Corpos, Desejos e Silêncio... Historias que Nunca Ousamos Dizer. Capítulo 21 — O que ainda pode ser...

Um conto erótico de Bernardo
Categoria: Gay
Contém 4874 palavras
Data: 09/02/2026 01:07:47

Eu acordei com um som que não me pertencia.

Era insistente, metálico, repetitivo. Demorei alguns segundos para entender que não vinha do meu lado da cama, nem do meu celular. O quarto ainda estava mergulhado naquela penumbra confortável da manhã, o ar-condicionado soprando baixo, constante, quase como um sussurro. Virei o rosto devagar e foi quando vi o aparelho vibrando sobre o criado-mudo.

Não era meu.

O celular do Arthuro piscava, denunciando o despertador. 8h20.

Estiquei o braço quase no automático, ainda meio grogue, e desliguei o alarme antes que ele acordasse. O Arthuro sequer se mexeu. Continuava ali, deitado ao meu lado, respirando fundo, o peito subindo e descendo num ritmo calmo, sereno, como se nada no mundo pudesse alcançá-lo naquele momento.

Fiquei alguns segundos observando.

O lençol cobria apenas parte do corpo dele. A pele ainda carregava aquele tom quente do dia anterior, levemente bronzeado da última praia que pegamos, contrastando com o branco do travesseiro. O braço estava jogado acima da cabeça, revelando o contorno firme do bíceps, o peito relaxado, os traços do rosto completamente desarmados pelo sono.

Era estranho, e ao mesmo tempo absurdamente bom: vê-lo assim.

Meu melhor amigo. Na minha cama. Na minha casa. Depois de tudo.

Respirei fundo, sentindo aquele aperto bom no peito, uma mistura de gratidão, surpresa e um tipo novo de afeto que eu ainda estava aprendendo a nomear.

Levantei com cuidado para não acordá-lo. Peguei minha cueca e o short no chão, vesti devagar, quase em silêncio. Antes de sair, olhei mais uma vez para ele, ainda entregue ao sono, e sorri sozinho.

Ao destrancar a porta do quarto, ouvi a voz dele, ainda rouca, carregada de sono.

— Você vai aonde?

Me virei na hora.

— Desculpa… — falei baixo, voltando alguns passos. — Não queria te acordar.

Ele abriu os olhos com esforço, piscou algumas vezes, tentando focar.

Tá tudo bem… — disse, passando a mão pelo rosto. — Mas aonde você vai?

Sentei na beira da cama, instintivamente. A proximidade fez com que ele se movesse um pouco mais, virando o corpo na minha direção.

— Descansa mais um pouco — falei, num tom quase carinhoso. — Vou preparar um café da manhã pra nós dois.

Ele me olhou por alguns segundos, daquele jeito dele, atento, inteiro. Então abriu um meio sorriso e me puxou pela mão, só o suficiente para encurtar a distância entre nós. Me deu um beijo calmo, preguiçoso, ainda com gosto de sono.

— Bom dia — murmurou.

— Bom dia — respondi, rindo baixo.

— Você não quer que eu desça com você? — perguntou. — A gente toma café junto.

— Prefiro fazer uma coisa mais íntima… — expliquei. — Hoje é domingo. Meus pais estão em casa.

— Eu ainda preciso ir pra casa… — ele comentou, como se lembrasse disso naquele instante.

— Espera um pouco. Eu preparo o café e volto aqui, tá bom?

Ele assentiu.

— Tá bom.

Saí do quarto com o coração leve demais para caber no peito.

O primeiro pensamento que me atravessou foi simples e sincero: como eu sou sortudo. Pelas pessoas à minha volta. Pela história que eu estava vivendo. Pelo Arthuro.

Desci até a cozinha e encontrei o bilhete da minha mãe na geladeira. Eles tinham saído cedo, ido à igreja com meu Pai. Não voltariam para o almoço. Tudo estava pronto. Café passado. Pão. O bolo do dia anterior.

Ri sozinho.

— Obrigado por tudo, mãe…

Preparei o café com cuidado, mesmo sendo simples. Organizei tudo com calma, quase como um ritual. Por um segundo pensei em levar na cama, mas logo mudei de ideia. A casa estava vazia. Era só nós dois.

