O elevador demorou mais do que o normal para descer.
Fiquei parado, encarando meu reflexo no espelho, tentando identificar o que tinha mudado. Nada parecia diferente. E, ainda assim, tudo parecia.
Ainda ali dentro, salvei o contato dele e enviei meus horários. Quase ao mesmo tempo, o celular vibrou com uma mensagem do RH confirmando que eu começava na segunda-feira. O salário era maior do que o informado antes.
Quando as portas se abriram, saí rápido demais. O ar da rua bateu no rosto como um choque. Barulho, gente, carros, pressa. Vida normal demais para alguém que tinha acabado de aceitar algo que ainda não sabia nomear.
Eu tinha dito que queria ser alguém.
Ele tinha dito que cuidaria disso.
Guardei o celular no bolso, sentindo o peso do contato salvo ali, mais presente do que deveria. Caminhei até o ponto, repassando cada frase, cada pausa, cada silêncio. Principalmente os silêncios.
Antes de chegar, o telefone vibrou de novo.
Uma única mensagem dele. Ok.
Não parecia uma escolha errada.
Só não parecia totalmente minha.
Quando me sentei no banco do ônibus, percebi o quanto minha cueca estava úmida depois daquele encontro. Engoli em seco, mantendo os olhos fixos na janela.
Eu ainda não entendia no que tinha me metido.
Mas dava para sentir. Não seria curto.
Segunda-feira.
O carro parou em frente à faculdade cinco minutos antes do horário combinado.
Eu ainda estava com a mochila nas costas. Jeans. Camiseta. O terno dobrado com cuidado lá dentro. Um dia comum. Era o que eu repetia, como se insistir tornasse verdade.
Ele abaixou o vidro.
Terno escuro. Corte impecável. O olhar me encontrou rápido. Avaliou. Decidiu.
— Entra.
Obedeci. Assim que a porta fechou, o carro arrancou.
Ficamos em silêncio por alguns minutos. Um silêncio que não pedia conversa. Só atenção.
— Hoje não é expediente — ele disse, sem olhar para mim. — Escritório vem depois.
Fez uma curva suave.
— Antes disso, você precisa estar pronto.
Não perguntei o que significava. Já tinha aprendido que perguntas demais não eram bem-vindas.
O salão não tinha placa chamativa. Discreto demais para chamar atenção. Entramos por uma porta lateral e fomos conduzidos direto para uma área reservada. Nada de espera. Nada de plateia.
Ele permaneceu ali o tempo todo.
Não tocava. Não precisava. Um olhar bastava. Um gesto curto corrigia. Quando alguém perguntava algo, era a ele que se dirigia. Nunca a mim.
O corte mudou tudo. O rosto ficou mais limpo. Mais duro. Menos garoto. Mais intenção. A barba foi ajustada com precisão cirúrgica. As sobrancelhas, alinhadas sem exagero. Nada chamativo. Tudo calculado.
Em determinado momento, pediram para eu ir mais ao fundo da sala.
Hesitei por meio segundo. Olhei para ele.
Ele assentiu.
Foi o suficiente.
A área dos fundos era menor, iluminada por uma luz branca e fria que não perdoava sombra. Uma maca estreita, coberta por lençol descartável. Dois homens de jaleco preto, sem expressão, aguardavam em silêncio.
Não havia espelho ali.
Só a maca.
Uma bandeja de metal com lâminas.
Cera quente.
Tiras de papel.
E um pequeno aparelho elétrico zumbindo baixo.
Foi ali que entendi que aquilo não era só sobre aparência.
Era sobre apagamento.
E reconstrução.
Um dos homens fez um gesto curto com a cabeça, indicando a lateral da sala.
— Por aqui.
Passei pelo divisor estreito que separava o espaço principal de uma área reservada. Não era totalmente fechado. Apenas o suficiente para isolar sem esconder. A luz ali era ainda mais direta. Branca demais. Honesta demais.
— Pode tirar tudo — disse ele, já virando de costas para organizar a bandeja. — Deixe só a toalha.
