Capítulo 02 – ENTRE O PERIGO E A LIBERDADE

Um conto erótico de Nassau/ID@
Categoria: Heterossexual
Contém 7509 palavras
Data: 06/02/2026 12:00:53

Na maioria das vezes, quando nos deparamos com uma situação de risco, de PERIGO, assumimos uma nova perspectiva de vida que faz com que busquemos força onde não sabíamos que havia. Essa força nos torna audazes, destemidos e o prêmio por essas atitudes, não raro, é a LIBERDADE.

Principais Personagens:

Blanche Leblanc (em breve)

Bernard Leblanc (em breve)

Hamdi Moreau (em breve)

Continuando ...

A lua estava alta no céu quando Blanche acordou de um sono agitado e com dores por todo o corpo depois de ter adormecido no banco de passageiro do Citroën Avant, modelo 1935, um carro popular na França que Pierre, seu tio, tinha dado de presente para seu pai dois anos antes.

Ainda sem conseguir entender direito onde estava, olhou em volta e viu seu pai com a cabeça apoiada nas mãos que ele mantinha sobre o volante. Esfregou os olhos para poder ter uma visão melhor e viu que a respiração dele estava alterada. Além disso, percebeu que, embora mantivesse os olhos fechados, ele não estava dormindo. Ela estendeu a mão até tocar o antebraço dele enquanto falava com voz baixa:

– Papai. Você está bem?

A única reação do homem foi um movimento de ombros e um soluço que, embora contido, foi ouvido pela filha. Desanimada, passou a mão nos cabelos dele e olhou para a estrada para verificar onde estavam. O carro estava parado no acostamento de uma rodovia e a sua direita havia uma vegetação em um terreno que se elevava lentamente por trezentos metros até atingir a encosta de uma montanha.

À esquerda não conseguia ver nada a não ser um alambrado que protegia os carros de caírem pelo barranco que havia logo depois. Para frente, a estrada podia ser vista por cerca de cem metros quando descrevia uma abrupta curva para a direita e atrás, a visão que a claridade da lua permitia observar, mostrava que estavam em uma descida distante uns quinhentos metros de uma lombada que não permitia a ela ter uma visão além disso.

Voltou a tocar no braço de seu pai e a chamá-lo, obtendo o mesmo resultado. Foi quando viu uma luz por trás da lombada que foi se intensificando, indicando que um veículo vinha na direção em que eles estavam. Com medo do que poderia ser, se encolheu toda no banco e começou a rezar. Era um veículo de porte médio que ela não conseguiu identificar marca ou o modelo. Notou apenas que, ao passar, o outro carro diminuiu a velocidade e pode perceber um homem se inclinar ao volante tentando ter uma visão do que havia dentro daquele em que estavam e depois seguiu viagem.

Blanche expirou o ar que o medo a fizera prender nos pulmões e voltou a chamar por seu pai que, dessa vez, apenas abriu os olhos e virou um pouco a cabeça para o seu lado. Ela percebeu, pelo vermelho de seus olhos e as lágrimas que escorriam em seu rosto, que ele estava chorando. O coração da garota doeu ao ver a angústia que a expressão do homem mostrava.

Mas a garota sabia que aquela não era a hora de sentir piedade. O fato de o motorista não ter demonstrado interesse ao passar por eles podia ser atribuído à sorte, porém, a sorte não é uma certeza e não era aconselhável contar sempre com ela. Foi pensando nisso que ela foi mais incisiva ao falar com o pai mais uma vez:

– Vamos, papai. Não podemos ficar aqui. É perigoso. Vamos em frente.

Não houve nenhuma reação por parte dele que aparentava estar em estado de choque e Blanche resolveu agir. Ela não sabia dirigir muito bem e tinha recebido apenas algumas instruções de seu pai em uma estradinha reta, sem movimento e durante o dia. Agora era noite, ela estava em uma rodovia e, para piorar, havia uma curva acentuada logo à frente. Embora fosse desaconselhável, ela concluiu que não podiam ficar ali e resolveu arriscar. Desceu do carro, deu a volta, abriu a porta do lado do motorista e começou a empurrar seu pai para que ele passasse para o banco do passageiro.

A falta de cooperação de Bernard fez com que aquela tarefa fosse difícil e Blanche teve que mudar seu comportamento, pois não conseguiria seu intento com bons modos e só conseguiu quando começou a empurrar o corpo inerte de seu pai com brusquidão. Quando teve sucesso, ocupou o acento do motorista, virou a chave na ignição e ouviu o ronco suave do motor. Moveu a alavanca de marchas e saiu vagarosamente.

No exato momento em que ela colocou o carro em movimento, outra luz apareceu no alto da lombada. Mais um carro estava vindo e, mesmo antes que ela pudesse ver os faróis dele pelo retrovisor, viu que a luminosidade aumentou e depois aumentou ainda mais. Aquilo fez com que ela tremesse de pavor, pois mesmo sendo inexperiente, tinha conhecimento suficiente para saber que eram vários carros se deslocando em comboio e isso só podia significar que se tratava de militares.

Procurando manter a calma, avançou e, quando ia começar a fazer a curva, viu dois faróis surgindo atrás dela. Antes que piscasse os olhos, outros dois surgiram. Quando a vegetação alta que havia do lado direito da estrada cobriu sua visão, ela já tinha contado quatro veículos. Nervosa, fez a única coisa que lhe ocorreu e pisou no acelerador com mais força sentindo o carro dar um salto para a frente passando a desenvolver uma velocidade maior.

