Capítulo um - Senhor Perfeitinho
Sexta-feira, 09 de março de 2007
“Meu filho, se os maus tentarem seduzi-lo, não ceda! (Provérbios 1:10)
Enfim havia entrado no ensino médio, a escola era boa para os meus propósitos futuros e meu plano ia de vento em poupa, os professores eram legais e até a turma era boa. Porém como tudo na minha vida tentei dar errado isso não seria diferente. Quando o Pastor recebeu a convocação de cuidar de uma congregação no quinto dos infernos do interior do estado me vi em uma situação muito ruim. Pois claro que ele não me perguntou minha opinião.
Um dia cheguei do colégio e meu quarto estava cheio de caixas, simples assim, eu nem sabia ainda o nome do interor, só sabia que talvez meu plano de fuga teria que enfrentar alguns obstáculos inesperados, só me restava ter esperanças de que voltassemos a morar na capital — só que a vida tinha outros planos para mim.
Quer ouvir a fofoca pelo menos? Pois pega uma pipoca que é boa. O antigo Pastor roubou a grana da igreja, ele desviou verbas por meses até ser descoberto, até aí nada fora do comum, o pulo do gato dessa história vem de como a igreja descobriu a falcatrua. O Pastor tinha um caso com uma das irmãs, ela trabalhava na contabilidade da igreja e ajudou o safado maquiando os desvios, porém no dia que eles haviam combinado de fugir com a grana, deu um fora na gata e fugiu com o marido dela. Pois é bafafá!
A gata não deixou barato e denunciou o amante, o Pastor foi tão burro que ele tentou fugir com seu amante da mesma forma que tinha planejado de fugir com a corna infiel, o que aconteceu, acho que você consegue imaginar, ele foi pego e preso junto com o corno infiel, ai para limpar a imagem da igreja eles trocaram o financeiro por um homem mais competente de confiança e chamaram meu pai para cuidar da congregação por ele ser inspirador e competente — como Pastor, pois como pai ele não podia ser pior.
O santo arrependido Pastor Adalberto ganhou uma casa para gente morar perto da igreja, uma casa grande até, dois quartos, sala, cozinha, garagem e quintal, um dos quartos suíte — do casal é claro! — A casa está cheia de caixas, meu pai teve que ir para igreja e minha madrasta ficou comigo para organizarmos tudo — aqui eu acho importante contar que sou magrinho e tenho um metro e setenta, ou seja, levantar peso não é muito bem o meu forte.
— Oi Irmã Marilene, o Pastor está em casa — vejo um homem barbudo, alto e bem sério parado na porta da sala.
— Oi Irmão Ramon, não, o Adalberto já foi pro templo, ele disse que tinha uma reunião com você — ela sempre trata os de fora melhor do que os de casa, no caso eu.
— Tá certo, eu marquei de encontrar com ele lá, mas teve uma mudança aí resolvi passar aqui antes para ver se ainda pegava ele em casa, pelo visto tem muito trabalho aí né?
— Tem sim, esse é o filho do Adalberto, o Jonas — ela me apresenta quando me vê parado no meio da sala.
— Prazer varão — ele aperta minha mão com tanta força que parece até que vai quebrá-la — irmã vou mandar meu menino aqui para ajudar vocês.
— Oh irmão que o eterno te encha de bênçãos, pois estamos precisando, como o senhor pode ver o Jonas tem os bracinhos finos coitados — que desnecessária do caral…perdão me exaltei.
Peguei uma caixa mais leve com alguns potes apenas, em forma de protesto! Eu preferia mil vezes fazer isso sozinho do que ter que arrumar tudo com essa jararaca. Não sei como essa criatura espera entrar no reino dos céus sendo assim tão…Você entendeu, tenho que evitar palavrões, o Pastor não gosta. Meu medo dele é tão grande que até nos meus pensamentos não me sinto seguro, para todo mundo essa papo de convertido pode colar, mas para mim não, pra mim o Pastor é um lobo feroz em pele de cordeiro, a forma como ele bateu no próprio irmão não é humano — tenho pesadelos com essa cena de vez em quando.
O nosso sistema é simples, desempacotar e guardar, depois dobra a caixa para no final doarmos todo o papelão para caridade. Coloco todos os potes quando escuto uma nova conversa na sala, mas ignoro, deve ser o “menino” do irmão Ramon. Termino de guardar os potes e já aproveito que a caixa das panelas também está na cozinha para guardá-las. Não quero ferrar minhas costas, então melhor colocar a caixa que está no chão em cima da mesa — são só panelas, “não deve ser tão pesado assim”, eu pensei! Ledo engano.
