“Carícias”
A luz da manhã entrava pelas frestas da cortina como lâminas finas de ouro. Tiago acordou devagar, o corpo pesado de sono profundo, daqueles que só vêm depois de uma noite de emoções intensas. Ele piscou algumas vezes, olhando o teto de madeira com as vigas expostas, e por um segundo não soube onde estava. Depois lembrou: o sítio. Daniel. A sala à meia-noite. O abraço. A testa colada na testa.
O coração acelerou de novo, mas dessa vez não era pânico. Era expectativa.
Ele se sentou na cama, lençol caindo até a cintura. Ainda de cueca e camiseta larga. O pau deu um leve sinal de vida matinal, mas ele ignorou. Não era hora. Ainda não.
Ouviu barulho na cozinha: panelas, o chiado de algo fritando, o cheiro de café fresco invadindo o corredor. Daniel já estava de pé.
Tiago respirou fundo, passou as mãos no cabelo preto liso e se levantou. Vestiu um short de tactel cinza e uma regata branca. Olhou-se no espelho pequeno: barriga macia aparecendo por baixo da regata, pele clara, olhos castanhos ainda sonolentos. Ele não era bonito como Daniel — pelo menos não no padrão que a sociedade vendia —, mas ontem, na penumbra da sala, Daniel tinha dito que ele era lindo. E tinha dito com uma sinceridade que não deixava espaço para dúvida.
Ele saiu do quarto.
Daniel estava de costas, mexendo ovos numa frigideira grande. Sem camisa de novo, só de bermuda cargo cáqui que pendia baixa nos quadris. Os músculos das costas flexionavam a cada movimento do braço. A pele clara brilhava levemente com o suor da manhã quente. Quando sentiu Tiago entrar, virou o rosto e abriu um sorriso largo, daqueles que mostravam os dentes e faziam os olhos se apertarem.
— Bom dia, dorminhoco. Achei que tu ia hibernar até o almoço.
Tiago riu baixo, coçando a nuca.
— Dormi que nem pedra. Que horas são?
— Quase nove. Café tá quase pronto. Senta aí.
Tiago puxou a cadeira da mesa pequena de madeira e sentou. Daniel serviu dois pratos: ovos mexidos com tomate e cebola, fatias grossas de pão caseiro torrado na chapa, queijo minas fresco cortado em cubos, café preto fumegante em canecas grandes. Ele sentou de frente, pernas abertas sob a mesa, cotovelos apoiados.
Eles comeram em silêncio por alguns minutos. Não era silêncio desconfortável. Era o tipo de silêncio que acontece quando duas pessoas sabem que falaram tudo na noite anterior e agora só precisam digerir.
Daniel foi o primeiro a quebrar.
— Sobre ontem… — começou, olhando o prato em vez de Tiago.
Tiago parou com o garfo no ar.
— Sim?
Daniel ergueu os olhos. Castanhos intensos, quase pretos na luz da manhã.
— Eu não me arrependo de nada que falei. Nem do toque. Mas eu não quero te pressionar. Se tu quiser que a gente volte pro “só primos”, eu respeito. A gente pode fingir que foi só uma conversa de madrugada.
Tiago sentiu um aperto no peito. Não de medo. De gratidão, talvez.
— Eu não quero fingir — respondeu, voz baixa mas firme. — Eu… eu também não me arrependo. Só tô com medo do depois. Da família. Da cidade. De tudo.
Daniel assentiu devagar.
— Eu também. Mas a gente não precisa resolver o depois agora. A gente tá aqui, nesses dez dias. O resto do mundo fica lá fora. Só a gente decide o que acontece dentro dessa cerca.
Tiago sorriu pequeno.
— Parece fácil quando tu fala.
— Não é fácil. Mas é simples. — Daniel esticou a mão por cima da mesa e tocou os dedos de Tiago. Um toque leve, só os mindinhos se entrelaçando. — Eu gosto de ti, Tiago. Não só como primo. Gosto de verdade. E se tu sentir o mesmo, a gente vai devagar. Sem pressa. Sem rótulo. Só… a gente.
Tiago entrelaçou os dedos inteiros agora. A palma de Daniel era quente, calejada, maior que a dele.
— Eu sinto o mesmo — confessou. — Faz tempo. Eu tentava ignorar, mas… não dá mais.
Daniel sorriu de novo, dessa vez com alívio visível nos ombros.