A princípio, essa providência de Blanche não chamou a atenção dos ocupantes dos carros que seguiam em comboio. Só depois de completarem a curva e rodarem por mais de um quilômetro foi que notaram que o carro que ia à frente estava se afastando deles.

Naqueles veículos estavam agentes da Gestapo que se deslocavam para Frankfurt para prenderem um homem suspeito de ter pertencido ao antigo Partido Comunista que tinha sido alijado do mapa político da Alemanha de Hitler, mas que via seus membros serem perseguidos sem descanso. Entretanto, eles estavam cientes da confusão que havia acontecido em Berlim e tinham conhecimento da fuga de um homem francês e sua filha, inclusive, recebendo a descrição físicas e ordens para os prenderem.

Embora não soubesse disso, a mente de Blanche estava trabalhando de uma forma totalmente nova para ela. Ela avaliou o perigo e decidiu que não deveriam permanecer ali quando viu que eram vários veículos que vinham pela estrada.

Ao notarem que o carro da frente empreendia uma velocidade acima do normal, os agentes resolveram alcançá-lo e fazer uma vistoria. Afinal, para eles, qualquer pessoa que cometesse um ato que pudesse ser entendido como uma tentativa de se afastar deles era suspeita.

Começou a perseguição.

Ao olhar no retrovisor, mais uma vez, Blanche percebeu que os veículos que vinham atrás dela estavam mais próximos do que a última vez que os havia visto. Então pisou até o fundo no acelerador enquanto pedia a Deus que não houvesse mais nenhuma curva acentuada à frente, pois ela sabia que não teria condições de controlar o carro caso se deparasse com uma.

Blanche não olhou mais para trás. Em vez disso, olhava desesperadamente para a margem da estrada procurando por uma sinalização de curva. Não viu nenhuma placa até percorrer uma distância de quase oito quilômetros quando se deparou, não com uma que indicasse o nome de uma cidade, mas uma que sinalizava que a mil metros estaria passando pela ponte que cruza o Rio Elba.

Olhou pelo retrovisor e notou que seus seguidores estavam fora de sua visão, pois ela tinha acabado de passar pelo ápice de uma elevação e começava a descer. Blanche não hesitou. Ela desligou os faróis do carro e manteve a velocidade por mais de quinhentos metros, quando começou a frear, agradecendo o fato da lua permitir que ela tivesse uma visão da estrada a sua frente. Ao notar que estava para atingir a ponte, ela viu o que esperava ver.

A garota não tinha certeza, mas tinha a esperança de que, antes de começar a ponte, quando o terreno começa a entrar e declínio enquanto a estrada segue no mesmo nível, haveria um acesso que iria dar em uma estrada de terra que descia até a margem do rio. Ela já tinha notado que isso era comum em outros rios, porém, nunca tinha passado por aquela ponte. E ela estava certa. Sem vacilar um segundo, ela deu uma guinada no carro e ouviu o guincho das rodas protestando pela brusca mudança de direção.

O carro atingiu a estradinha de terra, corcoveou como um cavalo chucro, embicou para o lado do barranco, no aterro construído para manter a estrada acima do nível do rio e ela conseguiu, no último minuto, virar o volante para o outro lado. O carro derrapou chocando o lado esquerdo com o barranco e deu um salto, voltando a rodar pela estrada enquanto Blanche pisava desesperadamente no freio ao mesmo tempo em que via a água do rio, gelada por estarem em pleno mês de novembro, ir se aproximando.

A tensão daqueles segundos foi demais e Blanche fechou os olhos, só voltando a abri-los quando sentiu o carro parar e percebeu que estava a menos de dois metros da margem do rio. Olhou para o lado e viu o pai encarando-a com os olhos arregalados, demonstrando que o quase acidente havia contribuído para arrancá-lo da inércia em que estava até aquele momento. A garota cruzou o dedo indicador sobre seus próprios lábios indicando ao seu pai que deveria permanecer em silêncio.

Menos de um minuto ela ouviu o barulho dos carros de seus perseguidores irem se aproximando e ficou exultante quando viu que nenhum deles diminuiu a velocidade e logo o barulho dos pneus deles sobre a madeira que servia como piso da ponte foram ouvidos.

Contrariando ao seu pai que queria seguir viagem imediatamente, Blanche permaneceu parada por mais de duas horas e quando finalmente voltou para a rodovia, o dia já estava clareando. Eles seguiram atentos para o caso de os agentes estarem esperando por eles, o que não aconteceu. Esses tinham uma missão para cumprir em outra cidade e não podiam perder tempo com suspeitas. Porém, antes de seguirem viagem, eles entraram na primeira cidade, de nome Dessau, para avisarem seus superiores em Berlim sobre a existência de pessoas em atitudes duvidosas naquela região.

No ano de 1938, embora já poderosa, a Gestapo ainda não era detentora de todo o poder que alcançou no decorrer da Segunda Guerra e o ciúme dos demais serviços de segurança ainda era maior que o terror que depois passaram a sentir dela. E isso foi a sorte de Blanche e seu pai. Os policiais daquela cidade não deram muita importância para a preocupação da Gestapo e essa também não fez muita questão de dar a eles as informações necessárias para que empreendessem alguma ação que levasse à captura dos fugitivos.

