“Perspectivas”
O sol da manhã entrava pela janela da sala em faixas douradas, iluminando o sofá de couro onde Tiago e Daniel ainda estavam entrelaçados. Eles tinham dormido ali mesmo, depois da intensidade da noite anterior. Daniel acordou primeiro, sentindo o peso quente do corpo de Tiago contra o seu peito. O cabelo preto liso do primo caía sobre a testa, os lábios entreabertos em sono profundo. Daniel não se mexeu logo. Ficou apenas olhando, traçando com os olhos cada curva do rosto que ele conhecia desde criança, mas que agora parecia novo, vulnerável e infinitamente mais precioso.
Tiago se mexeu, murmurou algo incompreensível e abriu os olhos devagar. Quando viu Daniel olhando para ele, corou instantaneamente.
— Bom dia… — sussurrou, voz rouca de sono e de gemidos da noite passada.
Daniel sorriu devagar, daqueles sorrisos que começavam nos olhos e desciam até os lábios.
— Bom dia, lindo. Dormiu bem?
Tiago assentiu, envergonhado, escondendo o rosto no pescoço de Daniel.
— Dormi… mas tô me sentindo um pouco dolorido. O sofá não é muito confortável pra dormir duas pessoas.
Daniel riu baixo, o som vibrando no peito.
— Culpa minha. Eu que não consegui te levar pro quarto. Tu apagou no meu colo e eu não tive coragem de te acordar.
Tiago ergueu o rosto, olhando nos olhos dele.
— Eu… sobre ontem… — começou, hesitante.
Daniel colocou um dedo nos lábios dele, silenciando-o com gentileza.
— Não precisa explicar nada. Nem pedir desculpa. Nem perguntar se foi bom. Eu sei que foi. Pra mim também foi.
Tiago relaxou um pouco, mas ainda havia uma sombra nos olhos castanhos.
— Eu gozei sem nem tocar no pau… só de chupar teu peito. Isso é… normal?
Daniel ergueu uma sobrancelha, divertido.
— Normal? Não sei se tem rótulo pra isso. Mas foi a coisa mais sexy que já vi na vida. Tu tremendo inteiro, gemendo no meu pescoço, molhando a gente… porra, Tiago. Eu quase gozei só de ver.
Tiago enterrou o rosto de novo, rindo envergonhado.
— Tu é impossível.
— E tu é perfeito.
Eles ficaram assim mais um tempo, abraçados, respirando juntos. O silêncio era confortável, mas carregado de perguntas não ditas.
Daniel foi o primeiro a se mexer. Beijou a testa de Tiago e se sentou, puxando-o junto.
— Vem. Vamos tomar banho. Juntos, dessa vez. Depois a gente faz café e conversa direito.
Tiago hesitou por meio segundo, mas assentiu.
No banheiro pequeno, a água quente caía forte. Daniel entrou primeiro, estendendo a mão para Tiago. Eles se encaixaram sob o jato, corpos colados, pele escorregadia de sabonete. Não havia urgência sexual dessa vez — só carinho. Daniel lavou o cabelo de Tiago devagar, dedos massageando o couro cabeludo. Tiago ensaboou o peito largo de Daniel, sentindo os músculos relaxarem sob as mãos. Beijos leves, toques suaves. Quando saíram, enrolados em toalhas, o ar entre eles parecia mais leve.
Na cozinha, Daniel preparou café enquanto Tiago cortava frutas. Eles se sentaram à mesa pequena, canecas fumegantes nas mãos.
— Eu pensei muito nisso — começou Daniel, olhando para o líquido preto. — Não só ontem. Faz meses. Desde que tu terminou com o Lucas e me mandou aquela mensagem de madrugada dizendo que tava perdido. Eu fiquei olhando pro celular horas, querendo te chamar pra cá.
Tiago engoliu em seco.
— Por que não chamou antes?
— Medo. Medo de estragar tudo. Medo de tu me odiar. Medo de a família descobrir e virar um inferno. Mas principalmente… medo de tu não sentir o mesmo.
Tiago esticou a mão por cima da mesa, entrelaçando os dedos nos de Daniel.
