Vivemos numa época de extremos, onde tudo é permitido, de certa forma, mas também uma época na qual os velhos julgamentos morais ainda repousam por baixo das cinzas do velho mundo de nossos pais e avós. Muita coisa não é mais dita, mais por medo do que por compreensão. Não é que as pessoas que, nos anos noventa, faziam piadas maldosas tenham se convertido de corpo e alma à nova visão de mundo. Muito pelo contrário: o que aconteceu, a meu ver, foi que essas pessoas se calaram para não serem alvo de ações judiciais e coisas afins.
O problema não foi resolvido, apenas anestesiado. Mas, enfim, por que eu estou dizendo isso? Por que isso importa? Acontece que o medo não une, ele separa. Dificilmente você será amigo de alguém se tiver medo de ofender essa pessoa. A amizade se consolida justamente quando esses medos e bloqueios são derrubados. É assim que o amigo ri do dia em que você bebeu demais e vomitou no Uber enquanto voltava para casa. É assim que você ganha um apelido que raramente vem de uma qualidade boa que você tenha — muito pelo contrário.
Os amigos derrubam as portas do melindre, e é justamente isso que os torna valiosos. São eles que te forçam a ver, reconhecer e até rir de seus defeitos mais doloridos. E, quando você ri, o defeito deixa de machucar, passa a ser parte de você, de sua identidade. Os amigos fazem você acolher esse defeito ao invés de escondê-lo.
Mas, quando defeitos não podem ser vistos, eles se tornam barreiras invisíveis. O momento em que você tem receio de dizer algo que machuque alguém é o momento em que você começa a se afastar. É quando a falsidade aparece, e um sorriso falso ou um elogio falso provoca a desconfiança e, junto dela, a separação. É assim, no meu entender, que grupos acabam se isolando. E veja bem, não estou dizendo que devemos liberar as piadas ofensivas, mas podíamos deixar de nos ofender tanto com elas.
Carolina parece ter entendido assim a realidade. Enquanto vários colegas se isolavam em seus grupos usando a bandeira do arco-íris, Carolina, que originalmente era Carlos (ela mesma afirma isso com certa frequência), acabou indo para o outro grupo. Foi assim que eu a conheci.
Na faculdade, eu fiz amizade primeiro com o Felipe e com o Ramon. Mas o Ramon logo nos apresentou a outro grupo de amigos numa noite de sexta-feira em um bar. Nesse outro grupo havia uma única menina: Carolina. Apesar de bonita e extrovertida, chamou minha atenção que nenhum dos colegas parecia interessado em ficar com ela; todos conversavam sem ressalvas, riam juntos, mas ninguém flertava. Ela tinha um olhar firme e riso fácil. E logo nossos olhares se encontraram. A face branca com bochechas rosadas e aquele sorriso mexeram comigo instantaneamente. E ela percebeu isso.
E não perdeu tempo se fazendo de difícil. Puxou assunto, perguntou o meu nome e que curso eu fazia, enquanto os outros se levantaram para jogar na mesa de bilhar. Estávamos de frente um do outro e a conversa fluiu fácil, mesmo com minha timidez. Ramon, que esperava a vez de dar uma tacada, me olhou com um ar preocupado, ou, sei lá. Tinha um misto de preocupação, expectativa e deboche. Não era só ele que estava prestando atenção em meio a risos contidos. Carolina seguiu meus olhos e olhou para eles antes de retornar seu olhar para mim. Seus olhos perderam a cor em uma respiração funda que demonstrava ansiedade. Depois olhou para o lado, pegou o copo de cerveja na mão e tomou uns goles.
— Já te contaram?
Olhei para ela sem entender, enquanto os olhares dos demais miravam em nós.
— O quê?
— Conta, conta, conta… — repetia o grupo.
Ela revirou os olhos num misto de deboche e dor. Seu dedo alcançou a base do olho, enxugando uma lágrima que ameaçava rolar bochecha abaixo. Mas ela logo se recompôs.
— Ah, esses guris! Eles não te contaram que eu já fui Carlos?
