— Tio, o Louis e o Alex estão implicando com a Nu-Dao de novo!
A voz aguda de uma menina de cinco anos ecoa enquanto ela sobe as escadas batendo o pé em direção ao tio, que está sentado em uma cadeira de hóspedes na plataforma elevada, sob a sombra dos galhos que se espalham pela grande varanda de madeira. Os sons de provocação vêm do gramado abaixo. Os meninos gêmeos, com traços caucasianos, mostram a língua travessamente para a irmã antes de correrem para os fundos da casa, com a babá exausta logo atrás.
— O que eles fizeram? — pergunta a voz ressonante e profunda do dono da casa.
Ele é um homem alto, de caráter nobre, sentado com outra menina bem-comportada. "Khun-Yai" acaricia a cabeça de sua sobrinha mais nova com adoração quando ela se lança para abraçar sua cintura. Ele ainda não chegou aos quarenta anos, mas já é o "Tio Yai" de quatro crianças: Louis, Alex, Ueam Duean e Ueam Dao. Eles são descendentes do Capitão de Grupo Keerati Palatip, o "Khun-Lek", seu único irmão. A esposa dele engravidava poucos meses após o nascimento do filho anterior; além disso, os primogênitos são gêmeos.
Khun-Yai olha para o rostinho com traços mais europeus do que tailandeses, o que faz a menina parecer uma boneca. A esposa de seu irmão é britânica; eles se casaram enquanto Khun-Lek estudava na Inglaterra.
— Eles roubaram minha boneca — ela bufa através de seus lábios pequenos e fofos.
Embora fale um tailandês perfeito, seu sotaque é um pouco diferente, mostrando que foi criada no exterior ou que usa frequentemente uma língua estrangeira. A outra menina, que lê um livro ali perto, suspira com irritação.
— Você continua brincando com eles, apesar de saber que eles amam te amolar. Quando você chora e vem falar com o Tio Yai, isso só os diverte ainda mais.
Khun-Yai sorri. Suas duas sobrinhas podem ser parecidas, mas a mais velha, Ueam Duean, possui traços mais tailandeses. Seu rosto é expressivo e bonito, e seus modos são um tanto "orgulhosos", como os de seus avós. Ela não é travessa e energética como a maioria das crianças descendentes de europeus na Tailândia.
— Mas eles mexeram comigo! — Ueam Dao faz beicinho.
— Não reaja. Eles vão ficar entediados e parar de te amolar eventualmente — diz Ueam Duean, sem levantar os olhos do livro.
— Eu odeio os dois!
— Não, não diga que odeia seus irmãos.
Khun-Yai pega a sobrinha e a coloca no colo. Ele limpa as lágrimas das bochechas rosadas e radiantes dela.
— Vamos ler um livro com a Duean. Eu tenho muitos livros com gravuras. Há contos e livros de colorir também.
A garotinha para de ficar chateada imediatamente.
— Nu-Dao vai colorir os desenhos!
Ueam Dao corre para o armário de madeira antigo no salão para buscar os lápis de cor. Esta casa ainda mantém aquela vibração antiga, com os móveis velhos e o fato de nunca ter sido renovada. É uma casa pequena e aconchegante, sombreada em meio às árvores ao redor. As árvores de Lantom alinham o caminho da casa até o quintal que faz limite com o Rio Ping.
A atenção da menina é muito curta. Ela começa a ficar inquieta após alguns minutos de colorir. Quando percebe a babá trazendo lanches para os gêmeos no quintal, a pequena Ueam Dao corre escada abaixo, esquecendo-se da travessura recente dos irmãos.
Khun-Yai lê um livro calmamente com sua outra sobrinha, a filha do meio de seu irmão, sob a sombra suave das árvores e a brisa. Ele observa a expressão da sobrinha, concentrada na leitura. Seu rostinho é mais sério do que o de outras crianças de seis anos.
— Nu-Duean, você não quer sair e brincar? — ele pergunta.
— Quero terminar este livro primeiro, Tio Yai.
Khun-Yai abre um sorriso suave. Seu sorriso gentil apenas torna seu rosto mais sonhador, o charme de um homem de meia-idade calmo e controlado.
— Achei que você estaria entediada depois de tanto tempo sentada.
— Não estou entediada. Eu amo ler na sua casa.
— Você ama ler ou ama a casa? — ele provoca.
— Amo os dois. Quero que meu pai mude para Chiang Mai como o senhor, para que eu possa vir aqui todos os dias — diz a menina, e então se corrige. — O senhor me permitiria fazer isso?