Arrumei a mesa na sala e subi as escadas mais apressado do que pretendia.

Abri a porta do quarto.

— Arthuro?

Ele estava deitado, já acordado, mexendo no celular.

— Oi, Bêr. Que foi?

— Vamos descer pra tomar café da manhã juntos? — perguntei. — Meus pais não estão em casa. Não precisa se preocupar com roupa.

Ele levantou devagar. Estava só de cueca, completamente à vontade, como se aquilo fosse o lugar mais natural do mundo para estar assim. Meu olhar correu pelo corpo dele sem que eu conseguisse impedir. A postura relaxada, o jeito despreocupado, a confiança silenciosa.

— Você quer tomar café assim? — perguntei, meio provocador.

Ele sorriu.

— É assim que eu faço na minha casa.

Sem pensar duas vezes, tirei meu short.

— Então tá. Vou ficar de cueca também.

Ele riu, se aproximou e segurou minha mão.

— É muito bom estar com você — disse, num tom mais sério. — Essa sensação de… tudo o que aconteceu. E estar aqui. Na sua casa.

Olhei pra ele, sentindo o peso e a leveza daquelas palavras ao mesmo tempo.

— Também é muito bom pra mim.

Descemos juntos, lado a lado, ainda meio sonolentos, ainda descobrindo o que aquilo tudo significava. Não havia pressa. Não havia promessas ditas em voz alta. Mas havia algo ali, pulsando, crescendo devagar.

Algo que não precisava ser definido ainda.

Algo que… ainda podia ser.

A gente chegou à mesa quase ao mesmo tempo.

Arthuro puxou a cadeira com naturalidade, sentou ao meu lado e se serviu sem cerimônias, como se sempre tivesse feito parte daquela casa. Eu fiz o mesmo, peguei meu celular por hábito, deixei ali ao lado do prato, mas logo perdi o interesse. Não havia urgência nenhuma fora daquele momento.

Ele foi o primeiro a quebrar o silêncio, mexendo no celular com uma expressão tranquila.

— O Yan mandou mensagem — disse. — Acho que mandou pra você também, confirmando o almoço de hoje.

Levantei o olhar pra ele, tomando um gole de café.

— Se ele te mandou, então é ótimo — respondi. — Vai ser bom a gente fazer alguma coisa hoje.

Arthuro assentiu, com aquele jeito atento que ele tinha quando realmente estava presente.

— Vai ser. Mas eu preciso ir em casa daqui a pouco… pegar uma roupa, me arrumar.

— Tá tudo bem — falei, sem drama. — Sem problema nenhum.

Ele sorriu de canto, tomou um pedaço de bolo e continuou:

— Depois do almoço tem o jogo do Flamengo, né? A gente vai assistir em algum lugar.

Dei uma leve risada.

— Putz… não sei. Eu queria descansar um pouco.

— Então… — ele inclinou o corpo pra frente. — Eu e o Tan já marcamos. Tem um bar perto de onde a gente vai almoçar.

Pensei por dois segundos.

— Ah, sem problemas. Tudo bem então.

E ficou assim. Simples. Sem tensão.

Continuamos tomando café devagar, falando de coisas pequenas, do dia anterior, do que cada um precisava fazer antes do almoço. Arthuro estava diferente, mais atento, mais próximo, mais presente. Nossas cadeiras estavam muito próximas, quase se tocando, e em algum momento ele colocou a mão sobre a minha perna, de forma natural, distraída, como quem não faz esforço algum pra estar ali.

O toque era leve. Quente.

E eu retribuí.

A coxa dele era firme, musculosa, grossa de um jeito bonito. Ver aquele homem ali, sentado à mesa da minha casa, só de cueca, tomando café da manhã comigo, despertava algo que não tinha mais nome de amizade. Era cotidiano demais pra ser só desejo, íntimo demais pra ser casual.

Eu me sentia bem. Feliz. Diferente.

Muito diferente da forma como eu via meu melhor amigo anos atrás.

Terminamos o café sem pressa. Eu comecei a tirar a mesa e Arthur me ajudou, os dois andando pela cozinha, esbarrando de leve, trocando comentários bobos, risadas baixas.