— Quer ajuda ai? — Uma voz masculina, mas ignoro, eu posso com uma caixa de panelas.
— Não valeu — respondo me abaixando para pegar a caixa.
A primeira coisa que vejo são suas pernas — que pernas — um par de pernas cabeludas, e brancas, ele está usando uma bermuda que vai até os joelhos. Se você é hetero não vai entender o pânico gay que é você está ajoelhado com seu rosto na mesma altura de um belo volume. A cena por si só já era para ser um clichê gay, mas nada é tão ruim que não possa piorar. O cara está com as mãos na cintura — pois é! Na cintura!!!
— Tem certeza que não quer ajuda?
— Tenho sim!
Vamos abrir um pequeno parênteses aqui? Ótimo! O “menino” do Ramon é na real um cabra maior do que eu e barbado — uma barba rala, mas ainda sim é mais do que eu tenho na cara então né — seu cabelo é preto e cacheado. Olha só vou admitir uma vez, depois disso vou negar até a morte. Ele é um gato, puta que — parei, foi mal, me passei, perdão, Eterno. — Seu sorriso é presunçoso, vou mostrar para esse palhaço que não preciso de ajuda e que sou mais forte do que aparento.
Tiro a caixa do chão — tá beleza, está pesada — deu um pouco de trabalho, mas ergui mesmo assim. Ele notou pela minha careta e o tremor no meu braço que talvez fosse melhor me ajudar e foi o que ele fez, suas mãos vem na minha direção, mas meu orgulho é muito maior — e meio burro, mas quem tá julgando aqui? — desvio de seus braços, porém o peso me faz desequilibrar e o resto é história. O barulho atraiu minha madrasta até a cozinha, ela estava mais preocupada com suas panelas do que comigo.
— O que aconteceu? — Ela diz que catou suas panelas que se espalharam quando a caixa rasgou.
— Foi um acidente — o estranho me defende.
— Olha só, espero que não tenha amassado nada Jonas, você é muito estabanado garoto.
— A caixa estava pesada demais para ele, eu tentei ajudar, mas não consegui, desculpa — estou no chão encarando a cara de pau desse cara querendo pagar de bom moço e ele ainda tem a cara de pau de esticar a mão para mim.
Eu ignoro sua ajuda novamente e me levanto sozinho. indignado por ter levado um esporro na frente desse manezão.
— Deixa que eu termine aqui, só me ajuda aqui a pôr a geladeira no lugar — ela diz rabugenta.
— Tá — vou em direção a geladeira, mas sou surpreendido por ela.
— Você não, Jonas, esses seus bracinhos não vão dar conta, vai arrumar seu quarto, o irmão aqui me ajuda.
Respiro fundo e engulo um palavrão — um senhor palavrão diga se de passagem — faço o que ela disse, aprendi a muito tempo que bater boca com ela não me leva a nada, a não ser cardápios e sermões do meu pai. Eu não tenho muita coisa, então todas as caixas que são minhas já estão no meu quarto. Meu guarda roupas ainda não foi montado então não dá para guardar minhas coisas, fora isso tem duas prateleiras para serem colocadas, meu pai vai fazer isso quando chegar, ele é o único na casa que sabe como usar a furadeira e o guarda roupas acredito que daqui para amanhã o moço vai vir montar, já que tem o meu e o do pastor.
Troco a colcha da minha cama e começo a organizar minha escrivaninha, eu já começo na escola nova na segunda, quero deixar tudo em ordem, mudar de escola assim é muito paia, mas o que eu posso fazer né?
“Filhos, obedeçam a seus pais em tudo, pois isso agrada ao Senhor.” (Colossenses 3:20)
— Precisa de ajuda aqui? — O chato aparece na porta do meu quarto.
— Não, está tudo bem — respondo com rispidez, não curti esse cara, como minha avó sempre fala, meu santo não bateu com o dele. Que o Pastor não me escute falando de santo.
— Essas prateleiras você precisa que eu coloque para você?
— O Pastor vai colocar, obrigado, ele está com a furadeira no carro — minto.
— Ah sem problemas, meu pai tem uma, vou pegar e já volto.
— Não precisa se incomodar — forço um sorriso claramente falso.
— Não incomoda eu moro aqui em frente — sua simpatia comigo é muito desagradável, ele não se toca que eu não gosto dele? Espera, o que ele falou? — O que você disse?
