Os dias depois daquela noite no carro não foram normais.
Por fora, tudo continuava igual. Eu acordava, trabalhava, respondia mensagens, ia nas reuniões… fazia tudo que sempre fiz. Mas por dentro, parecia que tinha alguma coisa fora do lugar, como se eu estivesse tentando viver a mesma rotina com uma versão de mim que já não encaixava mais nela.
Eu evitava a Fernanda.
Não de forma direta, não a ponto de chamar atenção… mas evitava. Demorava pra responder, inventava desculpa pra não ver ela, mantinha as conversas curtas. Sempre com aquele cuidado de não parecer rude, mas o suficiente pra criar uma distância.
E ela percebeu.
Claro que percebeu.
No começo, ela tentou agir como se nada tivesse mudado. Mandava mensagem normalmente, falava do dia dela, da faculdade, das coisas que estava aprendendo… mas eu já não respondia do mesmo jeito. Não tinha mais leveza. Tudo passava por um filtro dentro da minha cabeça antes de eu falar qualquer coisa.
E esse filtro era sempre o mesmo.
Certo ou errado.
Limpo ou impuro.
Aceitável… ou pecado.
Eu tentava voltar ao que eu era antes. Me agarrava ainda mais à rotina da igreja, aos discursos, às reuniões, como se aquilo fosse me colocar de volta no lugar. Como se bastasse me aproximar mais de Deus pra apagar o que tinha acontecido.
Mas não apagava.
Porque não era só o que tinha acontecido.
Era o que eu tinha sentido.
E isso me incomodava mais do que qualquer outra coisa.
A Fernanda, por outro lado… parecia diferente.
Não de um jeito escancarado. Quem olhasse de fora ainda veria a mesma garota. O mesmo jeito calmo, a mesma postura na congregação, o mesmo sorriso discreto. Mas eu conhecia ela o suficiente pra perceber as pequenas mudanças.
O jeito de falar.
O jeito de olhar.
O jeito de se aproximar.
Tinha mais segurança ali.
Menos culpa.
Como se ela tivesse aceitado algo que eu ainda estava lutando pra negar.
A gente se encontrou de novo alguns dias depois, rápido, na frente da casa dela. Eu tentei manter tudo neutro, normal, como se fosse só mais um dia qualquer. Mas ela não deixou.
-Você tá estranho comigo,ela disse, olhando direto pra mim.
Eu desviei.
-Não tô.
-Tá sim.
O silêncio ficou pesado entre a gente por alguns segundos.
-Você se arrependeu, né?
Eu demorei pra responder, mas quando falei, foi quase automático.
-A gente errou.
Ela ficou me olhando.
Sem pressa.
Sem desespero.
-Eu não acho isso -ela disse, com calma.
Aquilo me irritou mais do que deveria.
-Não acha? eu respondi, sentindo o tom subir sem perceber. A gente passou do limite, Fernanda. Você sabe disso.
Ela suspirou, desviando o olhar por um segundo, como se estivesse pensando no que falar.
-Eu sei o que a gente fez, ela respondeu, mas eu não me sinto suja por causa disso.
Aquilo me travou.
Porque eu me sentia.
E muito.
-Você devia, eu falei, mais seco do que eu queria.
Ela voltou a me olhar, dessa vez diferente.
Não era tristeza.
Era outra coisa.
-Então é isso? ela disse, Você vai ficar me olhando assim agora? Como se eu tivesse feito algo errado sozinha?
Eu não respondi.
Porque, no fundo, eu sabia que não.
Mas era mais fácil colocar aquilo nela do que lidar com o que eu estava sentindo.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos, me encarando… até soltar um pequeno sorriso, mas sem alegria.
-Engraçado -ela disse -naquele dia você não parecia tão preocupado com isso.
Aquilo me atingiu direto.
-Eu tava errado naquele dia também -respondi, na defensiva.
Ela assentiu de leve.
-Entendi.
E naquele momento, alguma coisa mudou.
Não foi uma discussão grande. Não teve grito. Não teve drama.
Mas teve distância.
Ela se afastou um passo, cruzou os braços de leve, como se estivesse se protegendo de alguma forma… não de mim, mas da forma como eu estava tratando ela.
-Eu só achei que a gente podia… sei lá , ela começou, mas parou no meio da frase deixa pra lá.
Eu não pedi pra ela continuar.
E isso disse mais do que qualquer coisa.
A gente se despediu rápido, sem clima, sem conexão.
E enquanto eu voltava pra casa, tentei me convencer de que tinha feito a coisa certa.
Mas, no fundo, eu já começava a perceber.
Eu não tava resolvendo nada.
Eu tava empurrando ela pra longe.
E, pela primeira vez… ela não parecia disposta a correr atrás.
VISÃO DA FERNANDA
Eu não reconhecia mais o jeito que o Gustavo me olhava.
Na verdade… ele quase não olhava mais.
Depois daquela noite, alguma coisa tinha mudado nele. Não era só distância, era julgamento. Eu sentia isso mesmo quando ele não falava nada. Nas mensagens curtas, no jeito seco, na forma como ele evitava qualquer assunto que lembrasse o que tinha acontecido.