Um beijo rápido. Um abraço mais demorado do que precisava ser.

Até que ele falou, quase como quem lembra de algo importante demais pra adiar:

— Vou só me vestir e já vou.

— Tá bom — respondi. — Vamos lá em cima pegar sua roupa e eu te levo.

Subimos juntos.

— O que você acha… — ele disse, enquanto caminhava saindo do quarto — de eu passar aqui depois pra te buscar?

— Pode ser — falei. — Mas como a gente vai assistir o jogo e provavelmente beber… acho melhor ir de Uber.

— Verdade. — Ele concordou. — Então eu passo de Uber, pego o endereço com o Yan e pronto.

— Fechado.

No quarto, foi tudo rápido e tranquilo. Ele se vestiu, eu também. Mais um abraço. Um beijo calmo, desses que não têm pressa nem cobrança.

Descemos juntos até a porta.

Acompanhei Arthuro até a moto. Ele colocou o capacete, ajeitou tudo com cuidado. Antes de subir, me abraçou forte. Dei um beijo na testa dele.

— Até logo.

— Até daqui a pouco — respondeu, me dando um tapinha leve na cintura.

Fiquei ali observando ele ir embora antes de voltar pra dentro de casa.

Só então peguei o celular.

As mensagens do Yan estavam lá, todas sobre o almoço. Ignorei as notificações antigas e mandei um áudio curto:

— Yan, tudo bem? Então, já que o Arthuro confirmou com você, a gente se encontra por volta de meio-dia, umas 11h50. Acho que dá tempo de todo mundo se organizar.

Ele respondeu rápido, confirmando, falando do Uber, do jogo, de beber. Concordei.

Curti a mensagem.

Vi também uma mensagem do Arthur, desejando bom final de semana, brincando que eu tinha sumido.

Ri.

— Que amigo eu sou…

Respondi com carinho, desejando um ótimo fim de semana, mandando beijos e falando pra ele se cuidar, principalmente da perna.

Notei também o silêncio do Jonas. Nenhuma resposta, nenhuma reação. Não insisti.

Voltei pro quarto, arrumei a cama com calma, abri a janela um pouco. Pensei na roupa.

— Quer saber… vou com a camisa do Flamengo que o Jonas me deu.

Ri sozinho da ironia.

Tomei um banho rápido. Me vesti sem pressa: bermuda leve, camisa do Flamengo, tênis confortável. Tirei uma foto no espelho. Pensei em mandar pro Jonas. Desisti.

Quando terminei de me arrumar, já eram quase 11:10.

O celular tocou.

— Oi, Arthuro.

— Já tô pronto. Que acha de chamar o Uber?

— Ainda tá cedo. Daqui a pouco.

Ele riu.

A chamada virou vídeo.

O rosto dele apareceu na tela com aquele sorriso aberto, fácil, bonito demais pra ignorar.

— Sem camisa também? — brincou.

— Ainda — respondi.

— Essa camisa do Flamengo é nova?

— Ganhei de presente.

— Ficou muito bonita em você.

Sorri.

— E você? Vai com qual?

— Tô pensando nessa vermelha aqui.

— Vai te cair muito bem.

— Acho que a gente vai combinar hoje, né? — ele riu. — Jogo, almoço… nós três.

— Nós três.

— Vou só conversar rápido aqui em casa e te aviso quando sair.

— Tá bom. Até já.

Poucos minutos depois, a mensagem chegou: Tô indo.

Desci e esperei na porta.

O dia estava só começando.

E tudo indicava que ainda tinha muito por vir.

Eu já estava parado na porta de casa havia alguns minutos quando vi o Uber encostar devagar. Reconheci o carro antes mesmo de ele parar completamente, e meu corpo respondeu antes da cabeça. Aquela sensação leve no peito, quase infantil, de quem espera alguém que quer ver chegar.

A porta traseira se abriu.

Arthuro estava ali.

A primeira coisa que ele fez foi sorrir, daquele jeito inteiro, aberto, como se o dia tivesse começado de verdade só naquele instante. Entrei no carro e, assim que a porta se fechou, ele se virou levemente na minha direção, puxando o ar de propósito.

