BREAKING NEWS: TE AMO - 6 - CHUVA

Um conto erótico de Escritor Sincero
Categoria: Gay
Contém 3053 palavras
Data: 27/02/2026 17:18:14

Curte histórias fofas e leves? Então, confere aí:

BRUNO ASSIS

— Leva um guarda-chuva, acho que vai chover. — Raquel avisou ao olhar pela janela do apartamento.

— Sério? — perguntei, colocando a cabeça para fora da porta do banheiro, a escova de dentes pendurada na boca.

— Um temporal. — Respondeu. — Eu preciso ir. — Ela se despediu apressada, batendo a porta atrás de si.

Que droga. Odeio dias chuvosos. No jornalismo, isso significava uma coisa: passar o dia molhado, cobrindo alagamentos, quedas de barreira e todos os desastres que a chuva insiste em causar no Rio de Janeiro. Até agora, em quase um mês de TV Mundo, tive matérias tranquilas — culinária, esportes, entrevistas leves. Mas a sorte não dura para sempre.

Olhei pela janela e confirmei o cenário: céu cinza, vento frio, prenúncio de caos. Peguei minha mochila e enfiei algumas roupas extras, porque se tem uma coisa que eu sei é que chuva no Rio não perdoa. Mexi no meu orçamento apertado e chamei um carro por aplicativo.

O motorista não demorou a chegar, e assim que me viu no retrovisor, abriu um sorriso:

— Você não é o homem da bomba?

É isso. Já não sou mais o Bruno, jornalista iniciante, ou até mesmo o Bruno Assis. Agora virei o "garoto da bomba". Revirei os olhos, mas não tive escolha: contei a história toda de novo, detalhe por detalhe, como se fosse uma versão mal paga de atração turística. Ele pediu selfie, claro. E, para completar, ainda fez questão de me contar sobre as celebridades que já havia levado no carro — Karoline Dilcimen, Juliane Guerra, Claudiane Peixe, Armando Farut... uma lista digna de rodapé de revista de fofoca.

Pelo menos cheguei antes de o céu desabar. Sincronia divina. Quem não teve a mesma sorte foi a Sabrina e o Júnior: entraram ensopados, reclamando do transporte público, parecendo duas roupas esquecidas na máquina de lavar. Cada um também trouxe sua mochila com roupas secas, sinal de que não era a primeira vez que passavam por isso.

Seguimos para a área dos banheiros, e Sabrina, sem cerimônia, entrou conosco. Ficamos conversando sobre as pautas prováveis do dia.

— Inundações, desmoronamento, morte certa. — disse ela, como se estivesse lendo o cardápio de um restaurante.

— Mas a TV Mundo fornece EPI completo — rebateu Júnior, sempre otimista. — Guarda-chuva, capa de chuva, bota... não é moleza, mas ajuda.

Entrei na redação e parecia cena de filme: gente correndo para todo lado, telefones tocando sem parar, mapas da cidade projetados nas telas. A chefe dos pauteiros puxou Sabrina pelo braço sem sequer cumprimentar, já despejando informações sobre bairros alagados e famílias ilhadas.

Júnior bateu no meu ombro, rindo como quem sabia de algo que eu não sabia.

— Bem-vindo à prova de fogo, Bruno.

E sumiu no meio da correria.

Minhas pautas do dia foram todas canceladas. Segui para o almoxarifado, onde encontrei Miguel ajustando a capa de chuva. Ele me lançou aquele olhar calmo que só ele tem e disse:

— A Alessandra pediu para eu te acompanhar. Você nunca cobriu nada de clima, e ela achou melhor irmos juntos. E adivinha? Vamos com um motorista, o Anderson. Ele vai nos auxiliar, já que o Amarildo não sabe dirigir quando chove.

— Teu cu. — Soltou Amarildo me tirando um sorriso sincero.

Por dentro, uma parte de mim adorou. Qualquer chance de passar mais tempo com Miguel era bem-vinda. Mas outra parte ficou irritada: eu tinha certeza de que daria conta sozinho. Não precisava de babá.

