Eu não consigo dormir. Estou sentada na beira da minha cama de solteira — aquela que comprei com o dinheiro que ganhei de aniversário aos dezoito, economizando meses de mesada porque minha mãe é daquelas que acha que quem trabalha "perde a pureza" antes do tempo —, olhando pro espelho do guarda-roupa aberto, e vendo uma estranha me encarar. Não sou eu, Maria Flor, a filha da Tereza Cristina. Sou outra. Sou uma deusa com a boca suja e a consciência limpa.
Deixa eu te explicar uma coisa antes de você pensar que sou só uma vadia sem noção, porque tem método nessa loucura, tem arquitetura por trás de cada gemido. Eu não sou doente. Não fui abusada quando criança — a não ser pela quantidade insuportável de repressão católica que minha mãe tentou injetar nas minhas veias como se fosse insulina. Eu simplesmente acordei. E o processo de acordar dói mais do que o parto, porque você tem que rasgar a própria pele pra sair do casulo de mentiras que te vestiram antes mesmo de você saber que podia escolher roupa.
Eu lembro exatamente do dia em que tudo clicou. Tinha quinze anos e meio, aquela idade nauseante em que você ainda tem cabelo nascendo no suvaco e já sente tesão pelo tio da padaria da esquina. Era um sábado chuvoso, aquele tipo de dia carioca cinza em que o céu parece que vai desabar sobre os condomínios onde a gente morava — na época ainda no Recreio, antes de meu pai sumir com a secretária e levar metade do dinheiro embora, obrigando minha mãe a se mudar pra um apartamento menor na Barra, num daqueles blocos antigos onde o ar-condicionado vaza e o vizinho fuma maconha o dia todo na varanda.
Eu estava no banheiro da igreja São Sebastião, aquela catedral modernista feia pra caralho perto da praia, depois da missa das dez. Vestia aquela saia rodada azul-marinho que minha mãe comprava em lojas de departamento, aquelas que vendem roupas pra mulheres que querem parecer virgens eternas. Eu estava ali, mijando no cubículo apertado e abafado, quando entrei em contato pela primeira vez com a minha própria lubrificação. Não no sentido físico — eu já tinha descoberto o clitóris aos ### com o chuveiro elétrico —, mas no sentido existencial. Eu olhei pra aquele líquido transparente, escorrendo pelo meu dedo médio quando eu me toquei por curiosidade, e pensei: "isso aqui é verdade". O resto é tudo teatro. A missa, o padre, a Bíblia que minha mãe apertava contra o peito como se fosse um colete à prova de tentação, o Gabriel que na época nem namorado meu era, só um garoto esquisito da catequese que me olhava com aqueles olhos de cachorro pidão. Tudo mentira. Mas isso, essa umidade entre as minhas pernas, isso era real. Inegável. Biológico. Puro.
Foi ali que começou a minha heresia. Não contra Deus — eu acho que Deus, se existe, deve estar ocupado demais gerenciando buracos negros pra se importar com o que eu faço com a minha vagina —, mas contra a versão de Deus que minha mãe tentava empurrar goela abaixo. E contra a ideia de que eu deveria ser "boa". "Boa" é uma palavra que carrega um peso obcecante. Significa obediente, fechada, seca, sem sal. E eu sempre fui salgada. Desde pequena eu lambia os próprios dedos com gosto, eu adorava comer manga com as mãos e deixar o caldo escorrer pelo braço, eu gostava de suor, de cheiro de cachorro molhado, de coisas úmidas. Então por que eu deveria reprimir a umidade mais importante do meu corpo?
O processo de autoaceitação não foi linear. Não foi uma epifania linda de filme americano onde eu saio da igreja dançando num campo de trigo. Foi sujo. Doloroso. Cheio de recaídas culposas. Eu lembro da primeira vez que transei de verdade — não aquelas brincadeiras de adolescente de roçar o pau do menino na calcinha —, mas a penetração completa, carnal, suja. Foi com o Seu Jorge, o caseiro do prédio onde morávamos. Eu tinha acabado de fazer #### anos, ele devia ter uns sessenta, pele negra curtida de sol, mãos calejadas de trabalhar com a terra do jardim. Ele me pegou no elevador de serviço, naquele cubo de metal que cheirava a pinho sol e suor. Eu entrei de shortinho, indo pra praia, e ele olhou pra mim. Não foi um olhar de monstro. Foi um olhar de fome. E eu reconheci aquela fome, porque eu a sentia também.