Dessa forma, Blanche cruzou a estrada que dava acesso àquela cidade quando o sol já despontava no horizonte e não foi incomodada. Agora ela já sabia que a rodovia na qual trafegava era a de número 09 que se dirigia para o sul do país e, consultando um mapa que seu pai mantinha no porta luvas, criou um roteiro. Iria por aquela rodovia até cruzar com a de número 04 e seguiria por essa em direção ao oeste até a rodovia 05 onde voltaria a avançar no sentido sul até cruzar a fronteira da França. Chegando a esse ponto, estaria próximo à cidade de Nancy.

Desenvolvendo uma velocidade normal, sete horas depois eles passavam pela cidade de Frankfurt. Eles fizeram duas paradas rápidas durante o percurso, uma para abastecer o veículo e outra para se alimentarem. O estado de Bernard tinha melhorado e ele permitiu que Blanche dirigisse durante algumas horas e depois reassumiu a direção do carro. Embora triste, ele tentava manter a conversa amena que sua filha mantinha no intuito de distraí-lo.

Por dentro, mesmo assustada, o coração de Blanche sangrava. Foram vários golpes, todos em um único momento, que abalariam qualquer um. A lembrança do corpo da mãe e do irmão, a deixava a ponto de explodir, porém, a traição era o que mais doía. Era uma dor redobrada porque ela não se sentia traída apenas pelo irmão, mas também pelo grande amor de sua vida. Em sua cabeça, ela acreditava que ambos, embora em atos isolados, tinham saído de sua casa com o mesmo objetivo que era o de denunciar às autoridades que sua família era judia.

Apesar da dor que a consumia, Blanche tinha que se esforçar para dar um pouco de conforto ao pai que, embora estivesse com um aspecto melhor, demonstrava que poderia surtar, a qualquer momento.

Depois que deixaram a cidade de Frankfurt para trás, Blanche estava atenta ao entroncamento com a rodovia 67 que usaria para se deslocar mais para o oeste até chegar a de número 63 que utilizaria para chegar à fronteira e, no mesmo instante em que viu a placa sinalizando que estava próximo a esse entroncamento, viu alguns carros parados e vários homens fardados em volta deles.

Ela não teve a menor dúvida de que se tratava de uma barreira e, sem saber o que fazer, fez algo que só serviu para chamar a atenção dos soldados para ela. Parou no acostamento e ficou observando. Viu que alguns soldados confabularam entre si e depois três deles começaram a andar na direção em que ela estava.

O que obrigou Blanche a adotar a atitude que teve a seguir não foi o fato de os soldados estarem vindo ao seu encontro. O que acionou o alarme em seu íntimo foi que, naquele mesmo instante, os ocupantes de um dos carros que estavam parados foram arrancados de seu interior com violência e ela notou que se tratava de um homem adulto e uma jovem garota, mais ou menos de sua idade e aquilo para ela só podia significar uma coisa. Se eles estavam com sua atenção voltada para as pessoas com aquelas características, a probabilidade de que estavam procurando por ela e por seu pai eram imensas.

E isso fazia sentido porque aquele era o caminho a ser utilizado por qualquer pessoa que, como ela, estivesse tentando chegar à França. Voltou a olhar para os guardas e calculou que eles ainda tinham que caminhar mais de quatrocentos metros para chegar até onde ela estava. Naquele momento, sentiu uma frieza enorme. A mesma que teve enquanto fugia do tumulto em Berlim. Sem vacilar por um segundo sequer, ela abriu a porta e deu a volta enquanto gritava para o seu pai:

– Saia, papai. Eles estão à nossa procura.

Não adiantou. Quando abriu a porta do passageiro viu que seu pai olhava para ela com expressão de espanto. Olhou para a direção onde estavam os soldados e viu que eles estavam retirando os fuzis que carregavam nos ombros e soube na hora que não tinha um segundo a perder.

Usando uma força que não sabia possuir, puxou o pai e o empurrou para fora da estrada onde havia uma vegetação que o protegeria e se abaixou e, quando fez isso, ouviu o som de projétil passando por cima de sua cabeça e, uma fração de segundo depois, o som do disparo. Sem dar chance de os soldados refazerem a mira, saltou para o local onde acabara de ver o corpo do pai desaparecer.

Seu pai estava deitado com os olhos extremamente abertos e Blanche entendeu que não teria como se fazer entender por ele e passou a agir. Puxou bruscamente seu braço fazendo com que se levantasse e começou a correr. Quando chegou a um barranco, ouviu o barulho que as botas dos soldados faziam ao se chocarem com o piso do asfalto. Não havia alternativa senão a de se atirar no barranco, rezar para que ele não fosse muito alto e que não houvesse pedras ou árvores no trajeto de sua queda.

Tiveram sorte e caíram em um terreno cheio de pedras pequenas, ralando os joelhos e as mãos. Imediatamente, retirou o casaco que usava e o jogou no leito do rio que havia à sua frente e, levando Bernard consigo, deu alguns passos para trás e ficou grudada no barranco na esperança de que não fosse vista por quem estivesse sobre ele.

Foi a providência de ter jogado seu casaco na água que salvou a vida de Blanche e de seu pai. Os soldados, assim que viram o casaco boiando, começaram a se deslocar no sentido da correnteza olhando atentamente para o rio. Fizeram isso por mais de dez minutos até concluírem que os fugitivos tinham se afogado.

Quando isso aconteceu, eles já tinham se deslocado uma distância que fazia com que Blanche pensasse que estava à salvo. Ela saiu de se esconderijo e começou a procurar por um local onde pudesse escalar o barranco que não era muito alto. Quando encontrou um local que demonstrava já ter sido usado com essa finalidade, se dirigiu a ele, porém, mal subiu no primeiro degrau natural que havia ali, ouviu um som vindo de cima:

– Psiu!

