Olá, me chamo Paula, essa é a minha primeira série de contos que publico aqui. Então leiam, comentem, se vocês gostarem, publicarei outras séries de contos que já tenho escritas há um tempo. Espero que gostem, beijinhos a todos.
O despertador não precisou insistir. Fernanda Martins já estava com os olhos abertos antes mesmo do primeiro bipe, encarando o teto de seu quarto. O silêncio da manhã era o único momento em que ela sentia que o mundo não estava tentando decifrá-la. Ela se espreguiçou na cama, os lençóis de seda deslizando por sua pele macia e hidratada, uma rotina que ela nunca negligenciava.
Aos 23 anos, o corpo de Fernanda era sua obra-prima e sua armadura. Ao se levantar, seus pés descalços tocaram o chão frio enquanto ela caminhava em direção ao espelho de corpo inteiro. Ela não via apenas uma mulher trans; via a força de sua própria construção. Seus cabelos pretos e lisos caíam como uma cascata de ébano sobre os ombros definidos. A luz matinal entrava pelas frestas da cortina, acentuando a curvatura de sua cintura fina e a firmeza de suas pernas longas e torneadas, fruto de anos de dedicação absoluta.
Ela começou sua rotina. Antes de qualquer coisa, o ritual de cuidados. Cada centímetro de sua pele recebia atenção, óleos e cremes que deixavam um rastro de perfume doce e carnal no ar. Ela gostava da sensação de suas próprias mãos percorrendo suas curvas; era um ato de autoafirmação antes de se entregar aos olhos do mundo.
Após um café da manhã leve e funcional, Fernanda preparou sua bolsa para a academia. Vestiu um conjunto de compressão preto que parecia uma segunda pele, moldando cada músculo de suas coxas e glúteos. Ao sair do apartamento, ela já sentia a mudança de atmosfera. No elevador, o espelho refletia a imagem de uma modelo em potencial, mas os 5 mil seguidores em seu perfil ainda pareciam pouco para a ambição que queimava em seu peito.
A academia estava relativamente vazia, mas a presença de Fernanda nunca passava despercebida. Enquanto ela se posicionava Alguns eram de admiração técnica, outros eram carregados de uma curiosidade invasiva, aquela que tentava perfurar a roupa para entender sua genética. Fernanda ignorava. Ela aumentava o peso, sentindo a fibra muscular esticar e contrair, o suor começando a brilhar em sua testa e colo. Cada repetição era um grito silencioso de poder. Ela gostava da dor do treino; era real, era controlável, diferente das nuances sociais que teria que enfrentar mais tarde na agência.
Ela notou um grupo de rapazes perto do supino. O silêncio deles ao vê-la passar era barulhento. Fernanda sentia o peso daquela "curiosidade" — um misto de desejo e o desejo de desvendar o que a sociedade costumava esconder. Eles não olhavam para ela como uma atleta, mas como um desafio visual. Naquele momento, enquanto sentia o suor escorrer entre seus seios e descer pelo abdômen definido, uma ideia audaciosa cruzou sua mente: E se eles pudessem ver tudo? E se o choque da verdade fosse o preço que eles teriam que pagar pelo desejo?
Ao terminar o treino, Fernanda foi para o chuveiro da academia. A água quente batendo em suas costas largas e descendo pelas coxas musculosas trazia um relaxamento quase extático. Ela se ensaboava com lentidão, apreciando cada contorno de sua anatomia. Ao sair, enrolada na toalha, ela cruzou o vestiário com a cabeça erguida. Ali, entre outras mulheres, o clima era diferente, mas a sensação de que ela ainda carregava um "segredo" sob o tecido a incomodava. Ela queria que a transparência de sua alma se refletisse em sua pele.
De volta ao apartamento, o foco mudava. Ela ligava o setup no quarto gamer. As luzes LED em tons de rosa e roxo transformavam o ambiente em um santuário tecnológico. Ali, ela era a "Fernanda Gamer", jogando com habilidade, mas ainda mantendo uma distância segura de sua audiência. Ela comentava sobre os jogos, interagia com os poucos seguidores fiéis, mas sempre sentia que algo estava faltando. Havia uma barreira entre quem ela era e o que ela mostrava.
— Bom dia, pessoal — disse ela para o microfone, a voz suave mas firme. — Hoje vamos de RPG, mas logo mais tenho que correr para a agência. Vida de modelo não é só glamour, é muita espera e... bom, vocês sabem.
Naquela manhã, ela optou por um maiô vermelho metálico, o mesmo que usara para dormir, sentindo a textura fria do material contra seu corpo quente do banho.
Enquanto os primeiros seguidores entravam. O chat começou a rodar devagar. "Linda", "Que shape é esse?", "Joga o quê hoje?". Fernanda sorria, mas seus olhos focavam no número: 5.120 seguidores. Estável demais. Seguro demais.
Enquanto jogava, ela olhava para o canto da tela, vendo o contador de visualizações estagnado. Ela sabia que tinha algo a mais para oferecer, um magnetismo que o tecido das roupas parecia abafar. O pensamento de que seu corpo era uma obra de arte que merecia ser vista sem filtros começou a germinar, ainda que inconscientemente, enquanto ela se preparava para enfrentar mais um dia sob o comando de um chefe que a via mais como um enigma anatômico do que como um talento.
Ela não sabia, mas aquele seria um dos últimos dias em que ela usaria roupas para se sentir protegida. O desejo de liberdade estava prestes a transbordar.
Enquanto controlava sua personagem em um cenário de fantasia, ela pensava nas postagens que planejara para o Instagram. Ela já havia começado a flertar com o limite, postando fotos com transparências ousadas ou ângulos que sugeriam muito mais do que mostravam. Mas ela queria mais. Ela queria postar uma foto de costas, em plena luz do dia, em uma rua movimentada, onde o foco não fosse o escândalo, mas a naturalidade de sua existência.
