As palavras de Han Lueang me confirmam que este não é um assunto simples. Eles são soldados, não meros cidadãos. Até suas montarias estão armadas como cavalos de guerra. Além disso, o tal Rei Kham é o governante de Chiang Mai. Como Seehasingkorn foi tomada por Chiang Mai, esses soldados têm todo o direito de levar adiante o que seu rei ordena ao povo de Seehasingkorn.
Meu coração martela, minhas mãos congelam de medo. Apesar da postura hostil, Han Lueang não é impetuoso como Han Kaew, que parece pronto para atacar como um cão selvagem irracional.
— Qual é a ordem do rei? Esclareça-nos, Han Lueang. Suas palavras são bastante ofensivas, como se tivéssemos cometido um crime e precisássemos ser tratados com força. Isso é considerado um insulto a Sua Alteza Real — responde o Comandante Yai de forma direta. — Você está entregando a ordem apenas com palavras e trouxe apenas uma dúzia de soldados. Algo improvável para um mensageiro real. Como eu deveria acreditar em você?
— Quanta arrogância, Comandante Yai. — O rosto de Han Lueang escurece de raiva. — Eu não recebi a ordem diretamente de Sua Majestade. Acompanhei o Chefe Fahkum, o mensageiro oficial, mas nossos grupos se separaram para viajar por rotas distintas. Independentemente disso, compartilhamos o mesmo propósito.
— Se é assim, por favor, traga San Fahkum, o verdadeiro mensageiro da ordem do rei, e então eu acreditarei em você.
— Como ousa, Comandante Yai! — Han Kaew ruge ao lado de Han Lueang. — Han Lueang, não espere mais. Não vamos perder tempo com esses canalhas indignos de confiança. Aquela mulher nada mais é do que uma refém de Seehasingkorn. Só precisamos levá-la de volta para Chiang Mai.
— Idiota! — brada o Comandante In.
Ele flanqueia o Comandante Yai em fúria.
— Eu não tolerarei uma única ofensa contra Sua Alteza Real!
Com isso, Han Kaew, que estava esperando por este momento, galopa para frente com sua lança em direção ao Comandante In. O Comandante In bloqueia o ataque e revida com sua própria lança. O restante dos soldados do Rei Kham avança com seus cavalos. Ambos os lados colidem, batalhando entre si com as armas em punho.
Meus olhos se arregalam em pânico. Tudo acontece muito rápido e de repente. O grito aterrorizado das servas ressoa em meio ao clangor das armas colidindo. Cada um corre para longe do círculo de batalha. Escondo-me atrás de uma carroça de bagagem, meu coração batendo tão forte que parece que vai pular do peito. Mesmo que estejamos em maior número, a maioria dos nossos soldados é de infantaria. A cavalaria certamente tem a vantagem. A batalha é horrorosa. O Comandante Yai luta contra Han Lueang, mas as habilidades de combate do Comandante Yai são obviamente superiores.
A lança de Han Lueang é derrubada de sua mão, e dois dos soldados de Chiang Mai se aproximam. O Comandante Yai agora está cercado pelos dois oficiais da cavalaria, com Han Lueang retornando à luta. Assustado, procuro pelo Comandante In e o vejo manejando sua lança no meio daqueles homens. É evidente que o objetivo deles é derrotar o Comandante In e o Comandante Yai, os líderes, para fazer os soldados fraquejarem e se renderem.
Em meio à situação estressante, percebo que Han Kaew puxa as rédeas para desviar seu cavalo da batalha e se dirige para cá. Calculo sua ação em alarme... Sem dúvida, ele está abrindo caminho além da linha de carroças na direção da tenda da Princesa Amphan!
Um servo agarra uma espada e corre para bloquear o caminho. Ele é atingido pela lâmina da lança de Han Kaew e desaba no chão.
Han Kaew acelera e presumivelmente passará por mim em direção à área das tendas. Decido em um segundo e agarro uma lança na carroça. Sei que não possuo habilidades de combate e não acho que obstruir soldados experientes vá detê-lo. Han Kaew está se aproximando e passará voando por mim em poucos segundos. Saio do esconderijo e firmo os pés no chão; então, reúno toda a força no meu ombro e arremesso a lança com todo o meu poder.
THUD!
A lança roça o pescoço do cavalo e cai no chão. O golpe não é preciso o suficiente para atingir o animal ou Han Kaew, mas faz o bicho perder o equilíbrio. O cavalo relincha e empina antes de virar a cabeça em minha direção. Dou um passo para trás em terror, tropeço em uma pedra e caio sentado. Han Kaew se vira para mim, seus olhos longos e sinuosos extremamente ameaçadores. Meu coração despenca quando ele ergue sua lança.
