Acordei com a sensação estranha de que ainda estava ouvindo a música da festa da noite anterior. Demorei alguns segundos para perceber que era apenas um eco na minha cabeça — ou talvez o reflexo do cansaço.
Olhei ao redor e lembrei imediatamente de onde estava.
A casa de Marlon.
Levantei devagar, sentindo o corpo ainda pesado, e fui direto para o banheiro. Abri o chuveiro e deixei a água cair quente sobre meus ombros, tentando organizar os pensamentos. Aquela semana prometia ser longa… e imprevisível.
Enquanto a água escorria, várias cenas da noite anterior voltaram à minha mente — o caos da festa, a polícia, e principalmente… Marlon.
O jeito como ele me olhou.
Balancei a cabeça, como se quisesse afastar aquilo.
Depois do banho, voltei para o quarto, coloquei uma roupa confortável e abri meu notebook. Ainda havia algumas pendências do trabalho. Respondi alguns e-mails, revisei dois arquivos e organizei tarefas que estavam atrasadas.
Quando terminei, fechei o notebook e respirei fundo.
Silêncio.
A casa estava completamente quieta.
Lembrei que Marlon havia comentado algo sobre treinar pela manhã. Provavelmente estava na academia.
Decidi sair do quarto.
Assim que cheguei à sala, percebi que a tranquilidade do ambiente contrastava completamente com o estado em que tudo se encontrava. Copos espalhados, almofadas fora do lugar, marcas de bebida na mesa, garrafas vazias no chão…
Vestígios claros da festa.
Passei a mão na nuca.
— A diarista deve me odiar se ver isso…
Lembrei então que ela só voltaria no dia seguinte.
Suspirei.
— Ok… alguém precisa fazer isso.
Arregacei as mangas e dei início a faxina.
Comecei recolhendo os copos e garrafas. Depois organizei as almofadas, varri o chão e passei um pano na mesa. Aos poucos, a casa foi voltando ao normal.
Enquanto limpava, percebia detalhes que não tinha notado na noite anterior. A decoração elegante, os móveis bem escolhidos, os quadros modernos nas paredes… tudo ali mostrava que aquela era uma casa bem cuidada.
Ou pelo menos… costumava ser.
Depois de quase uma hora limpando, decidi verificar o corredor dos quartos.
Foi quando parei em frente à porta do quarto de Marlon.
Ela estava entreaberta.
Não sei exatamente por quê, mas senti uma curiosidade imediata.
Talvez porque eu ainda estivesse tentando entender quem ele era de verdade.
Talvez porque o quarto de uma pessoa sempre revela coisas que ela não diz.
Fiquei alguns segundos parado.
Então empurrei a porta devagar.
O quarto era completamente diferente do que eu imaginava.
Arrumado.
Organizado.
Mas, ao mesmo tempo, cheio de personalidade.
Uma parede inteira era dedicada à musculação: halteres, faixas elásticas e alguns equipamentos menores organizados em suportes. Em uma prateleira acima, havia vários troféus — campeonatos de jiu-jitsu e natação, todos alinhados.
Passei os olhos por eles, impressionado.
— Então é por isso…
Agora fazia sentido o corpo dele.
Em outra parede, pôsteres de mulheres seminuas ocupavam boa parte do espaço. Fotos sensuais, poses provocantes, tudo muito… Marlon.
Soltei um pequeno sorriso involuntário.
— Claro que teria isso…
Mas o que mais chamou minha atenção não foi a decoração.
Foi o cheiro.
O quarto inteiro tinha o aroma dele.
Um perfume masculino, levemente amadeirado, com um toque fresco que parecia misturar sabonete e algo mais quente, quase envolvente. Era um cheiro bom… forte na medida certa.
Fiquei parado por alguns segundos, respirando aquele aroma sem perceber.
Aquilo me causou uma sensação estranha.
Conforto.
E ao mesmo tempo… nervosismo.
Caminhei até a cômoda.
Foi quando vi.
Um porta-retrato.
Peguei devagar.
Na foto, Marlon estava sorrindo de um jeito completamente diferente do que eu conhecia. Um sorriso leve, verdadeiro… quase inocente.
Ao lado dele, havia um rapaz.
Muito bonito.
Os dois pareciam extremamente próximos.
Felizes.
Aquilo me intrigou na mesma hora.
— Quem é você…?
Observei melhor a imagem.
A forma como Marlon segurava o ombro daquele rapaz parecia íntima demais para ser apenas amizade.
Meu coração acelerou sem motivo aparente.
Ou talvez… eu soubesse o motivo.