— Eu sentia. Eu só não sabia como admitir. Nem pra mim mesmo.
Daniel apertou a mão dele.
— E agora? Como tu tá se sentindo?
Tiago pensou antes de responder.
— Assustado. Feliz. Culpado. Excitado. Tudo ao mesmo tempo. Mas… mais vivo do que eu me sentia há muito tempo.
Daniel sorriu.
— Eu também. E eu não quero que isso acabe quando tu voltar pra Joinville.
As palavras ficaram pairando no ar. Tiago baixou os olhos.
— E a família? Meus pais? Nossos tios? Eles vão surtar. A gente é primo, Daniel.
— Eu sei. — Daniel respirou fundo. — Mas a gente não precisa contar agora. Nem nunca, se tu não quiser. A gente pode ser discreto. Ou… a gente pode enfrentar. Juntos. Eu tô disposto a qualquer coisa, Tiago. Menos a te perder.
Tiago sentiu os olhos arderem.
— Eu também não quero te perder.
Eles se levantaram ao mesmo tempo. Daniel contornou a mesa e puxou Tiago para um abraço apertado. Ficaram assim, balançando devagar na cozinha, como se dançassem uma música que só eles ouviam.
O resto do dia passou em uma bolha de intimidade. Eles saíram para o pomar, colheram jabuticabas direto da árvore, sujando as mãos e a boca de roxo. Daniel empurrou Tiago contra o tronco de uma árvore maior e o beijou com fome, mãos subindo por baixo da camiseta, apertando a barriga macia. Tiago gemeu na boca dele, sentindo o pau endurecer contra a coxa de Daniel.
Mas eles pararam. Não foi o momento. Ainda não.
À tarde, deitaram no chão da varanda. Tiago deitado de bruços sobre o peito de Daniel, ouvindo o coração bater enquanto Daniel acariciava suas costas por baixo da camiseta.
— Tu já pensou em morar aqui? — Daniel perguntou de repente, voz baixa.
Tiago ergueu o rosto.
— Aqui? No sítio? E o meu trabalho em Joinville?
— A gente dá um jeito. Tem agência de publicidade nas redondezas. Tu poderia trabalhar remoto. Ou abrir algo teu. Eu ajudo no que precisar. Em tudo.
Tiago piscou, surpreso.
— Tu tá falando sério?
— Tô. — Daniel olhou nos olhos dele. — Eu não quero só dez dias. Quero mais. Muito mais.
Tiago sentiu o peito apertar de emoção.
— Eu… eu preciso pensar. Mas… a ideia não me assusta. Pelo contrário.
Daniel beijou a testa dele.
— Então pensa. Sem pressa. A gente tem tempo.
Quando o sol começou a baixar, eles entraram para preparar o jantar. Daniel acendeu a churrasqueira no quintal, Tiago preparou a salada. Eles comeram na varanda, sob a luz das estrelas que começavam a aparecer. Conversaram sobre o futuro — não com planos concretos, mas com possibilidades. Sonhos que antes pareciam impossíveis agora pareciam alcançáveis, porque estavam juntos.
Depois do jantar, sentaram no sofá de novo. Daniel puxou Tiago para o colo, mas dessa vez sem urgência sexual. Só abraço. Carinho. Beijos lentos.
— Amanhã a gente pode ir até a cidade comprar algumas coisas — Daniel murmurou. — Ou ficar aqui o dia todo. Tu decide.
Tiago sorriu contra o pescoço dele.
— Ficar aqui. Só nós dois.
Daniel apertou o abraço.
— Combinado.
Eles subiram para o quarto de Daniel. Deitaram na cama grande, de conchinha. Daniel atrás, braço envolvendo a cintura de Tiago, queixo no ombro dele.
— Boa noite, amor — Daniel sussurrou.
Tiago sorriu no escuro, sentindo o coração bater em paz pela primeira vez em anos.
— Boa noite, meu amor.
Eles adormeceram assim.
Juntos.
Sem pressa.
Mas com a certeza de que o amanhã seria tão intenso quanto a noite anterior — talvez mais.
Continua…