Sin plata no hay pelotas
Filipe caminhava pelas ruas mais sombrias de Madrid quando avistou a entrada de um bar discreto. O ar noturno estava carregado de umidade e o som distante da cidade parecia abafado. Ele hesitou por um momento antes de entrar, mas algo o empurrava para dentro. Dentro, a luz era baixa, e algumas mulheres estavam sentadas ao balcão, conversando em sussurros. Ele se aproximou de uma delas, uma morena com olhos profundos e cansados.
—"Presupuesto?" perguntou ele, tentando soar casual.
—"Doscientas oral..." respondeu ela, com um sotaque madrilenho marcante.
—"Então vamos..." concordou Filipe, sentindo um nó na garganta.
—"Si, venga, hay ahí un motel muy rico... vamos..." ela disse, levantando-se e guiando-o para fora.
No caminho, ele observou seus passos rápidos e decididos. Ela parecia conhecer cada esquina, cada sombra. Ao chegarem ao motel, um lugar simples com paredes descascadas, ela pagou a recepcionista com uma naturalidade que o deixou desconfortável. O quarto era pequeno, com uma cama larga e um cheiro de desinfetante barato.
—"Posso saber teu nome ou é proibido?" perguntou Filipe, tentando quebrar o gelo enquanto ela tirava o casaco.
—"Soy Carol..." ela respondeu, sem olhá-lo nos olhos.
—"Pode ter final feliz na buceta?" ele perguntou, usando o termo coloquial que ouvira em outras ocasiões.
—"Así son mas cien platas, todo trescientas platas... sin besos y no me puedes hacer oral y también, no te corras adentro..." ela enumerou as regras com uma frieza profissional.
—"Que estranho..." murmurou Filipe, mas assentiu.
—"Quita también los calzoncitos e puedes quedar los calcetines..."
—"Ha, posso ficar com as meias..." ele riu, tentando aliviar a tensão.
Então ela guardou o dinheiro na sua maleta de couro…
E assim começaram. Carol era eficiente, quase mecânica, até que algo mudou.
—"Fíjate que rica polla la tienes!" exclamou ela de repente, com uma voz mais suave. "Mmmm, me gusta... vamos, métela..."
Filipe não tardou a ganhar entusiasmo, surpreso pela mudança no tom dela. Carol, para mal dos pecados, não esperava se entusiasmar. A frieza inicial deu lugar a algo mais genuíno, e ela sentiu um calor crescente, prestes a atingir um orgasmo.
—"Si... Uie... me encanta... dame... dame..." ela gemeu, perdendo o controle.
Filipe estava absorto naquela euforia, esquecendo completamente o pedido de Carol. O momento era intenso, cru, e ele estava prestes a explodir dentro dela. Carol percebeu a gozada de Filipe demasiado tarde e gritou,
—"No... de puta... no adentro, no cabrón!"
—"Perdón..." suspirou Filipe, recuando imediatamente, a culpa inundando seu peito.
—"Coño, y qué hago ahora?" ela perguntou, com os olhos arregalados de pânico.
—"Como dizes?" ele respondeu, confuso.
—"No estoy en modo de... No tomo anticonceptivos," ela explicou, a voz trêmula.
—"Então vais ser mamã e eu papá!" ele brincou, tentando aliviar a situação, mas a piada soou vazia.
—"Joder tio, sin eso de papá... ya ves que soy puta... no tiene como quedar embarazada..." ela disse, com um misto de raiva e desespero.
Filipe se desfez em mil desculpas, sentindo-se um tolo. Eles acabaram trocando telefones, um gesto quase automático, como se fosse necessário manter uma linha de comunicação aberta para o imprevisto que haviam criado. Ele voltou para Portugal na manhã seguinte, com a memória daquela noite pairando sobre ele como uma névoa espessa.
Seis meses se passaram, e eles nunca comunicaram. Filipe tentou seguir em frente, mergulhando no trabalho e nas rotinas diárias, mas a lembrança de Carol e da possibilidade de uma gravidez não planejada o assombrava em momentos de silêncio. Ele imaginava como ela estaria, se havia conseguido lidar com a situação sozinha, ou se a vida a havia levado por outros caminhos.
