Capítulo 3:
A noite caiu com um peso diferente. O som do chuveiro parou, substituído pelo estalo da porta do box e o silêncio doméstico que, pela primeira vez em anos, me pareceu sufocante. Eu sentia o papel dobrado dentro da capinha do celular como se ele emitisse calor, uma pequena bateria de urânio encostada na palma da minha mão.
Meu marido saiu do quarto secando o cabelo, com aquele ar de quem teve um dia longo e só queria o conforto da rotina.
— Tudo bem, amor? Você está quieta desde que chegamos — ele disse, selando a pergunta com um beijo na minha testa.
— Só um pouco de dor de cabeça. Acho que foi a reação da injeção — menti com uma naturalidade que me assustou.
Então Fomos para a cama, mas o sono era um artigo de luxo. Enquanto ele dormia, o brilho azulado da tela do meu celular iluminava o quarto. Eu não pretendia salvar o número. Digitei os dígitos de Gabriel apenas para ver a foto do perfil.
Ali estava ele. A foto não era de estúdio, era um "check-in" em algum lugar mal iluminado. O olhar era o mesmo da farmácia: direto, sem o filtro da timidez. Ele não estava tentando ser bonito; ele sabia que era. Ocupava o espaço com a confiança de quem conhece o poder que tem.
Bloqueei a tela. "O espelho da dispensa reflete mais do que você imagina." A frase ecoava. Ele tinha visto o momento em que eu, por um segundo, deixei a compostura de lado? Ou seria uma metáfora para o que ele enxergou nos meus olhos enquanto a enfermeira limpava meu bumbum?
Na manhã seguinte, a rotina deveria ter apagado o fogo da noite anterior, mas a curiosidade é uma erva daninha. Aproveitei o momento em que meu marido saiu para o trabalho e me vi diante do espelho da entrada novamente.
Desta vez, não procurei a beleza. Procurei a intenção.
O que Gabriel viu? Viu uma mulher casada e entediada? Ou viu uma predadora disfarçada de presa?
Peguei o celular. Meus dedos agiram antes que o meu juízo pudesse intervir.
Então mandei para o Gabriel
"O que exatamente você acha que o espelho refletiu?"
A resposta não demorou cinco minutos. O celular vibrou no balcão da cozinha, fazendo o vidro ressoar.
Gabriel disse: "Refletiu uma mulher que sabe que o 'seguro' é apenas uma palavra bonita para o 'morno'. O espelho não mente. Você estava procurando por algo lá dentro. E eu estava procurando por você."
Meu peito subiu e desceu devagar. O descaramento dele era magnético. Ele não jogava o jogo da sedução lenta; ele chutava a porta.
Eu sabia que deveria apagar a conversa. Deveria bloquear o número e esquecer que Gabriel existia. Mas, ao olhar para a aliança no meu dedo, eu parecia mais pesada do que o normal. O respeito que eu mencionei ao meu marido ainda estava lá, mas Gabriel tinha acabado de jogar um fósforo aceso em um rastro de pólvora que eu nem sabia que tinha espalhado pela casa.
A próxima mensagem dele chegou sem aviso, mudando o tom do jogo:
Gabriel: "Vou cobrir o turno da tarde hoje. Caso precise de outro... medicamento."
Olhei para o relógio. O dia estava apenas começando, e o caminho para a farmácia nunca pareceu tão curto.
