Capítulo 17: O Retorno do Carrasco

Um conto erótico de João Vitor
Categoria: Heterossexual
Contém 2115 palavras
Data: 23/02/2026 10:47:53

O silêncio que se seguiu à frase de Ricardo foi tão pesado que eu conseguia ouvir o zunido do ar-condicionado na sala. Minha mãe permanecia ao lado dele, com uma expressão de vulnerabilidade que me enojava. O homem que me tratou como um estorvo em Curitiba agora vestia um sorriso de redenção que não alcançava seus olhos frios.

— "O que você está fazendo aqui, Ricardo?" — disparei, sem usar o título de pai. Minha voz saiu rouca, carregada de um desprezo que eu não fazia questão de esconder.

— "João, eu vim pedir perdão," — ele disse, com uma calma ensaiada. — "Eu errei. Ficar com a Inês foi o maior equívoco da minha vida. Eu me separei, terminei tudo. Percebi que nada substitui a minha verdadeira família e quero reconstruir o que eu mesmo quebrei."

Antes que ele respondesse, o som da chave girando interrompeu a tensão. Ana Beatriz e Mariana entraram juntas. O choque foi visual. Ana estancou no corredor, a pasta de couro quase caindo da mão; Mariana soltou um suspiro de horror.

— "Pai?" — Mariana sussurrou, a voz trêmula de repulsa. — "Desde que você foi para Curitiba, você nunca fez uma ligação, nunca mandou uma mensagem sequer. E agora aparece aqui de cara lavada?"

— "Ricardo, você tem cinco minutos para sair daqui antes que eu mesma chame a polícia,"

— Ana Beatriz completou, a frieza profissional sendo sua única defesa.

— "JÁ CHEGA!" — O grito de Camila cortou o ar. Ela bateu a mão na mesa, os olhos brilhando de uma esperança cega. — "Ele é o pai de vocês! Todo mundo merece uma segunda chance. Hoje à noite teremos um jantar em família e vamos conversar como adultos. Está decidido."

O jantar foi um estudo sobre o inferno. Ricardo ocupou a cabeceira, servindo o vinho com uma elegância irritante, fingindo ser o bom marido e o pai protetor. Ele não mostrou as garras de imediato; pelo contrário, tentava agradar a todos, elogiando a comida de Camila e fingindo interesse na faculdade da Mariana e no trabalho de Ana. Mas ele não enganava ninguém que não quisesse ser enganado.

A sós na cozinha, tentei alertar minha mãe. — "Mãe, trazer esse homem de volta é uma péssima ideia. Ele é manipulador, ele vai te destruir de novo." As irmãs também tentaram, mas Camila estava surda para a lógica. Ela precisava desesperadamente preencher o vazio da casa.

O inevitável aconteceu: Ricardo voltou a morar na Tijuca. Nas primeiras semanas, o teatro foi impecável. Ele era atencioso com Camila e buscava ser o "provedor" ideal. Mas a máscara não demorou a rachar. O cinismo deu lugar à toxicidade absoluta.

Ele começou a cercar as meninas. Criticava as roupas de Mariana, chamando seus shorts de "trajes de baixo nível", e esculachava Ana Beatriz, tentando diminuir o sucesso dela no escritório com ironias sobre sua "arrogância jurídica". Comigo, a humilhação era diária e financeira. No meio de uma discussão, ele jogou na mesa o peso do seu dinheiro.

— "Eu prometi custear seus estudos, João, mas vejo que cometi um erro. Criei um filho mimado e preguiçoso," — ele disparou, a voz gélida. — "Cada pão que você mastiga nessa mesa, cada cueca que você veste e cada livro de Direito que carrega na mochila... tudo sai do meu suor. Você é um fardo sustentado, João. Tente não esquecer disso quando quiser levantar a voz para mim."

As farpas tornaram-se o idioma oficial da casa. Ricardo começou a manipular Camila, cochichando em seu ouvido que nós éramos filhos ingratos que queriam vê-la infeliz. O caos era completo. O apartamento, que já foi um refúgio de desejos proibidos, tornou-se uma prisão psicológica.

A virada aconteceu em uma madrugada de março. Saí do quarto e encontrei Ana e Mari na cozinha, as duas em silêncio, abraçadas à própria angústia. O gelo que nos separava desde o flagra finalmente rachou diante do mal maior.

A reunião começou tensa. Elas mal olhavam para mim, mas o ódio pelo Ricardo superava o ranço por mim.