SWISH!
Uma lança atravessa o peito de Han Kaew, direto no coração. A figura sobre a montaria fica rígida. Assim que a lança é arrancada, sangue carmesim jorra do buraco no peito de Han Kaew, espalhando-se pela grama e no meu rosto em pontos vermelhos.
O Comandante In aparece diante de mim em seu cavalo, empunhando a lança coberta pelo sangue de Han Kaew. Han Kaew cai do cavalo e fica estendido no chão a poucos centímetros de mim.
Uma de suas mãos agarra meu tornozelo. Tremendo, observo seu corpo convulsionar. Os olhos de Kaew saltam enquanto o sangue jorra de sua ferida como uma fonte. Segundos depois, seu corpo fica imóvel. Alguém grita o nome de Han Kaew no dialeto do norte, o que interrompe a batalha. Han Lueang se afasta da luta e cavalga em nossa direção. Removo a mão de Han Kaew do meu tornozelo e me arrasto para trás.
Han Lueang desmonta e acuna o corpo morto de Han Kaew. Tudo cai em silêncio. Han Lueang trinca os dentes, fervendo de fúria.
— Comandante Yai, você foi longe demais. Levou a princesa embora, recusou-se a devolvê-la e matou Han Kaew, um soldado de alto escalão, não um mero infante. Isso é a prova da insolência de Seehasingkorn, uma ação rebelde contra Chiang Mai.
— Você está enganado, Han Lueang — argumenta o Comandante Yai. — Não temos má vontade contra vocês nem somos rebeldes contra Chiang Mai. Apenas nos defendemos do seu ataque. Além disso, estou simplesmente escoltando Sua Alteza Real de volta a Seehasingkorn conforme Sua Majestade, o Rei Kham, ordenou, visto que Sua Alteza Real sofreu de uma enfermidade.
— Isso é mentira, Comandante. — Han Lueang encara o Comandante Yai. — Sua Majestade nunca permitiu que a Princesa Amphan fosse além dos muros de Chiang Mai. Já que as duas princesas se submeteram a Sua Majestade como um ato de lealdade, como Sua Alteza Real poderia partir sem permissão?
O Comandante Yai fica atônito. Han Lueang prossegue:
— Enviei alguém para informar San Fahkum e Sua Majestade. Esteja preparado, Comandante. Amanhã, voltarei com San Fahkum, o mensageiro da ordem do rei. Se não deseja morrer aqui, traga a princesa e a pessoa que matou Han Kaew para nós. A investigação e a punição serão discutidas quando estivermos em Chiang Mai.
— Se o Comandante Yai insistir em levar Sua Alteza Real embora — os lábios de Han Lueang se contorcem em um sorriso hostil —, em poucos dias, as vidas de seu povo e sua cidade serão obliteradas. Não pouparemos nem as crianças pequenas e bebês. A única coisa que restará será o nome de Seehasingkorn para ser lembrado no futuro como a cidade caída.
Han Lueang e o restante dos soldados do Rei Kham galopam para longe em seus cavalos com o corpo morto de Han Kaew, levantando poeira atrás de si. O Comandante Yai e o Comandante In ficam parados por um momento, então o Comandante Yai lentamente se vira. Seu olhar para o Comandante In envia calafrios por toda a minha pele. Sua voz é profunda e baixa.
— In, não foi você quem recebeu a ordem do rei no dia em que escoltei Sua Alteza Real, a Princesa Duean Klum, ao Templo Lee Chiang Phra?
O que acontece depois disso está além da minha imaginação.
O Comandante In admite que armou toda a situação para enganar o Comandante Yai. No dia em que o Comandante Yai acompanhou a Princesa Duean Klum, irmã da Princesa Amphan, ao Templo, o Comandante In mentiu, dizendo que o Rei Kham havia enviado seu mensageiro à sua residência para entregar a ordem.
Ele forjou a ordem para trazer a Princesa Amphan de volta a Seehasingkorn. A verdade deixa todos em choque. Nunca vi o Comandante Yai com esse tipo de emoção antes. Ele trinca os dentes com uma expressão estressada, mas seus olhos transparecem dor.
— In, que espírito te possuiu para fazer uma coisa dessas? Você sabe que precisamos preparar nosso exército, junto com elefantes e cavalos, e treinar nossos soldados. Assim que colhermos nossas safras após a estação chuvosa, Seehasingkorn declarará independência no décimo segundo mês. Você não podia esperar um ano? Por que arruinou nosso grande plano com seu esquema imprudente?