Khun-Yai solta uma risada suave. A menina fala com eloquência e inteligência. Seus olhos castanhos claros, grandes e redondos, são límpidos e vivos, ao contrário de outras garotinhas que costumam agir de forma reservada diante dos mais velhos. O homem a observa em silêncio e pensa por um momento, então afaga a cabeça da menina com carinho.
— Nu-Ueam Duean, você ama esta casa?
— Sim.
— Se eu te der esta casa um dia, você promete fazer algo por mim?
Os olhos da menina se arregalam.
— Claro! Que promessa?
— Puxa vida. Você concordou antes mesmo de saber qual é a promessa — Khun-Yai ri, seus olhos brilhando como azeviche. — Quando você for mais velha, eu lhe direi.
Um alvoroço vindo do gramado da frente chama a atenção deles para um grupo de pessoas que se aproxima. Khun-Lek, agora com trinta e três anos, carrega um de seus filhos nas costas enquanto o outro tenta subir.
— Daddy, deixa o Louis subir nas suas costas também!
— Não me chame de Daddy. Eu já disse para me chamarem de Pai e falarem apenas tailandês quando estivermos na Tailândia. Não se lembram?
— Pai, por favor, me deixe subir nas suas costas também.
— Como vou carregar os dois?
— Mas você é um soder (soldado).
— Um soldado, não um soder — o pai ri. Ele cede e deixa o filho subir. Seus gêmeos são notavelmente travessos. Mas, como são fofos como bonecos estrangeiros, os mais velhos da família costumam mimá-los mais do que repreendê-los.
Assim que chega às escadas da pequena casa, ele deixa os filhos descerem e ordena à babá:
— Duangjit, dê um banho neles. Estão sujos.
Um dos gêmeos pergunta:
— O Alex pode brincar na piscina inflável?
— Vá em frente — Khun-Lek acena com a mão.
As crianças gritam. Todas as três correm para a casa grande enquanto Khun-Lek balança a cabeça em cansaço. Ueam Duean fecha o livro, coloca-o de volta no lugar e segue a babá para tomar banho sem esperar que ninguém mande. Khun-Yai vai para o salão e abre a janela para deixar o vento entrar. Khun-Lek o segue e se espreguiça ao lado da pequena escrivaninha adornada com madrepérola que seu irmão ainda usa para estudar.
Seu irmão vive nesta casa pequena, deixando seu quarto na casa grande vago. Ele só dorme lá quando sua família viaja para Chiang Mai ou o visita.
— Ugh... que exaustão. Não sei se são humanos ou macacos — reclama Khun-Lek.
— Crianças devem ser travessas. Eles ficarão mais calmos quando crescerem.
— Você fala como se tivesse filhos, Yai.
— Se você vai falar sobre isso de novo, sugiro que pare agora.
Khun-Yai interrompe o irmão. Ele sabe que Khun-Lek está prestes a trazer o tópico do seu casamento. Sendo flagrado pelo irmão, Khun-Lek ri e se encosta na almofada.
— Eu nunca quero te pressionar. Foi a mamãe quem me pediu para fazer isso.
A expressão de Khun-Yai permanece indiferente, imperturbável pelo que ouviu. Seu irmão o observa, parecendo ao mesmo tempo divertido e irritado, e então continua:
— Ela baixou bastante o padrão dela. Uma mulher decente, sem histórico ruim, já estaria bom. A riqueza dela é um assunto menos importante. Isso não teria sido aprovado antigamente. A nora dos Palatip deveria vir de uma família nobre para ser adequada ao Juiz Kritsada Palatip. Uma "ninguém" não era permitida. Nem uma estrangeira. Veja só como terminou. A seletividade dela fez meu irmão ficar solteiro até agora.
Khun-Yai balança a cabeça divertidamente.
— Eu estou bem com isso.
— A Prim e eu não estamos. Ela foi pressionada ainda mais do que eu — ele resmunga exausto e fixa os olhos no rosto do irmão em contemplação.
Khun-Yai, seu irmão, é um homem perfeito, com sua riqueza e uma carreira estável. Sua aparência está além de qualquer discussão. Ele sempre foi bonito e tornou-se mais charmoso à medida que envelheceu. E, no entanto, permanece solteiro até agora. Khun-Lek se lembra dos primeiros anos em que seu irmão voltou da Inglaterra. Naquela época, Khun-Yai, o filho mais velho de Phraya Nitiphumthamrong, era excepcionalmente popular na capital. Todas as filhas de diversas famílias esperavam casar-se com o filho primogênito dos Palatip, a família com um futuro promissor. Seus bens eram muitos, e ele tinha tendência a entrar na política, como seu cunhado.