Foi então que ouvi uma voz atrás de mim.
— O que você tá fazendo?
O susto foi tão grande que quase deixei o porta-retrato cair.
Virei rápido.
Marlon estava parado na porta.
Suado.
Com roupa de treino.
E com uma expressão nada amigável.
— Eu… — minha voz falhou por um segundo — eu estava só…
Olhei para o porta-retrato em minhas mãos.
Erro.
Grande erro.
O olhar dele mudou imediatamente.
Mais sério.
Mais fechado.
Ele entrou no quarto devagar.
— Você entrou no meu quarto?
Engoli seco.
— A porta estava aberta…
— E isso te deu liberdade pra mexer nas minhas coisas?
O tom não foi alto.
Mas foi duro.
— Desculpa. Eu estava limpando a casa e…
Ele olhou rapidamente ao redor.
Percebeu que o quarto estava exatamente como antes.
Depois voltou o olhar para o porta-retrato.
— E isso aqui?
Fiquei alguns segundos sem saber o que responder.
— Eu só fiquei curioso.
Silêncio.
Pesado.
Marlon se aproximou.
— Curioso com o quê?
Olhei novamente para a foto.
— Com ele.
A resposta saiu antes que eu pensasse.
Assim que falei, percebi que talvez tivesse ido longe demais.
O maxilar dele travou.
Ele pegou o porta-retrato da minha mão com cuidado — mas o gesto carregava tensão.
— Isso não é da sua conta.
O clima ficou frio.
Constrangedor.
Eu deveria sair.
Mas algo me fez ficar.
— Ele é seu amigo?
A pergunta saiu mais baixa.
Mais cautelosa.
Marlon não respondeu.
Apenas colocou o porta-retrato de volta na cômoda.
Depois me encarou.
E havia algo diferente naquele olhar.
Não era apenas irritação.
Era… defesa.
Como se eu tivesse encostado em uma parte dele que ninguém mais tocava.
— Kevin…
O jeito que ele disse meu nome foi diferente.
Mais sério.
— Não entra mais aqui.
Assenti imediatamente.
— Tá.
O silêncio voltou.
Mas dessa vez havia algo mais ali.
Um segredo.
Algo que claramente não era simples.
Passei por ele em direção à porta, sentindo o coração acelerado.
Quando estava saindo, ouvi sua voz novamente:
— A casa… tá limpa?
Virei um pouco o rosto.
— Tá.
Ele soltou um leve:
— Valeu.
Foi rápido.
Quase automático.
Mas foi a primeira vez que senti que aquela semana realmente começava a mudar alguma coisa.
E não era só a casa.
Era ele também.
Saí do quarto tentando parecer natural, mas por dentro eu estava completamente desconcertado.
A imagem daquele porta-retrato não saía da minha cabeça.
O jeito como Marlon reagiu…
O silêncio dele…
E, principalmente, o sorriso diferente que ele mostrava naquela foto.
Havia algo ali.
Algo que eu claramente não deveria ter visto.
Balancei a cabeça, tentando afastar os pensamentos, e segui direto para a cozinha.
A cozinha estava relativamente organizada, diferente da sala antes da faxina. Abri a geladeira e encontrei frutas, ovos, leite e alguns itens básicos.
— Pelo menos isso…
Decidi preparar um café da manhã simples. Coloquei o café para passar, cortei algumas frutas e separei pão e manteiga. Era mais por educação — e talvez para diminuir o clima estranho que havia ficado entre nós.
Enquanto organizava tudo, minha mente ainda voltava para o quarto dele.
Para o cheiro.
Para a foto.
Para o jeito como ele disse: “Não entra mais aqui.”
Foi então que senti uma presença.
Mas não percebi de imediato.
Continuei arrumando a mesa.
Atrás de mim, encostado na parede, Marlon observava em silêncio. Os braços cruzados destacavam ainda mais os músculos tensionados pelo treino. A camiseta regata estava levemente úmida de suor, e o ar sério contrastava com o jeito relaxado de quem apenas analisava a situação.
Ele ficou ali por alguns segundos.
Até falar:
— Minha mãe te contratou como o novo empregado da casa?
O susto foi imediato.
Virei rápido.
— O quê?
Marlon ergueu uma sobrancelha, olhando para a mesa montada.
— Porque… você já limpou a casa inteira… e agora tá fazendo café da manhã.
O tom era claramente debochado.
Meu rosto esquentou na hora.
— Não! Eu só…
Ele interrompeu, soltando uma risada leve.
— Relaxa. Tô brincando.
Respirei fundo, meio sem graça.
— Eu… só quis ajudar.
