João retornou definitivamente na noite de noivado do Raul com a Beatriz, estávamos em um barzinho no centro, uma pizzaria/barzinho.
Depois daquela madrugada, nunca mais o Raul tentou nada e fingiu esquecimento alcoólico, o que foi um alívio porque eu o amava como a um irmão.
Bia (que não era a mesma Bia prima com quem eu brincava) levantou-se da mesa com as amigas para ir ao banheiro, e um dos nossos amigos da academia saiu por um momento para falar com uma galera em outra mesa. Raul estava lindo com uma camiseta de manga curta, deixando seus braços a mostra.
A barba cerrada, a correntinha no pescoço. Com os cotovelos em cima da mesa e os antebraços entrelaçados, puxou uma golada de um copo de shop e se virou para mim.
- Acho que vou me inscrever no desfile de drags – sussurrei para ele.
Raul encarou meus olhos deixou as sobrancelhas penderem como um cachorrinho pedindo dengo, e deixou escapar:
- Se você me desse um sinal, agora, eu largava tudo por você – ele me encarava.
- Raul de novo não… - pedi enfiando os dedos nos cabelos. - Bia é uma pessoa sensacional. E você não é gay cara… além do mais, a gente é irmão. Bota isso nessa cabeça dura.
- Foda-se tudo isso, - repetiu – eu nunca senti por ninguém o que sinto por você Rique… Nunca tive nada com outro cara nem sinto nada por nenhum… Mas você me deixa louco há muito tempo já.
- Chega seu bêbado, vou embora – anunciei.
Eu levantei empurrando a cadeira para trás. Bia e as amigas estavam voltando a barriguinha dela já começava a crescer. Eu a cumprimentei desejei as maiores felicidades mas lhe disse que tinha um compromisso cedo no dia seguinte e precisava dormir cedo.
Ru veio comigo para aguardar o uber.
- Desculpe, - ele pediu. - Tá legal? Desculpe.
- Tudo bem Ru, - falei – volta para sua mulher e seu filho, cria juízo.
Ele me puxou para um abraço antes que eu entrasse no uber.
Eu voltei para casa pensando no meu figurino caso eu fosse mesmo me montar para o evento de drags. Entrei em casa com o celular diante do rosto.
- Tem uma surpresa par você no seu quarto – minha mãe anunciou quando cheguei.
Eu achava que seria alguma encomenda da Amazon ou da Mercado Livre mas ao ligar a luz e não ver nada além da minha janela aberta, e um par coturnos pretos…
- Espera, - falei – de quem são esses…
Automaticamente olhei para baixo próximo ao pé da cama e no chão, a alguns palmos de distância de mim, estava ele, em carne e osso.
O peito subia e descia em um sono leve. O corte de cabelos na máquina um próximo as orelhas e talvez a quatro em cima, os traços do rosto, da mandíbula retangulares, a axila um pouco peluda aberta pelo braço flexionado segurando a cabeça.
- João… - falei caindo na cama sem acreditar. - João!
Repeti com mais força, e os seus olhos se abriram flechando os meus, uma onda percorreu meu corpo como um choque térmico.
- Oi primo – ele sorriu – quanto tempo.
- Eh, muito mesmo, o que está fazendo aqui?
- Nossa que recepção calorosa – continuou sorrindo.
João esticou os braços acima da cabeça ao sentar-se, ele havia crescido pelo menos uns dez quinze centímetros, havia ganhado pelos onde antes eu desconhecia. A massa muscular dos braços, do peito, no rosto, era outra pessoa diante de mim.
- Eu nem te conheço.
Ele desarmou a expressão de relaxamento, usava uma calça de lona meio verde mato, e uma camiseta branca regatas que contornava seu peitoral com indícios de academia, musculação ou algum esporte de força.
- Mas eu nunca esqueci você Riquinho – ele disse quase sussurrado – esse tempo todo sempre pensei em nós.
João estendeu a mão para meu joelho tentando estreitar a distância, eu o repeli com um tapa, e saltei da cama. Minha respiração pesou rareando, arfante.
- Que nós? Endoidou? Nós… a gente… éramos pequenos…
Eu me recusava a usar aquele termo “nós” para se referir a algo que aconteceu a tanto tempo atrás que para mim estava definitivamente superado!
Ele ficou de pé mostrando que realmente havia crescido bem mais do que os quinze centímetros que eu havia suposto anteriormente.
- Eu fui obrigado a me afastar de você Henrique – ele disse colocando as mãos na cintura depois apertou as têmporas – escuta, vamos conversar, tá legal? Águas passadas, vamos…
- João, você não precisa me explicar porcaria nenhuma – falei. Mas meu tom denunciava a mágoa do passado ainda viva. - Éramos meninos. Foi tudo uma bobagem mesmo passou. Agora eu e você não temos nada…
João era um homem, os ombros, a barba, os bíceps, comparado a mim, franzido e depois da dança, meu corpo ficou mais maleável, flexível, os contornos mais suavizados. Ele caminhou em minha direção com uma velocidade impressionante, desviei passando por cima da cama.
- Isso é ridículo – ele disse. - Por que está fugindo então? Tá legal! Não rola nada entre nós. Você está dizendo que não sente nada, que aquilo foi tudo coisa de moleque, não é? Então por que está fugindo?
- Eu não estou… eu… Sai da droga do meu quarto!
Mamãe bateu na porta, enfiou a cabeça pela fresta, olhou para o sobrinho e depois para mim.
- O que está acontecendo aqui?
- Por que deixou ele entrar no meu quarto? Eu nem conheço esse cara mãe.
- Ele é seu primo meu filho, vocês não se desgrudavam, lembra? Eu pensei.
- Desculpe mãe, pensou errado, por favor – respirei fundo – por favor saiam do meu quarto.
Eu não conseguia pensar direito em tudo o que estava acontecendo. Mais uma vez a velocidade com que as coisas vinham me pegava desprevenido. Apenas na manhã seguinte minha mãe contou o que estava acontecendo.
- Henrique, - mamãe chamou ao meu lado na cama – vim te pedir desculpas meu filho, por ontem, agi mal. Mas eu tenho muita dó do meu sobrinho, o pai dele pega pesado demais.
- O que a senhora quer dizer com isso?
- O menino vive uma vida quase militar Henrique, não tem liberdade para nada, os pais monitoram vinte e quatro horas. Ele está começando a conhecer a vida agora, depois do derrame do pai.
Mamãe contou que nos anos em que eles ficaram fora, o pai do João cortou quase todo o contato do filho com o mundo externo, forçando ele a uma vida regrada por alimentação controlada, horários rígidos de sono. Enfim, um verdadeiro regime militar.
- Mas a senhora mesmo me mostrou uma foto de uma competição…
- Jogos militares – ela disse – João cortou meu coração quando disse que o único amigo que tinha era você.
- Eu?
Ela assentiu e disse uma frase pronta que era típica de sua lavra:
- Você é responsável pelo que cativas – orgulhosa emendou – não seja duro com ele, nem consigo mesmo, briguinhas de crianças não podem valer mais que uma amizade verdadeira meu filho. Você é tão carinhoso com o Raul, seja mais generoso com o João também.
AVISO: "Meu primo virou um gostoso" é a primeira parte de uma história que começa nos anos de descoberta de dois primos e avança para a idade mais madura, onde acontece o desfecho propriamente dito. Desde já agradeço a todos que leram, e deram a estrelinha, obrigado, boa leitura!