E aquilo começou a me incomodar mais do que eu imaginava.
Porque eu não me sentia mal.
Essa era a parte que eu não conseguia entender.
Eu sabia o que a gente tinha feito. Sabia o que a igreja ensinava. Sabia o que era considerado errado. Mas, mesmo assim… eu não conseguia sentir aquela culpa que ele parecia carregar o tempo todo.
O que eu sentia era outra coisa.
Era curiosidade.
Era vontade.
Era… lembrança.
E, principalmente, uma necessidade estranha de sentir aquilo de novo.
Naquele dia, na faculdade, eu tava no banheiro antes da aula. Encostada na pia, olhando meu reflexo no espelho. O cabelo caído de lado, a blusa marcando o corpo mais do que eu costumava permitir… e, pela primeira vez, eu não tentei disfarçar.
Eu fiquei me olhando.
De verdade.
Não como alguém da igreja.
Mas como mulher.
Peguei o celular quase sem pensar. Ajustei um pouco o ângulo, virei levemente o corpo, deixando a silhueta mais evidente… e tirei a foto.
Fiquei alguns segundos olhando pra tela.
Sabia exatamente o que estava fazendo.
E sabia pra quem era.
Enviei.
“Promete não ficar bravo?”
O coração acelerou um pouco depois disso. Não de medo… mas de expectativa. Eu queria uma reação. Qualquer uma. Queria sentir que ainda mexia com ele.
A resposta demorou.
E quando veio… foi exatamente o que eu não queria.
Fria.
Preocupada.
Quase distante.
Eu li e reli a mensagem algumas vezes, tentando entender se tinha alguma coisa ali além do óbvio.
Não tinha.
Suspirei, travando o celular.
Aquilo me deu uma sensação estranha. Não era só frustração… era como se, pela primeira vez, eu estivesse percebendo que ele não ia mais me acompanhar.
Que eu tava começando a ir pra um lugar… e ele não.
-Você tá bem?
A voz veio do meu lado, me tirando dos pensamentos.
Olhei e vi a Juliana encostada na pia ao lado, me observando pelo reflexo do espelho. Ela era mais velha que eu, já tinha passado dos trinta, fazia Direito também, mas tinha uma postura completamente diferente das meninas da minha idade. Mais segura, mais direta… o tipo de mulher que parecia confortável em qualquer ambiente.
-Tô… respondi, meio automática.
Ela arqueou levemente a sobrancelha.
-Não parece.
Eu hesitei por um segundo, mas acabei soltando um pequeno sorriso.
-Problema com namorado.
Ela riu de leve.
-Sempre é.
Fiquei em silêncio por alguns segundos, olhando pro espelho de novo, antes de falar.
-Ele tá estranho comigo… desde… parei no meio da frase.
Ela percebeu.
-Desde?
Eu respirei fundo.
-Desde que a gente passou um pouco do limite.
Ela não reagiu com surpresa.
Nem julgamento.
Só virou o corpo um pouco mais pra mim.
-E você se arrependeu?
A pergunta veio simples.
Direta.
E, pela primeira vez, eu respondi sem pensar muito.
-Não.
Ela assentiu devagar, como se já esperasse isso.
-E ele?
Eu dei um pequeno riso, sem humor.
-Muito.
Juliana encostou na pia, cruzando os braços de leve.
-Então o problema não é o que aconteceu… é como ele tá lidando com isso.
Fiquei em silêncio.
Porque aquilo fazia sentido.
-Ele acha que a gente pecou ,eu falei mais baixo, que tem que contar pra igreja, que tá tudo errado…
-E você acha?
Olhei pro espelho de novo.
Dessa vez, me encarando.
-Eu acho que… eu gostei.
As palavras saíram quase como um sussurro.
Mas foram suficientes.
Juliana sorriu de leve, sem ironia.
-Então você já tem sua resposta.
Aquilo me deixou desconfortável.
-Não é tão simples assim.
-Nunca é ,ela respondeu, mas também não precisa ser tão complicado quanto fazem parecer.
Fiquei quieta.
Sentindo aquilo.
Pensando.
-Você gosta dele? ela perguntou.
-Gosto.
-Do jeito que ele é agora?
Eu não respondi.
E nem precisava.
Ela deu um pequeno sorriso, como se tivesse entendido tudo.
-Você ainda tá tentando caber no mundo dele, ela disse, mas talvez você já tenha mudado um pouco… e ele não.
Aquilo ficou na minha cabeça.
Pesado.
Real.
-E aí? ela completou, você vai se segurar pra continuar sendo quem ele quer… ou vai descobrir quem você quer ser?
Antes que eu respondesse, a porta do banheiro abriu e mais gente entrou.
A conversa morreu ali.
Mas não dentro de mim.
Quando saí do banheiro, indo em direção à sala, eu percebi.
Os olhares.
Antes eu ignorava.
Agora… eu notava.
E, pela primeira vez…
eu não desviava tão rápido.