Seu irmão também não ficava atrás. Sua beleza exalava como uma aura, espalhando seu charme ao máximo. Ele vivia sua vida como uma estrela na alta sociedade de Bangkok. Onde quer que fosse, os holofotes brilhavam sobre ele. No entanto, era apenas isso. Kritsada Palatip nunca entregou sua guirlanda de flores a nenhuma mulher. Ele as tratava com igualdade, polidez e respeito. Muitas tiveram a chance de se aproximar dele, mas acabavam sendo apenas amigas ou "irmãs". Ninguém conseguia conquistar seu coração, como se ele já o tivesse entregado a alguém.
"Eu desisto. Quem conseguiria lutar contra isso? Eu nem sei quem é minha rival. Ela poderia ser um fantasma sem existência."
Essas foram as palavras que Khun-Lek ouviu de uma mulher, parente de Khun-Sak, seu cunhado. Ela era uma das mulheres que Khun-Prim tentou apresentar a Khun-Yai para que fosse sua cunhada, mas o plano falhou, pois os sentimentos não eram correspondidos. A esperança de se tornar a nora da Lady Kae ficou ainda mais remota quando Khun-Yai saiu de Bangkok para servir como juiz em outra província. Foi por sua própria vontade que ele foi escalado para a cidade no norte, especificamente Chiang Mai.
— Não tenho a menor ideia de por que ele é tão apegado àquele lugar. Ele vai para lá sempre que tem uma chance. Se os empregados não tivessem me relatado que ele nunca levou uma mulher para lá, eu pensaria que Yai tem uma esposa secreta na cidade.
Lady Kae sempre reclamava dessa maneira. Aquele lugar era onde sua família vivia quando Luang Thep Nititham, o patriarca, estava servindo em Chiang Mai. Quando seu pai recebeu os títulos de 'Phra' e 'Phraya', respectivamente, tornando-se 'Phraya Nitiphumthamrong', ele precisou voltar para Bangkok.
Vários anos depois disso, a casa tornou-se mais como uma casa de veraneio que a família visitava ocasionalmente, especialmente no inverno agradavelmente fresco. O desejo de Khun-Yai de ser destacado para o norte aborreceu Lady Kae até certo ponto, mas ela não fez escândalo. A determinação de seu filho mais velho era firme demais para se opor. Até mesmo Phraya Nitiphumthamrong não conseguia se opor ao filho, pois aceitara sua natureza visionária desde antes da Segunda Guerra Mundial. Naquela época, Khun-Yai fundou uma fábrica de açúcar com Khun-Sak, seu cunhado, o que exasperou muitos parentes. Até Lady Kae não conseguiu ficar calada sobre isso.
— Minha família sempre esteve no comércio. Temos a pele cascuda para isso. Estou mais preocupada com o lado da família do seu pai. Eles vão pensar que ficamos falidos, ou talvez que o salário de juiz não é suficiente e por isso nosso filho tem que virar fazendeiro.
Ainda assim, nada abalou a ambição de Khun-Yai. Além de se associar a Khun-Sak na fábrica de açúcar, ele administrou as terras de Lady Kae em Nakhon Pathom, transformando-as em campos de arroz e pomares de frutas que eram rigorosamente cuidados. Quem diria que, um dia, o que seu irmão iniciara salvaria a família e os parentes da miséria que outros sofreram? A Segunda Guerra Mundial durou vários anos e colocou muitas famílias em dificuldades. Além disso, houve uma grande inundação na Capital e em Thonburi, que causou danos extensos a casas e fazendas, fazendo os preços de tudo dispararem.
No entanto, sua família sobreviveu à crise. Arroz e açúcar foram distribuídos aos parentes. Quanto à quantidade destinada à venda, Khun-Yai insistiu firmemente que vendessem a outras pessoas em quantidades moderadas. Nenhuma família deveria estocar. Se descobrissem que alguém vendia no mercado por um preço abusivo, seriam proibidos de comprar mercadorias dos Palatip.
— Que bênção... Que você prospere sempre. Ugh... você preparou tudo como se pudesse prever o futuro.
Khun-Lek sorri ao lembrar como as ofensas de algumas pessoas se transformaram em elogios mais tarde. A guerra acabou há mais de um ano. O país está finalmente em paz. Aqueles que se refugiaram das bombas nos subúrbios e em outras províncias voltaram para suas cidades, mas seu irmão se recusou a voltar para Bangkok, como a família sugerira.
Khun-Lek apoia o queixo na palma da mão e pergunta:
— Seriamente, Yai, por quem você está esperando?
Khun-Yai vira a cabeça para o irmão com um sorriso no rosto. — Por alguém.
