Tinha passado a manhã toda a cuidar da casa. A minha tia estava contente, afinal era a primeira vez que ia conhecer uma namorada minha, M. aquela rapariga da universidade de quem eu lhe falava sempre ao telefone durante a semana e com quem partilhava casa durante a semana.
Quando a campainha tocou, eu ainda estava a tirar o casaco no corredor.
— Tia… ela chegou — disse eu, visivelmente nervoso.
A minha namorada sorriu assim que entrou.
— Olá, dona C! Sou a M. Finalmente conheço a famosa Tia .
A minha tia riu-se.
— Nada de “dona”, por favor. Chama-me C. E sê bem-vinda a casa.
Sentaram-se na cozinha, onde a minha Tia acabava de dobrar panos e aventais. Eu fiquei encostado à bancada, a ouvir.
Após apresentações terem sido feitas e alguma conversa acerca da vida e da nossa dinâmica a partilhar a mesma casa
— Tenho de lhe dizer uma coisa — começou a minha namorada, com um sorriso cúmplice.
— O seu sobrinho é o único rapaz que conheci que não faz cara feia quando tem de limpar a cozinha de casa. Cozinha, lava, passa… tudo.
A minha tia cruzou os braços, satisfeita.
— Ainda bem que isso se nota. Cá em casa sempre foi regra: tarefas não têm género. Educar um homem é também ensinar que a casa é responsabilidade de todos.
Tentei interromper, sabendo que o assunto me ia começar a "fugir".
— Tia…
— Não interrompas — disse ela, divertida. — Lembras-te quando dizias que certas coisas “eram coisa de mulher”?
M olhou logo para mim.
— Disseste isso?!
Eu fiquei vermelho.
— Foi… foi há anos.
A minha tia riu.
— Pois foi. E cada comentário desses vinha com um “castigo” educativo: mais tarefas, e sempre devidamente equipado.
Apontando a sorrir para uma bata e um avental pendurados atrás da porta.
— Aquilo era o uniforme oficial do serviço doméstico dele- disse a minha tia.
M. soltou uma gargalhada.
— Estou a imaginar a cena.
— Não tem de imaginar — disse a minha. — Ele ainda sabe onde está tudo.
Eu abanava a cabeça, envergonhado, enquanto as duas riam.
— Resultou — continuou a minha tia — Hoje ele não acha que varrer, lavar ou cozinhar diminui ninguém. Pelo contrário.
M. assentiu, genuinamente impressionada.
—Parabéns mesmo. Dá gosto ver alguém que percebe que educação também é isto.- elogiou M.
A minha tia inclinou-se para a frente, em tom de brincadeira séria.
— E digo-te mais: se algum dia ele se portar mal, já sabes. Avisas-me, e no fim de semana quando vier da universidade… coloco-o de castigo a reforçar a aprendizagem.
M. arregalou os olhos… e depois riu.
Adoro a ideia. Lá em casa já é ele que usava o avental.
— Ó M… — protestei, enquanto as duas trocavam um olhar cúmplice.
A minha levantou-se e pegou na bata.
— Isto não é castigo. É lembrança de que respeito, responsabilidade e colaboração é tua obrigação- disse a minha tia
Passou a bata para M. a brincar.
— Se quiseres, levem para vossa casa. Para garantir que ele não descuida o serviço - disse a minha tia em jeito irónico
M. aceitou, rindo.
— Combinado. Prometo mantê-lo na linha.
Suspirei, rendido.
— Eu só queria vir a casa descansar…
M, fica para almoçar connosco — disse a minha tia. — Assim vês como isto funciona cá em casa.
— Com prazer — respondeu M. — Estou curiosa.
Eu soltei um risinho nervoso.
— Vais arrepender-te…
A minha tia abriu o frigorífico e falou por cima do ombro:
— Põe a mesa- ordenou-me ela
Eu levantei os olhos.
— Agora? Mas eu acabei de chegar… vocês estão aí as duas, assim é mais rápido- disse eu mostrando uma rebeldia já pouco habitual em mim
O silêncio caiu instantaneamente.
A minha tia virou-se devagar.
— Como é que disseste?
M. arregalou os olhos e depois mordeu o lábio para não rir.
— AMOR… — tentou-me avisar M.
— Não, não — interrompeu a minha tia, com calma perigosa. — Repete lá a parte em que achas que duas mulheres na cozinha tornam o trabalho “mais rápido”.
Eu percebi tarde demais.