Um frio subiu pela espinha, arrepiando meus cabelos. A gurizada na mesa ria sem controle e sem dó, enquanto meu sangue fervia. A boca dela começou a sorrir aos poucos e terminou numa gargalhada que se juntou às dos outros. Fiquei sem saber se era sério ou mais uma brincadeira.
— É sério? — perguntei com um sorriso nervoso, quando as gargalhadas diminuíram.
Ela não disse nada, só levantou os ombros e os braços num sinal que confirmava tudo.
— Peraí, deixa eu te mostrar — veio um amigo com o celular já em mãos e umas fotos.
— Aí não, gente! Não, pelo amor… — protestou ela, cobrindo o rosto com as mãos.
Parecia que eu estava olhando para uma daquelas gravuras que tanto podem ser um pato quanto um coelho. Não consegui ver o Carlos nas feições de carne e osso, mas, de repente, percebi que o tom daquela voz era um pouco mais grave do que o esperado; o pescoço, um pouco mais longo; e o pomo de Adão era o detalhe que meus olhos não haviam encontrado até aquele instante.
— É um milagre da cirurgia plástica! — disse o outro, entre risos.
Os outros se aproximaram da mesa. Um, com o taco na mão, foi o primeiro a abraçá-la pelo pescoço, por trás da cadeira.
— Mas, seja como for, nós a amamos muito — disse ele, com seu gesto sendo seguido pelos demais.
Ela deu uns tapas de faz de conta no que me mostrou as fotos, quando este se aproximou para abraçá-la, e logo voltou tudo ao normal, como estava antes da revelação. Só eu, que estava tímido antes, agora estava mudo.
Carolina continuava olhando para mim. Um olhar que não escondia o interesse, mas que também se revestia de dúvida. No entanto, duvido que tivesse mais dúvidas do que as minhas. Eu queria saber: como ela mudou tanto? Como ficou tão feminina? E por que outras trans na faculdade continuavam parecendo homens com seios, enquanto ela definitivamente era uma mulher na aparência? Uma mulher com… Será que ela ainda mantinha aquilo? Mas como eu ia sair perguntando essas coisas?
Vendo que eu não conversava, ela se levantou e foi em direção a uma jukebox para escolher umas músicas.
Ramon, que perdera o jogo, veio se sentar ao meu lado.
— Caramba! Parece que você viu um fantasma, Henrique! — disse rindo e enchendo o copo de cerveja. — Eu também levei um susto quando soube, mas acho que a cara que tu fez foi muito mais engraçada!
— Eu… eu nunca teria percebido…
— Dá um medo, né? Já pensou que tu podia estar beijando ela sem saber? Haha!
Enquanto falávamos, Carolina tomou o lugar de Ramon na mesa. Ela usava um jeans bem colado nas pernas torneadas. Uma blusa azul curta, mas não curta demais. Dava para ver que não tinha silicone, mas muitas mulheres têm seios pequenos e nem por isso são menos lindas. Mas o que meus olhos queriam saber, enquanto ela se inclinava para tacar a bola, era se uma parte do Carlos ainda estava presente naquele corpo.
A curiosidade era tanta que eu já nem disfarçava mais o olhar direito. Acho que os goles a mais de cerveja que tomei depois da revelação também contribuíram um pouco para a minha indiscrição.
O jogo não demorou muito para acabar. Carolina ganhava todas.
— Eu sou uma mulher que sabe usar o taco melhor do que vocês.
A provocação levantou risos e outras provocações. Depois das risadas, nossos olhos se encontraram mais uma vez. Seu olhar não escondia o desconforto.
— A cerveja ajuda a criar coragem para perguntar ou só serve para você ficar me encarando? — disse ela para todo o salão ouvir.
A pergunta pareceu uma facada. De fato, eu estava me comportando muito mal.
O silêncio no bar ficou tão denso que eu podia ouvir o som da geladeira ao fundo. Eu tinha duas opções: me afundar na cadeira ou levantar a cabeça. Escolhi a segunda, embora minhas mãos estivessem levemente trêmulas.
— Me desculpa, Carolina. — eu disse, e minha voz saiu mais firme do que eu esperava. — Eu estava me comportando como um idiota. É que eu não sou tão bom em lidar com surpresas quanto você é no bilhar.
