círculos lentos. Depois dois dedos, acertando a próstata feminina que eu nem sabia que tinha. Eu gemia, o corpo relaxando aos poucos. Quando encostou a cabeça grossa no meu cuzinho, prendi a respiração.
— Respira fundo, amor. Se doer demais, paro na hora. Pode mandar parar a qualquer momento.
Foi entrando milímetro por milímetro. Doeu no começo — uma queimação forte, pressão intensa, sensação de estar sendo rasgada. Eu mordi o travesseiro, lágrimas escorrendo pelos cantos dos olhos, unhas cravadas no lençol. Mas não pedi pra parar. Aos poucos, o corpo se acostumou. A dor virou um prazer estranho, cheio, profundo, diferente de tudo que eu já tinha sentido. Quando ela estava toda dentro, parou, beijando minhas costas, meu ombro, sussurrando:
— Tá bem? Quer que eu tire?
— Você não é nem louca… continua. Devagar.
Ela soltou um risada e começou a mover. Devagar no início, estocadas curtas e suaves. Cada movimento acertava algo novo dentro de mim — uma pressão deliciosa que subia pela coluna. Eu gemia alto, o corpo se rendendo. A dor inicial tinha virado um fogo intenso, viciante. Ela acelerou um pouco, segurando minha cintura com as duas mãos, o pau entrando e saindo com mais firmeza. Gozei de novo, só com a pressão interna, sem nem tocar no clitóris — um orgasmo profundo, que me fez tremer inteira, gritar o nome dela.
Vanessa gemeu alto, acelerou mais, segurando minhas nádegas abertas. Gozou fundo dentro de mim, pulsando, enchendo meu cuzinho de porra quente. Senti cada jato, o calor se espalhando, e aquilo me fez gozar mais uma vez, fraca, ofegante.
Caímos na cama de lado, suadas, rindo de nervoso e prazer.
— Caralho… eu sofri pra cacete no começo, mas adorei. Adorei mesmo — confessei, ainda tremendo.
— Você foi incrível. Corajosa. Linda — ela respondeu, beijando minha testa, meu nariz, minha boca.
Estávamos deitadas, abraçadas, pernas entrelaçadas, recuperando o fôlego, quando ouvimos a porta da frente abrir.
— Amor? Cheguei mais cedo! A reunião acabou antes do previsto! — voz do Vini ecoando pela sala.
Meu coração parou. Vanessa arregalou os olhos. A gente tava nua, suada, cheirando a sexo, lençol embolado nos pés da cama, marcas de mãos na minha cintura, porra escorrendo devagar entre minhas pernas.
— Merda… — sussurrei.
O Vini apareceu na porta do quarto. Parou. Olhou pra gente: eu de lado, Vanessa atrás de mim, os corpos colados, lençol mal cobrindo as partes. O silêncio durou uns cinco segundos eternos. Dá pra ouvir o tique-taque do relógio da sala.
Ele engoliu seco. A expressão passou de surpresa pra confusão, depois pra algo mais suave, quase terno.
— Então… foi isso que rolou enquanto eu tava fora?
Eu me sentei devagar, puxando o lençol pro peito, coração na boca.
— Vini… a gente… não planejamos esconder. Só aconteceu. Foi espontâneo.
Vanessa se sentou também, cobrindo o colo com o travesseiro, voz baixa:
— Desculpa, Vinicius. Eu não queria…
Ele levantou a mão, pedindo calma. Entrou no quarto devagar, fechou a porta atrás de si. Sentou na beirada da cama, olhando pros dois lados.
— Ei. Calma. Não tô bravo. Nem decepcionado. Nem nada disso.
Olhou pra mim primeiro.
— Eu sei que você é bi desde o começo, amor. Sempre soube. E sei que a Vanessa é… irresistível. — Ele deu um sorrisinho torto, meio envergonhado. — Eu mesmo fico olhando pra ela mais do que devia. E fico imaginando coisas.
Depois olhou pra Vanessa.
— Você é incrível. E se isso aconteceu entre vocês duas… faz sentido. Faz muito sentido.
Vanessa relaxou um pouco, os ombros descendo.
— Você… não tá chateado?
— Chateado? Tô é com ciúmes… mas do tipo bom. Do tipo que dá tesão e vontade de participar. — Ele riu baixo, passando a mão no cabelo. — E aliviado, porque achei que vocês iam tentar esconder de mim. Isso sim me machucaria.
Eu me arrastei até ele, abracei seu pescoço, sentindo o cheiro familiar dele misturado com meu cheiro e o dela.
— Nunca esconderia. A gente só… não sabia como contar ainda. Aconteceu agora há pouco.
Ele me beijou devagar, depois olhou pra Vanessa.
— Vem cá.
Ela hesitou, mas foi. Ele puxou ela pro abraço também. Os três abraçados na cama, nus, suados, cheirando a sexo e a alívio. O Vini beijou minha testa, depois a dela.
— Vocês duas são lindas juntas. E se isso faz parte do que a gente tá construindo aqui… eu tô dentro. Mas com conversa aberta, tá? Nada de segredinhos. Nada de “depois eu conto”. Combinado?
Eu ri, aliviada até os ossos.
— Combinado. E… você quer… saber os detalhes?
Ele ergueu uma sobrancelha, o sorrisinho safado voltando.
— Quero. Muito. Mas primeiro… toma um banho comigo, as duas. Depois a gente conversa. E quem sabe… continua o que vocês começaram. Juntos.
Vanessa sorriu, tímida mas feliz.
— Você é incrível, sabia?
— Eu sei — ele brincou, dando um tapa leve na bunda dela.
Fomos pro chuveiro os três. Água quente caindo, sabonete escorregando, risadas quando alguém escorregava. Toques inocentes que não eram tão inocentes assim — mãos nas costas, beijos no ombro, olhares que prometiam mais. Naquela noite, nada mais rolou de sexo pesado — só carinho, conversa longa, vinho na varanda, promessas sussurradas de que o próximo passo seria juntos, sem pressa, sem segredo.
Mas a porta estava escancarada.
O Vini não só aceitou… ele abraçou a ideia com os braços abertos, o coração aberto, e um tesão evidente nos olhos.
E eu? Eu nunca me senti tão viva.