Respirei fundo e forcei um sorriso.

— Vamos nessa, então.

Porque, no fim das contas, chuva ou não, a cidade não ia esperar por mim.

A água descia em cortinas pesadas do céu, castigando o para-brisa do Jeep Wrangler como se quisesse apagar qualquer traço de civilização na nossa frente. O barulho dos limpadores tentando vencer aquela enxurrada era quase hipnótico, mas, ao mesmo tempo, trazia uma sensação de que estávamos entrando numa guerra — só que a arma inimiga era a chuva.

Dessa vez, Amarildo não precisou fazer milagre sozinho. O Emerson, motorista da emissora, segurava firme o volante, olhos atentos ao asfalto escorregadio. Amarildo, aliviado, ajeitava sua câmera no colo, como se fosse um bebê que ele não podia perder de vista. Eu entendia o alívio: não dá para dirigir e registrar o caos ao mesmo tempo.

O carro da TV Mundo também não era mais o HB20 apertado de sempre. Agora estávamos num Wrangler, com a logomarca da emissora estampada nas portas, como um escudo de autoridade improvisado. Era estranho, mas aquela máquina enorme me passava uma sensação de segurança. Eu me sentia protegido, como se o carro fosse uma muralha contra a cidade que, lá fora, parecia se dissolver em água.

Seguimos até a Zona Norte, região marcada em vermelho no mapa do IVCE-RJ — Índice de Vulnerabilidade a Chuvas Extremas. Eu lembrava bem desse estudo: juntava risco geológico com a desigualdade social, e o resultado era previsível. Favela, casa no morro, ruas sem drenagem... lugares onde a chuva deixava de ser só um incômodo para virar ameaça de morte. E estávamos indo justamente para lá.

Quando o Emerson estacionou numa rua estreita, vi a água correndo pelas sarjetas como se tivesse pressa em carregar tudo. O som da chuva batendo no teto do carro abafava o resto da cidade.

— E agora? — perguntei, tentando disfarçar o frio na barriga.

Miguel, no banco ao lado, não levantou os olhos do celular. Os dedos dele se moviam rápidos, e a luz da tela refletia em seu rosto concentrado.

— Esperamos a redação. — respondeu, seco, sem desgrudar da tela.

Amarildo, que parecia já ter visto aquele cenário dezenas de vezes, recostou a cabeça no banco e suspirou, como quem já sabia o que vinha pela frente.

— E espero que ninguém envie mensagem. — disse, olhando para fora, os olhos acompanhando a água descendo a rua, como se já conseguisse prever o desastre antes mesmo de acontecer.

E eu, preso ali entre a ansiedade e o cheiro de estofado molhado, só pensava que estávamos prestes a mergulhar de vez no coração do temporal.

****

***

MIGUEL TORRES

Tantas coisas para fazer, mas estou aqui, preso com o Bruno ao meu lado. Não que seja ruim... pelo contrário. Ele está sentado, olhando distraído pela janela do carro, com aquele ar blasé que só ele tem. Usa uma camisa social azul-marinho ajustada no corpo e uma calça cinza que valoriza ainda mais o porte físico. Ombros largos, braços firmes, postura impecável — Bruno parece que nasceu pronto para ocupar a frente das câmeras. Às vezes me pego pensando que até parado, em silêncio, ele já conta uma história.

É a primeira pauta de desastre dele, e por isso a Alessandra pediu que eu viesse junto. Faz sentido. O texto do Bruno é ótimo, isso ninguém discute. Diferente de muitos repórteres que arrastam as palavras ou entregam matérias preguiçosas, ele tem sensibilidade. Só que um dia de chuva no Rio pode virar um inferno — enchentes, deslizamentos, famílias inteiras desabrigadas. Melhor ele ter alguém mais experiente por perto.

Tudo bem que amanhã provavelmente vou estar apresentando o Jornal TV Mundo, mas ainda tenho muito o que aprender também.

— Nervoso com amanhã? — ele perguntou, quebrando meu raciocínio, enquanto Amarildo e Anderson, na frente, discutiam o jogo do Flamengo na noite anterior.