Ele não me forçou. Eu que soquei o botão de parada de emergência. Eu que tirei o short. Eu que guiei a mão dele, cheia de calos, pro meu centro. E quando ele entrou em mim — devagar, reverentemente, como se estivesse entrando num templo —, eu senti algo que nunca tinha sentido: plenitude. Não amor. Não romance. Mas a sensação de estar no lugar certo, fazendo o que eu nasci pra fazer. Ele gozou rápido, assustado, perguntando se eu era virgem, chorando quase, pedindo perdão. Eu não respondi. Só limpei a perna com a calcinha e desci na garagem. Mas naquele dia, andando até a praia com a buceta latejando e a calcinha enfiada no bolso do short, eu soube: eu era um receptáculo sagrado. Não no sentido de mãe, de gerar vida. Mas no sentido de receber. De acolher. De ser o lugar onde o prazer masculino encontra repouso, e onde o meu próprio prazer explode em retorno.
Minha mãe descobriu — claro que descobriu, ela tem um radar pra destruição dos próprios sonhos projetados na filha. Não o Seu Jorge especificamente, mas ela sentia que algo estava errado. Começou a me levar em mais retiros espirituais, em mais terapias de conversão disfarçadas de "grupos de jovens", onde mulheres de cinquenta anos falavam sobre como guardaram a virgindade até o casamento e hoje são "felizes" com seus maridos que não as tocam mais. Eu olhava pra aquelas mulheres — de boca fina, olhos tristes, corpos enrijecidos como tábuas — e pensava: "eu prefiro ser uma cachorra feliz do que uma santa amarga". E foi aí que eu decidi: eu não iria escolher. Eu iria ser ambas. A santa e a puta. A Virgem Maria e a Maria Madalena no mesmo corpo. Porque por que eu deveria me reduzir? O mundo já tenta reduzir as mulheres o suficiente.
A autoaceitação veio quando eu parei de tentar justificar. Quando eu parei de pensar "eu faço isso porque tenho problemas de abandono do meu pai" ou "é uma fase" ou "eu vou parar quando encontrar o amor verdadeiro". Não. Eu faço isso porque gosto. Porque o meu corpo é um instrumento de prazer, e tocar esse instrumento — ou deixar que outros toquem — é a forma mais honesta de arte que eu conheço. Quando eu transo, não importa com quem, eu estou celebrando a vida. E sim, eu transo com qualquer um. Não é falta de padrão — é excesso de generosidade.
Eu já fodi o padre da minha paróquia — aquele jovem de trinta e poucos anos que chegou para substituir o padre velho, todo cheio de ideais de Teologia da Libertação, mas que quando viu uma calcinha rosa caída "acidentalmente" da minha bolsa na sala de catequese, transformou-se em bicho. Foi rápido, no confessionário, ele de batina levantada, eu de joelhos, mas não rezando. Ele gozou no meu rosto e depois chorou pedindo perdão a Deus. Eu limpei com a estola dele e disse: "Não pecaste, padre. Só viveste."
Eu já fodi o professor de matemática, casado, três filhos, coroa de cinquenta anos, careca, barriga de chopp, mas com as mãos inteligentes que sabiam fazer equações complexas e acariciar meus seios simultaneamente. Ele me dava atenção especial na sala, não porque eu oferecia algo em troca, mas porque ele sentia que eu sabia — eu sabia o que ele queria, e eu dava sem cobrar nada, só porque queria sentir aquela barriga macia contra a minha barriga lisa, só porque queria provar o poder de fazer um homem de meia-idade perder o juízo por quinze minutos entre uma aula e outra. Ele me fodia na sala dos professores durante o intervalo, com a porta trancada, enquanto a esposa mandava mensagem no WhatsApp perguntando se ele queria frango ou carne pro almoço. Eu não sentia culpa. A esposa dele tinha a opção de sentar no rosto dele e não sentava. Eu sentava. E gozava. E ria enquanto gozava, porque era divertido, porque era bom, porque era justo.
