Brincadeira e Provação

Um conto erótico de Mateus
Categoria: Gay
Contém 1730 palavras
Data: 26/02/2026 22:53:27

Houve um tempo em que Rodrigo andou muito com Rafael. Naquela fase em que os grupos se misturavam por conveniência, curiosidade ou simples tédio de cidade pequena. Mas o bairro falava, o bairro sempre falava. Naquela cidade pequena, nada passava despercebido. As conversas surgiam na fila da padaria, atravessavam os bancos da praça, chegavam aos ouvidos certos já temperadas com exagero.

Diziam que, nos fins de tarde abafados, quando as aulas terminavam e os adultos ainda estavam no trabalho, os dois levavam as menininhas para trás do centro social, naquela parte mal iluminada onde o muro tinha uma rachadura antiga e o mato crescia alto demais.

O quanto daquilo era verdade, eu não sabia. Em cidade pequena, boato cresce mais rápido que grama em época de chuva. Mas a simples possibilidade me inquietava.

Não pelo moralismo, eu já não tinha mais idade para me assustar com histórias de beijos escondidos atrás de muro. O que me incomodava era outra coisa: se Rodrigo estava tão próximo de Rafael… será que Rafael falava de mim? Será que meu nome já tinha sido pronunciado ali, entre risadas cúmplices e confidências masculinas? Será que comentara sobre as nossas conversas escondidas, os encontros atravessados por tensão, os sentimentos mal resolvidos? E, se sim, o que Rafael teria contado? Ou pior, o quanto? O suficiente para expor? O suficiente para distorcer?

Rafael conhecia as minhas vulnerabilidades. Conhecia meus silêncios. Conhecia o que eu escondia atrás de ironias e arrogâncias momentâneas. Conhecia o jeito como eu olhava. E essa ideia me corroía em segredo. Porque, se Rodrigo soubesse… talvez olhasse para mim diferente. Talvez já estivesse olhando.

Eu sabia do talento de Rafael para narrar histórias sob a própria perspectiva. Essa dúvida começou a contaminar o olhar que eu lançava sobre Rodrigo. Cada sorriso parecia conter uma informação que eu desconhecia. Cada silêncio parecia esconder algo não dito.

E, como se a vida gostasse de sobrepor camadas, foi nessa mesma época que eu me aproximei da irmã mais velha de Rodrigo. Ela aparecia nas festas da casa de Heitor e Rafael com uma naturalidade que destoava do resto do grupo. Era bonita sem esforço, inteligente sem arrogância. Tinha uma serenidade que não combinava com a agitação das festas. Já fazia faculdade, carregava nos gestos uma maturidade que me fascinava.

Chegou a namorar Miguel por um tempo, o que a tornava ainda mais presente naquele círculo, e isso criava um curioso entrelaçamento de histórias, como se todos orbitassem uns aos outros sem jamais se afastar por completo.

Ainda assim, ela não me tratava como o mais novo deslocado da turma. Conversava comigo. Me ouvia sem afetação ou fingimento. Ria das minhas observações como se fossem realmente interessantes.

A simpatia dela abriu portas. Literalmente. Eu comecei a frequentar a casa dela e de Rodrigo com regularidade. A mãe deles me adorava, me achava educado, “um menino de boa família”. me recebia com um afeto quase maternal. Servia café, perguntava da escola, da minha família, dizia que eu estava sempre convidado. Ansiava que eu me tornasse um bom exemplo e referência para o filho dela, que tinha fama de baderneiro. Se ela soubesse o exemplo que eu dava, caía dura, tadinha.

O pai deles quase nunca estava. Trabalhava viajando, às vezes semanas fora, às vezes meses. Havia histórias de viagens internacionais, malas grandes na sala, presentes trazidos de aeroportos distantes, deixando a casa num silêncio que só era quebrado pelo riso da filha ou pela movimentação inquieta de Rodrigo. A casa tinha uma atmosfera curiosa: acolhedora, mas com espaços vazios demais.

