A Praia do Sonho recebia o fim de tarde com aquela luz morna que não julga ninguém. O mar parecia suspenso, como se aguardasse algo. Caio caminhava ao lado de Maíra tentando acompanhar o ritmo leve dela, mesmo quando por dentro sentia o coração um passo atrás.
Ele tinha 21 anos e um corpo comum demais para quem sempre se sentiu observado. Não era fraco, não era desajeitado — mas carregava uma insegurança antiga, silenciosa, dessas que não aparecem no espelho inteiro, só em partes. Desde cedo aprendera a conviver com uma condição genética que o fazia sentir que, em certos aspectos, era menos. Não para Maíra — nunca para ela — mas para si mesmo.
Maíra, aos 19, parecia não carregar esse tipo de peso. Morena de sol, curvas generosas que o vento fazia questão de anunciar, ela usava um microbiquíni sem qualquer intenção além do conforto. A pele dourada contrastava com o tecido mínimo, e cada passo dela na areia parecia decidido demais para alguém que não sabia o quanto era vista.
O cabelo escuro solto, os ombros livres, o corpo à vontade.
Maíra ocupava o espaço com naturalidade.
Foi então que Caio viu Gabriel.
O homem estava mais à frente, próximo da água, parado como se fosse parte da paisagem. 40 anos, talvez mais de mar do que de cidade. O corpo marcado pelo sol, firme, sólido. Vestia apenas uma sunga escura — simples, sem ostentação — e ainda assim impossível de ignorar.
Caio sentiu o impacto antes de entender o motivo.
Não era desejo.
Era comparação.
Algo nele se retraiu. Uma velha sensação voltou, aquela que ele achava ter aprendido a controlar. O tipo de pensamento que surge sem ser chamado e insiste em ficar: “É assim que um homem deveria parecer.”
Ele desviou o olhar rápido.
— “Vamos andar mais pra esquerda?” disse, tentando parecer casual. “Ali tá mais vazio.”
Maíra seguiu o gesto dele com os olhos, depois voltou a encará-lo.
— “Mas eu gosto daqui,” respondeu, tranquila. “O mar tá mais bonito.”
Caio engoliu seco e deu um sorriso que treinara a vida inteira.
— “É… só pensei que você fosse preferir.”
Ela tocou a mão dele, entrelaçando os dedos.
— “Eu prefiro você.”
A frase simples bateu fundo. Sempre batia. Maíra nunca mediu Caio por partes. Nunca comparou, nunca sugeriu falta. O amor dela era inteiro — e, justamente por isso, ele sentia medo de não estar à altura do que ela merecia.
— “Você tá estranho,” ela comentou, com doçura. “Aconteceu alguma coisa?”
— “Nada,” ele respondeu rápido demais. Depois respirou. “Só… coisa da minha cabeça.”
Ela sorriu e encostou a testa na dele por um segundo. Um gesto íntimo, quase infantil, que sempre o desmontava.
O que Caio não sabia —
o que ele não podia saber —
era que Maíra já tinha visto Gabriel antes. Ainda dentro do carro, passando pela avenida em frente à praia, quando o homem atravessara a rua vindo do mar, só de sunga, o corpo ainda úmido.
Ela se assustara.
Desviara o olhar.
Sentira algo parecido com impacto — não desejo, mas surpresa.
E imediatamente culpa.
Não por Gabriel.
Mas por Caio.
Agora, ali, caminhando de mãos dadas com o amor da vida dela, Maíra fingia não reconhecer. Protegia o silêncio como quem protege algo precioso.
Mais à frente, Gabriel olhava o mar.
Sem saber, já havia despertado algo delicado demais para ser dito em voz alta.
E a praia… apenas observavaMaíra entrou no mar rindo, confiante demais para quem ainda não conhecia aquela água. Tinha agora 19 anos, 1,55 de altura, o corpo pequeno e cheio ocupando um espaço que ainda aprendia a reconhecer. O microbiquíni, escolhido mais pela coragem do que pela prática, exigia atenção constante. Três meses depois do silicone, ela ainda se observava — não por vaidade, mas por estranhamento: o próprio corpo tinha mudado antes que a cabeça acompanhasse.
Caio,entrou logo atrás.
— “Devagar,” disse. “Essa praia engana.”
— “Você sempre acha que vai dar errado,” ela respondeu, provocando. “Relaxa.”
O mar não relaxou.
Uma sequência de ondas veio de lado, sem aviso. Maíra perdeu o chão primeiro. O riso virou susto. Caio tentou segurá-la, mas a força da água os empurrou juntos para trás. Em segundos, já não sabiam onde pisar.
Engoliram água.
Braços se confundiram.
O desespero chegou rápido.