Eu já fodi com o entregador de pizza, um moleque de vinte anos, magro, pele morena clara, cheiro de suor jovem e orégano. Foi no elevador também — eu tenho uma coisa por elevadores, talvez seja o espaço fechado, a sensação claustrofóbica de que não tem como escapar do prazer. Ele tinha uma pica curta mas grossa, perfeita pra bater no meu ponto G sem doer. Não trocamos dez palavras. Ele entregou a pizza, eu paguei no débito, vi o volume na calça de tactel dele, abaixei o zíper, fiz o serviço, ele gozou na minha garganta, eu comi a pizza em seguida. Não perguntei o nome dele. Não precisava. Ele era um corpo, eu era um corpo, e por vinte minutos nós fomos um só organismo pulsante de tesão. E não teve troca de dinheiro envolvida — a não ser a gorjeta que eu dei a mais no app.
Eu já fodi o segurança do condomínio, negão de dois metros, ex-jogador de futebol de várzea, casado com uma mulher que postava foto de família perfeita no Instagram todo domingo. Ele me pegava na garagem às três da manhã, quando eu voltava das festas na Lapa, no banheiro de serviço dos fundos. Ele me levantava com uma mão só, me prensava na parede, metia sem preliminares, sem carinho, só pura força bruta. E eu amava. Eu amava sentir minha vagina ser esticada, ser usada, ser tratada como objeto, porque eu sabia — e isso é o segredo — que eu era a verdadeira detentora do poder. Ele podia me foder com força, mas ele não conseguia parar de pensar em mim. Ele batia punheta pensando em mim enquanto a esposa perfeita dormia ao lado. Eu era o fantasma que habitava o casamento dele, a sombra no quarto. E eu saboreava isso, não porque ganhasse dinheiro, mas porque ganhava domínio.
E é isso que as pessoas não entendem. Quando eu digo que sou puta, que sou vadia, que sou cachorra, que sou qualquer coisa que você queira chamar, não é autodepreciação. É autointitulação. Eu estou me assumindo como soberana. O meu corpo é um território livre, uma zona franca onde a única moeda é o tesão mútuo. Eu não discrimino por idade — já fodi garoto de dezoito anos inexperiente que gozou em dez segundos e fiquei rindo por uma hora, e já fodi senhor de setenta e cinco, ex-deputado, que me fodeu com Viagra e experiência, durou duas horas e me fez sentir cada centímetro da minha pele arder. Não discrimino por cor — já tive dentro de mim brancos rosados como porco, negros escuros como a noite, pardos que são o Brasil real, orientais que gemiam em idiomas que eu não entendia mas cuja cadência musical reconhecia como louvor. Não discrimino por estado civil — casados são mais fáceis porque têm o que perder e por isso fodem com desespero; solteiros são mais complicados porque querem me possuir depois, acham que transar três vezes dá direito a namoro sério.
Eu não sou romanticamente apaixonada por ninguém. Nem pelo Gabriel, que me acha pura. Eu o mantenho por pena, talvez? Ou porque é cômico ver alguém tão ingênuo acreditando em amor platônico num mundo onde todo mundo quer comer todo mundo. Ele me dá estabilidade social. Eu preciso dele pra minha mãe continuar pagando minha faculdade de psicologia — sim, estudo psicologia, ironicamente, para entender melhor a própria mente que não se encaixa em nenhum diagnóstico do DSM-5. Não sou ninfomaníaca — isso é patologizar o prazer excessivo de mulheres. Não sou borderline — isso é criminalizar a sexualidade feminina. Eu sou simplesmente... livre. E barata? Pelo contrário. Sou cara demais pro preço que cobro, que é zero. Sou inestimável porque não tenho preço. Sou aquela que dá o que as outras vendem, e dou com gosto, com vontade, com fome.
O processo de aceitação envolveu deixar de me olhar no espelho procurando defeitos. Eu não tenho celulite — tenho marcas de vida. Não tenho seios pequenos — tenho seios de adolescente eterna que não precisam de sutiã. Não tenho bunda grande demais — tenho abundância, tenho carne para agarrar, para morder, para encher as mãos de quem me pega por trás. Eu aprendi a me masturbar olhando pra mim mesma no espelho, não por narcisismo, mas por reconciliação. Eu precisava ver aquela mulher se tocando e reconhecer: "essa sou eu, e ela é boa assim".