Ela continuou me encarando, o taco de madeira apoiado no chão como se fosse um cetro. O grupo de amigos assistia à cena como se fosse o final de um campeonato.
— Já que você disse que sabe usar o taco melhor do que nós... — fiz uma pausa, indicando a mesa verde. — Você aceita um jogo? Mas aviso logo: eu sou um péssimo perdedor.
Um sorriso de canto apareceu nos lábios dela. Não era um sorriso de deboche, mas de quem aceitava o desafio.
— Henrique, né? — ela perguntou, estendendo um taco reserva em minha direção. — Vamos ver se você presta atenção no jogo tão bem quanto presta na minha bunda.
Já comecei errado ao deixar ela dar a primeira tacada. Foi uma tacada forte e precisa que espalhou todas as bolas e fez duas caírem nas caçapas. E aí começou o baile. Ela acertava bola por bola. Subia na mesa para se posicionar direito, sem receio de se expor. Cada acerto dela fazia meus pensamentos esquecerem do embaraço e se concentrarem no que ainda restava do jogo.
Ela tinha a habilidade de quem tem muita experiência no jogo. A cada tacada, Carolina se movia com liberdade, debruçava-se sobre a mesa com o corpo esticado. Numa tacada, lançou um olhar por cima do ombro, piscando para mim enquanto uma bola batia seco no fundo da caçapa. Faltava apenas uma bola dela e a preta para ela ganhar, mas o ângulo era difícil até para os mais experientes.
A expectativa era grande; todos estavam em volta para ver a atleta ganhar o jogo. Foi por muito pouco que a bola parou logo na frente do buraco.
— Tá muito quieto, Henrique. O gato comeu sua língua ou o Carlos ainda está atrapalhando sua visão? — ela provocou, rindo, enquanto contornava a mesa com passos leves.
— O Carlos eu já nem vejo mais — confessei, e para minha surpresa, era a mais pura verdade. — Estou tentando entender como você consegue ser tão irritante e tão boa jogadora ao mesmo tempo.
Ela soltou uma gargalhada gostosa, daquelas que vêm do peito.
— É um dom. A maioria dos homens trava quando percebe que eu não sou o que eles projetaram. Mas você... você parece que está começando a se divertir.
Aos poucos, o peso no meu peito deu lugar a uma leveza estranha. Começamos a trocar farpas, risadas e até encostões "acidentais" quando passávamos um pelo outro para buscar o giz. Havia uma familiaridade ali que desafiava a lógica. Era como se a gente já tivesse se provocado em outros bares, em outras vidas, e estivéssemos apenas continuando uma conversa interrompida.
O jogo chegou ao fim de forma eletrizante. Sobravam apenas a bola preta e uma das minhas. Carolina se preparou para a tacada final, uma jogada simples para quem já tinha feito milagres naquela mesa. Ela mirou, hesitou por um milésimo de segundo — um brilho de travessura nos olhos — e o taco pegou de mau jeito. A preta apenas beijou o canto da caçapa e parou a dois dedos do buraco.
— Ah, não! Que erro amador! — ela exclamou, fingindo uma frustração que não convencia ninguém, mas que me deu o passe livre que eu precisava.
— Que pena, Carolina. Parece que o jogo virou — eu disse, aproximando-me.
Pintei a ponta do taco com o giz, sentindo o olhar dela queimando no meu rosto, não mais com dúvida, mas com expectativa. Me posicionei com calma. O nervosismo tinha ido embora. Dei a tacada com precisão cirúrgica: a minha bola bateu na preta, que mergulhou na caçapa com um som satisfatório.
— Você errou de propósito — sussurrei, ficando perto o suficiente para sentir o perfume dela, que agora misturava notas doces com o cheiro da cerveja.
— E você joga muito melhor do que admitiu — ela retrucou, diminuindo a distância entre nós. — O que prova que a gente não deve acreditar em tudo o que as pessoas dizem na primeira impressão.
Antes que eu acabasse perto demais, quase “beijando ela sem saber”, como me alertara Ramon, senti a mão de Felipe no meu ombro.
— Vamos comer um Xis? Estou com fome e a gurizada já está pagando a conta lá embaixo.
