⚠️ Esse conto trata sobre suicídio.
As estátuas frias em uma manhã de segunda feira em São Paulo a Alameda Barros tomada por uma multidão sirenes, burburinho, as pessoas estavam se amontoando em um pedaço de mundo específico, ninguém entendia mais nada, o trânsito intenso, com os veículos diminuindo para tentar entender a confusão…
DEZ DIAS ANTES
Luzia chegava na escola, a dificuldade de ser uma menina trans, as ofensas já começavam na quadra da instituição, pais de alunos, alunos, ela sabia que precisava superar isso, era só um cursinho pré-vestibular, se ela não suportasse isso aqui como seria na universidade, principalmente no seu curso de matemática, ela sabia que precisava aguentar.
“Olá André?”, “E aí menina?”, André era seu melhor amigo, confidente, amante, uma soma de coisas que acontecia apenas na vida de alguém tão solitária quanto Luzia, tudo escondido sobre seus cachos negros e olhar afiado, a pele morena, as formas femininas, batom, brincos, jeans, camiseta…
André era o oposto, um rapaz negro, atlético, com uma cara quadrada, um porte de homão, mantinha a barga, tinha orgulho do seu porte masculino e sabia disso, Luzia, o admirava de muitas formas, mas principalmente o desejava, apenas de vê-lo, seu coração paupitava, seu corpo demonstrava a excitação de estar diante de um homem que queria e admirava.
No curso bullying de professores e alunos, por ser feminina, por ser quem é, mas André estava lá… Quando saiam do curso iam direto para um bar próximo, nesse dia as coisas, tinham sido especialmente difíceis, ela havia até chorado na sala… “André, eu… Preciso de colo.”, a garoa anuncia e já senta no colo do amigo, sem ligar para convenções sociais que só servem para excluí-la.
Ele a beija e o mundo parece menos errado…
CINCO DIAS ANTES
As coisas estavam indo bem, maravilhosamente bem, as notas estavam perfeitas, Luzia sai correndo aos pulinhos da instituição, ela recebe um encontro, passaria despercebida pela maioria das pessoas, uma ombrada forte, que a tirou do equilíbrio e quase caiu no chão, “Desculpa.”, ela pede por sua distração o cara, com a bíblia no braço segue, como se não tivesse havido nada, ele não trombou com um ser humano.
Ela chegou quebrada aquela noite em casa, seus pais brigaram na janta de novo, para seu pai era um absurdo a própria existência de Luzia, deixava ele nervoso, irritadiço, sua mãe tentava amenizar mas era difícil Luzia não perceber que era exatamente isso, o ‘apoio’ da sua família, era baseado em fingir que ela não existe, mas isso não fazia com que seu pai ficasse relaxado.
Naquela noite conversando com André, “Eu acho que vou fugir de casa…”, “Que isso garota, só mais um pouquinho, as coisas podem melhorar.”, “Não é assim André, as coisas só pioram, meus pais brigaram de novo.”, “Anjo eu sei, mas você precisa ser forte, o mundo não é um conto de fadas, mas você precisa sobreviver.”... Ela ficou pensando, por um longo tempo o mundo não era o ideal, mas parecia pior para ela.
Ela se sentia mal por culpar os pais, culpar os pais por tudo, era um absurdo, ela sabia disso, mas por outro lado, o que mais ela tinha, se não tinha paz em lugar nem um…
Naquela semana, na sexta feira, ela avisou a mãe que só chegaria às três da manhã… “Você vai sair?”, “Sim mãe.”, “Com um garoto?”, a mãe dela falava como se aquilo tivesse finalmente feito ela acordar para uma realidade diferente, da filha, “Mãe, garotas saem com garotos.”, “É eu sei, mas…”, as palavras não ditas trouxeram lágrimas aos olhos da Luzia que saiu correndo.
Na festa aquela noite, sua amiga Luana foi quem trouxe o assunto, “Poxa, eu quero muito ter filhos, acho que vou dar um nome forte, tipo Pedro, ou Paulo, um nome de santo para trazer força.”, Luzia riu, “Eu realmente quero um nome mais bonito.” todos riram, estava fofinho e perfeitinho.
No caminho de volta, ela e André no carro dele conversando, o beijo aconteceu, foi automático, foi sonhado, foi intenso, as carícias, os corpos, ela se abaixou e dentro do carro colocou na boca, seu mundo era aquele obelisco de carne duro que pulsava em seus lábios de batom, quando ele terminou foi uma explosão, ela revirou os olhos, se fartou, se deliciou, nem uma gota foi desperdiçada.
“Eu quero mais.”, ela disse, ele sorriu, no banco do carro sentada no colo dele, roupas foram removidas, ela sentiu ele invadindo seu corpo, duro, pulsante, quente, arrancando gemidos de prazer, fazendo o tempo parar, fazendo amor como se o amanhã não existisse, porque ela precisava disso naquele momento, o agora era tudo o que existia.
Quando chegou em casa, seus pais estavam acordados, nervosos, o mundo estava todo de cabeça para baixo, ela escutou xingos e gritos, enquanto corria para seu quarto escuro para chorar sozinha ouvindo o vento lá fora.
DOIS DIAS ANTES
Falando com outras meninas como ela na internet, ela via que seu problema era tão pequeno, uma amiga, tinha que morar em qualquer lugar, por falta de aceitação dos pais, vivia, onde a deixassem, casa de amigos, ou de “amigos”, que pediam “coisas” em troca, uma outra, vivia de casas de parente em parente e já havia vivido em tantas casas que já nem sabia enumerar direito.
Seus pais eram um problema?, Ela culpava os pais, mas também não os entendia, não entendia a grande fúria desse mundo em que vive, Ela só queria alguém que pudesse explicar isso para ela, qualquer explicação estava boa no momento…
HOJE
Ela acordou lânguida pensando em tudo isso, olhou para sua casa, as paredes recém pintadas, para o cofre do pai, onde dinheiro era guardado coisas para a família, quando precisarmos… Ela olhou para a janela e se lembrou de um momento quando era bem nova… “Luiz o que você vai ser quando crescer.”, “Uma fada…”...
AGORA
A ambulância sai, a multidão se abrindo, ninguém, jamais entenderia o que levou uma jovem com um futuro tão promissor a se jogar do quinto andar, mas talvez, poucos realmente se importasse em entender a resposta ou mudar o que ocorreu.
=== === === … … … FIM … … … === === ===
Essa música me faz chorar desde a primeira vez que ouvi quando ainda era criança, pela morte da personagem bem no comecinho, a primeira vez que ouvi, estava na Alameda barros, olhando os prédios altos, com o fone de celular… Nunca esqueci o que veio na minha cabeça.
“Eu teria coragem de fazer o mesmo?”
Conto feito para o desafio música.
Pais e Filhos, Legião Urbana, As Quatro Estações.