— Nossa… — disse, aproximando um pouco mais o rosto. — Que perfume bom é esse que você tá usando?

Sorri.

— Oi?

— Não é aquele de sempre — ele continuou, com a testa levemente franzida, curioso. — Eu já sei qual perfume você costuma usar. Esse tá diferente.

Dei uma risada baixa, meio sem jeito.

— É… hoje a situação é diferente — respondi. — Achei que combinava usar algo diferente também.

Arthuro não respondeu de imediato. Ele apenas inclinou o corpo com naturalidade, aproximou o nariz do meu pescoço e respirou fundo, sem pressa, como quem memoriza.

— Muito bom — murmurou.

Senti um arrepio subir pelo braço. O carro já estava em movimento, e eu me ajeitei no banco, consciente demais da proximidade entre nós dois naquele espaço fechado. Arthuro se recostou, cruzou o braço de leve, e então comentou:

— O restaurante não é longe. Fica mais ou menos no meio do caminho pra gente e pro Yan, mas é bem perto da casa dele. Uns cinco minutos.

— Tranquilo — respondi. — Melhor ainda.

— Já avisei ele que a gente tá a caminho. Mandei localização e tudo

.

— Então perfeito.

Ficamos alguns segundos em silêncio, observando a cidade passar pela janela. Em algum momento, eu brinquei:

— Então hoje eu não vou usar meu celular.

Arthur riu, virando o rosto pra mim.

— Acho bom. Eu também não vou usar o meu.

— Mas você tem que usar até a gente encontrar o Yan — provoquei.

Ele, sem nenhuma cerimônia, colocou a mão no meu ombro, os dedos pesados, quentes, firmes. O toque tinha algo de posse tranquila, nada invasivo, mas muito consciente. Em resposta, minha mão escorregou até a coxa dele, repousando ali com naturalidade.

E foi impossível não reparar.

Arthuro estava muito bonito.

A camiseta vermelha do Flamengo colava no corpo de um jeito quase indecente. O tecido marcava o peito, os braços, a linha dos ombros. A bermuda branca contrastava com a pele, e o boné preso na cintura dava um ar despretensioso, quase provocador. Ele parecia confortável dentro do próprio corpo, seguro, presente.

Eu me peguei sorrindo sozinho.

Não era só desejo. Era felicidade.

Estar ali, naquele momento simples, indo encontrar o Yan, depois de tudo o que tinha acontecido, parecia uma confirmação silenciosa de algo que eu ainda não sabia nomear, mas que fazia sentido.

O trajeto levou cerca de vinte e três minutos. O carro parou em frente ao restaurante, e assim que desci, vi o Yan logo à frente.

Era curioso como parecia combinado.

Ele estava com uma camisa preta do Flamengo. Eu, de branco. Arthuro, de vermelho.

Uma paleta perfeita.

Fui o primeiro a sair do carro. Caminhei até ele e o abracei forte. Yan me envolveu na mesma intensidade, segurando minha cintura por um segundo a mais do que o necessário. Quando se afastou, me olhou diferente, com um brilho leve no olhar, e me deu um selinho rápido.

— Tava com saudade — ele disse.

— Eu também — respondi.

Dei outro selinho nele e, num gesto instintivo, apertei de leve a bunda dele durante o abraço. Yan riu na hora, meio sem jeito.

— Ei… — reclamou, rindo. — Fico sem graça assim.

— Ah, que nada — provoquei.

Arthuo e Yan se cumprimentaram logo depois. Primeiro um aperto de mão, depois um abraço. No meio do abraço, Arthuro segurou o rosto do Yan e, rindo, perguntou:

— Vai rolar beijinho também?

— Deixa de ser palhaço, Arthuro — Yan respondeu, empurrando-o de leve.

Mas Arthuro ainda deu um aperto rápido na bunda dele antes de se afastar.

— Para, porra!

Eu ri alto dos dois.

— Gente… — falei. — Esse restaurante é lindo.

— É de frutos do mar — Yan explicou. — Achei que combinava com a gente hoje.

— Combinou mesmo.

Entramos.

O lugar era bonito, bem decorado, com um clima acolhedor e intimista. A reserva era uma mesa redonda, num espaço mais reservado, onde dava pra sentar próximos, sem aquela distância desconfortável de restaurante grande.

