Algumas semanas se passaram desde quando fui pro motel com o Felipe e o Rodrigo pagou a gente pra assistir, seiscentos reais. Trezentos pra cada. Só pra transar enquanto ele batia punheta no canto, aquilo me fez sentir... poderoso, porque eu sabia. Eu sabia o efeito que causava. Sabia que o Rodrigo era alucinado por mim. Que ele faria qualquer coisa, pagaria qualquer preço, só pra estar perto, e isso era como uma arma nas minhas mãos. Uma arma que eu não tinha medo de usar.
Eu e o Felipe seguimos nos pegando. Ficando. Transando de vez em quando, era algo sem rótulo. Sem definição. Sem promessa de futuro, mas eu estava gostando, era diferente, novo e real, não era cliente. Não era programa. Não era performance, era só... a gente. E isso me assustava tanto quanto me deixava feliz, durante esse tempo, algumas coisas aconteceram, e uma delas foi um boato. Um boato que rolou no supermercado, sobre mim.
Eu estava no refeitório. Almoçando sozinho. Arroz, feijão, um bife murcho, a Billy chegou. Mas não chegou do jeito normal dela — patinando, cantarolando, jogando o cabelo imaginário, ela chegou séria. E Billy séria era um sinal de alerta vermelho.
— Lucas, preciso falar contigo — ela disse, sentando na minha frente.
— Fala.
Ela olhou ao redor. Verificou se alguém estava ouvindo. E então se inclinou pra frente.
— Tá rolando um boato sobre você.
Meu estômago revirou.
— Que tipo de boato?
— Tipo... — ela hesitou. — Tipo que você faz programa.
Senti o chão sumir debaixo dos meus pés.
— O quê?
— Calma, mona. Ainda é só boato. Mas já ouvi umas três pessoas comentando.
— Quem? Quem tá falando isso?
— Não sei. Mas tá circulando.
Respirei fundo. Tentei controlar o pânico.
— Billy, isso não é verdade — menti, olhando direto nos olhos dela.
— Amor, eu não tô te julgando — ela disse, pegando minha mão. — Se você faz ou não faz, problema é seu. Mas você precisa tomar cuidado. Porque se isso chegar no RH, você pode ser demitido.
— Eu não faço programa — repeti, mais firme. — Isso deve ser algum maluco que eu recusei no Grindr e ficou com raiva. Sabe como é, né? Os caras não aceitam um não.
Billy me olhou. Estudou meu rosto, e então sorriu. Aquele sorriso dela que dizia: Eu não acredito em você, mas vou fingir que acredito.
— Tá bom, gato. Só toma cuidado, tá? — ela se levantou, voltando ao modo Billy normal. — E outra coisa: se você realmente fizesse programa, eu ia te dar umas dicas de como cobrar mais caro. Porque com esse corpinho? Você tá cobrando barato demais, viu?
Ela piscou. E saiu patinando, me deixando ali. Sozinho. Com o coração acelerado e o medo no peito, quem tinha espalhado? Diego? Algum cliente? Alguém do Cinema Rex? Não tinha como saber. Só tinha como ter cuidado.
Voltei ao trabalho tentando esquecer aquela conversa, fui pro corredor de massas repor produtos. Mecânico. Automático, e então eu o vi. Luke Silva, andando pelos corredores. Acompanhado de dois caras de terno. Provavelmente diretores ou gerentes de outras lojas.
Ele estava... perfeito, ainda mais bonito de perto, pele branquinha impecável. Cabelo loiro escuro perfeitamente penteado. Olhos cor de mel que brilhavam mesmo com a luz artificial do supermercado. Sorriso que parecia saído de comercial de pasta de dente. Corpo atlético debaixo da camisa social branca impecavelmente passada, ele era tudo que eu sonhava ser. Tudo que eu nunca seria, fiquei bobo. Nervoso. Travado. Porque ele era o herdeiro. O filho do dono. O intocável. E eu? Eu era só mais um funcionário. Mais um número. Mais um ninguém. Ele passou por mim. Nossos olhares se cruzaram por um segundo. E ele sorriu.
Não foi um sorriso grande. Não foi íntimo. Foi só... educado, o tipo de sorriso que pessoas bonitas dão pra todo mundo. Mas pra mim? Pra mim foi tudo, e então eu ouvi. Um som que eu conhecia muito bem, “Ding”. O toque do Grindr, vindo do celular dele, ele pegou o celular do bolso. Olhou a tela. Sorriu. Guardou de novo, e continuou andando. Meu coração disparou, Luke Silva estava no Grindr. Assim que tive chance, fui até meu armário. Peguei meu celular, abri o Grindr, e procurei. Rolei os perfis. Um por um até que achei, sem nome. 25 anos. A 50 metros de distância, foto do corpo. Sem rosto. Sunga laranja. Eu conhecia aquela sunga, eu tinha visto aquela sunga em dezenas de fotos no Instagram dele. Era Luke. Favoritei o perfil, não podia mandar mensagem agora. Não tinha tempo. Não podia usar celular no ambiente de trabalho. Mas à noite... à noite eu ia falar com ele.
Luke Silva tomava conta do marketing da rede Louds, então ele sempre estava pelas lojas. Mas era raro ele ir pra nossa filial. E quando ia, eu não me cansava de admirar. Tivemos outras trocas de olhares durante aquela tarde. Pequenas. Rápidas. Talvez imaginárias.
Mas pra mim? Pra mim eram tudo. Porque eu estava obcecado, completamente, irremediavelmente obcecado por Luke Silva. À noite, assim que cheguei em casa, joguei a mochila no chão. Peguei o celular. Abri o Grindr, fui direto nos favoritos. E lá estava ele, online agora, respirei fundo e mandei, dois nudes. Um de frente. Um de costas, corpo trabalhado. Pau duro. Bunda empinada, esperei. Três minutos se passaram. Pareceram três horas. E então: 🔥 Reagiu ao meu nude de costa, meu coração explodiu.
Eu: Blz?
Ele: E aí, gato. Tá afim do quê?
Começamos a conversar, não houve troca de rosto no começo. Só putaria. Só tesão. Ele perguntou o que eu curtia. Eu perguntei o que ele curtia. Ele mandou foto do pau. E caralho.
Era um dos mais bonitos que eu já tinha visto, grosso. Reto. Cabeça rosada. Veias marcadas. Como alguém podia ser tão perfeito assim? Conversamos sobre posições. Sobre fetiches. Sobre fantasias. E então eu tomei coragem, mandei minha foto de rosto, tive medo. Muito medo. Porque eu não era tão bonito assim. Não era do nível dele. Ele poderia bloquear. Poderia sumir. Poderia me rejeitar. Mas não, ele mandou a dele, e bingo. Era Luke.
Luke: Você trabalha no Louds, né? Te vi hoje.
Eu: Trabalho sim. E eu te achei muito gostoso.
Silêncio.
Uns dois minutos, e então:
Luke: Infelizmente não posso ficar com funcionários. Uma pena. Curti você.
Meu coração afundou, claro. Claro que não, ele é herdeiro. Eu sou repositor. A gente vive em universos diferentes. Mas então eu pensei: Foda-se, se eu ia ser rejeitado, pelo menos ia ser rejeitado depois de tentar tudo, mandei um vídeo meu que eu sabia que ele iria gostar, eu estava dando gostoso para um cara bem pauzudo, e gemendo gostoso e meu pau duraço, quinze segundos de puro tesão. E mandei, esperei, e então:
Luke: Caralho...
Luke: Mas posso abrir uma exceção pra você.
Luke: A fim?
Sorri, sorri como não sorria fazia tempo.
Eu: Muito.