— Puxa vida... meu irmão. Imagino que seus sentimentos não sejam correspondidos. Por isso você ainda está solteiro. Então, não vai me dizer o nome dela ou de qual família ela é?
— Você saberá quando vir essa pessoa. Se não tiver a chance, apenas guarde na mente que existe alguém. Simples assim.
— Que maneira astuta de colocar as coisas, irmão.
Khun-Lek se levanta e se espreguiça.
— Vou tomar um banho agora. Estou me sentindo pegajoso. Não se esqueça de jantar conosco na casa grande, ou as crianças vão perguntar por você, especialmente a Ueam Duean.
Khun-Lek se levanta e caminha até a porta. Ele para quando seus olhos captam a parede ocupada por desenhos emoldurados, cada um feito a lápis. Há esboços rústicos e desenhos detalhados. A maioria captura aquele lugar de diferentes ângulos — a casa pequena, a casa grande, o pavilhão à beira-rio, o jardim, a vista do Rio Ping e alguns locais de Chiang Mai.
— Os desenhos de Nai-Jom — murmura Khun-Lek. — Você os emoldurou tão bem. Achei que estivessem perdidos. Fotos lindas. Ele certamente era habilidoso. É uma pena que ele tenha, de repente...
Khun-Lek para ali. O que aconteceu com 'Nai-Jom', o antigo mordomo de seu irmão, foi absolutamente misterioso. Ele desapareceu sem deixar vestígios, como se simplesmente tivesse deixado de existir neste mundo, um quebra-cabeça que ninguém foi capaz de resolver. A polícia concluiu que ele fugiu, já que não conseguiram encontrar sua família, seu corpo ou qualquer pista.
— Você continuará guardando esses desenhos?
— Com certeza. Eles ficarão aqui para as próximas gerações.
Khun-Lek abre um pequeno sorriso. Ele não entende exatamente por que seu irmão é tão apegado a tantas coisas aqui, mas acredita que ele deve ter uma razão que prefere guardar para si.
Khun-Yai observa seu irmão descer as escadas da varanda em direção ao gramado, então volta seus olhos para os desenhos na parede. Cada um guarda uma história que ele recorda regularmente. As linhas a lápis nas imagens emolduradas desaparecem de sua mente, substituídas pelo rosto impecável de um homem.
...Poh-Jom.
A expressão de Khun-Yai suaviza-se, seu coração cheio de uma saudade avassaladora. Ele recorda a pele clara, os olhos de azeviche que ele achava lindos e brilhantes como estrelas, as observações inteligentes que Jom tentava esconder sob seus modos humildes, seu perfume, sua pele quente, o corpo tremendo enquanto ele gravava seu amor profundamente dentro dele, e os lábios macios e úmidos que lhe davam vontade de beijar sempre que seus olhos pousavam neles.
Tudo está vívido em suas memórias, nunca desaparecendo. Parecem tão claros em seus sentimentos como se tudo tivesse acabado de acontecer neste momento, embora tenha se passado mais de uma década.
Ele sai pela porta para a varanda. A espaçosa varanda de madeira é sombreada e fresca sob as grandes árvores que estendem seus galhos. O gramado abaixo é verdejante, cuidadosamente cuidado. As flores de Lantom cor de marfim pontilham a grama. Ele pensa nos primeiros dias em que voltou da Inglaterra e esteve neste lugar novamente. Foi o tempo em que seu coração foi perturbado por uma frustração insuportável. Ele pensou que os anos aliviariam seus sentimentos que ficaram presos a alguém aqui, mas não foi o caso.
Os anos moldaram um menino em um adulto armado com inteligência e um modo de vida sábio. Quanto ao amor, no entanto... era a única coisa inalterada, como se tivesse crescido plenamente muito antes. Seu coração ainda ansiava por "Poh-Jom", seu primeiro e único amor nesta vida.
Esses sentimentos profundos o mantinham perdido em uma dor sem saída. Esperar sem pista se eles se encontrariam novamente era uma tortura sem fim. Mas então, um dia, ele descobriu que ainda tinha esperança.
Foi em uma manhã de inverno, durante sua estadia aqui nas férias. Ele acordou cedo. O tempo estava incrivelmente revigorante, tanto que ele sentiu vontade de dar um passeio pelo lugar. Ele saiu para a varanda e baixou o olhar para o jardim abaixo. Havia névoa rodopiando acima do solo.
E ele viu...
Uma figura esguia parada no gramado perto das escadas da casa pequena, com um caderno de desenho e um lápis nas mãos.
Embora o homem estivesse de costas para ele, ele reconheceu com total confiança quem era aquela pessoa.