Sentei no meio.

Yan à minha esquerda. Arthur à minha direita.

Começamos pelas entradas, conversando sobre o dia, sobre banalidades, sobre o jogo, sobre planos. Em vários momentos, tanto Yan quanto Arthuro perguntaram sobre meu trabalho, sobre o que eu esperava da semana seguinte.

— Amanhã já resolvo uma parte — expliquei. — Vou saber melhor como fica minha rotina.

— Isso é bom — Arthuro comentou. — Dá um alívio.

— Dá mesmo.

O tempo passou sem pressa. Rimos, brindamos com água, comentamos jogadas antigas, histórias de outros dias parecidos. Havia respeito entre nós ali. Nenhum exagero, nenhum limite ultrapassado. Só pequenos toques ocasionais, olhares mais longos, sorrisos que diziam mais do que palavras.

Por volta de quase duas da tarde, pedimos a conta.

Yan foi rápido:

— Relaxa, hoje é por minha conta.

— Tá maluco? — retruquei. — Nem pensar.

Arthuro entrou na conversa:

— Então a gente racha. Eu e você vamos presentear o Bernardo hoje.

Sorri, brincando:

— Dois homens me presenteando assim… é um privilégio.

— E qual o problema? — Yan respondeu, sorrindo.

Segurei a mão dos dois, uma de cada lado. Levei cada uma à boca, dando um beijo respeitoso, quase solene.

— Obrigado, meninos. Pelo dia. Pelos momentos.

Arthuro sorriu:

— Imagina. Nossa amizade é de longa data.

Yan completou, com cuidado:

— E você sabe… a gente tá se curtindo, né?

Houve um pequeno silêncio ali, confortável, consciente.

— É — ele concluiu. — É isso.

Devolveu o beijo na minha mão.

Saímos do restaurante juntos, caminhando lado a lado em direção ao bar na rua seguinte.

O domingo ainda estava longe de acabar.

E eu sentia, com clareza cada vez maior, que aquilo tudo… ainda podia ser muito mais.

A rua de trás não ficava longe, e a caminhada até o bar foi quase um prolongamento natural da conversa que já vinha acontecendo desde o restaurante. Conforme a gente avançava, o clima mudava. Era impossível não perceber: camisas do Flamengo surgiam por todos os lados. Vermelho, preto, branco. Gente rindo alto, grupos se formando nas calçadas, copos plásticos nas mãos, buzinas ao longe. O bairro inteira parecia girar em torno daquele jogo.

Flamengo Vs Fluminense.

Uma rivalidade antiga, carregada de história, de provocações, de emoção.

Arthuro e Yan estavam completamente imersos nisso. Comentavam jogadores, escalações prováveis, decisões polêmicas de outros clássicos. Falavam rápido, com propriedade, como quem vive aquele universo há anos. Eu acompanhava como podia, absorvendo mais o entusiasmo deles do que os detalhes técnicos.

— Se o técnico repetir aquela formação, vai dar ruim — Yan dizia, gesticulando com as mãos.

— Não vai repetir, não. Ele já aprendeu — Arthuro respondeu, confiante.

Eu caminhava entre os dois, ouvindo, sorrindo, sentindo o ritmo dos passos se alinhar ao deles. Em alguns momentos, meus braços encostavam nos deles, de leve, quase sem querer. Era um toque simples, mas suficiente pra me deixar atento.

Quando dobramos a esquina, o bar apareceu à vista. Cheio. Muito cheio.

— Nossa… — falei, diminuindo o passo. — Tá lotado.

Arthuro fez uma careta leve.

— Tá mesmo. Eu achei que não estaria tanto assim… até porque o jogo só começa às quatro.

Yan riu.

— Só começa às quatro, mas o pessoal já se reúne antes. Sempre é assim.

Paramos por um instante, observando. Gente em pé, mesas ocupadas, nenhuma cadeira sobrando. Um burburinho constante, quase elétrico.

— Não tô vendo lugar pra sentar — Arthuro comentou.

— E agora? — perguntei, sincero. — O que a gente faz?

Yan pensou por um segundo, olhando ao redor.