Em Madrid, Carol também seguiu sua vida, mas com um peso a mais. Ela evitou pensar no que poderia ter acontecido, focando no dia a dia, nas ruas que conhecia tão bem. Às vezes, ao passar pelo motel, ela sentia um frio na espinha, mas empurrava a memória para longe. O telefone que trocaram permaneceu silencioso, um símbolo de uma conexão que nunca se concretizou, deixando um vazio que ambos carregavam, cada um à sua maneira, nas sombras de suas próprias jornadas.
La sorpresa
Mas quis o destino que Filipe regressasse a Madrid...então pegou no celular e digitou o numero de Carol... inesperadamente ela atendeu...
—Pronto!
—Carol!
—Quien habla?
—Filipe...
—Pues no me acuerdo!
—Lo tio que se corrió adentro de ti!
—Vale ese cabrón, lo siento no estoy trabajando...
—No, não é para pagar nada... queria ver como estás será que nos podemos encontrar y tomar una café?
—Hay aqui una café , cerca de la calle de la deportacion numero quatro...
O sol da tarde em Madrid tingia as ruas de um dourado suave, e o ar carregava o murmúrio familiar da cidade. Filipe, de pé diante do pequeno café na Calle de la Deportación, sentia o coração bater num ritmo descompassado. Havia algo de irreal naquele reencontro, como se o destino, num capricho, tivesse desfiado os fios que ele julgara cortados para sempre.
Carol chegou com uma serenidade que ele não lhe conhecia. O vestido simples, de algodão azul, caía suavemente sobre a curva evidente da sua barriga. O cabelo, outrora sempre impecável, estava solto, envolvendo-lhe os ombros num halo mais suave. Os olhos, porém, mantinham aquele brilho inteligente e um pouco desafiador.
—"Olá, Carol. Posso te dar um beijo na cara?", perguntou Filipe, a voz um pouco embargada.
—"Claro, estúpido", respondeu ela, com um sorriso que não chegava totalmente aos olhos, virando a face para ele.
O beijo foi rápido, um toque de pele contra pele que transportou uma avalanche de memórias: o cheiro do seu perfume, diferente agora, mais suave; a noite quente de verão, meses atrás, um encontro casual que parecia destinado a ficar esquecido na névoa de um prazer passageiro.
Sentaram-se. O café entre eles fumegava, uma barreira ténue de normalidade.
—"Mas diz-me então... grávida?", a pergunta saiu mais direta do que ele planejara.
"Si. Embarazada", confirmou ela, as mãos pousando instintivamente sobre o ventre.
—"Quem é o felizardo?"
—"Prefiero no hable de eso", cortou ela, o olhar fixo na chávena.
O silêncio instalou-se, pesado. Filipe lutou contra a torrente de perguntas que lhe assaltavam a mente.
—"Vale... mas não estás a trabalhar?", tentou outro rumo.
—"De momento, con el embarazo, no me es posible", disse ela, com um encolher de ombros que tentava parecer indiferente, mas que não escondia uma ponta de cansaço.
—"Te acuerdas de nuestro encuentro?", a voz de Filipe baixou, carregada de um significado que ambos compreendiam.
Carol soltou um suspiro curto, quase um riso amargo.
—"Eso me ha costado un valiente lío."
—"Não me digas..."
—"Cabrón", disse ela, finalmente erguendo os olhos para encará-lo. Um fogo antigo acendeu-se no seu olhar. —"¿No ves que me has embarazado?"
As palavras ecoaram no ar como um trovão. O ruído do café, as vozes à volta, tudo pareceu desvanecer-se. Filipe sentiu o chão ceder sob os pés.
—"Sou eu o papá?", a pergunta saiu num sussurro rouco.
—"¿Que papá?", ela replicou, e o desafio no olhar misturava-se agora com uma dor profunda. —"Sigo siendo puta."