Foi quando Gabriel percebeu.
Ele não hesitou. Pegou uma boia próxima e entrou no mar com passos firmes, conhecendo aquele movimento como quem conhece o próprio corpo. Em poucos instantes, alcançou os dois.
O abraço veio por trás, inevitável.
Caio sentiu primeiro: mãos fortes o segurando com precisão, o corpo de Gabriel colado ao dele apenas o necessário para estabilizar contra as ondas. Não houve escolha. Não houve intenção. Ainda assim, a presença era impossível de ignorar — peso, firmeza, domínio do espaço.
Logo depois, Maíra foi puxada para junto deles. Por um instante confuso, os três ficaram presos no mesmo balanço: água batendo, boia girando, respirações descompassadas. O corpo dela encontrou apoio onde havia força suficiente para não afundar.
Nada foi indevido.
Nada foi evitável.
O mar empurrou mais uma vez, mudando posições, forçando novos apoios. O contato se repetiu — rápido, necessário, intenso demais para não ser sentido. Duas vezes. Cada vez diferente. Cada vez mais consciente.
Quando finalmente alcançaram o raso, Maíra e Caio caíram de joelhos na areia molhada, exaustos, tossindo, tontos. Gabriel permaneceu em pé, atento, respirando fundo, ainda segurando a boia.
O silêncio que se formou era denso.
Maíra sentia o coração bater alto demais. O corpo ainda vibrava, não só pelo susto, mas pela proximidade que não pedira e não soubera evitar. A posição — de joelhos, olhando para cima — a deixou estranhamente consciente de tudo: do próprio corpo, do dele, do momento.
Caio demorou a levantar o olhar. Quando levantou, viu o que tentava não pensar desde antes. A sunga de Gabriel, agora molhada, não deixava margem para negação. Não era algo que se procurava ver — estava ali. E, pior: ele não só viu. Sentiu, minutos antes, no abraço forçado pelo mar.
A insegurança voltou com força.
Não como inveja bruta, mas como aquela pergunta silenciosa que machuca mais por não ter resposta.
Maíra também viu. E desviou o olhar quase imediatamente, sentindo um nó estranho no estômago — não de desejo, mas de conflito. Parte dela ainda estava assustada. Outra parte, confusa. E acima de tudo, havia o medo de que Caio tivesse percebido qualquer coisa nela além da gratidão.
Foi então que os dois, quase ao mesmo tempo, notaram o nome estampado discretamente na lateral da sunga.
GABRIEL.
— “Obrigado…” Caio disse, a voz rouca, sincera.
— “Você salvou a gente,” Maíra completou, ainda tentando recuperar o fôlego.
Gabriel assentiu, simples, como se aquilo fosse apenas parte do dia.
— “O mar muda rápido aqui,” respondeu. “Às vezes só precisa de um descuido.”
Eles ainda não haviam se apresentado.
Mas já sabiam demais.
E enquanto se levantavam devagar, com as pernas ainda fracas, os pensamentos dos dois corriam em direções perigosas — cheios de imagens que nenhum deles queria admitir ter guardado.
A praia, indiferente, seguia observandoNo dia seguinte, o mar estava diferente. Mais cheio. Mais vivo.
E Gabriel também.
Maíra percebeu antes de Caio.
Ele estava perto do posto, agora claramente em serviço. O short vermelho de salva-vidas marcava a função sem precisar de anúncio. O apito pendia do pescoço, o rádio preso à cintura. A postura era de quem observa tudo sem parecer tenso — atento, mas tranquilo, como se o mar fosse uma conversa antiga.
Antes que Caio dissesse qualquer coisa, duas mulheres se aproximaram. Eram loiras, pele muito clara, parecidas o suficiente para denunciar o parentesco — mãe e filha, ambas adultas. Usavam biquínis pequenos, práticos para o sol forte. Falavam animadas, apontando para as pernas, reclamando de ardência, de águas-vivas, de um incômodo que misturava dor e susto.
Gabriel ouviu com atenção profissional. Não interrompeu. Explicou algo com calma, indicou o posto, fez um gesto discreto para que o acompanhassem.
— “Ele é salva-vidas,” Maíra comentou, quase em sussurro, como se estivesse organizando um pensamento.
Caio assentiu......No short vermelho, do lado direito, havia um volume grande demais para passar despercebido. À primeira vista, parecia algo prático — talvez uma garrafa de água, talvez algum equipamento de resgate mal acomodado no bolso lateral. Mas o formato… não ajudava a esclarecer.
— “Faz sentido.”
O casal observou quando Gabriel conduziu as duas até o posto. O homem que parecia ser marido e pai ficou do lado de fora, esperando, mãos na cintura, olhar perdido no mar. As mulheres entraram uma de cada vez.
