Ao abrir a porta, não acreditei na cena que se desenrolava diante dos meus olhos. A sala da senhora Mirella havia se transformado literalmente em uma zona. Mulheres seminuas passeavam de um lado para o outro, dançando funk, segurando copos com uma bebida de coloração vermelha, vestindo apenas calcinha e com os seios à mostra. O cheiro de maconha inebriava todo o ambiente.
Em um canto da sala, havia um pequeno grupo de homens formando um círculo, disputando quem conseguia dar a maior baforada. Em outra parte, um rapaz dividia um pó branco com um cartão de crédito sobre uma cômoda que, imagino, era apenas um dos muitos itens caros daquela linda sala.
No corredor ao lado, que dava acesso aos quartos, um cara encostado na parede usava uma jaqueta preta e estava com as calças abaixadas, recebendo um boquete frenético de uma morena — muito bonita, por sinal.
Aquilo me espantou de tal maneira que, ao perceber a cena, virei o rosto e levei a mão à face, chocado com tanta promiscuidade. Afinal de contas, no que Marlon havia transformado a casa da senhora Mirella? A mulher mal tinha embarcado em uma viagem a trabalho e ele já começava a aprontar?
Eu ainda estava parado próximo à porta, tentando processar tudo aquilo, quando senti alguém esbarrar no meu ombro. Um rapaz passou rindo alto, segurando uma garrafa quase vazia, sem nem perceber minha presença.
Foi então que, no meio da música alta e das luzes coloridas improvisadas, avistei Marlon.
Ele estava sentado no sofá, com o braço apoiado no encosto, segurando um copo cheio de bebida. Ria alto com duas garotas ao lado, claramente alterado. O rosto relaxado, os olhos semicerrados e o jeito exageradamente animado denunciavam que já tinha bebido muito.
Por alguns segundos, pensei em simplesmente dar meia-volta e sair dali.
Mas era tarde.
Os olhos dele cruzaram com os meus.
O sorriso largo que estava estampado em seu rosto começou a desaparecer aos poucos, como se alguém tivesse diminuído o volume da alegria dele. Primeiro veio a expressão de surpresa, depois um leve incômodo… e, por fim, aquele olhar frio que eu já conhecia.
Ele se levantou.
— O que você tá fazendo aqui? — perguntou, caminhando na minha direção, com a voz mais grave do que o normal.
Engoli seco.
— Eu… eu vim falar com você.
Ele deu uma risada curta, sem humor.
— Falar comigo? No meio disso aqui?
Olhou ao redor, como se estivesse orgulhoso do caos que tinha criado.
— Tá perdido?
Respirei fundo.
— Não. A sua mãe pediu pra eu vir.
O semblante dele mudou na hora.
— Minha mãe?
A música continuava alta, mas parecia que o clima ao nosso redor tinha ficado mais pesado.
— Ela viajou, mas antes de ir… pediu pra eu ficar aqui essa semana.
O silêncio entre nós durou alguns segundos.
Marlon franziu a testa.
— Ficar aqui?
— É. Ela disse que você precisava de alguém pra ajudar com algumas coisas da casa… e também pra… — hesitei — evitar problemas.
Ele soltou uma risada debochada e levou o copo à boca.
— Evitar problemas?
Olhou novamente ao redor: pessoas dançando, bebendo, rindo alto.
— Tá vendo algum problema aqui?
Eu não respondi.
Não precisava.
O olhar dele voltou para mim, mais direto agora.
— Então quer dizer que… você vai ficar aqui?
Assenti.
— Só uma semana.
Marlon inclinou a cabeça, me observando de cima a baixo. Havia algo diferente naquele olhar — não era apenas irritação. Era curiosidade misturada com um desconforto que ele parecia tentar esconder.
— Minha mãe só pode estar de brincadeira…
Ele se aproximou um pouco mais.
— Escuta aqui… — disse, abaixando o tom de voz — eu não mudo minha rotina por causa de ninguém.
— Eu não quero que você mude.
— Então fica na sua.
A frase saiu seca.
Mas antes que eu respondesse, uma das garotas que estava com ele puxou seu braço.
— Amor, vem dançar!
Marlon nem olhou para ela.
Continuou me encarando.
Algo parecia ter mudado ali — pequeno, quase imperceptível — mas diferente.