Olhou na direção em que ouviu o som e viu o rosto de uma jovem mulher que lhe fazia sinais com as mãos apontando para seu lado esquerdo, direito de Blanche e depois cruzava o indicador sobre os lábios indicando que ela não deveria fazer barulho. Blanche olhou naquela direção e viu que um dos três soldados tinha permanecido no local para ter certeza de que ela e seu pai não voltariam a aparecer. A reação dela foi descer do barranco e ficar colada ao mesmo, enquanto fazia gestos para que seu pai também não fizesse barulho. Mas não teve sucesso. Ele parecia não entender o que estava acontecendo e olhava para ela com sua expressão de distanciamento da realidade.

Ao ouvir barulho de passos soando sobre ela, percebeu que o soldado estava se deslocando para o lado que ela estava e ficou sem saber o que fazer e quando resolveu abandonar a posição que lhe dava alguma proteção, viu um vulto escuro se deslocar em direção ao seu pai, chocar-se com ele, fazendo com que caíssem no chão e depois rolassem para ficar mais próximos ao barranco.

Quando Blanche olhou para o local onde seu pai foi parar, viu que ele estava de bruços e sobre ele havia uma garota mulata, aparentando quinze, no máximo, 16 anos de idade. A menina estava com um braço envolvendo o pescoço dele e com a outra mão sobre sua boca impedindo que ele emitisse qualquer som. Ao notar que os olhos dele estavam fixos nela, abanou a cabeça em um mudo consentimento e tentando manter sua face serena. Deu resultado, pois o homem parou de se debater e ficou parado.

Foram quase duas horas em que aquelas três pessoas ficaram imóveis enquanto o soldado permanecia caminhando de um lado para outro no barranco acima deles, nunca se distanciando o suficiente para que pudessem se comunicar com palavras e o que eles faziam era se expressar por gestos. Quando outro soldado se aproximou para falar com o que vigiava do alto do barranco, Blanche imediatamente se sentiu aliviada, pois a forma como o recém-chegado falava indicava que ele era superior e, depois de algumas perguntas com respostas evasivas e nada animadoras, ordenou que o soldado se juntasse aos outros alegando que a fila de automóveis estava crescendo.

Só então Blanche pode conversar com a garota para saber quem era ela, o motivo de estar ali e porque tinha ajudado a ela. Em poucas palavras e num alemão tão ruim que Blanche logo pediu para que ela falasse em francês, pois percebeu pelo sotaque que ela dominava esse idioma, a garota contou que era natural da Somália onde fora capturada três anos antes por piratas e trazida para a Europa onde foi vendida para um cafetão da cidade de Marselha.

Na época, com doze anos, a garota passou os dois anos seguintes exercendo todas as funções necessárias em um bordel, menos o de prostituta, embora muitas fossem ultrajantes. Quando completou quatorze anos foi estuprada pelo cafetão que depois a colocou para atender aos clientes até que, um ano antes daquele encontro, foi socorrida por um desses clientes que a ajudou a empreender uma fuga, indo parar na Alemanha.

A ida para a Alemanha não mudou em nada a vida da pobre garota. O homem que a ajudou era casado e a levou para uma propriedade rural onde ela foi obrigada a trabalhar e satisfazer as taras dele quando ia até lá para visitá-la. Quando ela reclamou, foi ameaçada de ser entregue aos nazistas cujo preconceito com as pessoas de cor era equivalente ao que dedicavam aos judeus.

Entretanto, a vida difícil que levava deu a garota a vantagem de aprender a combater os contratempos e ela não vacilou em seduzir um jovem rapaz que trabalhava na mesma fazenda com ela, e ele, perdido de amor, a ajudou a empreender nova fuga. O problema foi que, ao fugirem, o rapaz foi alvejado por um tiro e ficou para trás e ela, sem saber se seu protetor tinha sobrevivido ou não, fugiu sozinha até conseguir uma carona que viajava para o sul da Alemanha. Quando se depararam com o bloqueio da estrada ela concluiu que estavam atrás dela e, sem dar chance para o homem que lhe dava carona e que já estava esperançoso de usufruir dos favores sexuais que ela prometia, pulou do carro e entrou na mata.

Blanche compreendeu na hora que ali havia uma longa história. Porém, longa demais e ela tinha coisas mais urgentes em que pensar e apenas perguntou:

– E o que você pretende fazer agora?

– Vou continuar fugindo em direção ao sul. Com sorte consigo chegar na França.

Naquele momento, Blanche se sentiu obrigada a informar à garota que os soldados estavam procurando por ela e seu pai, achando que isso deixaria a garota tranquila. Quando terminou, a garota respondeu falando em francês:

– Isso não faz a menor diferença. Se eu for encontrada, vão me prender. Isso se não me matarem na mesma hora.

– Então você não deve ir para a França. Eles sabem que é para lá que meu pai e eu estamos indo. A cada quilômetro que você andar, vai notar que a busca estará mais intensa.

– Mas, eu pensei que vocês também estavam indo para lá. Você não é francesa?

– Somos. E você está certa. Nossa intenção era cruzar a fronteira e chegar até a cidade de Nancy. Mas agora sei que tentar fazer esse caminho é pedir para ser presa.

– E o que você pretende fazer? – Perguntou a garota somali.

– Não sei. Temos duas opções. Ou nos desviamos para o oeste e vamos para a Bélgica, ou continuamos para o sul, mas não em direção à França. Em vez disso, podemos ir para a Suíça.