— Eu não podia esperar, pois escondi algo de você.
— O que é?
— Sua Alteza Real está grávida.
As palavras do Comandante In paralisam a todos, inclusive a mim.
O médico real é chamado para esclarecer a situação imediatamente. Ele admite que o que o Comandante In revelou é a verdade. A fadiga e as náuseas da princesa são sintomas da gravidez. A princesa ordenou ao médico que mantivesse segredo. A outra pessoa que sabe disso é sua dama de companhia mais próxima.
— Por que Sua Alteza Real queria que o senhor escondesse isso? — pergunta o Comandante Yai.
O médico hesita. O Comandante Yai continua com uma voz gélida:
— As coisas chegaram a este ponto, e o senhor ainda insiste em esconder segredos de mim?
Finalmente, o médico confessa:
— Tive que ocultar porque Sua Majestade, o Rei Kham, nunca solicitou a presença de Sua Alteza Real em particular. Seria impossível que Sua Alteza Real tivesse engravidado de Sua Majestade.
As palavras do médico são como um raio nos atingindo. O Comandante Yai está estupefato. Ele se vira para o Comandante In e o encara como se nunca tivesse conhecido aquele homem antes. Acho que o Comandante Yai já percebeu quem engravidou a princesa.
— Ai-In! — ele grita.
O Comandante In baixa o olhar, admitindo a culpa. Cerrando os punhos, ele diz:
— Já que tudo foi revelado, o que você sugere que façamos, irmão?
— Como você ousa! Você cometeu um ato impertinente, sem nenhum respeito!
— Se você tiver que me castigar ou me matar, eu não vou revidar. Mas você pode impedir o amor? Uma vez que ele surge em alguém, não é diferente de uma chama inextinguível que queimará a pessoa até o fim. Eu sou culpado, então aceitarei meu castigo.
— Você está alegando que é amor? — O Comandante Yai aponta para o rosto dele, fervendo de raiva. — Mas é certo colocar nossa cidade em perigo? Você não se importa consigo mesmo, mas e quanto ao nosso povo?! Passou pela sua cabeça que eles estariam condenados por causa da sua ação?!
O Comandante In aperta os lábios com força, admitindo a culpa em silêncio. O Comandante Yai lateja uma ordem:
— Capitão Mun, algeme-o e prenda-o!
O Capitão Mun corre em direção ao Comandante In conforme ordenado e coloca as mãos dele para trás. As algemas são trazidas para prender os pulsos e os tornozelos do Comandante In.
— Pare, Comandante Yai!
Uma voz ressoa, atraindo a atenção de todos. A Princesa Amphan entra no espaço aberto. Todos se ajoelham no chão.
— Você vai acorrentar o Comandante In e prendê-lo como um animal?
— O Comandante In cometeu um crime e deve receber a pena capital, Sua Alteza Real.
— Solte-o.
— Não posso, Sua Alteza Real. Por favor, perdoe-me.
— Como ousa me desobedecer, Comandante Yai!
O Comandante Yai permanece em silêncio, sua postura inabalável. A Princesa Amphan cerra os punhos, fixando o olhar nele. Sua voz falha um pouco:
— Comandante Yai, em vez de me levar de volta para Seehasingkorn, você vai me mandar de volta para Chiang Mai apesar da minha gravidez, não vai?
— Não posso agir contra a ordem do rei, Sua Alteza Real.
A Princesa Amphan fica atônita, seu corpo tremendo.
— Que soldado leal. — ironiza — Meu irmão não deve estar decepcionado por ter atribuído uma tarefa tão importante a você. — Ela ergue o queixo, com os olhos resolutos. — Se o Comandante Yai acredita que sou culpada deste pecado e mereço perecer, então mate a mim e ao meu filho aqui mesmo. Não tema nenhuma sentença de traição. Cometi um crime imoral, uma ação inaceitável para alguém nascido sob a sombrilha real de nove níveis, por isso não sou diferente de uma mera escrava, não uma princesa. Prefiro ser morta por você do que pelas mãos do nosso inimigo.
— Não tenho poder para ir além do meu dever. Recebi a ordem de Sua Alteza Real, o Príncipe Seeharaj, para enviar as duas princesas a Chiang Mai para serem entregues a Sua Majestade, o Rei Kham, e eu seguirei com isso. Damas reais, escoltem Sua Alteza Real de volta à tenda. Quem desobedecer à minha ordem, sua ação será considerada uma rebelião contra Sua Alteza Real, pois terá desafiado o comando do príncipe.