— "Ele está destruindo ela," — Mariana sussurrou, com os olhos vermelhos. — "Ela não sorri mais. Ela virou uma sombra dele."

Ana Beatriz olhou para mim, e pela primeira vez em meses, vi o brilho da nossa antiga cumplicidade de sangue. — "João... a gente não se fala, eu sei o que você fez e não esqueci. Mas se não nos unirmos agora, o Ricardo vai enterrar a sanidade da nossa mãe. Precisamos separar os dois. Precisamos de um plano."

Eu assenti, sentindo o peso da aliança que acabava de ser selada. — "Eu estou dentro. Vamos colher as provas. Ele não mudou... ele só melhorou a mentira."

Naquele quarto escuro, sob o teto da casa que o "carrasco" achava que dominava, a Casa das Três finalmente se uniu novamente. Mas desta vez, a guerra não era entre nós; era contra ele.

— "Precisamos de um lugar seguro," — Ana Beatriz sentenciou, a voz baixa. — "O quarto dele e da mamãe é território inimigo. Daqui em diante, nossas reuniões serão no meu quarto. Trancados."

As reuniões no quarto da Ana tornaram-se o nosso centro de comando. O ar-condicionado no máximo tentava abafar nossas vozes, mas a tensão ali dentro era palpável. Sentávamos na cama dela, cercados por notebooks e códigos penais, simulando uma mentoria de Direito caso o Ricardo resolvesse bater à porta.

Mariana, porém, não perdia a chance de destilar seu veneno. Mesmo na urgência do plano, ela me olhava com um desprezo vitorioso. — "Olha só o conselho de guerra... O João, o mestre das mentiras, tentando derrubar o pai mentiroso. É quase poético," — ela ironizava, cruzando as pernas e balançando o chinelo. — "Será que a sua namoradinha perfeita sabe que você está aqui trancado com as irmãs que você 'estudava' tão bem?"

— "Cala a boca, Mariana. O foco é o Ricardo," — Ana Beatriz cortava, mas o clima de ciúme era uma fumaça que nunca baixava.

Precisávamos de um dossiê. Traçamos estratégias: monitorar os horários de saída dele, tentar clonar o WhatsApp Web no computador da sala e vasculhar as faturas do cartão de crédito. Mas o Ricardo era um rato velho; ele não deixava rastros dentro de casa e desconfiava de cada olhar nosso.

— "Ele sabe que nós o odiamos," — eu disse, debruçado sobre a mesa. — "Se qualquer um de nós três segui-lo, ele vai notar em dois minutos. Precisamos de alguém que ele não conheça. Alguém de fora."

Um silêncio pesado caiu no quarto. Foi então que joguei a carta que eu sabia que ia doer. — "A Vitória. Ele nunca a viu. Desde que o Ricardo voltou, eu nunca a trouxe aqui para não expô-la ao veneno dele. Ela é inteligente, estuda Direito e tem o rosto comum para ele. Ela pode ser a nossa sombra lá fora."

A reação foi imediata. Mariana deu uma risada seca, carregada de ódio. — "Aquela garotinha? Sério, João? Você quer colocar a sua 'santinha' no meio da nossa sujeira familiar?" Ana Beatriz apertou a caneta com força, os olhos verdes brilhando de um ciúme que ela tentava disfarçar com pragmatismo. — É arriscado João. E se ele notar que está sendo seguido por ela? E se ela abrir o bico?”

— "Ela está comigo, Ana. Ela quer me ajudar," — insisti. — "Ela é a única peça que o Ricardo não mapeou."

Depois de muita discussão e farpas trocadas, elas cederam. O desespero de tirar o carrasco de casa era maior que o ranço pela minha namorada. No dia seguinte, marcamos uma reunião em um shopping na Zona Norte. O encontro começou com uma temperatura glacial. Vitória chegou sorridente, mas estancou ao ver o semblante fechado de Ana e Mari.

— "Oi... João me contou que a situação está difícil," — Vitória disse, tentando ser simpática. Mariana mal a cumprimentou, examinando-a de cima a baixo como se procurasse um defeito. Ana Beatriz mantinha a postura de advogada em interrogatório, lançando perguntas ácidas sobre a discrição dela. Vitória não entendia o porquê de tanto gelo; ela não sabia que aquelas duas mulheres sentadas à sua frente conheciam cada centímetro do corpo do homem que ela agora chamava de namorado.