– Ir para o oeste não é uma boa ideia. Está cheia de soldados alemães. Um velho que trabalhava na cozinha da fazenda contou que os alemães invadiram uma cidade chamada Ramona. Agora está cheio de soldados por lá.

Blanche não pode evitar de rir do erro cometido pela garota, mas depois explicou:

– Não é Ramona. É Renânia e não é uma cidade, mas uma região. Sim, você está certa. Quer dizer. Quase certa. Essa região já pertencia à Alemanha, só que havia um tratado de que não poderia existir soldados no local. Hitler quebrou o tratado em 1936 e como a Inglaterra e a França não reclamaram, está militarizada.

– Milita … O quê?

– Militarizada. O que quero dizer é que, segundo o tratado, os alemães não podiam manter soldados e armas nessa região e eles fizeram isso.

– E o que vocês vão fazer, então? – Perguntou a garota demonstrando preocupação.

– Não sei. Se formos pegos vamos ser presos ou coisa pior. Se não, vamos ter que continuar fugindo. Isso parece que nunca vai ter fim.

– Alles hat ein ende, nur die wurst hat zwei! – Falou a menina e depois riu. (A frase é um ditado popular de origem alemã: "tudo tem um fim, só a salsicha tem dois" - O uso da salsicha no final da frase serve para dar a ela um tom engraçado).

Blanche sorriu da frase da menina enquanto disfarçava sua irritação por ela estar fazendo piada em um momento em que tudo parecia contribuir para a ruína delas. Deixou esse pensamento de lado quando ouviu a garota perguntar:

– Qual o seu nome?

– Meu nome é Blanche. E o seu?

– O meu é Hamdi.

– De onde você é, Hamdi. – E antes que a menina respondesse, Blanche comentou: – Desculpe, você já falou que nasceu na Somália. E então? O que você pretende fazer?

– Não sei. Vou continuar fugindo e rezar para não ser presa.

– Fique com a gente. Você pode me ajudar com meu pai que não está bem e eu vou poder te ajudar quando chegarmos na França.

– Então nós vamos para a França? – Inquiriu Hamdi.

– Vamos. Mas não diretamente. Vamos mais para o sul em direção à Suíça. De lá nós vamos para a França.

Hamdi apenas balançou os ombros dando a entender que para ela não fazia diferença. Quinze minutos depois estavam caminhando através da mata. Blanche tomou a decisão de ficar longe das estradas e das cidades, a não ser quando tivessem a necessidade de arrumar algum alimento, pois a única coisa que ela carregava consigo eram seus documentos e Hamdi nem isso tinha. Mas o que Blanche mais lamentava de não ter levado consigo quando abandonou o carro era o mapa. Ela não tinha a menor ideia de qual direção seguir a não ser a referência das estradas que, se fossem pares, tinha o sentido leste/oeste e as fossem ímpares norte/sul.

Quando ela comentou isso para Hamdi elas tinham caminhado o resto da tarde e já era noite. Blanche não tinha sequer ideia de que estava próximo à cidade de Darmstadt onde a rodovia que usava, a de número 05, cruzaria com a de número 67. A primeira a levaria diretamente para a França e a segunda continuaria mais para o sul e correria um longo trecho em paralelo com a fronteira daquele país até chegar à Suíça. Hamdi, ao ouvir a reclamação de sua recente amiga, pediu para que ela a esperasse ali e, sem dar ouvidos às reclamações de Blanche, se afastou, voltando vinte minutos depois trazendo um mapa em sua mão.

– Onde você conseguiu esse mapa? – Quis saber Blanche ao abrir o mesmo.

– Foi fácil. Tem um posto policial logo ali e é comum os policiais manterem um mapa no carro. – Respondeu Hamdi como se aquilo não fosse grande coisa.

– Pelo jeito você, ou entende muito de mapas, ou entende de policiais! – Comentou Blanche.

– Não entendo de nenhum dos dois. Quer dizer, tinha um policial na cidade perto da fazenda em que eu vivia que gostava de fazer umas visitas durante a noite e me levava para passear. Acho que é por isso que eu sei.

Sem fazer nenhum comentário, Blanche passou a examinar o mapa e calculou o local onde estavam com uma margem de erro na ordem de três quilômetros. Mas esse erro logo seria corrigido, pois elas continuaram caminhando até se verem diante da rodovia. Sem se deixar impressionar por seu erro de cálculo, Blanche o corrigiu e voltou a examinar o mapa, descobrindo que estava equivocada em seu pensamento anterior, pois as duas rodovias seguiam para o sul e voltavam a se encontrar mais adiante. Isso significava que o correto a fazer seria seguir por aquela que tinha menos tráfego e, quando elas se cruzassem novamente, decidir qual seguir. Isso, porém, ia levar tempo, pois tinham que percorrer quarenta e seis quilômetros para chegar até lá.

Foi nessa hora que, sentindo o cansaço, Blanche resolveu parar para descansar e Hamdi se ofereceu para sair em busca de algo para que eles comerem. A garota demonstrava ter prática em roubar, pois logo voltou trazendo pães e um pedaço de carne que, se não era o suficiente para os três, pelo menos servia para amainar a fome.

Depois de comerem, quando procuravam por um meio de se deitarem para dormir, Hamdi perguntou:

– Seu pai não fala nada? Nunca?

– Ele fala, sim. Até demais, eu acho. O problema é que ele está em estado de choque.