— A gente pode beber alguma coisa rapidinho aqui e esperar… ver se alguém vai embora.

Arthuro balançou a cabeça, descrente.

— Difícil. Todo mundo veio pra ver o jogo aqui.

Ficamos ali, parados, avaliando. O sol batia de leve na pele, o barulho era alto demais pra uma conversa confortável.

— Então… — Yan começou. — A gente pode fazer o seguinte: vamos lá pra casa. A gente assiste o jogo lá, sem problema nenhum. Pede bebida pelo Zé Delivery, pede alguma coisa pra comer…

Olhei pra ele, um pouco receoso.

— Yan, é domingo… não é incômodo pra você?

Arthuro respondeu antes.

— Por mim, tá fechado. Vamos.

Yan sorriu.

— Tá decidido, então.

Arthuro olhou ao redor novamente.

— Cara, é perto da sua casa. Não precisa chamar Uber. Vamos andando.

— Por mim, tranquilo — falei. — Ainda mais com a companhia de vocês dois…

Dei um sorriso enviesado.

— …dois homens tão bonitos assim.

Os dois riram.

Antes de irmos, Yan entrou rapidamente no bar e voltou com três cervejas. Entregou uma pra cada um de nós.

— Só pra ir abrindo os trabalhos — ele brincou.

Peguei a minha, meio hesitante.

— Você sabe que eu não bebo muito, né?

— O Bernardo nunca foi de beber — Arthuro confirmou.

— Eu lembro — Yan disse. — Desde que te conheci, você fala isso.

— É verdade — respondi. — Só em ocasiões bem específicas.

Levantamos as latas.

— Então que seja uma dessas ocasiões — I

Yan disse.

Brindamos.

Bebíamos devagar enquanto caminhávamos. A conversa fluía leve, solta. O caminho pareceu curto demais. Em poucos minutos, já estávamos entrando no condomínio do Yan. Passamos pela portaria, subimos no elevador, rindo de alguma piada boba que eu já nem lembrava mais direito.

Quando a porta do apartamento se abriu, fui imediatamente tomado por aquela sensação familiar: espaço, conforto, bom gosto.

— Caramba, Yan… — Arthur disse, entrando e olhando ao redor. — Você colocou uma mesa de sinuca aqui dentro? Da outra vez não tinha isso.

Yan riu, claramente orgulhoso.

— Não tinha mesmo. Eu tava doido pra comprar.

Olhei em volta, meio sem jeito.

— Seu apartamento é muito bonito.

Yan desviou o olhar por um segundo, sorrindo.

Arthuro, como sempre, quebrou o clima:

— Ah, Bernardo, vai dizer que você nunca esteve aqui. Vocês já estão ficando há um tempo.

Yan ficou visivelmente sem graça.

— Arthuro…

Eu ri, dei um tapinha nas costas dele.

— Já vim, sim. Eu conheço o apartamento.

Arthuro levantou as mãos, em rendição.

— Sabia.

Nos acomodamos na sala. Sentei no sofá, sentindo o couro fresco sob a pele. Yan ligou a televisão, ajustou o volume, foi direto pro aplicativo.

— Vou pedir as coisas aqui. O que vocês querem comer?

— Pra mim, qualquer coisa — respondi.

— Pede uma pizza — Arthuro sugeriu.

— Sério? — provoquei. — A gente acabou de sair de um almoço.

Arthuro deu de ombros.

— Eu gosto de comer. Você sabe. Homem grande precisa se alimentar bem pra manter esse corpo aqui.

Ele disse isso já puxando a camisa pela barra, tirando-a devagar e jogando-a sobre o ombro. O movimento expôs o peito, o abdômen, a pele quente, marcada.

Meu olhar demorou um segundo a mais do que deveria.

— Entendo perfeitamente — respondi, rindo.

Yan balançava a cabeça, divertido.

— Tá bom, tá bom. Pizza, então.

— Calma — acrescentei. — Vou pedir umas besteiras aqui também. Amendoim, doces… coisas pra beliscar.

— Perfeito.

Fizemos os pedidos. Em poucos minutos, as bebidas chegaram, junto com alguns petiscos. Só a pizza demorava.