— Que eu moro aqui em frente, vou lá pegar.
Claro que a uma das únicas casas de dois andares e com a frente toda no porcelanato tinha que ser desse playboy. Acho que o Eterno está me testando. Menos de cinco minutos ele reaparece com uma furadeira, este exibido, ele nem é tão mais forte que eu, tá meus braços são finos e os dele são um pouco mais fortinhos. Mesmo assim tenho certeza que esse mané vai avacalhar minha parede e vou levar um esporro do Pastor mais tarde. Ainda por cima ele tem uma trena presa no cós da bermuda. O que ele pensa que é um pedreiro, um marceneiro como Jesus? Exibido!
— Essa altura está boa? A segunda você quer aqui do lado ou em outra parede? — Sério, ele está com um lápis na orelha, enquanto faz as medições com a trena.
— Está perfeito — meus olhos reviram sozinhos, e o idiota parece ter percebido já que seu risinho me suou meio debochado.
Ele faz a marcação com lápis, me pede para ligar a furadeira dele na tomada — deve ter me pedido só para que eu não parecesse um completo inútil. Eu não posso ser gay, mas infelizmente isso não me faz menos gay do que eu sou. Ser e poder são duas coisas completamente diferentes. Estou falando isso porque ele está com uma bermuda preta de tecido fino que me dá uma boa noção da sua peça, uma camisa de jogar bola azul clara — de um time do colégio dele — um boné coloca para trás, basicamente se eu pudesse descrever que tipo de homem me atrai esse cara é a personificação do macho ideal para mim.
Fico arrepiado só de ver como ele fura a parede, tipo ainda acho que é um esnobe, porém um esnobe que claramente já furou paredes antes. Coisa de quinze minutos minhas duas prateleiras estão firmes e muito bem alinhadas nas paredes, quando penso que finalmente vou me livrar dele, o carinha me volta com uma vassoura e uma pá para limpar a sujeira que fez furando minha parede, ele é tão perfeito! — Atenção, meu último comentário está carregado de ironia.
— Meninos vocês querem suco de goiaba, acabei de fazer — minha madrasta veio até o quarto para nos oferecer — eita como essas prateleiras ficaram bem colocadas, o pai do Jonas já tentou ensinar ele, mas esse garoto nasceu sem nenhum talento manual infelizmente.
Ela tá me zuando só pode, essa mulher deve viver para o dia em que eu vou… (os comentários a seguir foram censurados para manter uma leitura saudável e “family friendly”) … juro por tudo que é mais sagrado que é isso que eu queria dizer na cara dela. mas enfim o senhor perfeitinho me diria que não posso desrespeitar minha mãe dessa forma.
— Obrigado irmã, eu adoro uma goiaba — posso está ficando louco, mas tenho certeza que o senhor perfeitinho piscou para mim quando falou que adora uma goiaba.
Ela sai do quarto para buscar os sucos para gente, esse negócio de radar gay não existe, mas a gente consegue se reconhecer, esse cara não é gay — infelizmente. Ei, tá maluco Jonas? Desculpe Jonas, foi só um ato falho — esse cara me irrita tanto que está me fazendo brigar com minha própria consciência.
— E aí Jonas, vamos montar o guarda roupas agora — lógico que o senhor perfeitinho também sabe como montar um guarda roupas, depois tenho certeza que ele vai vestir seu colam e sair por aí defendendo os fracos e oprimidos pelo mundo como o super crente!
— O Pastor vai chamar alguém para montar, ele até já falou com a pessoa — digo, mas o senhor perfeitinho me lança mais um dos seus sorrisos convencidos e cheio de deboche — o que foi?
— Eu sou o cara.
— Que cara?
— O cara que o Pastor pediu para montar os dois guarda roupas — ah não, me diz que isso é uma piada de mau gosto, por favor.
— Então você é montador de móveis? — Diferente dele, não faço nem um pouco de esforço para não disfarçar meu sarcasmo.
— Não, mais é que eu já construí duas casas dentro do projeto de caridade que tínhamos na minha antiga igreja — isso é incrível, mesmo assim deve ser pecado se vangloriar disso.
— Você não é jovem demais para ser pedreiro?
— Sou, mas no projeto eu tava mais para um servente, eu sempre curti trabalhos manuais — de novo me sinto estranho com a fala dele, como se tivesse bem mais do que um sentido inocente nessa frase.
— Então, vai ficar conversando ou vai começar a trabalhar — digo fugindo do desconforto que suas supostas investidas estão me causando.