A Princesa Amphan permanece em silêncio, lágrimas escorrendo pelo rosto sem um soluço. As damas reais choram enquanto escoltam a princesa de volta ao seu abrigo. O Comandante In lança-se à frente e curva-se aos pés do Comandante Yai, implorando:
— Irmão, por favor, tenha misericórdia. Envie-me ao Rei Kham para ser executado. Não temo a morte. Mas, por favor, não leve Sua Alteza Real ao Rei Kham.
O Comandante Yai balança a cabeça.
— Não posso desafiar a ordem do rei.
Sua rejeição inflexível faz o Comandante In levantar o olhar. Ele encara o Comandante Yai, sem palavras, seus olhos tristes tornando-se incandescentes com lágrimas.
— Yai! Você vai enviar meu amor e meu filho para a morte?!
— Cale a boca, Ai-In! — O Comandante Yai ruge. — Você é um soldado, mas sua ação é tão baixa quanto a de um escravo. Você vai apodrecer no inferno, não tem noção?! Você não deveria ter buscado a flor proibida. Sua decisão trará um desastre sobre todos nós. Não deixarei sua ação impensada arruinar nosso grande plano!
— Yai, meu irmão — soluça o Comandante In. — Você não tem coração como os outros? É uma rocha no seu peito que distorce sua mente? Se você não tem afeição ou bondade por mim, meu amor por você cessará. Não somos mais irmãos a partir deste momento. Em todas as vidas, jamais renasceremos como irmãos novamente!
O Comandante Yai trinca a mandíbula. Ele agarra as correntes para prender o Comandante In. In luta para se libertar, mas perde para a força de Yai. Ele o acorreta e o arrasta até a carroça que contém grandes animais enjaulados, como cabras e porcos, o suprimento de comida da nossa jornada. Ele empurra o Comandante In para dentro e tranca a porta, seu rosto sombrio, seus olhos cheios de dor durante todo o tempo.
— Ai-Yai! — grita o Comandante In furiosamente, lágrimas inundando seu rosto. — Seu bastardo sem coração, eu te amaldiçoo a nunca ter sucesso no amor como os outros. Se você algum dia entregar seu coração a alguém, espero que sejam forçados a se separar. Você cairá na miséria e na dor nesta vida e na próxima!
O Comandante Yai se afasta. Ele não olha para trás, apesar dos xingamentos contínuos do Comandante In. Fico ali parado, em choque. O que está acontecendo diante de mim envia um frio ao meu peito, e algo me atinge. Não estou imaginando coisas. Acreditamos que uma pessoa já foi alguém em outra vida, em parte de acordo com a crença na reencarnação passada por gerações.
Agora sei que não é só isso. Não é apenas a aparência ou o físico. Há algo intangível também. O aspecto abstrato. Algo que podemos perceber com sentimentos. É a natureza do indivíduo, impregnada em cada molécula de uma pessoa, nunca mudando, não importa a vida.
Khun-Yai... Não importa se ele é o gentil Khun-Yai ou o formidável Comandante Yai, ele é íntegro e cumpridor do dever por natureza. Eu sei o quanto Khun-Yai em 1928 me amava. Ele não queria estudar na Inglaterra e me deixar esperando, mas sabia e entendia que era seu dever e que ambos precisávamos ser pacientes. O Comandante Yai acorrentou seu próprio irmão com as próprias mãos. Ele amava o Comandante In e ficou devastado por fazer aquilo. No entanto, tinha que ser feito pelo bem de sua cidade.
Mas Ohm... Não importa se ele é o Comandante In ou Ai-Kumsan, algo que nunca muda em cada vida é a honestidade extrema aos seus desejos, a ponto de ser egoísta. Ele tentou obstinadamente manter seu relacionamento com Fongkaew, mesmo sabendo que isso a colocaria em grandes apuros. Na minha era, ele escolheu Kaimook e terminou seu relacionamento de quatro anos comigo sem hesitação. Ohm ainda é Ohm. Ele se importa com os próprios sentimentos mais do que com os de qualquer outra pessoa.
Afasto-me da cena e me sento em uma rocha mais longe das carroças. Em vinte e quatro horas, os soldados do Rei Kham voltarão. A atmosfera está envolta em desespero. Quase não falamos. As palavras são ditas apenas por dever. O Comandante Yai nos divide em dois grupos. Um seguirá a Princesa Amphan até Chiang Mai sob a responsabilidade de San Fahkum. O Comandante Yai ordena que alguns soldados habilidosos se disfarcem no grupo de servos.
O outro grupo voltará para Seehasingkorn.
Fico ali sentado em silêncio por horas em meio a essa situação impotente. O sol se põe lentamente, sinalizando que a luz desaparecerá em poucas horas e será substituída pela escuridão. Faço uma pergunta ao Capitão Mun quando ele se senta no chão ao meu lado.