A crudeza da palavra cortou o ar. Era a armadura que ela usava, a identidade que o mundo lhe dera e que ela, por vezes, abraçava com fúria. Mas Filipe viu além. Viu o tremor nas suas mãos, a vulnerabilidade que a gravidez trouxera à tona, a mulher por trás do rótulo.
—"Mas posso aperfilhar o niño", disse ele, a frase saindo antes que pudesse ponderar as consequências.
Carol olhou para ele, estupefacta. Depois, um riso surgiu-lhe nos lábios, um riso que começou baixo e cresceu, misturando incredulidade, amargura e uma centelha de algo mais ténue: esperança.
—"Ja, ja, ja... ¿Y quién sabe? ¿Proponer matrimonio, no?"
A provocação estava lá, mas havia um fio de seriedade por baixo da ironia.
—"Casar? Porque não?", respondeu Filipe, surpreendendo-se a si próprio. Não era um plano. Era um impulso, uma resposta visceral ao turbilhão que sentia: responsabilidade, sim, mas também algo mais antigo, uma atração que nunca fora apenas física, e uma compaixão profunda pela mulher à sua frente.
Carol calou-se. O riso desapareceu. Estudou o seu rosto, procurando mentira, piedade, ou o desdém que estava habituada a encontrar.
—"¿Te casarías con una puta?", perguntou, despindo a pergunta de qualquer emoção, como quem apresenta um facto incontornável.
Filipe inclinou-se para a frente, os cotovelos sobre a mesa. O mundo exterior, Madrid, o seu passado, o futuro incerto, tudo se reduziu àquele pequeno espaço entre eles.
—"E porque não?", repetiu, com uma calma que não sentia. —"Faz as tuas malas. Regressas hoje para Portugal."
Não era uma pergunta. Era uma proposta. Um salto no escuro. Uma oferta de um novo começo, não como salvador e salva, mas como duas pessoas marcadas pela vida, carregando um segredo e uma nova vida no ventre. Um pacto forjado não no altar, mas na mesa de um café, entre a culpa e a redenção, entre o passado sombrio e um futuro por escrever. O destino, afinal, não os reunira por acaso. Trouxera-os ali, naquela esquina de Madrid, para que pudessem escolher, juntos, um caminho diferente.
Mi nuevo país
Aquelas semanas tinham passado desde que Carol veio morar com Filipe. A mudança tinha sido rápida, motivada por um amor que os dois julgavam ser o destino. Para Filipe, ela era o sol que iluminava os seus dias cinzentos; para Carol, ele era o porto seguro que sempre procurara, longe da turbulência da sua vida anterior. Mas o edifício antigo, com os seus corredores estreitos e paredes finas, guardava outros tipos de histórias, e os vizinhos eram os seus fiéis narradores.
Do outro lado do corredor, Dona Matilde, uma senhora de cabelos grisalhos e olhos perspicazes, observava a chegada de Carol com um misto de curiosidade e desconfiança. Na lavandaria comum, os comentários começaram a circular como um sussurro malicioso.
— “Onde é que o Filipe foi arranjar essa zorra?”, perguntou o senhor Artur, ajustando os óculos enquanto fingia ler o jornal.
— “Parece daquelas que não ficam muito tempo.”
— “Sim, e já vem cheia!”, acrescentou Dona Matilde, com um tom de voz que pretendia ser de preocupação, mas que carregava o peso do preconceito.
— “O pobre do Filipe, tão trabalhador, tão correto… agora isto. Deve ter sido uma armadilha.”
Carol, que estava a descer para buscar uma encomenda, ouviu fragmentos da conversa. Não entendia todas as palavras, mas o tom, os olhares de soslaio, o ar de desdém eram uma linguagem universal. O coração começou a bater-lhe mais forte, um nó apertou-se na sua garganta. Sentiu-se exposta, julgada, reduzida a um estereótipo pelo simples facto de ser estrangeira, de ter um sotaque diferente, de ter chegado com um amor que era visível no seu rosto e na curvatura do seu ventre.