— Eu… não quis dizer isso, desculpa… era só uma maneira de falar…- tentei-me desculpar de imediato
A minha tia foi até ao armário e tirou de lá uma bata listada e um avental bem conhecido meu.
— Então vamos tratar disso já. Bata e avental. AGORA-ordenou me ela chateada
— Tia! — protestei eu. — À frente da M.?!
— Especialmente à frente da M. — respondeu a minha tia, firme. — Para aprenderes a pensar antes de falares.
M. cruzou os braços, divertida.
— Amor… eu avisei.
Eu levantei-me de devagar, com as orelhas vermelhas, e vesti a bata.
O avental veio logo a seguir. A minha tia ajeitou-me as alças com precisão exagerada.
— Muito bem. Agora estás vestido a rigor para trabalhar — disse ela. — Comentários machistas dão direito a prática imediata.
M. já estava a rir sem parar.
— Isto é incrível. Na universidade ele nunca mais vai dizer nada dessas coisas.
— Espero bem — respondeu a minha — começa por colocar a mesa. Depois lavas a loiça. E enquanto trabalhas, quero silêncio e reflexão.
Peguei nos pratos, evitando olhar para M.
— Isto é humilhante…
— Não é humilhante — corrigiu a minha tia. — É educativo.
M. aproximou-se de mim e falou em tom provocador:
— Se quiseres, posso tirar uma fotografia… para memória futura.
— Nem penses nisso! — disse eu, ainda mais vermelho.
A minha tia riu-se.
— Era boa ideia... ajuda a fixar a lição.
Suspirei, comecei a colocar a mesa e murmurei:
— Nunca mais faço comentários desses.
— Assim é que se fala — disse a minha tia. — Um homem aprende em casa para se comportar bem fora.
M. assentiu, divertida.
— Dona C., acho que ele está muito bem treinado.
— Ainda está em formação — respondeu ela, com um sorriso cúmplice.
No final do almoço, a minha tia e M. Continuaram à mesa na cozinha enquanto eu acabava a loiça, ainda de bata e avental, claramente contrariado.
— Isto faz-me lembrar quando ele tinha uns 17 anos — começou a minha tia, divertida. — Uma vez decidiu que “arrumar o quarto era inútil porque voltava a ficar desarrumado”.
— Não acredito — disse M., rindo. — Ele disse mesmo isso?
— Disse. Resultado: escreveu 100 x “O quarto deve ser arrumado e mantido limpo” depois ficou virado para a parede a pensar na filosofia da coisa.
Eu reclamei:
— Isso já prescreveu…- tentei argumentar para me livrar da vergonha que estava a sentir
— Não prescreveu nada — respondeu ela. — Educação é cumulativa.
M. adorava cada segundo.
— Agora percebo porque ele é tão certinho lá em casa. Sempre que faço a lista de tarefas, ele pergunta se está “aprovada”.
A minha tia riu-se alto.
— Medo saudável. Funciona sempre.
Eu, achando que a conversa estava demasiado focada em mim, aproveitei um momento de distração e tirei a bata e o avental, dando a tarefa por terminada.
— Pronto, já chega disto.
A minha tia virou-se imediatamente.
—… quem te deu autorização?
— Vá lá, Tia…- falei com voz calma prevendo que já tinha feito asneira
Ela levantou-se, aproximou-se de mim e, com dois dedos, agarrou-me pela orelha, dando-me alguns puxões, mais teatrais do que doloridos.
— Regra número um: não se tira a bata sem permissão.
— Ai! — protestou ele, mais por vergonha do que por dor. — À frente da M.?!
M. tapou a boca, a rir.
— Amor, juro que isto é a melhor aula prática de igualdade doméstica que já vi.
Ela aproximou-se de mim e, em tom de brincadeira, fez o mesmo gesto na minha orelha.
— Considera isto um aviso simbólico extra- disse-me ela, prevendo que seria mais usado na "nossa" casa
Fiquei completamente vermelho e com a orelha a arder .
— Vocês combinaram isto, só pode.
— Não — disse a minha tia, retomando o lugar à mesa. — Isto chama-se coerência educativa.
M. assentiu, ainda a rir.
— Se ele algum dia se portar mal lá em casa já sei exactamente o que fazer- disse M. a sorrir e a adorar a situacao
— Dizes-me — respondeu a minha tia. — E no fim de semana podes ficar descansada que não andará na rua com amigos a fazer asneiras, mas em casa de Castigo
Suspirei e voltei a vestir o avental...