...Poh-Jom, a pessoa de quem ele mais sentia falta.
Poucos segundos após o estupor, ele corre em direção às escadas e grita:
— Poh-Jom...!
A figura congelou ao ouvir alguém chamando seu nome. Ele virou seu rosto impecável relutantemente. Antes que virasse a cabeça o suficiente para ver o rosto de Khun-Yai, ele decidiu girar e marchar para longe apressadamente.
Khun-Yai desceu correndo, sentindo como se seu coração estivesse prestes a voar. Infelizmente, a visão desapareceu após alguns passos escada abaixo! Ele desabou no último degrau, com o coração martelando no peito, os olhos fixos no gramado enevoado em transe. Ele sabia que não era um sonho. Era real. O cheiro de calor pairava levemente, sugerindo que o portal para o outro mundo havia se aberto ali segundos atrás.
A esperança que acalmou seu coração tomou forma como chuva em meio à seca. Ele percebeu então que, sem dúvida, encontraria aquela pessoa novamente algum dia, embora não tivesse ideia de quando seria.
Poderia ser no mês seguinte, no ano seguinte ou na próxima vida.
O vento carrega o perfume das flores de Lantom com o ar fresco, soprando as memórias passadas para o tempo presente. Khun-Yai caminha até o banco na varanda. Ele se acomoda ali e encosta-se no encosto, seu peito estranhamente quente. Parece que o vento trouxe a saudade e a palavra de amor daquela pessoa para ele.
Vem com o vento, a grama, o sussurro das folhas e tudo ao seu redor. Ele fecha os olhos, absorvendo a doçura quente que se espalha em seu peito, como se estivesse abraçando aquela pessoa naquele exato momento.
Seus belos lábios se abrem e deixam escapar um sussurro:
— Eu sempre esperarei aqui... Poh-Jom.
Nunca na vida de Kanthorn Palatip, o "Yai", ele quis algo e não conseguiu.
Ele é o filho adotivo de Lady Ueam Duean, a filha mais velha do Capitão de Grupo Keerati Palatip (Lek), descendente de Phraya Nitiphumthamrong, o antepassado dos Palatip — a família que é abastada desde antes da democratização. Sua mãe biológica é Ueam Dao Palatip, a caçula entre os quatro irmãos, herdeiros de Keerati.
Seu pai é um americano que administra negócios na Tailândia, por isso seu físico e traços são uma combinação de duas raças. Ele é bem-constituído, de pele clara, com cabelos levemente ondulados e olhos castanhos.
— Seu filho é um caso sério. Ele é tão teimoso que não sei o que fazer com ele. Quando coloca algo na cabeça, ninguém o segura. Ele age com calma e não discute, mas nunca ouve ninguém.
Ele ouviu uma vez Lady Ueam Duean reclamando com a irmã dela, a mãe biológica dele, quando se encontraram.
— Ah, eu já o dei para você, então ele é seu filho — respondeu Ueam Dao, ou "Mãe Dao", imperturbável.
— Pois é — a Lady fez um sinal de descaso. — E tenho certeza de que ele não herdou essa teimosia de mim.
Kanthorn sorriu ao ouvir aquilo. Ele chama sua mãe biológica de "Mãe Dao" e Lady Ueam Duean de "Mãe". Tudo começou quando ele nasceu. Naquela época, Ueam Dao deu à luz a um casal de gêmeos, uma característica hereditária do lado de sua avó. Era sua segunda gravidez, que ocorreu muitos anos após a primeira. Ueam Dao não esperava conceber novamente. Ambos os bebês nasceram com baixo peso. Até o médico responsável não podia garantir que sobreviveriam. Os recém-nascidos precisavam de cuidados médicos intensivos, e o médico não podia especificar uma data para a alta.
O incidente preocupou imensamente a mãe. Consumida pela angústia, além de contar principalmente com a ciência médica, Ueam Dao buscou ajuda no sagrado, na esperança de que um ser sobrenatural criasse um milagre. Ueam Dao decidiu afastar a má sorte declarando em oração que entregaria seus gêmeos a outra pessoa, como manda a tradição. E assim, Lady Ueam Duean, sua irmã, amarrou fios sagrados nos pulsos dos bebês como um gesto de aceitá-los como seus filhos. Algumas semanas depois, os bebês ficaram gradualmente mais fortes, para a alegria dos pais e parentes. Quando estavam saudáveis o suficiente para irem para casa, Lady Ueam Duean disse à irmã seu desejo:
— Dao, já que você me deu seus filhos para afastar a má sorte, não vamos deixar que seja apenas uma tradição. Você me daria um deles de verdade? Thawat não pode ter filhos. Além disso, ele parece adorar muito o sobrinho.