Sentados no sofá, próximos demais pra ser casual, mas ainda dentro de um limite confortável, sentíamos o clima se transformar aos poucos. O jogo prestes a começar. O som da televisão. As risadas. Os olhares que se cruzavam mais vezes do que o necessário.

Arthuro se inclinou pra frente, impaciente.

— Caramba… cadê essa pizza?

— Já tá com fome? — provoquei.

— Eu vivo com fome — ele respondeu, rindo.

E eu pensei, em silêncio, que aquela tarde estava só começando.

E que, ali, entre risadas, futebol e proximidade demais, o que ainda podia ser já começava a ganhar forma.

O relógio marcava apenas quinze minutos do primeiro tempo, mas a temperatura dentro daquele apartamento já parecia muito superior à lá de fora. O ar-condicionado lutava contra o calor de três corpos masculinos, seminus e em plena ebulição. Sentados no sofá de couro, éramos uma imagem de puro contraste e tensão: Yan à minha esquerda, o dono da casa, possessivo e carinhoso; e Arthuro à minha direita, meu melhor amigo e o segredo que queimava na minha memória desde a noite anterior.

​Arthuro não parava de reclamar. Ele bufava, gesticulava e xingava a defesa do Flamengo, visivelmente frustrado com o 0x0 persistente e com a escalação que ele considerava um erro técnico. Mas eu sabia que a inquietação dele não era apenas o jogo.

​Yan, por outro lado, parecia ter esquecido que havia um clássico na TV. Sua atenção estava totalmente voltada para mim. Ele deslizava a mão pela minha perna, os dedos subindo pela minha coxa com uma lentidão que me fazia estremecer. Em alguns momentos, ele se inclinava e me dava selinhos molhados, beijos carregados de um afeto que me deixava em uma posição delicada. Pelo canto do olho, eu via Arthuro observar cada toque, cada carinho. Eu me sentia exposto, entregue as vontades de Yan na frente do homem com quem eu tinha compartilhado desejos e gemidos poucas horas antes. Era um jogo psicológico de espelhos onde só eu sabia a verdade completa.

​— O que você está rindo, Bernardo? — Arthuro disparou de repente, virando-se para mim com os olhos faiscando. — O jogo está esse lixo, 0x0, e vocês não param de se agarrar, porra! Presta atenção no campo, gente!

​— Nada, Arthuro... — respondi, tentando conter o sorriso nervoso. — É só que você está muito inquieto. E essa pizza que não chega, né?

​— É, pô! Eu estou com fome, caralho! — ele resmungou, ajeitando-se no sofá de um jeito que deixava claro o quanto ele estava "apertado" dentro daquela bermuda.

​Como se fosse um sinal, o interfone tocou. Yan soltou um suspiro de alívio.

— Finalmente! Mas o entregador não vai subir, vou ter que descer rápido para buscar.

Não demoro.

Assim que a porta se fechou e ouvimos o som do elevador bem de longe, o silêncio na sala se tornou elétrico. Eu me virei para Arthuro, que estava com os cotovelos apoiados nos joelhos, a pele do peito subindo e descendo com força.

​— O que foi, Arthuro? Você está inquieto demais. Isso não é só falta de pizza — provoquei baixinho.

​Ele se virou para mim, o rosto a poucos centímetros do meu. A voz dele saiu num sussurro denso, carregado de uma raiva desejosa:

— Você sabe o que é, Bernardo. Eu estou com tesão, porra! Vendo vocês dois aí... o que você achou que ia acontecer?

​Sem pensar no risco de Yan abrir a porta a qualquer segundo, eu me lancei sobre ele. Nossas bocas se encontraram em um beijo brutal, uma colisão de línguas que buscavam o gosto um do outro com uma urgência desesperada. Arthuro se jogou sobre o meu corpo, me prensando contra o sofá. O peso dele era magnífico; o peito largo e suado dele batendo contra o meu, o cheiro de homem e de excitação me embriagando. Foi um beijo profundo, molhado, onde nossas mãos mapeavam as costas um do outro como se tentássemos recuperar o tempo perdido da noite passada.

​— Arthuro, para... — arquejei, empurrando-o de leve quando o som de passos no corredor pareceu ecoar. — Para, olha como eu estou... e olha você.