Era estranho estar ali. Porque, ao atravessar aquele portão, eu sentia que atravessava também uma fronteira invisível entre passado e presente. Rodrigo já não era apenas o menino do recreio. Era um jovem rapaz em formação. E eu também.

Foi numa tarde morna, dessas que parecem suspensas no tempo, que o eco das antigas brincadeiras voltou. A irmã não estava em casa. A mãe estava trabalhando. Estávamos no quarto de Rodrigo. A porta encostada, o ventilador girando lento demais para aliviar o calor, que fazia o ar vibrar.

Conversávamos sobre coisas banais, escola, amigos, festas, quando a energia mudou. Rodrigo estava jogado na cama, como sempre ficava, se espalhando pelo espaço com naturalidade.

— Você é sério demais — Rodrigo disse, me observando sentado comportadamente no pequeno sofá que tinha no quarto.

— E você continua folgado demais.

Rodrigo riu. Se levantou. Tirou a camiseta com um gesto quase teatral, como se estivesse provocando uma plateia invisível. Havia algo deliberado no modo como Rodrigo se movimentava. Não vulgar. Não explícito. Mas consciente.

Ele sabia do próprio corpo agora. Sabia do efeito que podia causar. Alto, atlético, coxas grossas, bunda grande, costas compridas, maxilar definido e um sorriso zombeteiro. Andava pelo quarto com uma postura mais aberta, os gestos largos demais, a camiseta tirada com naturalidade estudada. Eu percebi. Mas fingi não perceber.

— O que foi? — Rodrigo perguntou, com aquele meio sorriso antigo.

— Nada.

— Tá vendo? Você nem reage.

Eu reagia. Por dentro. Mas não deixava transparecer nada. Rodrigo riu.

— Você olha e depois faz essa cara de que não tá olhando.

— Para de graça — respondi, tentando manter a voz estável.

Rodrigo se aproximou um pouco mais.

— Você lembra das nossas apostas? — perguntou, com um sorriso enviesado.

Eu lembrava. Lembrava demais. Havia desafio ali. Um retorno àquele território antigo, adolescente, mas agora com corpos mais definidos, com consciência maior do que significava estar ali. O quarto parecia menor. O ventilador fazia um barulho irregular, como se marcasse o ritmo da tensão.

— Então — Rodrigo continuou — Desafio você.

Eu arquei a sobrancelha, fingindo indiferença.

— Que tipo de desafio?

Rodrigo hesitou por um segundo e, nesse segundo, algo sério atravessou o olhar dele.

— Você me viu. Eu te vejo também. Tira a camisa aí.

A frase caiu entre nós com peso inesperado. Não era mais a molecagem do passado. Havia intenção ali. Curiosidade mútua. Uma necessidade quase infantil de confirmar algo que ambos suspeitávamos.

Eu senti o coração bater mais forte. Não era só desejo. Era vulnerabilidade. Era o medo de confirmar aquilo que talvez estivesse sendo observado há anos.

— Você é maluco — disse, mas não saí do lugar.

Rodrigo deu de ombros.

— A gente é grande agora.

Não havia pressa. Não havia toque. Havia apenas o espaço entre nós dois carregado de eletricidade. Eu, com um gesto lento, retirei a camiseta. Não como quem se exibe, mas como quem aceita o desafio sem dizer sim.

O olhar de Rodrigo mudou. Não era riso. Não era deboche. Era atenção. O silêncio que se instalou foi mais íntimo do que qualquer gesto poderia ser. Não havia necessidade de ir além. O que estava acontecendo ali era menos sobre corpos e mais sobre reconhecimento. Nós nos observávamos como se tentássemos ler um ao outro.

Rodrigo, num impulso que parecia metade brincadeira, metade teste, arrancou os shorts e ficou só de cueca. Um volume indiscreto se formava sutilmente na sua cueca azul, os pelos castanhos se embaraçando pelo seu abdômen e descendo para dentro do elástico da cueca, fazendo a minha imaginação delirar. Ele disse:

— Então mostra também.