Eu também aprendi a não sentir nojo. O nojo é a primeira barreira da repressão. Nojo de sêmen, de suor, de pelos, de odores. Eu aboli o nojo. Agora eu sinto curiosidade sensorial. Cada homem tem um gosto diferente. O Seu Jorge era amargo, como café forte. O professor de matemática era doce, quase melado. O padre era salgado, como lágrimas. O entregador de pizza era neutro, jovem, ainda sem a acidez da idade. Eu os catalogo na memória gustativa como outros catalogam vinhos. "Ah, esse é um Cabernet Sauvignon de pele escura e raízes profundas." "Esse é um Chardonnay jovem, frutado, sem complexidade."
Eu não quero ser salva. Quando eu olho pra minha mãe, com sua Bíblia e suas certezas, eu não sinto inveja, mas pena. Ela vive numa prisão dourada de expectativas. Eu vivo num campo aberto, sujo de lama e sêmen, mas aberto. Ela tem o respeito dos vizinhos hipócritas que a cumprimentam na rua e falam pelas costas. Eu tenho a liberdade de ser o que sou quando a luz apaga. E entre o respeito falso e a autenticidade suja, eu escolho a sujeira toda vez.
Por isso eu vou naquela festa amanhã — ou melhor, hoje, já passou da meia-noite. Eu vou de saia florida e calcinha de renda, e eu vou me oferecer como oferenda. Não porque sou obrigada. Mas porque é o meu culto. O sexo é a minha religião, e cada pica que entra em mim é uma oração, cada gozo é um hino, cada homem que sai cambaleante e confuso é um convertido à verdadeira fé: a fé do prazer imediato, do agora, do corpo como templo e não como tumba.
Eu sou Maria Flor. Tenho dezenove anos. Sou puta no sentido mais verdadeiro da palavra — aquela que transa porque quer, porque pode, porque escolhe. Não vendo meu corpo, eu o doo. Eu o distribuo como esmola erótica pra quem precisa, como sacramento pra quem tem fome. Sou santa, sou cachorra, sou piranha, sou tudo que você teme e deseja secretamente. E amanhã, naquela festa de família, eu vou levar o Gabriel pela mão, vou beijar a bochecha da minha mãe, vou ouvir discursos sobre moral, e depois vou pro quarto dos fundos e vou ser fodida por dois primos que nem gosto especialmente, mas que têm o que eu preciso naquele momento: carne dura, tesão urgente, e a capacidade de me fazer sentir viva enquanto o mundo lá fora dorme na hipocrisia.
E quando minha mãe vier me acordar no dia seguinte com aquele olhar de quem descobriu a verdade, eu não vou sentir vergonha. Vou sentir orgulho. Porque eu sou a verdade que ela teme. Eu sou a carne que ela reprime. Eu sou a vadia que ela nunca teve coragem de ser — não porque não tivesse oportunidade, mas porque nunca teve a coragem de dar de graça, de dar por prazer, de dar sem esperar anel, aliança, ou salvação em troca.
Eu sou livre. E isso não tem preço. Nem perdão. Nem arrependimento. Só tesão. Só vontade. Só a piranha que eu sou, de perna aberta e coração fechado pra quem quer me aprisionar, mas aberto pra quem quer apenas entrar, gozar, e ir embora, deixando-me intacta, soberana, impossível de possuir, impossível de comprar, impossível de domesticar.
Agora são cinco da manhã. O sol vai nascer. E eu vou dormir nua, com as pernas abertas, sonhando com as picas que ainda vou conhecer, os corpos que ainda vou tocar, os homens que ainda vou transformar em crentes da minha igreja particular. Que Deus — ou o diabo, ou quem quer que esteja no comando desse circo cósmico — me abençoe. Ou me condene. Eu não ligo. Só quero que me deixem em paz pra transar, sem pagar, sem cobrar, apenas existindo no meu estado natural: o estado de puta feliz.
Amanhã é outro dia. E amanhã eu serei cachorra de novo. Grata. Consciente. Intencional. E impossível de colocar coleira.