Ficamos alguns segundos em silêncio.
Então percebi algo que me incomodava desde o quarto.
— Marlon… sobre mais cedo…
Ele caminhou até a bancada.
— Já passou.
Mas eu continuei:
— Eu não sou uma pessoa xereta… nem bisbilhoteira. A porta tava aberta e eu…
Ele deu de ombros, como se aquilo não tivesse mais importância.
— Kevin, relaxa.
Abriu um armário.
— Sério.
Aquilo me deixou ainda mais sem graça.
Marlon pegou um pote grande e colocou sobre a bancada. Depois abriu a geladeira e começou a separar alguns itens.
Claras de ovo.
Aveia.
Banana.
Uma garrafa de suplemento.
Fiquei observando.
Ele parecia extremamente focado no que fazia, como se seguisse um roteiro.
— Você sempre come assim?
Ele nem olhou para mim.
— Pós-treino.
Pegou uma coqueteleira e começou a misturar o suplemento.
— Dieta.
Olhei para a mesa que eu tinha preparado.
Pão.
Frutas.
Café.
Tudo ignorado.
Cruzei os braços, meio constrangido.
— Acho que exagerei…
Ele olhou rapidamente para a mesa.
— Ficou bom.
Mas voltou imediatamente para o preparo dele.
Era o jeito dele.
Direto.
Sem rodeios.
Fiquei alguns segundos em silêncio, até que a curiosidade falou mais alto.
— O treino foi pesado?
Agora ele me olhou.
— Normal.
— Você treina todo dia?
— Quase.
Aquilo realmente me impressionava.
— Eu nunca fui numa academia.
Ele parou o movimento por um instante.
— Nunca?
— Não.
Soltei um pequeno riso.
— Dá pra perceber.
Ele analisou meu corpo por alguns segundos — não de forma maldosa, mas técnica.
Como se estivesse avaliando.
— Dá.
Ri sem graça.
— É tão difícil assim começar?
Marlon apoiou o cotovelo na bancada.
— Não.
— Então por que parece?
— Porque a maioria começa errado.
Aquilo despertou ainda mais minha curiosidade.
— Errado como?
Ele apontou discretamente para a sala.
— Tem alguns pesos ali.
Franzi a testa.
— Aqui?
— Eu treino em casa às vezes.
Fez uma pausa.
— Se quiser… eu te mostro.
Demorei alguns segundos para responder.
Aquilo não estava nos meus planos.
Eu estava ali só por uma semana.
Só ajudando.
Nada mais.
— Ah… não sei…
Ele abriu a coqueteleira e tomou um gole.
— Você que sabe.
Voltou a agir como se o assunto tivesse terminado.
Mas minha cabeça continuava ali.
Na proposta.
No jeito natural como ele falou.
Sem julgamento.
Sem deboche.
Algo que eu não esperava vindo dele.
— É que… — falei — eu vou ficar aqui só essa semana.
Ele deu de ombros.
— Uma semana já dá pra aprender o básico.
Aquilo me pegou de surpresa.
Olhei para ele.
Marlon agora parecia mais tranquilo.
Mais acessível.
Muito diferente do cara da noite anterior.
— Não precisa decidir agora — ele completou.
Pegou a tigela com a comida.
— Mas se for ficar aqui… pelo menos aprende alguma coisa útil.
Um pequeno sorriso apareceu no canto da boca dele.
Não era provocação.
Era quase… incentivo.
E aquilo, por algum motivo, me deixou nervoso.
Talvez porque fosse a primeira vez que eu sentia que Marlon realmente queria me incluir em algo.
Mesmo que fosse apenas… musculação.
Mas, no fundo, eu sabia:
Aquilo não era só sobre treino.
Era sobre aproximação.
E ela tinha começado.
Depois do café da manhã, achei que cada um seguiria para um lado da casa, mas Marlon terminou a tigela dele, colocou na pia e disse de forma direta:
— Vem comigo.
— Pra onde? — perguntei.
— Fundo da casa.
Segui sem questionar muito.
Passamos pela sala, atravessamos uma porta de vidro e chegamos ao quintal.
Na mesma hora, parei por alguns segundos.
O lugar era simplesmente lindo.
O jardim era extremamente bem cuidado, com plantas ornamentais distribuídas de forma harmoniosa, pequenos arbustos podados com precisão e flores coloridas que davam um ar elegante ao ambiente. Havia um caminho de pedras claras levando até uma área de descanso com duas espreguiçadeiras modernas.
Logo ao lado, uma piscina grande e cristalina refletia a luz da manhã.
A água parecia tão limpa que dava vontade de entrar na mesma hora.