— Mostrar o quê?

— Ué… fica aí só de cueca também. Quero ver.

O pedido não veio como comando. Veio como provocação. Mas havia tensão. Não era mais a dança caricata de anos atrás. Não era mais a ingenuidade desajeitada do ensino fundamental. Nós já éramos rapazes, por assim dizer. Sabíamos exatamente o que estávamos fazendo ou, pelo menos, sabíamos que estávamos pisando em terreno escorregadio.

Eu senti o corpo reagir antes da mente decidir. Havia algo profundamente íntimo em simplesmente permanecer ali, parado, sendo observado. Não se tratava de nudez, tratava-se de exposição. Eu hesitei. Rodrigo sustentou o olhar. O silêncio ficou espesso.

Mas, no fundo, eu estava distante. Por um instante, eu pensei em Rafael. Pensei em Heitor. Pensei no emaranhado emocional e sexual em que estava mergulhado, uma relação já atravessada por desejo explícito, por toques, por complexidades que iam muito além da curiosidade juvenil.

Aquilo ali, com Rodrigo, parecia quase inocente em comparação. As provocações de Rodrigo pareciam bobas demais. Infantis. E, ao mesmo tempo, perigosamente sinceras. E talvez fosse injusto pensar assim. Porque o que Rodrigo oferecia era simples: curiosidade mútua, descoberta compartilhada, sem manipulação, sem hierarquia, sem poder. Mas eu ainda estava viciado na intensidade. No drama, no risco.

Eu cedi parcialmente. Sem teatralidade. Sem deboche. Desci a minha bermuda e fiquei só de cueca na frente de Rodrigo. O meu corpo lânguido e pequeno diante de Rodrigo, que já parecia um homem feito. A tensão não estava no que se via, mas no fato de estarmos ali, frente a frente, sustentando o olhar um do outro por tempo demais.

Rodrigo observava com atenção que não era mais brincadeira pura. Eu sentia o ar pesado nos pulmões. Não houve toque. Não houve avanço. Houve apenas aquele reconhecimento silencioso: algo existia entre nós. Algo antigo. Algo que vinha do recreio, da conversa sussurrada sobre pecado, da dança desajeitada anos antes.

E assim, mesmo com o quarto abafado, com o olhar demorado, com a tensão que quase tocava a pele, nós não passamos dali. Rimos. Desfizemos o momento. Nos vestimos outra vez de normalidade. Era sempre assim. Quase. Sempre quase.

Mas as brincadeiras nunca passaram disso. Provocações. Exibições veladas. Desafios que paravam no limite exato do irreversível. Talvez porque nenhum de nós dois tivesse coragem. E talvez o que mais marcasse aquela fase não fosse o que aconteceu, mas o que poderia ter acontecido e não aconteceu.

Ou talvez porque, naquela época, eu estivesse com a cabeça inteira tomada por outro drama. Rafael e Heitor consumiam todos os meus pensamentos. A relação entre nós três já tinha atravessado a fronteira da curiosidade. Era adulta. Sexualizada. Intensa. Cheia de jogos de poder, ciúmes, contradições e dependências emocionais, que me puxava para relações mais complexas e perigosas.

Perto daquilo, as investidas de Rodrigo pareciam ensaio. Rodrigo era leve. Rafael era fogo. Heitor era abismo. E eu, ainda imaturo, confundia intensidade com profundidade.

Enquanto Rodrigo oferecia uma tensão quase doce, uma descoberta compartilhada, eu buscava a vertigem. Não percebi, naquela época, que o que existia entre Rodrigo e eu talvez fosse mais honesto do que tudo o que vivia com os outros dois.

Mas ainda não era o momento. Rodrigo permanecia ali, orbitando, provocando, esperando talvez que eu o enxergasse. E eu, cego pelo meu drama pessoal, mal o conseguia ver.

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