Talvez fosse o fato de eu não ter ido embora.
Talvez fosse o fato de eu agora fazer parte daquela casa.
Ou talvez fosse apenas o início de algo que nem eu, nem ele, entendíamos ainda.
Ele soltou o braço da garota.
— A gente termina essa conversa depois.
Virou-se, mas antes de sair, falou sem me olhar:
— E tenta não julgar tanto… Kevin.
Foi a primeira vez que ele disse meu nome naquela noite.
E, por algum motivo, aquilo me deixou ainda mais nervoso.
Eu ainda tentava me acostumar com a ideia de passar uma semana inteira naquela casa quando percebi que a festa estava ficando ainda mais caótica.
A música aumentou de volume de repente, alguém gritou da cozinha e o som de vidro quebrando ecoou pela sala. Desse jeito não vai sobrar um caco de móvel da senhora Mirella pra contar história - pensei comigo mesmo.
— Ihhh! Derrubou! — alguém riu.
Virei o rosto e vi dois rapazes discutindo perto da mesa de bebidas. Uma garrafa tinha estourado no chão, espalhando líquido e cacos por todo lado.
— Você esbarrou em mim, cara!
— Eu nem encostei em você!
A discussão começou a esquentar.
Senti um incômodo crescer dentro de mim. Aquilo claramente iria dar problema.
Olhei para o sofá procurando Marlon, mas ele já não estava mais lá.
Segundos depois, ouvi sua voz mais alta que a música:
— Ei! Ei! Ei! Já deu!
Marlon apareceu entre os dois rapazes, segurando um deles pelo ombro. Mesmo bêbado, havia uma postura de autoridade que fazia sentido — afinal, aquela era a casa dele.
— Se for pra brigar, briga lá fora.
Um dos rapazes ainda tentou discutir, mas Marlon empurrou levemente o peito dele.
— Eu falei lá fora.
O tom e a postura daquele homem não deixava espaço para insistência.
Os dois acabaram saindo, ainda resmungando.
Marlon passou a mão no rosto, claramente irritado. Foi quando o olhar dele encontrou o meu novamente.
Dessa vez, não havia deboche.
Só cansaço.
Ele caminhou até mim.
— Tá vendo? — disse, com um sorriso torto. — Problema.
Não respondi.
Ele também não esperava resposta.
Nesse momento, a campainha tocou.
Uma vez.
Duas.
Três.
Insistente.
O silêncio não veio, porque a música continuava alta, mas algumas pessoas olharam em direção à porta.
Um rapaz foi abrir.
— Polícia! Abaixa essa música!
O clima mudou na mesma hora.
— Ih, fudeu! — alguém gritou.
Em segundos, o caos se instalou.
Gente correndo para pegar bolsa, celular, jaqueta. Outros tentando apagar o cheiro de fumaça abrindo janelas. Uma garota derrubou o próprio salto tentando atravessar a sala.
Marlon fechou os olhos por um instante.
— Que beleza…
Olhou para mim.
— Isso foi ideia da minha mãe, né?
— Não.
Ele soltou uma risada curta.
— Claro que foi.
Caminhou até a caixa de som e desligou a música. O silêncio repentino pareceu ainda mais pesado.
Foi até a porta e abriu parcialmente.
— Já estamos encerrando, senhor.
A conversa com os policiais durou poucos minutos. Nada grave — apenas reclamação de vizinhos.
Mesmo assim, foi o suficiente para acabar com a festa.
Em menos de quinze minutos, após a visita da polícia, a casa estava quase vazia.
Copos espalhados, cheiro forte de bebida, almofadas fora do lugar e um clima estranho no ar.
Agora éramos apenas nós dois. O silêncio perpetuou-se pelo ambiente daquela sala.
Marlon se jogou no sofá.
— Que saco…
Passei a recolher alguns copos automaticamente.
Ele observou.
— Não precisa fazer isso.
— Eu sei.
Continuei mesmo assim.
Alguns segundos depois, ele se levantou e pegou dois copos da mesa.
Sem dizer nada.
Ficamos arrumando a sala em silêncio por alguns minutos.
A tensão ainda estava ali, mas diferente. Menos agressiva.
Mais… desconfortável.