O senhor perfeitinho montou meu guarda roupa em meia hora, pior que a peste ficou mais firme do que estava antes da mudança, até a porta que estava meio ruim ele consertou. Senhor qual o intuito de ter dado tantos talentos para esse esnobe? Depois que o meu ele vai para o quarto do Pastor, aproveitou para ficar um pouco longe dele, indo lá só quando ele me chama para levantar a armação, e assim ele conseguir finalizar a montagem.
Por ser maior ele acaba demorando um pouco mais para terminar, passando assim a tarde toda na minha casa, contando todo o trabalho que ele teve. Meu quarto está finalmente arrumado, são quase seis quando ouço a voz do meu pai conversando com o senhor perfeitinho. Ele vai morar aqui em casa agora?
— Muito bem, eu queria que o Jonas fosse desenrolado que nem você — pego o pastor falando mal de mim, até aí nenhuma novidade, nada do que eu faço é bom o bastante, quer dizer só tocar bateria, isso pelo menos ele reconhece meu talento.
— Que isso pastor, o Jonas me ajudou bastante também.
— Ah é, muito bem meu filho, eu sabia que o Isaac seria uma ótima influência para você.
Isaac, se eu pudesse eleger o nome de um menino que não presta dentro da igreja seria com certeza Isaac, nunca conheci um que fosse boa peça. O nome dele só podia ser esse, devia ter imaginado, Isaac o senhor perfeitinho! Meu ov…— não sei o que está me dando hoje para querer falar tanto palavrão, meu Jesus amado. — Esse cara desperta meu pior lado e um pouco do lado que não pode despertar de forma alguma, mas de novo quem está julgando ou ligando para isso né.
— O Pastor disse que você toca bateria Jonas?
— Não só bateria, Jonas toca, teclado, violão e canta muito bem também — falei, esse é meu único atributo positivo para o meu Pastor.
— Nossa, incrível! — O sorriso dele é tão falso — se quiser eu posso te ensinar a tocar baixo.
— Claro, eu ia adorar te ensinar a tocar os outros instrumentos também — não vou deitar para ele.
— Acho que vou aceitar as aulas de bateria, é o único instrumento que não domino muito bem — eu vou matar esse cara.
— Bateria é um pouco complicado mesmo — digo me achando, ele sorri percebendo minha jogada e contra ataca em seu tom debochado.
— Verdade, eu andei estudando, mas com a interclasse e minha turma chegando na final não tive muito tempo, mas agora que acabou posso me dedicar mais.
— Seu pai disse que você é campeão estadual de futsal, parabéns Isaac.
— O mérito não é só meu Pastor o time é muito bom, mas esse ano eu não estou jogando, só pela escola mesmo, estou dando mais atenção para os estudos, quero me formar esse ano e ir para universidade de contabilidade que nem meu pai.
— Ah que bom. Ouçam, meus filhos, a instrução de seu pai; estejam atentos para obter discernimento — meu pastor adora citar a bíblia.
— Provérbios 4:1 — os olhos do pastor brilham ao ver que o senhor perfeitinho reconheceu a passagem — os ensaios da banda são nas quartas e sextas, vou só tomar banho e posso passar aqui para gente ir juntos — levo meio segundo para entender o que ele está me propondo.
— Perfeito, ele vai está pronto e te esperando não é Jonas?
— Sim senhor.
Nem no exército as pessoas são privadas de sua liberdade assim. Por falar em exército eu quase me alistei para tentar escapar do meu pai, mas um inferno pelo outro não me pareceu muita vantagem, então seguimos na nossa programação normal de estudar e passar em qualquer vestibular que seja do outro lado do país. Já deixei claro que a palavra do meu pai é lei aqui em casa, então mesmo contrariado eu tomo meu banho. visto minha bermuda Capri bege favorita, porque ela é cheia de bolsos, uma camisa lisa branca. Estou passando perfume porque eu gosto de andar cheiroso, não tem nada haver com o senhor perfeitinho.
Seis e quarenta a campainha de casa toca e vou atender pois sei que é o senhor perfeito. Quase caio para trás, ele está usando uma bermuda tactel — parece até que ele quer que eu saiba o tamanho da sua peça — uma camisa lisa preta. Eu estou de branco e ele de preto, isso de alguma forma representa os opostos em que estamos — liga não eu curto viajar de vez em quando — luz e trevas. O foda é que para um existir precisa do outro. (Eu não fazia ideia de como iria precisar dele)