— Você também parece adorá-lo profundamente — disse sua irmã, com compreensão e simpatia. Sua irmã mais velha estava casada com um oficial de alta patente do exército há anos, mas eles nunca tiveram descendência. Mais tarde, descobriram que Thawat, o marido, era estéril.
— Sinto uma conexão forte com ele. — A Lady acariciou a bochecha do sobrinho em seu braço. — Olhe para ele. Ele herdou traços caucasianos dos lados da avó e do pai, mas apenas no tom de pele. Seus traços faciais são marcantes e charmosos. Quanto mais olho, mais parecido ele é com o Tio Yai. Ele será tão bonito quanto ele quando crescer. Provavelmente não terei chance de ter meus próprios filhos. Se eu puder tratar seu filho como meu nesta vida, será uma bênção. Não vou tirar seu papel de mãe, é claro.
Ueam Dao ponderou. Nenhuma mãe deixaria facilmente seu filho ser adotado legalmente por outra pessoa, mesmo parentes queridos. Os gêmeos receberam alta ao mesmo tempo. A menina ficava mais forte e maior a cada dia, enquanto o menino não era tão saudável. Ele adoecia regularmente. O coração da mãe não podia deixar de se preocupar e pensar de volta em sua oração.
Com determinação, Ueam Dao finalmente assinou os papéis de adoção, entregando seu filho à irmã e ao cunhado. Isso comoveu profundamente Lady Ueam Duean. Sua expressão perpetuamente indiferente de mulher orgulhosa transformava-se em um rosto brilhante e sorridente toda vez que embalava o bebê nos braços.
— Dao, darei a ele todos os bens que herdei do Tio Yai. Agora que o tenho como meu herdeiro, estou aliviada. O testamento e a promessa que fiz ao Tio Yai serão certamente cumpridos com sucesso. Caso contrário, não poderei descansar em paz.
Tudo seguiu com satisfação de ambos os lados. E o "não vou tirar seu papel de mãe" foi basicamente uma mentira. A primeira coisa que Lady Ueam Duean fez como mãe adotiva foi dar ao bebê o apelido de "Yai", em homenagem ao seu tio, a quem ela amava e respeitava grandemente. Ele também era o avô do bebê.
A Lady criou seu filho adotivo com amor e cuidado, totalmente dedicada. Ueam Dao tinha outra filha para cuidar, e seu marido estava ocupado com o trabalho o dia todo e, consequentemente, chegava tarde em casa. Assim, o envolvimento de sua irmã no cuidado das crianças durante o dia era mais um apoio do que uma interferência.
Yai e sua irmã gêmea, Thanya, passaram a infância na Tailândia. Quando completaram oito anos, o pai decidiu voltar para os EUA por motivos de negócios.
— Eu os enviarei para a Tailândia todo verão para ficarem com você. — Essa foi a promessa que a irmã fez para salvá-la da devastação.
Os gêmeos visitavam a Tailândia a cada seis meses. A própria Lady também voava de um lado para o outro, da Tailândia para os EUA, regularmente. Alguns anos depois, a Lady mudou-se permanentemente para os EUA para ficar com a irmã. Ela estava com o coração partido porque seu marido tinha uma amante da idade do filho deles e até a levava abertamente a eventos sociais.
A Lady comprou uma casa a alguns quarteirões da casa da irmã. Tendo recebido seu amor e cuidado desde jovem, seu filho adotivo acabou se mudando para a casa dela.
— Quanto mais você envelhece, mais se parece com seu avô mais velho. As pessoas no passado diriam que ele reencarnou no seu corpo.
— Kanthorn, ou Yai, frequentemente ouvia esse comentário de seus parentes.
Ele admitia que se parecia com o Juiz Kritsada ou, como sua mãe chamava, Tio Yai. Parecia-se mais com ele do que com o Capitão de Grupo Keerati, seu avô paterno. No entanto, ele sabia quais eram as diferenças. O Tio Yai era conhecido por sua calma e determinação, tanto em seu caráter quanto em sua aparência, ao contrário dele. Sob sua compostura, o peito de Yai era constantemente perturbado por algum tipo de emoção. Era uma sensação de que algo faltava em sua vida, o que não fazia sentido. O que uma pessoa que tinha tudo poderia ter perdido? O sentimento era avassalador a ponto de ser atormentador.