— Um pouco, mas treinei bastante. E o Wilson Lonney está sendo um cara sensacional. — confessei.

Bruno deu um sorriso tímido.

— Igual você. — soltou, rápido demais, como se não tivesse pensado no que dizia. Ficou vermelho, desviou o olhar para a janela e riu baixinho, tentando disfarçar. Depois voltou a me encarar, sério: — Aprendi bastante com você. Talvez se fosse outro repórter, já teria desistido de mim no momento que eu pisei naquela bomba.

Olhei para ele com calma.

— Para mim foi a externa mais emocionante em muito tempo. Eu sei que talvez eu tenha parecido frio, mas como jornalistas temos uma missão: informar com seriedade. — expliquei.

O celular vibrou na minha mão.

— Anderson, vamos para a Zona Sul. Parece que aconteceu uma inundação no Planetário. Estou te mandando a localização.

— Com esse trânsito horrível, vamos levar quase uma hora. Vou dormir. — Amarildo avisou, baixando o chapéu nos olhos.

— Gente, vou entrar em reunião rapidinho. — falei, conectando no fone. Era um cliente da produtora, precisava resolver na hora.

Enquanto a conversa rolava, deixei meu olhar escapar. Bruno lutava contra o sono ao meu lado, piscando devagar, como quem tenta resistir ao balanço do carro. E eu, mesmo em meio ao caos, só pensava: que cara lindo. Sério, é um dos repórteres mais bonitos que já trombei na vida.

Ele tem todas as qualidades que a Alessandra valoriza em um jornalista: rosto marcante, escrita competente e aquela voz grave que parece feita para o telejornal. Mas o que mais me chama atenção não é nada disso. É a forma como, mesmo sem perceber, Bruno consegue me desconcentrar completamente.

O trânsito estava insuportável. Demoramos uma eternidade para chegar ao Planetário, mas pelo menos deu tempo de encerrar minha reunião e deixar o cliente mais tranquilo. Quando enfim estacionamos, o cenário à nossa frente era de caos. A água já estava em um nível assustador, e a chuva não dava trégua.

Ainda dentro do carro, Amarildo começou a registrar as primeiras imagens pela janela. O barulho da água batendo no vidro era quase ensurdecedor. Eu e Bruno nos preparávamos para sair, colocando as capas de chuva e as botas pretas que subiam até os joelhos.

O espaço era pequeno demais, e enquanto nos mexíamos, nossos corpos acabaram se encostando várias vezes. O braço dele esbarrou no meu, depois o joelho, e em certo momento nossas mãos se tocaram por acidente enquanto eu ajustava o microfone. Senti um arrepio inesperado.

— Acho que a gente deveria ter se trocado lá na redação. — disse Bruno, tentando disfarçar a situação enquanto trocava os sapatos.

— Concordo. — respondi com uma risada curta, puxando a capa de chuva por cima dos ombros.

Saímos do carro direto para a tempestade. A cada passo, a água respingava com força contra nossas roupas, e o vento cortava o rosto. Não havia glamour nenhum no jornalismo de rua — só a resistência e a pressa de contar uma história em meio ao desastre. Eu já sabia: aquele dia seria longo, como todo dia de chuva no Rio.

Pedi de imediato para a produção tentar contato com a Defesa Civil. Seria fundamental ter uma fala oficial sobre o que estava acontecendo. Enquanto isso, decidi gravar uma passagem curta, apenas com a observação da cena. Ainda não havia dados concretos, mas era visível que a situação era séria.

O prédio do Planetário era imponente, com sua cúpula arredondada e estrutura de concreto, mas estava irreconhecível. A água não vinha do chão, como de costume em enchentes. Por causa da força do vento, uma árvore enorme havia despencado sobre a cúpula, quebrando parte da estrutura. O resultado era devastador: a água da chuva infiltrava direto pelo teto, escorrendo em rios que tomavam conta das salas internas.