Dobrei as roupas com cuidado excessivo, como se manter ordem externa ajudasse a conter o que estava acontecendo por dentro. Coloquei tudo sobre uma cadeira simples, encostada na parede. Fiquei de pé por um instante, nu demais para me mexer, exposto demais para ficar parado.
Peguei a toalha. Enrolei na cintura. O tecido era fino, insuficiente, simbólico. Não escondia nada de verdade.
Não precisei olhar para confirmar. A presença dele atravessava o espaço com facilidade. Não entrava, mas também não se afastava. A posição exata para acompanhar tudo sem interferir.
— Pode deitar.
Respirei fundo e obedeci.
O lençol descartável aguardava, esticado demais para parecer acolhedor.
— Deite de costas.
A voz era neutra, profissional. Mesmo assim, o ar mudou. O silêncio do salão principal ficou distante. Ali, tudo era mais fechado. Mais atento.
Deitei. O lençol frio grudou na pele. A toalha foi afastada com um gesto técnico, sem cerimônia. As mãos começaram a trabalhar com eficiência. Preparavam. Mediam. Eu sentia cada movimento ser observado. Não por eles. Por ele.
Ele permanecia na entrada da divisória, braços cruzados, encostado no batente. Não avançava, não recuava. A distância exata para ver tudo sem precisar tocar.
Eles começaram pela virilha. Cera quente espalhada com espátula, tiras pressionadas, puxões rápidos e secos. Cada arrancada vinha com um estalo curto e uma pontada que subia pelo abdômen. Apertei os dentes. Respirei pela boca. Tentei não me mexer. Tentei não emitir som.
Ele não piscava.
O olhar era fixo, calmo, quase clínico. Mas não era clínico. Era avaliativo. Como se cada centímetro que ficava liso fosse algo sendo reclamado. Quando virei o rosto por reflexo, envergonhado com a própria respiração, ele apenas inclinou a cabeça. Um gesto mínimo. Continue.
— Agora de lado. Depois de bruços.
Virei. As mãos abriram mais minhas pernas. A cera subiu pelas laterais, alcançando onde a pele reage antes da vontade. Cada puxão parecia arrancar não só pelo, mas uma camada de defesa que eu nem sabia que ainda tinha.
Meu rosto queimava. Não consegui olhar para ele. Sabia que estava vendo. A contração involuntária dos músculos. O tremor leve na coxa. O jeito como eu fechava os olhos por um segundo a mais do que o necessário.
Nada passou despercebido.
— Relaxe — disse um deles, sem emoção. — Vai facilitar.
Tentei. Não consegui de imediato.
Ouvi então o som dele se movendo. Um passo apenas. Madeira contra sola. O suficiente para o corpo reagir antes da cabeça.
— Respira — ele disse, calmo. — Não luta contra isso.
Não era sugestão. Era instrução
.
Obedeci.
O ar entrou mais fundo. O corpo cedeu um pouco. Não porque doía menos, mas porque resistir parecia inútil. E mais exposto.
O procedimento seguiu. Metódico. Preciso. A sensação era estranha, quase despersonalizante. Cada área limpa parecia deixar algo para trás. Um hábito. Um limite. Uma versão de mim que não tinha sido consultada.
Quando terminaram, colocaram uma toalha sobre mim.
— Pode se vestir.
Sentei devagar. As pernas demoraram meio segundo a responder. Evitei olhar para ele enquanto me levantava. Não por vergonha. Por receio de confirmar o que eu já sentia.
Ele entrou então na área da maca. Parou à minha frente. O olhar desceu rápido, avaliando o resultado com a mesma atenção que teria diante de um documento importante.
Assentiu uma vez.
— Melhor.
Virou-se e saiu sem esperar resposta.
Fiquei ali alguns segundos a mais, sentindo o corpo diferente. Mais sensível. Mais consciente. Mais vulnerável do que antes.
Quando atravessei a porta atrás dele, entendi com clareza desconfortável.
Aquilo não tinha sido um cuidado estético.
Tinha sido um recado.
E eu tinha entendido.