Maíra não comentou nada.
Mas sua mente não parou.
Imaginou o espaço fechado do posto, a necessidade de examinar, explicar, tocar apenas o necessário. Sabia que era atendimento, que era técnica — e mesmo assim a imaginação insistia. Maíra sempre fora assim: sensível aos detalhes, curiosa sem querer, vulnerável aos silêncios. Perceber não era escolher, mas a culpa vinha do mesmo jeito.
Quando as duas saíram, ajustavam os biquínis, puxando alças, ajeitando o tecido com gestos rápidos, quase automáticos — talvez reflexo do desconforto do atendimento, talvez simples hábito depois de qualquer atenção inesperada.
Foi então que Caio sentiu aquele aperto conhecido.
Nada específico.
Nada concreto.
Apenas a consciência incômoda de estar comparando coisas que ele preferia manter fora do pensamento. A presença de Gabriel — segura, madura, firme — ativava inseguranças antigas, aquelas que ele aprendia a controlar, mas que nunca desapareciam por completo.
Ele desviou o olhar.
Depois voltou a olhar o mar.
Maíra também percebeu o próprio desconforto e fez o mesmo. Os dois sentiam a mesma coisa, por motivos diferentes, e nenhum queria ser o primeiro a admitir.
— “Você quer sentar ali?” Caio sugeriu, apontando para um trecho mais distante da areia.
— “Quero,” Maíra respondeu, sem questionar.
Sentaram lado a lado. O vento trazia risadas, vozes soltas, o som ocasional do apito. Gabriel passou mais perto, orientando um banhista, apontando para uma área mais segura do mar. Tudo nele era função, responsabilidade, controle.
Caio sentiu o peito apertar. Não era ciúme. Era comparação — e a comparação sempre era injusta.
Maíra, por sua vez, lutava com pensamentos que não queria ter. Amava Caio. Sabia disso com clareza. Ainda assim, odiava o fato de certas presenças bagunçarem o silêncio dentro dela.
Gabriel parou por um instante, olhou o mar, depois a praia. Seus olhos passaram pelo casal rapidamente. Não ficaram. Não invadiram. Apenas reconheceram.
— “Ele tá trabalhando,” Maíra disse, como quem fecha um assunto que nunca foi aberto.
— “Tá,” Caio respondeu. “E faz bem.”
O silêncio que se seguiu não era vazio.
Era feito de tudo aquilo que nenhum dos dois estava pronto para dizer.....O sol já descia quando Caio olhou mais uma vez em direção ao posto.
Estava quieto. A bandeira ainda tremulava, mas o movimento havia diminuído. O mar parecia mais calmo, mais pesado, como se o dia estivesse se recolhendo aos poucos. Gabriel não estava mais à vista.
— “Acho que ele já foi,” Caio comentou, sem peso na voz.
Maíra acompanhou o olhar dele. O posto parecia vazio, luz baixa, quase apagada. Ela assentiu.
— “É… deve ter acabado o turno.”
Caio respirou fundo. Não havia insegurança naquele momento — havia uma decisão tranquila. Ele sabia quem Maíra era. Sabia do jeito dela. Do amor que ela tinha por ele. E sabia, também, que ela gostava do mar do fim de tarde, daquele silêncio que só existe quando o dia está indo embora.
— “Vou indo pra pousada,” ele disse. “Fico de boa em te deixar aqui um pouco.”
Ela sorriu, sincera.
— “Eu já vou também. Só mais um mergulho.”
Ele a beijou na testa, demorando um pouco mais do que o necessário, como quem sela algo invisível.
— “Te amo.”
— “Também.”
Caio se afastou sem olhar para trás. Caminhou leve, em paz com a própria escolha.
Maíra ficou.
O mar estava diferente. Mais escuro. Mais denso. Ela entrou devagar, sentindo a água subir pelas pernas, o corpo relaxando com o frescor. Nadou alguns metros, virou de costas, deixou-se boiar por instantes.
Foi aí que sentiu.
Primeiro, um ardor discreto. Depois, um choque quente, espalhando-se rápido demais. Ela virou o corpo, tentou sair, mas a dor crescia a cada passo, queimando por dentro, confundindo o equilíbrio.
— “Droga…” murmurou, respirando curto.
Saiu da água com dificuldade, o coração acelerado mais pela surpresa do que pelo medo. Olhou em volta. Pouca gente. O céu já alaranjado. O posto… com uma luz fraca acesa.
Hesitou.
Aproximou-se devagar. A silhueta de alguém se movia lá dentro.
Era Gabriel.
Estava guardando equipamentos, o corpo ainda úmido, o short vermelho escuro em alguns pontos. A luz interna criava sombras suaves, deixando o ambiente quase íntimo sem intenção de ser.