Do lado de dentro, funcionários corriam de um lado para o outro, tentando salvar equipamentos, computadores, livros e documentos. Pegavam o que podiam, empilhando caixas e plásticos em áreas menos afetadas. Era um retrato de desespero e esforço humano diante de algo incontrolável.

— Bruno, registra isso no celular e manda tudo para a redação, em primeira mão. — pedi.

Ele não hesitou. Pegou o aparelho e começou a gravar, atento a cada detalhe, registrando ângulos que mostravam o estrago com clareza. Antigamente, captar imagens assim era muito mais difícil; hoje, um simples celular era capaz de gerar material em alta qualidade pronto para ir ao ar.

Notei também como Bruno estava diferente. Mais atento, proativo. Não esperou orientação do Amarildo, que estava concentrado em sua câmera. Ele foi direto ao ponto, gravando tudo que importava. Eu sabia que aquilo faria diferença: contaríamos a história da forma mais completa possível.

Aproximei-me de um grupo de funcionários, exaustos de tanto carregar caixas e proteger o acervo. Pedi que alguém falasse conosco. No começo, houve resistência — ninguém queria parar em meio ao caos. Mas insisti, e aos poucos consegui convencer o diretor do local a nos dar uma palavra.

Ele estava encharcado, mas falava com firmeza. Explicou que a árvore havia quebrado parte da cúpula e que, por isso, a água estava entrando pelo teto. Confirmou que o espaço já estava em reforma antes mesmo da tragédia, e garantiu que a maior parte do acervo estava em uma área seca. Disse ainda que a Prefeitura do Rio já havia sido acionada e estava tomando providências.

Era o tipo de fala que precisávamos: informativa, humana e direta. Olhei de relance para Bruno. Ele estava ali, atento, firme, registrando tudo. E naquele instante, tive certeza: ele tinha mesmo nascido para isso.

***

***

BRUNO ASSIS

O Miguel era o cara. Não tinha outro jeito de descrever. Mesmo ensopado, com a camisa colando no corpo e os lábios roxos de frio, ele segurou a postura como se nada fosse capaz de abalar sua presença diante da câmera. Eu, no lugar dele, estaria tremendo igual vara verde — mas o Miguel conseguia transformar o caos em narrativa. A matéria que fez não era agradável, ninguém gosta de falar de enchente, destruição, vidas em risco. Mas ele conseguiu condensar toda a urgência daquele cenário em poucas palavras. Era claro, direto, e ainda assim humano.

Quando terminou a passagem, Amarildo já estava pronto para o próximo passo. Encontrou um canto improvisado, ajustou tripé, luz, microfone. Conferiu a imagem, o áudio, como se estivesse preparando o palco para uma peça trágica que precisaria ser encenada ao vivo. Miguel voltou para a câmera e, dessa vez, explicou que a Prefeitura já estava no local, tentando contabilizar os estragos e montar um plano emergencial para evitar mais desastres.

Assim que entregou o link, ele foi falar com os técnicos da Prefeitura. Anotou contatos, nomes, possíveis fontes para acompanhar o caso nos próximos dias. Eu o observava de longe, tentando aprender, tentando absorver aquele jeito seguro de trabalhar. Quando voltamos para a área coberta, esperando a próxima instrução, o telefone tocou.

Era a Sabrina. A voz dela vinha urgente, atravessada por ruídos da redação. Um desabamento de terra na Rocinha. Amarildo me olhou com os olhos arregalados. Miguel respirou fundo, fechando os punhos como se precisasse puxar coragem de dentro do próprio corpo.

Seguimos rápido. Sabrina enviou vídeos no grupo da pauta: imagens tremidas, mas devastadoras. Um marrom barrento engolindo casas, gente correndo em meio à chuva, gritos de desespero. Quando o carro parou, não precisei de muito tempo para perceber que os vídeos não tinham exagerado. O barro escorria pela favela como se a montanha tivesse se dissolvido em água e terra.

Saímos. Amarildo já ajeitava a câmera para entrar ao vivo. Miguel se virou para mim:

— Bruno, pega os relatos. Vai falar com quem tá aí fora.

Engoli em seco, mas assenti.