Quando terminamos, ele se encostou na cômoda e me encarou. Estava de braços cruzados, vestia uma camisa regata preta, tecido algodão que evidenciava naturalmente seus músculos, consequência de alguns anos de academia. Tal postura o deixava sexy. (Mas o que estou pensando?)
— Minha mãe falou mais alguma coisa?
— Só pediu pra eu cuidar da casa.
— Cuidar… — ele repetiu, soltando um leve riso. — Ela acha que eu tenho quantos anos?
Não respondi.
Ele me observou por alguns segundos.
— E você aceitou.
— Ela insistiu.
— Claro que insistiu.
O olhar dele ficou mais sério.
— Mas eu sei por quê.
Senti um leve aperto no peito.
— Por quê?
Ele cruzou os braços.
— Porque você é… diferente.
O jeito como ele disse aquilo não foi exatamente ofensivo — mas também não foi gentil.
Era confuso.
— Diferente como?
Marlon desviou o olhar por um instante, como se estivesse pensando se deveria falar ou não.
Mas falou.
— Olha… eu vou ser direto.
Respirei fundo.
— Eu não curto esse negócio de…
Ele fez um gesto vago com a mão.
— De homem com homem.
O silêncio ficou pesado.
Mas ele continuou:
— Não é nada pessoal.
Eu quase sorri.
Sempre era pessoal.
— Eu sei.
Ele me olhou, surpreso com minha resposta.
— Sabe?
— Sei.
O clima mudou.
Algo nele pareceu desarmar um pouco.
Talvez porque eu não tivesse reagido.
Talvez porque ele esperasse outra coisa.
Talvez porque, pela primeira vez, ele não soubesse como continuar.
— Mas… — ele completou — minha mãe gosta de você.
Aquilo me pegou de surpresa.
— Então… tu pode ficar mano. Falou dando de ombros.
A frase saiu meio atravessada, como se ele não estivesse acostumado a ceder.
Mas ainda assim… era uma concessão.
O silêncio voltou.
Mais leve dessa vez.
Marlon caminhou até a cozinha e voltou com duas garrafas de água.
Jogou uma pra mim.
— Você não bebeu nada.
— Não gosto, porque não me reconheço quando bebo. Falei desvencilhando o rosto para qualquer lugar que não fosse os olhos dele. Não podia esquecer do vexame alguns dias atrás, na boate.
— Faz bem. Falou dando um leve sorriso de canto de boca, parecendo relembrar aquele fatídico dia; o que me deixou com muita vergonha.
Sentamos em lados opostos do sofá.
A casa agora estava quieta.
Sem música.
Sem gente.
Sem barulho.
Apenas nós dois.
Sentado no sofá, apenas abaixei a cabeça e dei um gole na água da garrafinha que ele trouxe para mim outrora, estava mesmo com um pouco de sede.
— E… — ele disse, olhando para frente — você sempre foi assim?
— Assim como?
— Calmo.
Pensei por alguns segundos.
— Não.
Ele virou o rosto, curioso.
— O que aconteceu?
Hesitei.
Mas respondi.
— Eu cansei de discutir com todo mundo.
Ele não disse nada.
Mas ouvi um leve:
— Entendo.
Aquilo me surpreendeu.
Alguns minutos depois, Marlon se levantou.
— Tem um quarto vazio no corredor.
Apontou na direção dos quartos.
— Pode usar.
Assenti. Lembrei que Mirella havia oferecido o quarto dela. Mas jamais seria folgado a esse ponto. Sem contar que todos os quartos para visitas daquela casa, eram aconchegantes e convidativos. Certamente ficaria bem instalado em qualquer um.
Quando comecei a caminhar, ele falou:
— Kevin.
Virei.
Ele parecia meio sem jeito.
— Se… alguém falar alguma coisa… aqui dentro do condomínio…
Houve uma pausa.
— Eu resolvo.
Fiquei alguns segundos olhando para ele.
- Boa noite. Respondi assentindo com a cabeça.
Ele desviou o olhar imediatamente.
Enquanto caminhava pelo corredor, percebi uma coisa:
Aquela semana não seria apenas sobre cuidar da casa.
Seria sobre algo muito maior.
Algo que estava apenas começando.
E, no fundo, eu sentia…
Que a maior confusão daquela casa ainda nem tinha acontecido.