Isso o impulsionava a buscar o que ele julgava ser o que queria para preencher o vazio peculiar em seu coração. Ele estudava muito e também se divertia intensamente. Dirigia carros como um furacão e praticava esportes como um maníaco cheio de energia, especialmente basquete e surfe. Passava o dia todo caçando ondas grandes no mar e deslizando sobre elas. Isso resultava em aspectos tanto positivos quanto negativos. Ele era um aluno de honra e atleta universitário, mas ocasionalmente preocupava a Lady com algumas de suas atitudes.
Kanthorn a consolou formando-se com honras. Essas coisas eram o orgulho de sua família, mas não eram a sua resposta. Ele não tinha ideia do que queria. Sua vida amorosa não era diferente. Kanthorn estivera em muitos relacionamentos, mas ter amantes não era o mesmo que amar alguém. Ele tratava bem seus parceiros, tentando abrir seu coração e esperando que o amor finalmente florescesse. Era tudo perda de tempo. Gostar era diferente de amar. Era como se seu coração não permitisse que ele se apaixonasse.
Por fim, ele parou. Não queria mais machucar ninguém. Fingir amar alguém era pior do que partir corações. Se seu coração não se apaixonava por ninguém, ele tinha que deixar estar. Após a formatura, ele concentrou sua atenção no negócio de hotéis da família. Isso aliviou parte da inquietação em seu coração, mas não toda. Às vezes, quando estava sozinho, seu coração ansiava por algo que ele não sabia o que era.
Um dia, ele conversava com Lady Ueam Duean na sala de estar. Faltavam dois meses para partirem para a Tailândia após anos fora. Lady Ueam Duean, na velhice, ainda era tão esguia quanto na juventude, com seus cabelos brancos presos em um coque. Seus olhos atrás dos óculos ainda eram perspicazes e severos, o que deixava as pessoas que não eram próximas a ela nervosas. Naquele dia, falaram sobre a renovação das casas antigas em Chiang Mai, que Kanthorn visitava de vez em quando quando criança.
— Por que este arquiteto? — Kanthorn perguntou com um sorriso. Ele achava divertido como a Lady insistia em contratar o arquiteto desta empresa específica, mesmo havendo empresas em Chiang Mai prontas para o trabalho. Sua mãe adotiva agia como uma fã apoiando seu artista favorito.
— Eu tenho meus próprios motivos — a Lady respondeu brevemente, mas foi o suficiente para despertar o interesse dele.
Ele pegou a revista e folheou as páginas. A renovação da antiga casa tailandesa em Khlong San era deslumrenate e criativa, mas não era tão extraordinária para que sua mãe fosse tão determinada. Mas quando Kanthorn fixou o olhar nos dois arquitetos responsáveis pela reforma, ele ficou paralisado. Algo floresceu em seu peito, uma fagulha de fogo ardente, crescendo e espalhando chamas brilhantes em um instante. Um dos arquitetos era um homem de cerca de vinte e quatro ou vinte e cinco anos. Era alto e esguio, com um rosto impecável. Parecia descendente de chineses, a julgar pelo tom de pele e pelo formato dos olhos. Ele não era modelo da alta moda; pois sua aparência era mais para o fofo e delicado, mas aquilo prendeu os olhos de Kanthorn e abalou seus sentimentos violentamente. Seu peito foi inundado por uma onda de emoções. Desta vez era diferente de antes. Parecia que ele finalmente encontrara algo que estava esperando.
A Lady observou seu filho adotivo em contemplação por um tempo, e então disse: — Tenho algo para lhe contar, e algo que quero que você faça por mim se eu não puder cuidar disso sozinha.
O que a Lady lhe contou surgiu da preocupação com a viagem à Tailândia. Embora ela fosse saudável para a idade, era difícil viajar, pois seus ossos haviam se tornado fracos e frágeis com o tempo. A viagem de dez horas de avião poderia deixá-la doente. Se fosse o caso, Kanthorn teria que ir a Chiang Mai cumprir a tarefa da Lady em seu lugar.
Ele teria que entregar uma chave a alguém. Esta história era tão bizarra que Kanthorn e a Lady não conseguiam encontrar uma explicação. O Juiz Kritsada, seu "avô mais velho", deixou um testamento ordenando que seu herdeiro entregasse uma chave a um parente próximo de Sr. Ravit Pitayanan em uma data específica.
Como seu avô poderia saber o nome deste arquiteto se ele falecera antes de essa pessoa nascer? Isso também maravilhou Lady Ueam Duean. Ela estivera procurando por essa pessoa até que encontrou alguém com esse nome completo para valer, mas ele não tinha conexão com sua família. O Tio Yai passou sua fortuna e inúmeras propriedades para ela. No entanto, o Tio Yai observou especificamente que ela não poderia vender a propriedade em Chiang Mai e que deveria manter certas coisas lá. A partir daí, Kanthorn começou a ter visões...