​Coloquei a mão sobre a bermuda dele, sentindo o volume rígido e latejante que lutava para se libertar do tecido. Ele soltou uma risada rouca, o olhar fixo no meu pescoço.

— Gostoso... — ele murmurou.

​— Gostoso é você — respondi, ajeitando minha bermuda no momento exato em que a porta se abriu.

​Yan entrou com as caixas de pizza, o cheiro de queijo e massa preenchendo o ambiente.

— Chegou a salvação! — ele anunciou, colocando tudo sobre a mesa de centro.

​Arthuro, num movimento rápido para disfarçar o próprio estado, avançou na pizza como se sua vida dependesse disso. O primeiro tempo chegava aos 40 minutos quando o desastre — para nós flamenguistas — aconteceu: gol do Fluminense.

​— PORRA! Não acredito nessa merda! — Arthuro gritou, mesmo com a boca cheia de pizza, socando o sofá.

​— Calma, cara, não precisa ficar assim — Yan tentou tranquilizar. Não precisa morrer por causa disso.

​— Calma o cacete, olha essa zaga! — Arthuro continuava bufando.

​Eu me levantei, sentindo a necessidade de um gole gelado para esfriar o sangue.

— Vou pegar mais cerveja para a gente — anunciei, caminhando em direção à cozinha.

​Yan não perdeu tempo e veio logo atrás de mim. No instante em que abri o freezer, senti o corpo dele se colando às minhas costas. Ele me abraçou por trás, sua pele quente contra a minha, e depositou um beijo úmido e demorado no meu pescoço, bem na curva onde o cheiro do meu perfume ainda resistia.

​— Para, Yan... o Arthuro está logo ali na sala — sussurrei, embora meu corpo estivesse cedendo ao toque.

​— O que que tem? Ele já viu a gente se beijar — Yan respondeu, me virando de frente para ele, prendendo-me contra a bancada. — Ele que lide com isso.

​Yan me beijou com uma fome renovada. Suas mãos desceram para a minha cintura, apertando sob a bermuda, enquanto nossos corpos seminus se esfregavam. Eu retribuía o beijo, sentindo a língua dele explorar a minha, até que um som seco de plástico batendo no balcão nos interrompeu.

​— Porra, Arthuro! — Yan reclamou, afastando-se apenas alguns centímetros, visivelmente frustrado.

​Arthuro estava ali, parado, observando a cena com um olhar indecifrável.

— Pode parar vocês dois. Vim buscar uma cerveja também — ele disse, a voz num tom perigosamente baixo.

​— O que foi, Arthuro? — Yan provocou, com um sorriso de canto. — Tá com inveja?

​Eu ri, tentando aliviar a tensão.

— Para com isso, Yan...

​Mas Arthuro não recuou. Pelo contrário. Ele deu um passo à frente, contornando a bancada até se posicionar exatamente nas costas de Yan. Ele colou o corpo no dele, sarrando levemente o quadril de Yan em um movimento de posse puramente instintivo. Inclinou a cabeça e falou bem no ouvido de Yan, de modo que eu também pudesse ouvir:

​— Inveja de quê? De você? De vocês?

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Leitores, tudo bem? 💬✨

Espero de coração que vocês estejam gostando do conto até aqui. Queria alinhar alguns pontos com vocês.

Tenho me esforçado bastante para entregar os capítulos de forma mais ágil, principalmente sabendo que a história é extensa e que ainda estamos nos aproximando da metade dela, são cerca de 21 capítulos até agora. A ideia é avançar o máximo possível sem abrir mão da qualidade, dos detalhes e de tudo aquilo que constrói a narrativa.

Porém, como muitos já sabem, eu sou professor e, com o retorno das aulas, meu tempo acaba ficando um pouco limitado. Isso impacta diretamente tanto o ritmo de escrita quanto o de publicação. Por esse motivo, peço um pouco de paciência 💙

Tenho recebido muitos e-mails (berblanco@yahoo.com), mensagens e feedbacks sobre o conto, e isso me motiva demais. Esse comunicado é justamente para dar esse retorno a vocês e manter tudo transparente.

Espero que tenham gostado do último capítulo. Seguimos juntos: até muito em breve 📖✨

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