Subiu as escadas a correr, as mãos a tremer. Mal entrou no apartamento, trancou a porta e encostou-se a ela, como se pudesse bloquear o mundo exterior. O apartamento, que até há pouco lhe parecia um ninho acolhedor, de repente sentiu-se hostil, como se as paredes também sussurrassem. Olhou para a sala, para as fotografias dela e de Filipe na praia, para as plantas que ele comprara para a alegrar, e uma solidão profunda invadiu-a. Era a solidão de quem se sente um estranho num lugar que devia ser seu.
Com dedos trémulos, pegou no telemóvel. A ligação pareceu demorar uma eternidade a ser estabelecida.
— “Sim?”, respondeu a voz de Filipe, calma e familiar, um contraste gritante com o turbilhão dentro dela.
— “Cariño…”, a voz dela saiu quebrada, um fio de som carregado de angústia. “Puedes vir acá? Tus veciños… me hablan extraño, con aire pícaro… y me siento miedo.” As palavras em espanhol saíram num fluxo, a sua língua materna sendo o único refúgio naquele momento de pânico.
Do outro lado da linha, o silêncio foi breve, mas denso. Filipe sentiu uma onda de fria raiva. Conhecia os vizinhos, conhecia a mentalidade por vezes pequena daquele prédio antigo. Tinha ignorado os comentários anteriores, pensando que seriam dissipados com o tempo. Mas ouvir o medo na voz de Carol fez qualquer indiferença evaporar-se.
— “Calma, meu amor. Calma”, disse ele, com uma firmeza suave. “Não lhes dês ouvidos. Fecha a porta. Eu vou sair do trabalho agora mesmo. Vou já para aí.”
— “Pero… ¿y si están en el pasillo?”, sussurrou ela, a imaginação a pintar cenários cada vez mais assustadores.
— “Não importa. Levanta a cabeça. Esta é a tua casa tanto quanto é a minha. Eles não têm nada a ver com a nossa vida. Eu vou aí, e vamos resolver isto. Juntos. Prometo.”
A promessa na sua voz, sólida como uma rocha, começou a acalmar o coração desenfreado de Carol. Ela assentiu, mesmo sabendo que ele não a via.
— “Te espero”, disse, mais serena.
— “Fica tranquila. Eu estou a caminho.”
Filipe desligou o telefone e não perdeu um segundo. Arrecadou as suas coisas, ignorou o olhar surpreso do colega do lado, e saiu do escritório. No elevador, a sua expressão no espelho era séria, determinada. Não era apenas sobre defender Carol; era sobre reclamar o seu espaço, a sua felicidade, da pequenez alheia.
Enquanto isso, Carol, encorajada pelas suas palavras, respirou fundo. Em vez de se esconder, foi até à janela da sala. Lá fora, a cidade movimentava-se, indiferente aos dramas do seu pequeno prédio. Colocou a mão sobre a barriga, onde uma nova vida crescia silenciosamente, um símbolo do futuro que ela e Filipe estavam a construir. O medo não tinha desaparecido completamente, mas tinha sido substituído por uma centelha de desafio. Ela não era uma “zorra”. Era Carol. Era a mulher que Filipe amava. E isso era tudo o que importava.
O som da chave na fechadura, pouco tempo depois, foi a melodia mais doce que já ouvira. Filipe entrou, e nos seus olhos ela viu não apenas preocupação, mas uma feroz proteção. Sem dizer uma palavra, ele envolveu-a num abraço apertado, um abraço que dizia…
— “estou aqui” e “isto é nosso”.
— “Amanhã”, disse ele, baixinho, o queixo pousado no seu cabelo, “vamos cumprimentar todos os vizinhos no corredor. Juntos. Vamos apresentar-te devidamente. Como a minha noiva. Como a futura mãe do meu filho.”
Carol sorriu dentro do seu abraço, e pela primeira vez desde que ouvira aqueles comentários, o apartamento voltou a sentir-se como um lar. O amor, percebeu ela, era forte, mas às vezes precisava de ser corajoso. E juntos, eles tinham coragem de sobra para enfrentar não apenas um corredor de olhares preconceituosos, mas o mundo inteiro.