Olhei ao redor, impressionado.
— Nossa…
Marlon nem virou.
— Minha mãe que cuida disso tudo.
Aquilo fazia sentido.
Era impossível não perceber o bom gosto da senhora Mirella em cada detalhe.
Tudo ali era organizado, sofisticado e acolhedor ao mesmo tempo.
Mas o que realmente chamou minha atenção foi o pequeno espaço montado próximo ao muro lateral.
Uma espécie de área improvisada de treino.
Banco reto.
Algumas barras.
Anilhas organizadas.
E halteres.
Marlon já estava com dois halteres nas mãos, encaixando anilhas menores para ajustar o peso.
— Quinze quilos tá bom pra começar — disse, mais para si mesmo do que para mim.
Me aproximei devagar.
— Pra começar… pra mim?
Ele olhou de lado.
— Ou você achou que eu ia treinar agora?
Soltei um riso nervoso.
— Não sei… você parece que treina o dia inteiro.
Ele ignorou o comentário e terminou de ajustar a barra.
— Hoje vai ser bíceps.
— Bíceps?
Ele levantou a barra vazia e fez o movimento lentamente.
— Esse aqui.
Observei com atenção.
O movimento parecia simples.
Subir.
Descer.
Mas havia controle em cada detalhe.
— Parece fácil.
Ele me entregou a barra.
— Parece.
Segurei.
Era mais pesado do que eu imaginava.
Posicionei os braços como achei que estava certo e tentei repetir o movimento.
Subi rápido demais.
Desci sem controle.
E inclinei o corpo sem perceber.
— Não.
A voz dele veio firme.
Antes que eu tentasse de novo, ele se aproximou.
— Tá tudo errado.
Soltei uma risada sem graça.
— Eu imaginei.
Foi então que ele ficou atrás de mim.
— Primeiro… postura.
Senti as mãos dele encostarem levemente nos meus braços, ajustando a posição.
— Cotovelo mais fechado.
Depois, tocou meu ombro.
— Não joga o corpo pra trás.
Em seguida, segurou minhas mãos sobre a barra, ajustando a pegada.
Foi nesse momento que algo estranho aconteceu comigo.
O toque dele.
O cheiro.
Ainda havia um leve aroma da academia misturado com o perfume que eu já tinha sentido antes — aquele cheiro masculino, quente, marcante.
Meu coração acelerou imediatamente.
Senti um pequeno arrepio subir pela nuca.
Tentei me concentrar.
Mas era difícil.
Muito difícil.
Eu nunca tinha passado por aquilo.
Nunca tinha ficado tão próximo de alguém daquela forma.
Muito menos dele.
— Agora sobe devagar — ele disse.
Demorei meio segundo para perceber que ele estava esperando.
— Ah… tá.
Subi a barra.
Dessa vez mais controlado.
— Isso.
A voz dele saiu tranquila.
Natural.
Como se aquele contato não significasse absolutamente nada.
E talvez, para ele, realmente não significasse.
— Desce… sem soltar.
Fiz novamente.
Meu braço começou a tremer.
— Normal — ele disse.
— Já?
Ele soltou uma leve risada.
— Você nunca treinou.
— Verdade…
Fiz mais algumas repetições.
Cada vez mais difícil.
— Ok… chega.
Abaixei a barra imediatamente.
— Meu braço já tá doendo.
— Amanhã vai doer mais.
Respirei fundo, tentando recuperar o fôlego.
Marlon voltou para o lado, completamente tranquilo.
Como se aquilo fosse apenas mais uma parte comum da rotina dele.
Mas para mim… não era.
Nem um pouco.
Algo tinha mudado.
Não só pelo treino.
Mas pela forma como estávamos interagindo.
Sem tensão.
Sem aquele clima pesado do início.
Pela primeira vez desde que cheguei, parecia que estávamos apenas… conversando.
Aprendendo.
Compartilhando algo.
— Faz mais duas séries depois — ele disse. — Leve.
Assenti.
— Tá.
Ele pegou uma toalha e passou no rosto.
Fiquei observando por alguns segundos.
Então percebi.
Sem que eu notasse, uma sensação diferente estava surgindo.
Não era só curiosidade.
Não era só nervosismo.
Era… proximidade.
Uma espécie de começo de amizade.
E o mais curioso era perceber que aquilo estava começando justamente através de algo que ele gostava tanto.
A musculação.
Sorri discretamente.
Talvez aquela semana realmente fosse mudar muita coisa.
Inclusive… a forma como eu via Marlon.
E, talvez, a forma como ele começaria a me ver também.