A primeira pessoa que encontrei foi um rapaz magro, encharcado, tremendo de frio. Ele abraçava uma mochila como se fosse o último bem do mundo.

— Eu sou Renan... — disse, antes mesmo que eu perguntasse. A voz falhava, os dentes batiam. — Morava ali, num kitnet com minha avó. Mas ela... ela não tava em casa, foi no médico.

Os olhos dele se encheram de lágrimas, mas não desabaram. Segurava firme.

— Primeiro foi uma pedra. Caiu em cima de umas casas. Eu não pensei, só peguei a mochila, botei os documentos dentro e corri. Quando cheguei na rua... o morro veio atrás.

O silêncio dele dizia mais do que qualquer palavra.

Peguei meu celular, sem ligar para a chuva batendo na tela. Escrevi rápido, palavra por palavra. Depois segui, ouvindo outras histórias. A mesma cena se repetia em bocas diferentes: uma pedra enorme despencando, anunciando o fim.

Miguel, já de volta em frente à câmera, entrou ao vivo. Era plantão especial, daqueles que só acontecem quando a notícia é grande, urgente, inevitável. E ali estávamos, no meio de um cenário que parecia saída de um pesadelo. Eu nunca tinha imaginado vivenciar aquilo.

Fechei os olhos por um instante. O som da água batendo nas latarias, os gritos de gente tentando salvar móveis, o cheiro de esgoto misturado ao barro. Tudo me pressionava contra o chão. Mas lembrei do conselho de Miguel: "Foca na missão de informar."

— Cuidado, novato — disse Amarildo, com a câmera apoiada no ombro.

— Pode deixar.

Miguel sorriu. Um sorriso rápido, breve, mas real. Foi o suficiente para embaralhar meu estômago.

Ele entrevistava os moradores com calma, ouvindo cada detalhe, transmitindo confiança sem nunca parecer distante. Eu fiquei observando, hipnotizado, até que Amarildo me cutucou.

— Ei, garoto, segura o microfone pro Miguel. Ajuda ele.

Saí correndo, tropecei na lama, mas consegui me posicionar. Miguel se inclinou e murmurou para mim:

— Respira. Você tá tremendo mais que a câmera.

Senti minhas bochechas queimarem, mas firmei o braço.

A reportagem se estendeu até a noite. Não havia como voltar: as ruas estavam bloqueadas, a água dominava tudo. Fomos levados para uma escola municipal que servia de abrigo. Dentro do ginásio, colchões finos espalhados, famílias encolhidas, pessoas chorando de fome e medo. Eu me senti esmagado por aquela realidade.

Sentados num canto, Miguel me ofereceu uma garrafa d'água.

— Primeira vez numa pauta dessas, né?

Assenti, encarando o ginásio.

— Eu... não sei se vou aguentar. Parece errado filmar a dor deles.

Miguel bebeu um gole, pensativo, antes de falar:

— Não é errado mostrar. Errado seria fingir que não existe. Quando eu tinha dezesseis anos, minha mãe gastava tudo que eu ganhava na Axis com festas, roupas, viagens. Eu sorria no palco, mas em casa... a gente desmoronava. Aprendi cedo que dor escondida só apodrece.

Fiquei quieto, engolindo aquelas palavras. Nunca tinha visto Miguel se abrir daquela forma.

Ele me olhou.

— E você? O que te trouxe até aqui?

Respirei fundo.

— A necessidade. Meu pai foi embora, minha mãe afundou na depressão. Eu e minha irmã seguramos as pontas como dava. Eu não sonhava em ser repórter, mas... tô aqui.

Miguel não desviou o olhar. Parecia me ler por dentro.

— Então você tem mais motivos do que imagina.

O silêncio que veio depois não foi pesado. Foi denso, cheio de algo que eu não sabia nomear. Me peguei encarando Miguel tempo demais e desviei rápido, envergonhado.

Do outro lado do ginásio, algumas pessoas brincavam com a água que escorria do teto. O mundo parecia desabar, mas, naquele canto, senti que tinha encontrado uma âncora.

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