A voz alta do Felipe teve o efeito de trazer o bar de volta e, com ele, a realidade; mas o que aconteceu entre mim e Carolina ali estava longe de morrer. Ela se afastou um centímetro, mas manteve aquele sorriso de quem sabia exatamente o que quase tinha acontecido.
— O Xis da rodoviária? — perguntou ela, guardando o taco no suporte com naturalidade e com uma dose de alegria, como se fosse ela quem tivesse vencido o jogo. — Se for por conta do Henrique, eu aceito. Afinal, ele ganhou o jogo, não foi?
Ela piscou para mim, e eu entendi que aquele "erro" na última bola tinha sido o seu investimento.
— É por minha conta — respondi, apesar de um pressentimento de que aquilo não acabaria do jeito que eu estava “acostumado”. Mas e daí? A vida é para experimentar coisas novas, não é mesmo?
A verdade é que eu já havia esquecido do Carlos. Descemos as escadas com o restante do grupo. O frio da rua bateu no rosto. Na frente, estavam os guris rindo de uma piada que eu não ouvi direito e nem me importei. Atrás, Carolina se encaixou ao meu lado, e o toque do braço dela contra o meu parecia a coisa mais natural do mundo.
Ramon e Felipe estavam no meio; pareciam surpresos, mas não era só isso. Tinham um misto de admiração e, talvez, uma pontada de inveja em seus olhares. Todos ali tiveram oportunidade, mas só eu parecia ter sido capaz de romper as barreiras mentais de nossos ancestrais. Carolina caminhava tão perto, só esperando minha atitude. Comecei estendendo o dedo mindinho até encontrar o dela; ela olhou sem falar nada e estendeu o dela de volta.
O papo naquela lanchonete estava mais descontraído e respeitoso. Ninguém mais falava do passado de Carolina, que sentara ao meu lado. Falávamos de tudo um pouco: música, séries, trocávamos nossas opiniões sobre vários assuntos e íamos nos conhecendo. Carolina mantinha o riso fácil e me convidava para rir junto.
Os demais não pareceram se importar conosco. Só no final, quando a barriga cheia chamou o sono e a cabeça dela escorou em meu ombro, foi que um amigo tomou a coragem de assumir:
— Fico muito feliz de ver a Carolina assim. Ela é uma mulher e tanto; espero que você a mereça, Henrique.
— Para de assustar, Marcos — disse ela, com voz de sono.
A fala dele me fez rir de nervoso; ainda não sabia se aquilo era para durar ou se era só uma aventura. Na verdade, eu sabia, sim, mas ainda não tinha coragem de admitir para mim mesmo. Carolina me encarou, olhando fundo nos meus olhos; parecia ver algo a mais lá dentro deles. Sua boca sorriu suavemente e ela voltou a deitar a cabeça no meu ombro.
Havia dado um passo em falso; de certo modo, havia me comprometido, mesmo que tacitamente, com uma mulher diferente, sem saber o quão volumosa era essa diferença. Ou o quão ardida ela podia ser.
Não foi necessário convidar Carolina para a minha casa; ela mesma se convidou, sem o menor constrangimento. Disse que morava longe e que estava com muito sono para ir até lá. Eu não estava preparado para receber visitas; o apartamento estava um caos. Caos maior, só ela. Disse que queria tomar um banho às quatro da manhã. Eu tentei convencer de que não precisava, mas ela queria mesmo assim. Enquanto eu ia procurar uma toalha limpa, ela se deitou na cama. Quando voltei, já havia pegado no sono.
Quando a vi, senti um frio na barriga. Foi a primeira vez que pude olhar para ela em um ambiente bem iluminado. Sua pele era macia, branca, mas as bochechas continuavam rosadas. O rosto de menina não me enganara quando a luz era pouca; era realmente feminino e lindo. Tive que pegá-la no colo para tirá-la do meio da cama e conseguir um espaço para mim. Ela, sentindo o movimento, meio que acordou e, quando me deitei, ela se virou e se abraçou em mim.
E foi assim a nossa primeira noite juntos: sem sexo, sem sequer beijos, apenas o calor um do outro.