E antes que a nova amiga perguntasse, ela contou o que tinha acontecido com sua família em Berlim. Hamdi ouviu tudo sem interromper e nem mesmo quando Blanche encerrou a história com lágrimas nos olhos ela se atreveu a fazer qualquer comentário, a não ser um sincero:

– Eu sinto muito.

Em seguida deitaram-se embaixo de uma árvore frondosa e por sugestão de Hamdi ficaram com seus corpos colados. Diante do olhar inquisitivo que Blanche lhe dirigiu, ela explicou que o calor de seus corpos contribuiria para amenizar o frio do mês de novembro quando, em pleno outono, as noites podem apresentar baixas temperaturas. Apesar de aceitar a ideia, ela não ficou muito convencida e, por não confiar em Hamdi, exigiu ficar entre os dois, com seu pai de um lado e aquela estranha garota do outro.

Para ela, foi uma noite longa e incomum. O corpo da garota africana muito próximo, praticamente encostado ao seu, lhe causou sensações estranhas. O calor que emanava do corpo da outra e uma suave maciez, mesmo com ambas vestidas, fez com que Blanche sentisse seu corpo em brasas e tudo piorou quando ela se deitou de lado, com o rosto voltado para o seu pai e Hamdi a imitou ficando também de lado, o que fez com que seus corpos ficassem colados. Para complicar mais a situação, Hamdi se mexeu enquanto dormia e isso fez com que o braço dela ficasse sobre o corpo de Blanche com sua mão a poucos centímetros de seu seio. Estava tão perto que quando ela respirava seu seio se elevava e tocava de leve nos dedos da garota somali.

Sentindo aquele abraço involuntário e sem saber o motivo daquilo, Blanche desejou que aquelas mãos delicadas deslizassem por seu corpo que já estava todo arrepiado somente em imaginar. Para ela, aquilo era loucura demais, pois jamais sonhou em ter uma reação como essa ao sentir o contado do corpo de outra mulher no seu.

Ela, que até recentemente era virgem e só renunciou a isso por sentir um amor muito grande por Kurt, não conseguia entender aquela reação involuntária. Só depois de muito tempo, quando já era alta madrugada, Blanche mergulhou em um sono agitado onde imagens de sua recente tragédia se mesclavam com as lembranças que, até então, guardara com tanto carinho.

As imagens de sua primeira vez com um homem, ainda recentes, estavam gravadas a fogo em sua mente, pois para ela, aquele tinha sido o melhor momento de sua vida. Isso até ser vítima da traição de seu amor e da reação que ele teve ao descobrir de quem ela descendia. O que antes eram lembranças de uma noite maravilhosa, se tornara motivo de vergonha e fazia com que ela se perguntasse como tinha sido tão idiota em se deixar envolver daquela forma.

Mesmo tendo sido a última a dormir, Blanche foi a primeira a acordar e a primeira reação de seu corpo foi de ficar novamente todo arrepiado ao sentir o hálito quente de Hamdi em sua nuca. Como o dia já estava clareando, sabia que precisava se levantar e acordar seus companheiros de viagem, porém, resolveu deixar isso para depois. Antes queria ir até o pequeno córrego que passava ali perto e, a despeito do frio, tomar um banho.

E foi o que ela fez. Sua intenção era se lavar rapidamente, porém, a temperatura da água não condizia com a da atmosfera, pois estava menos fria e ela se animou a tomar um banho completo. Tirou as roupas e entrou na água até ter o seu quadril dentro da água. Estava aproveitando aquele banho quando ouviu o barulho de um graveto sendo quebrado e, quando se virou, viu Hamdi parada na margem com os olhos fixos em seu corpo. Assustada, perguntou:

– Você estava me espionando?

– Não! – Hamdi apressou-se em responder e engatou uma explicação: – Acordei quando você se levantou e quando vi que você estava vindo em direção ao rio, resolvi vir atrás.

– E desde quando você está aí?

– Desde quando você começou a ... você ti ... tirou a ...

Com uma expressão indecifrável no rosto, Hamdi não completou a frase. Virou-se e saiu correndo dali.

Aquele acontecimento que parecia não ter nenhuma importância, fez com que o clima entre as duas moças ficasse estranho. Elas pareciam estar evitando conversar e só falavam o que era estritamente necessário. Mas isso não era tudo. O que deixava Blanche ainda mais constrangida é que todas as vezes que olhava para Hamdi ela estava com os olhos fixos em seu corpo e a mirava com uma intensidade que parecia estar lhe despindo só com o olhar. Nesses momentos seu ímpeto era de pedir para que ela não fizesse aquilo. Porém, as palavras que ela formava em sua mente teimavam em não sair de sua boca e ela acabava se afastando sentindo seu rosto em chamas.

Continuaram seguindo viagem para o sul. Durante dois dias, não tiveram nenhum contratempo e Hamdi passou a dedicar muita atenção à Bernard que demonstrou confiar na garota e já reagia muito melhor quando estava próximo dela do que quando estava sozinha com sua filha.

O que nenhum dos três fugitivos sabia é que eles tinham sido vistos por um morador rural que achou muito suspeito o fato de um homem adulto e duas jovens estarem viajando a pé e claramente evitando as rodovias. Preocupado com a vigilância que a polícia exercia sobre todas as pessoas, fossem eles estrangeiros ou alemães, foi até a cidade e relatou o fato a polícia. O chefe local entrou em contato com Berlim que passou as informações à Gestapo, cujo trabalho voltado à captura de Bernard e sua filha estava concentrado mais a oeste, na região que faz fronteira com a França, Luxemburgo e Bélgica. Informados, deslocaram uma patrulha na direção de onde veio a informação.