— Então tá. A gente vai devagar. Mas sem fingir que não tá rolando.
Eles ficaram assim por um tempo, mãos unidas sobre a mesa, café esfriando nas canecas.
Depois Daniel se levantou, puxando Tiago junto.
— Vem. Quero te mostrar uma coisa.
Ele levou Tiago para fora, pela varanda, descendo os degraus de madeira. O sol já estava alto, o ar quente e úmido. Caminharam pelo pomar de jabuticabas, as árvores carregadas de frutas roxas brilhantes. Daniel pegou uma, partiu com os dentes e ofereceu metade para Tiago.
— Prova. Tá doce pra caralho.
Tiago comeu. O suco escorreu pelo queixo. Daniel riu e limpou com o polegar, depois levou o dedo à própria boca e chupou devagar, olhando nos olhos de Tiago.
O gesto foi simples, mas fez o estômago de Tiago dar uma volta.
Eles continuaram andando até uma parte mais afastada do sítio, onde havia um riacho pequeno correndo entre pedras. Água cristalina, som de correnteza suave. Daniel tirou os chinelos e entrou, a água batendo nos tornozelos.
— Vem. Tá gelada, mas é boa.
Tiago hesitou, mas tirou as sandálias e entrou. A água fria subiu pelas panturrilhas, arrepiando a pele. Daniel estendeu a mão. Tiago pegou.
Eles ficaram ali, parados no meio do riacho, água correndo ao redor das pernas. Daniel puxou Tiago para perto, até os peitos quase se tocarem.
— Posso te beijar? — perguntou, voz rouca.
Tiago assentiu, sem conseguir falar.
Daniel se inclinou devagar. Nariz roçando nariz primeiro. Depois testa na testa, como na noite anterior. E então, finalmente, os lábios.
O beijo foi lento. Lábios macios se encontrando, abrindo devagar. Línguas tímidas se tocando, explorando. Daniel segurou a nuca de Tiago com uma mão, a outra na cintura, puxando-o mais perto. Tiago passou os braços ao redor do pescoço largo, dedos enfiando no cabelo preto curto.
Não foi um beijo faminto. Foi carinhoso. Quase reverente. Como se os dois estivessem descobrindo algo que sempre esteve ali, esperando o momento certo.
Quando se afastaram, estavam ofegantes. Daniel encostou a testa na de Tiago de novo.
— Caralho… — murmurou. — Eu esperei anos pra isso.
Tiago riu baixo, olhos marejados.
— Eu também.
Eles saíram do riacho de mãos dadas. Voltaram para casa devagar, parando de vez em quando para outro beijo rápido, outro toque.
O dia seguiu assim: leve, sem pressa. Daniel mostrou o galpão onde guardava as ferramentas, contou histórias engraçadas sobre as vacas que fugiam, preparou um almoço simples de arroz, feijão, bife e salada. À tarde, deitaram no chão da varanda, Tiago com a cabeça no peito de Daniel, ouvindo o coração bater enquanto Daniel acariciava o cabelo dele.
Não houve mais nada além de toques. Beijos. Abraços. Conversas baixas sobre o passado, sobre medos, sobre sonhos.
Mas o desejo estava lá, crescendo devagar, como uma chama que não precisava de pressa para queimar.
Quando o sol começou a baixar, Daniel beijou a testa de Tiago.
— Hoje foi bom.
— Foi perfeito — respondeu Tiago.
Eles entraram em casa quando a noite chegou. Jantaram sob a luz amarelada da cozinha, rindo de besteiras, trocando olhares que diziam mais do que palavras.
E, quando a hora de dormir chegou, Daniel parou na porta do quarto de Tiago.
— Quer dormir comigo hoje? — perguntou, voz cuidadosa. — Só dormir. Sem nada além disso.
Tiago sentiu o peito apertar de emoção.
— Quero.
Daniel sorriu.
— Então vem.
Eles entraram no quarto de Daniel. Deitaram na cama grande. Daniel de conchinha atrás, braço forte envolvendo a cintura de Tiago, peito colado nas costas dele. Respiração quente na nuca.
— Boa noite, amor — Daniel sussurrou, a palavra escapando natural.
Tiago sentiu lágrimas quentes nos olhos, mas sorriu no escuro.
— Boa noite, Daniel.
Eles adormeceram assim.
Juntos.
Pela primeira vez.
Continua…