Não eram cenas passando no ar ou sonhos. Eram imagens que apareciam em sua cabeça. No início, eram tênues e turvas, como se estivesse sonhando acordado. Elas piscavam em sua mente uma a uma e evaporavam como fumaça. Com o passar do tempo, as cenas tornaram-se mais vívidas e apareciam em sua consciência com mais frequência. Elas narravam as histórias de tirar o fôlego dele e do outro homem, que ele lembrava claramente ser o arquiteto da revista.
Kanthorn estava extremamente confuso. Não tinha certeza se era tudo imaginação sua. Mas as histórias ficavam mais claras, como se estivessem dentro dele o tempo todo, esperando o dia de emergir. Ele não era um espectador. Ele estava na história, vivenciando tudo com seus olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo e coração. Ele sentiu sua existência em vidas passadas. Vivera aquelas vidas com um homem que amava profundamente, a ponto de esperar para se reunir com ele em todas as eras.
Poh-Jom...
As palavras proferidas por sua boca grudavam em sua língua: a fragrância das flores de Lantom, o vento na estrada ladeada por seringueiras, o perfume doce do cabelo e das bochechas daquela pessoa, as lágrimas ao luar. Até a picada de suas feridas sangrando na chuva parecia marcar sua pele. O trovão retumbante e sua promessa.
"Amarei apenas Poh-Jom em todas as vidas..."
O que ele via não era imaginação. Estivera latente em seu subconsciente até despertar em sua consciência. Se o espírito humano nunca desaparece do mundo, ele deve ter viajado pelo tempo, gravando tudo, e agora habitava seu corpo. Kanthorn não hesitou mais. Reencarnação costumava parecer bobagem para ele, mas não mais. Havia sido provada pelo testamento de seu avô — em outras palavras, dele mesmo de cem anos atrás.
Ele decidiu ir para a Tailândia imediatamente, dois dias antes da data original. Estava impaciente demais para esperar. Kanthorn pediu permissão a Lady Ueam Duean para entregar a chave pessoalmente. A Lady não rejeitou nem exigiu uma razão. Ela o seguiria dois dias depois com sua irmã gêmea.
Kanthorn, ou "Yai", apareceu no hospital em Chiang Mai no dia seguinte ao acidente em que o arquiteto jogou o carro no Rio Ping na noite anterior. Ravit Pitayanan, ou Jom, como os mestres de obras chamavam, não estava totalmente consciente. Ele oscilava entre a consciência e o sono. Quando acordava, era breve, como se preferisse dormir a despertar. Parecia que sua amada, perdida há tanto tempo, havia retornado ao seu abraço.
Kanthorn ofereceu-se para pagar as contas médicas e os danos do acidente. A empresa onde o arquiteto trabalhava não precisou assumir a responsabilidade. Quando um funcionário do hospital perguntou sobre sua relação com o paciente, ele respondeu firmemente que era seu cliente e amante. Após os exames, o paciente foi levado para um quarto individual. No segundo em que Kanthorn entrou no quarto e viu o homem na cama, suas pernas fraquejaram. Seu coração amoleceu como se fosse derreter.
O homem dormindo na cama parecia terrivelmente quebrado. Não o seu corpo, mas por dentro. Ele pressionava levemente os lábios antes de soltá-los, suas pálpebras movendo-se como se estivesse sonhando. Kanthorn queria puxá-lo para um abraço e cobrir seu rosto de beijos de saudade, mas apenas sentou-se ao lado da cama e tocou o braço do homem gentilmente, com medo de que ele evaporasse se o toque fosse um pouco mais forte.
O amor e a saudade imensos surgiram em seu peito. Ele deslizou sua mão para a palma do homem ao seu lado e a segurou para compartilhar seu calor. A tempestade que rugia em seu peito por anos finalmente se acalmou e tornou-se a brisa trazendo um frescor agradável ao seu coração. Era prazeroso e sereno, como se ali fosse o lugar onde seu coração pertencia.
Seu coração nunca permitira que ele se apaixonasse por ninguém porque ele amava este homem...
Kanthorn passou os dedos gentilmente sobre a gema enevoada que um dia fora sua. Observou o rosto justo e impecável com os olhos teimosamente fechados. Queria que o homem abrisse os olhos e soubesse que ele estava ali. Queria dizer o quanto o amava e sentia sua falta. Queria perguntar se ele sentia o mesmo.
Ele se inclinou e deixou um beijo suave na mão do homem antes de sussurrar:
— Acorde, Poh-Jom. Eu vim buscar você.