Blanche já estava mais familiarizada com o mapa e sabia que estava se deslocando por zonas desabitadas que ficavam entre a Rodovia 05 e o Rio Reno que faz fronteira natural entre a Alemanha e França. Sabia também que se continuasse andando naquele sentido chegaria à cidade de Basileia na Suíça, onde estaria a salvo da perseguição dos alemães. Foi com essa informação na cabeça que ela se preparou para dormir. Pelos seus cálculos e mantendo a marcha que até então desenvolveram, em três dias chegaria ao seu destino.

Era a terceira noite que dormiria ao lado de Hamdi e em todas as anteriores acontecera a mesma coisa. Ela teve dificuldades em se entregar ao sono e as reações de seu corpo com a proximidade do corpo da outra a deixavam intrigada. Era algo que ela não conseguia explicar, pois quando tentava, associava aquelas reações às que tinha quando Kurt começou a avançar o sinal e a tocar seu corpo em lugares que deviam se proibidos. Blanche, apesar de um relacionamento muito tranquilo com seus pais, tinha recebido de sua mãe apenas as informações básicas sobre sexo, pois Sarah nunca se atreveu a lhe falar de desejos e prazeres e se limitou a explicar as funções dos órgãos sexuais do homem e da mulher.

Isso quer dizer que ela sentia tesão. Só não sabia disso. Talvez, se ela se abrisse com Hamdi que, embora sendo dois anos mais nova que ela, tinha tido mais experiencia pelo fato de ter sido obrigada a se prostituir, teria recebido alguma orientação.

Essa ideia foi abandonada naquela mesma noite em virtude de algo que aconteceu. Durante a noite Blanche acordou com frio e percebeu que isso se devia ao fato de Hamdi não estar deitada ao seu lado. Assustada, se levantou e saiu procurando pela garota. Andou até chegar à margem de uma estrada e resolveu voltar achando que tinha sido abandonada por sua companheira de viagem, entretanto, quando estava quase chegando ao local onde seu pai continuava dormindo, ouviu um gemido baixo e, olhando para a sua direita, viu um vulto entre duas árvores, se apoiando no tronco de uma terceira.

Blanche andou naquela direção tomando todo o cuidado para não fazer barulho e ser descoberta. Conseguiu, pois, quando estava a menos de cinco metros daquele vulto e em uma posição que não permitia que ela fosse vista, seu sangue gelou. Não por se tratar de um desconhecido, mas sim, pelo que aquela pessoa estava fazendo.

Em uma cena que, em outros tempos, ela teria achado nojenta, mas agora a consumia. Viu Hamdi com sua pequena mão direita se masturbando enquanto a outra apertava um de seus mamilos enquanto gemia.

Sem conseguir se mexer, Blanche permaneceu como se estivesse congelada com seus olhos se deslocando incansavelmente entre a mão delicada que tinha dois dedos sumido em meio a buceta da garota, a outra segurando o bico de um dos seios e depois alternando para fazer a mesma coisa com o outro. Mas o que mais a encantava na garota era a boca retorcida por causa do tesão que sentia, os olhos serrados, impedindo que enxergasse a pessoa que assistia a tudo isso tão perto dela e as narinas dilatadas.

Sem entender direito o que acontecia com ela, Blanche enfiou a mão embaixo da saia que usava e começou a imitar a outra, porém, não teve a coragem suficiente para enfiar os dedos e ficou apenas se tocando por cima da calcinha de algodão que usava. Isso, porém, foi o suficiente para que ela chegasse a um orgasmo que lhe atingiu em cheio.

O principal motivo que fez com que Blanche gozasse tão intensamente foi em parte a soma do tesão de poder ver a bucetinha da Hamdi, assim como seus seios e aquela boca linda se retorcendo em um esgar de prazer. Mas o que realmente a tirou dos trilhos e fez com que perdesse a vergonha e gozasse tão intensamente, foi o que ouviu.

Enquanto os gemidos de Hamdi iam se intensificando a ponto de se transformarem em gritinhos de prazer, ela distinguiu que havia algo a mais além daqueles gemidos e, ao prestar atenção, pode entender muito bem o que a outra falava.

Sem saber que era observada de tão perto, ela gritava:

– Oh, Blanche ... Que gostoso deve ser sentir o seu gostinho. Goza comigo, goza, minha linda ... Vai Blancheeeee ... Aiiiii, GOZA COMIGO.

Ouvir seu nome sendo gritado durante o orgasmo que sacudia o corpo da africana atingiu Blanche com toda força que ela só teve tempo de cobrir sua boca com a mão enquanto gozava junto com ela, já com dois dedos prendendo o seu grelinho e fazendo uma forte pressão sobre ele.

Depois disso, o cansaço falou mais alto e ela voltou a dormir ao lado de seu pai sem se lembrar se Hamdi se deitou ao seu lado ou não. Mas o orgasmo que teve serviu para que tivesse um sono tranquilo e sem os sonhos que a deixavam ainda mais aterrorizada. Só que essa tranquilidade acabou quando ela foi acordada por Hamdi que segurava seu ombro e o balançava com força, a deixando assustada, porém, antes de conseguir perguntar o que estava acontecendo, a outra falou:

– Acorda, Blanche. Precisamos sair daqui. Eles estão vindo.

– Eles quem? – Perguntou Blanche ainda tentando se desembaraçar da confusão de ser acordada de forma tão brusca.