— “Gabriel?” ela chamou, insegura.
Ele virou na hora.
— “Oi. Aconteceu alguma coisa?”
A voz dele era firme, presente. Maíra engoliu em seco.
— “Acho que… água-viva. Tá ardendo muito.”
Gabriel não fez perguntas desnecessárias. Apenas apontou para dentro.
— “Vem. Deita aqui.”
O posto estava quase em silêncio. A porta semiaberta deixava entrar o som distante do mar. Ele vestiu as luvas com calma, como se cada gesto fosse pensado para não apressar nada além do necessário.
— “Onde você sentiu mais?”
— “Aqui… por dentro das pernas,” ela respondeu, sem conseguir olhar direto.
— “Tá. Vou avisando antes de tocar, tudo bem?”
Ela assentiu.
O contato foi cuidadoso, técnico. Mesmo assim, Maíra sentiu o corpo reagir antes da cabeça. A pomada fria trouxe alívio e um arrepio que ela não pediu. Fechou os olhos por um instante, respirou fundo, tentando manter os pensamentos no lugar certo.
É só cuidado.
É só isso.
Gabriel falava baixo, explicava cada passo. Não havia pressa, nem intimidade indevida — apenas proximidade inevitável. Ele mantinha a postura firme, profissional, mas o silêncio entre uma frase e outra parecia carregar mais do que palavras.
— “Já tá melhorando,” ele disse depois de alguns minutos.
— “Tá… tá sim,” ela respondeu, com a voz mais baixa do que pretendia.
Quando terminou, ele se afastou um passo, devolvendo o espaço como quem fecha um parêntese.
— “Evita sol hoje. Lava com água doce quando chegar. Se piorar, volta.”
Maíra sentou devagar, o coração ainda acelerado, não só pela dor que passava, mas pelo encontro que não era para ter acontecido.
— “Obrigada,” disse. “Mesmo.”
— “Ainda tô de plantão,” ele respondeu. “Às vezes o dia não acaba quando a gente espera.”
Ela saiu do posto com o céu já quase lilás. Caminhou em direção à pousada sentindo o peso suave do fim de tarde — e a estranha sensação de que algumas coisas só acontecem quando parecem improváveis demais para serem planejadas.
E Caio, longe dali, seguia em paz… sem saber exatamente como o dia tinha decidido terminar.......Quando Maíra chegou à pousada, o quarto estava em silêncio. Caio dormia pesado, atravessado na cama, respirando fundo — daquele jeito que sempre dormia quando o dia tinha sido longo. Ela o observou por um instante, ajeitou o lençol sobre o ombro dele e só então sentiu o vazio no bolso.
O celular.
O coração deu um pulo curto. Lembrou-se do posto. Da luz fraca. Do fim de tarde que não tinha acabado como ela imaginou.
Saiu sem acordá-lo.
O posto estava quase às escuras quando voltou. A porta entreaberta deixava escapar um retângulo de luz amarelada e o som distante do chuveiro. Água correndo. Vapor subindo. Alguém ainda ali.
Ela hesitou — tarde demais.
Pelo vidro embaçado, a silhueta de Gabriel se movia devagar. Não havia detalhes, só contorno, peso, presença. O tipo de visão que o cérebro completa sozinho, contra a vontade. Maíra sentiu o rosto esquentar e desviou os olhos, mas a imagem já tinha se instalado — não como desejo assumido, e sim como impacto.
Não olha.
Não precisa.
Quando a água cessou, ela recuou um passo, mergulhando na penumbra do posto. O espaço parecia maior no escuro. Gabriel saiu do banho, caminhando pelo ambiente sem pressa, alheio a qualquer outra presença. O chão rangia leve sob seus passos. Ele procurava algo, abriu um armário, fechou outro.
Maíra prendeu a respiração.
Não havia nada de proibido acontecendo — e ainda assim tudo parecia demais. A proximidade invisível. O risco de ser percebida. A consciência aguda do próprio corpo no espaço. Ela encontrou o celular sobre a bancada, deslizou a mão com cuidado e recuou mais um passo, o coração batendo alto demais para um lugar tão silencioso.
Gabriel apagou a luz.
O posto mergulhou na noite.
Maíra saiu para a areia com a sensação estranha de ter atravessado uma linha sem cruzá-la. Caminhou rápido de volta à pousada, o mar escuro ao lado, a cabeça cheia de imagens que não pediram permissão.
No quarto, Caio continuava dormindo. Ela deitou ao lado dele, encostou a testa em seu ombro e respirou fundo até o corpo desacelerar.
Nada tinha acontecido.
E, ainda assim, algo tinha ficadoparte