A rotina de modelo a chamava. Ela desligou a live após duas horas, sentindo uma inquietude crescente. Vestiu um vestido justo, elegante, mas que escondia completamente seu pênis — a parte de si que o chefe da agência tanto cobiçava descobrir. Ao calçar os saltos, Fernanda olhou-se uma última vez no espelho. A modelo estava pronta para o trabalho.
A fachada de vidro da agência Lumière refletia o sol inclemente quando Fernanda estacionou. O brilho do edifício tentava projetar uma imagem de sofisticação e pureza, mas, para ela, aquele lugar exalava o cheiro metálico de uma vitrine de carne. Ao atravessar as portas automáticas, o ar condicionado gelado atingiu sua pele, fazendo os pelos de seus braços se arrepiarem sob o tecido fino do vestido.
Fernanda caminhou pelo saguão com a elegância de quem foi treinada para transformar o chão em passarela. Cada passo dado com seus saltos agulha ecoava no mármore, um som rítmico que anunciava sua chegada. Ela cumprimentou a recepcionista com um aceno seco, sentindo os olhos da outra mulher percorrerem seu corpo com uma mistura de inveja e escrutínio. Naquele ambiente, Fernanda era um "produto exótico", uma aposta que a agência mantinha no catálogo, mas que ainda não tinha a coragem de colocar na vitrine principal.
Ao entrar na sala de espera dos modelos, o ambiente estava carregado. Outros profissionais, homens e mulheres de belezas simétricas e previsíveis, estavam espalhados pelos sofás de couro. O contraste era evidente. Fernanda trazia consigo uma energia vibrante, uma musculatura que desafiava o padrão esguio da moda high fashion, mas que atraía as lentes pela força que emanava. Seus cabelos pretos, agora soltos e lisos como seda, moldavam seu rosto de traços marcantes, enquanto seus lábios, pintados com um batom nude discreto, permaneciam cerrados em uma linha de determinação.
— Fernanda, que bom que chegou. O Dr. Ricardo está à sua espera na sala de reuniões. Sozinhos — disse a assistente, com um sorriso que não chegava aos olhos.
O estômago de Fernanda deu um nó familiar. Dr. Ricardo, o dono da agência, era um homem que exalava poder e um perfume excessivamente caro, que parecia sufocar qualquer vestígio de respeito profissional. Ela caminhou até a sala, ajeitando a saia do vestido que, embora estivesse no lugar, parecia queimar contra suas coxas.
Ao entrar, Ricardo estava sentado atrás de uma mesa de mogno maciço. Ele não levantou os olhos imediatamente; preferiu deixá-la ali, parada, permitindo que o silêncio fizesse o trabalho de diminuí-la. Quando finalmente olhou, seus olhos não focaram no portfólio que ela trazia, mas na região de seu quadril, tentando ler o que o corte do vestido escondia.
— Sente-se, Fernanda. Estava olhando suas últimas postagens — ele começou, a voz arrastada e paternalista. — Você tem um corpo magnífico. Realmente... escultural. Mas os clientes têm dúvidas. Eles perguntam sobre o "caimento" de certas peças íntimas. Eles querem saber o que exatamente estão contratando.
Fernanda sentiu o sangue latejar em suas têmporas. A conotação erótica da voz dele era inegável. Não era sobre moda; era sobre o fetiche da descoberta. Ricardo levantou-se e caminhou lentamente ao redor da mesa, parando perigosamente perto dela. O espaço pessoal de Fernanda foi invadido pelo cheiro de charuto e arrogância.
— Sabe, eu poderia te conseguir aquela campanha internacional de moda fitness. Mas eu preciso ser o primeiro a ter certeza de que tudo está... no lugar certo. Por que você não me mostra um pouco mais do que essa roupa esconde? Apenas para o meu "olhar técnico".
Aquelas palavras agiram como um gatilho. Fernanda sentiu a repulsa lutar contra a necessidade do emprego, mas, no fundo de sua mente, a ideia da liberdade absoluta começou a brilhar com mais força. Ela olhou para as próprias mãos, vendo a força de seus dedos e a delicadeza de sua pele, e percebeu que aquele homem nunca entenderia a magnitude do templo que ela havia construído.
— O meu corpo não é um mistério a ser resolvido pelo seu olhar, Ricardo — ela respondeu, a voz mais baixa e perigosa do que ele esperava.
Ele apenas riu, um som seco que ecoou pela sala fria. — Vamos ver até quando sua dignidade paga suas contas, Fernanda. Vá para o estúdio. Temos fotos de catálogo hoje. E use algo... revelador.
Ao sair da sala, Fernanda não sentia medo, mas uma fúria gélida e transformadora. Ela caminhou em direção ao camarim, mas seus olhos captaram sua própria imagem no espelho do corredor. Ela viu a modelo perfeita, a mulher transsexual que todos queriam rotular, mas que ninguém conseguia conter.
Ali, no meio daquela agência opressora, ela tomou uma decisão silenciosa. O próximo capítulo de sua vida não seria escrito com tecidos, mas com a verdade nua de sua própria pele. Ela postaria aquela foto. Ela quebraria a convenção. E, se Ricardo queria tanto ver o que havia por baixo, ele teria o que desejava, mas não da forma submissa que ele imaginava.
Fernanda entrou no camarim e começou a se despir para a sessão de fotos. Cada peça de roupa que caía no chão era como uma corrente sendo quebrada. O tom erótico de sua existência não era para o prazer alheio, mas para a sua própria libertação. A revolução de Fernanda Martins estava apenas começando.