– A polícia. – E ante a expressão de apavoramento que surgiu em Blanche, ela explicou: – Acordei ouvindo barulho de motores e fui olhar. São dois caminhões que pararam na estrada e estão entrando no mato. Precisamos sair daqui.

Sem mais nenhum comentário, Blanche obrigou seu pai a se levantar. Ele tinha acordado com a conversa das duas e estava sentado olhando para ambas com uma expressão confusa. Com a filha puxando por uma mão, Hamdi segurou a outra o que fez com que ele entendesse e as seguisse. Não houve tempo sequer para pegar o resto dos alimentos que Hamdi tinha roubado na última fazenda em que passaram. A única coisa que puderam fazer foi sair correndo. Só que, ainda desorientada pelo sono, Blanche saiu na direção errada e Hamdi gritou:

– Aonde você vai? A polícia está vindo desse lado?

Blanche parou, olhou para a garota que, apesar da situação de perigo, conseguiu sorrir enquanto dizia:

– Sie hat einen vogel. (Ela tem um pássaro. Expressão alemã para dizer que alguém não tem noção de nada ou que é um pouco louco).

– Fahr zur hölle, Hamdi! – Respondeu Blanche mudando de direção e começando a correr para o outro lado. (Vai à merda, Hamdi – Tradução literal).

– Uh, lá, lá! Não é que a santinha sabe xingar também!

Mesmo correndo em meio ao mato fechado, Blanche não pode deixar de perceber o quanto Hamdi conquistara a confiança de seu pai. Bastou a garota falar com ele para correr e ele obedeceu sem um segundo de indecisão.

A corrida dos três fugitivos parou quando eles se viram às margens de um rio. Na outra margem havia uma cidade. Blanche percebeu nesse momento que tinha se deslocado alguns quilômetros mais e estava à frente do que imaginava, pois não restava dúvidas de que aquela cidade era Estrasburgo, na França. Entretanto, não havia tempo para pensar em mais nada, pois atrás deles já se ouviam os latidos dos cães que estavam sendo usados na perseguição deles. Hamdi, assustada, praguejou e depois perguntou:

– Estamos perdidos. O que vamos fazer agora?

– Pule no rio. Vamos nadar.

– Isso é loucura. Nem sei nadar direito.

– Isso quer dizer que você sabe, sim.

Enquanto falava, Blanche se aproximava de Hamdi que foi se afastando andando de costas enquanto falava:

– Não faça isso, Blanche. Pelo amor de Deus ... Eu não ... Nãããooooo.

O grito de Hamdi foi porque ela foi atirada na água. Não por Blanche, mas sim por Bernard que segurou em sua cintura e se atirou a levando junto. Quando seus corpos emergiram, ele gritou para ela:

– Não se apavore. Eu te ajudo.

Começaram a nadar no intuito de ultrapassar os duzentos e cinquenta metros que os separavam da outra margem. Blanche foi tomando a dianteira por nadar bem e Bernard, apesar de ser um bom nadador, fazia questão de não se afastar de Hamdi e ficava lhe falando palavras de incentivo.

Quando tinham se afastado cerca de trinta metros, a margem onde estavam minutos antes ficou infestada de policiais com cinco deles segurando a correia que prendia número igual de cães. Por alguns minutos, eles ficaram discutindo sobre o que fazer até que quatro deles começaram a se livrar das botas e da farda. Eles iriam continuar a perseguição.

Mas, no momento, a preocupação de Blanche era outra. A correnteza do rio era muito forte e ela lutava bravamente para seguir para a outra margem quando seu pai gritou para ela:

– Não faça isso. Deixe a correnteza te levar. Só procure se manter à tona e se deslocar para a outra margem. Não faz diferença o ponto que vamos chegar lá. Só temos que atravessar.

Ela entendeu e parou de dar braçadas, passando a usar seus braços como remos que a impulsionava para longe da margem onde quatro soldados estavam prontos para se jogarem na água.

O fato de ter chegado ao ponto onde a correnteza era mais forte, serviu de ajuda para os fugitivos, pois embora se deslocassem para baixo, a velocidade era maior e eles puseram uma boa distância entre eles e seus perseguidores. Porém, eram homens treinados e cedo ou tarde os alcançariam. Isso ficou ainda mais claro quando os três atingiram um local onde a correnteza era menor e os alemães começaram a se aproximar perigosamente.

Blanche agora se deslocava um metro e olhava para trás e foi ficando cada vez mais apavorada diante da rapidez com que seus perseguidores se aproximavam. Ao prestar atenção no que estava atrás dela, não viu o que tinha pela frente até que ouviu:

– Vou te jogar uma corda. Segure nela que vamos te puxar.

Quando ela se virou para o lado de onde veio a voz, foi tomada por um alívio tão grande que não pode evitar de tomar um pouco de água do rio. Em um barco pequeno, um homem manejava os remos enquanto outro estava em pé. Foi esse último que falou com ela e, ato seguinte, ouviu o barulho da corda caindo do seu lado direito e não teve dificuldades em segurá-la. Imediatamente sentiu seu corpo sendo puxado na direção do barco.

Ainda na água, olhou em volta e viu que outro barco, esse um pouco maior, estava recolhendo seu pai enquanto Hamdi se segurava na borda dele esperando sua vez. Quando finalmente foi içada para dentro do barco, viu os quatro nadadores alemães fazendo meia volta e começando a nadar de volta para a margem de onde tinham saído.

Cinco dias depois de deixar Berlim, Blanche, seu pai e a nova amiga, Hamdi, chegavam na França. Famintos, com o corpo cheio de escoriações e assustado, porém, salvos.

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