— O Comandante In receberá a pena de morte?
— Existe outra escolha? — ele responde amargamente. — Eles não o deixarão viver para servir de mau exemplo aos outros.
Assinto, pensando no que o Comandante Yai declarou sobre como o Príncipe Seeharaj, o governante de Seehasingkorn, declarará independência da anexação de Chiang Mai. Eles passarão os próximos oito ou nove meses preparando seu exército e armas para a condição ideal, caso precisem lutar contra Chiang Mai novamente.
Olho ao redor em transe. Essas pessoas são meus amigos, um grupo que o destino reuniu para formar um vínculo comigo em um determinado período de tempo. Sinto raiva por não ter a capacidade de ajudá-los mais do que isso. Além disso, tenho tão pouco conhecimento de história. Sei que Chiang Mai, no passado, foi anexada por Mianmar e pelo Reino de Ayutthaya inúmeras vezes, mas houve épocas em que foi independente, como agora.
No entanto, não tenho ideia de quanto tempo durou o reinado do Rei Kham. Atualmente, seria este o auge de Chiang Mai, ou o reino está enfraquecendo e logo será anexado por outro? Que chances Seehasingkorn teria em uma luta contra o Rei Kham agora? Mal tenho as respostas para essas perguntas.
Tudo o que posso fazer no momento é ganhar tempo, conforme o Comandante Yai planejou. Talvez o reinado do Rei Kham termine logo, e Chiang Mai seja anexada por Ayutthaya ou Mianmar novamente. Seehasingkorn seria simplesmente uma cidade na rota de viagem, fazendo fronteira com Tak, estabelecendo relações cordiais com as cidades vizinhas, sem se submeter a reino algum. É o que espero. Tendo tomado uma decisão, reúno toda a minha bravura e coragem para me levantar e caminhar até o espaço aberto.
— Por favor, todos escutem!
Minha voz ressoa. Todos voltam os olhos para mim, incluindo o Comandante Yai e o médico real. O Comandante Yai franze a testa; ele deve estar sem a menor ideia do que pretendo fazer. Desvio meu olhar dele, concentrando-me no que estou prestes a dizer.
— Sei que todos vocês estão enfrentando uma situação difícil, e que resolver tudo está além da capacidade de qualquer um. No entanto, tenho uma oferta. Pode não virar o jogo, mas ajudará vocês a passarem por isso por enquanto.
Mantenho a cabeça erguida, olhando fixamente para frente, embora minhas mãos tremam. Espero que ninguém perceba. Por que deveriam enviar o Comandante In para a morte? Perderiam outro grande guerreiro com as habilidades de um comandante do exército de Seehasingkorn, e o Comandante Yai sofreria pelo resto da vida com a culpa de ter entregado o próprio irmão ao inimigo. Se eu me sacrificar, permitindo que o Comandante Yai leve o Comandante In de volta para receber sua punição do Príncipe Seeharaj, Sua Alteza Real poderá adiar a pena e fazer com que o Comandante In lute por sua terra natal. Com sorte, a sentença de morte pode ser reduzida a algo menos severo. Se ele morrer em combate, esse é o destino de um guerreiro.
Não estou fazendo isso pelo Comandante In, estou fazendo isso pelo Comandante Yai. Respiro fundo e digo:
— Eu tive participação no fato de o Comandante In ter matado o soldado de Sua Majestade, o Rei Kham. Entreguem-me a eles em vez do Comandante In.
Um clamor de surpresa reverbera de todas as direções. Evito contato visual com o Comandante Yai, com os punhos cerrados ao lado do corpo. Tento controlá-los para não tremerem.
...Não faço ideia de quando aconteceu. Talvez há alguns dias, ou mais. Estive tão fixado em sobreviver às situações imediatas, à miséria, à tristeza e à felicidade do amor, que nunca percebi a mudança mais significativa.
Continuo falando, tentando manter a voz firme:
— Vocês uma vez acreditaram que eu era um ser bizarro enviado por uma divindade e que poderia ser útil à sua cidade, como o médico real observou. A suposição estava correta. Por favor, não hesitem em me entregar em vez do Comandante In. Eu ficarei bem.
Aponto meu dedo trêmulo para o chão, reprimindo a onda de emoções despertada pelo pensamento de que não me resta muito tempo.
— Vejam por si mesmos. Se eu fosse um humano como vocês, sob a luz do sol neste momento, minha sombra seria tão nítida quanto a de vocês, e não pálida, como se fosse desaparecer logo, desta maneira.