Porém, conforme os detalhes das crueldades do Ricardo vinham à tona — as humilhações com a Camila e as ameaças financeiras —, algo mudou. Vitória mostrou uma perspicácia que impressionou até a Ana. Ela sugeriu ângulos de observação e horários de saída que não tínhamos pensado.

— "Se ele é sistemático como vocês dizem, ele tem uma rota de fuga. Eu posso mapear isso sem que ele note uma menina de mochila passando," — Vitória explicou, firme.

Pela primeira vez, vi Mariana relaxar os ombros. Ela olhou para Vitória, não mais como a "rival", mas como uma ferramenta de guerra. — "É... você não é tão tonta quanto parece," — resmungou Mari, o que, para os padrões dela, era quase um elogio.

Ao final da tarde, entre cafés e sussurros no shopping, a aliança estava formada. Vitória estava dentro. O "Dono da República" agora tinha um exército completo. Naquela noite, voltamos para a Tijuca com um segredo compartilhado. O Ricardo nos olhou com aquele sorriso cínico de quem achava que tinha o controle de tudo, sem imaginar que a contagem regressiva para a sua queda tinha acabado de começar.

No entanto, conviver sob o mesmo teto que Ricardo enquanto o plano não amadurecia era um exercício diário de autofelação. O que mais me consumia não era a humilhação financeira, mas a forma como ele se apossava da minha mãe. Ricardo exibia uma possessividade silenciosa e asquerosa. À mesa, ele mantinha a mão pesada sobre o ombro dela, ou a cercava contra a pia enquanto ela cozinhava, sussurrando coisas que a faziam baixar o olhar com um sorriso submisso. Para ela, era "carinho"; para mim, era um predador marcando território.

E, para piorar minha sanidade, a presença dele parecia ter despertado em Camila uma exuberância que me torturava. Em uma manhã de domingo, encontrei-a na cozinha. Ela usava uma camisola de seda champagne, longa, mas de um tecido tão fluido que desenhava cada curva da sua bunda monumental sob a luz da janela. O balanço firme dos seus seios fartos acompanhava cada movimento dela enquanto coava o café, e seus cabelos loiros caíam desgrenhados sobre os ombros, dando-lhe um ar de quem acabara de sair da cama.

Fiquei estático na porta, sentindo uma excitação súbita e violenta que me fez odiar a mim mesmo no mesmo segundo. Ver minha mãe daquele jeito, tão linda e madura, me despertava um desejo involuntário de ser o homem que a protegeria — ou que a possuiria no lugar dele. A culpa me atingiu como um soco; eu era um doente por olhar para ela assim, mas os olhos não obedeciam à moral.

Ricardo entrou na cozinha logo em seguida. Parou ao lado dela e beijou o topo da sua cabeça com um olhar vitorioso fixo em mim. Ele sabia que eu estava olhando. Ele usava o afeto com ela para me anular.

O clima de falsa harmonia, porém, não durou até o meio-dia. Conforme as horas passavam e o mormaço do Rio apertava, a máscara de "bom moço" de Ricardo ia derretendo. Na hora do preparo do almoço, a cozinha, que antes exalava o cheiro doce do café e o perfume da minha mãe, tornou-se um palco de agressividade.

— "Camila, essa carne está dura. Você não sabe nem escolher uma peça no mercado?" — ele disparou subitamente, mudando o tom para uma frieza cortante enquanto apontava para o almoço que ela preparava. — "Parece que os anos só te deixaram mais lenta e inútil."

Minha mãe estremeceu, os olhos marejando instantaneamente. — "Desculpa, Ricardo... eu achei que estava boa, eu vou tentar consertar..."

— "Não fala assim com ela!" — explodi, dando um passo à frente. O ciúme e o ódio ferviam no meu sangue. — "Você não tem o direito de humilhá-la por causa de uma droga de carne! Mãe, reage! Você não vê o que ele está fazendo?"

Camila virou-se para mim, mas não houve gratidão no seu olhar, apenas uma repreensão amarga. — "João Vítor, chega! O seu pai está estressado com o trabalho, ele tem razão, eu que me distraí. Não se meta na nossa conversa e peça desculpas a ele agora!"

Fiquei paralisado, a respiração curta de fúria. Ver a mulher que eu queria salvar defendendo o homem que a pisoteava era o combustível final para a nossa conspiração. Saí dali trêmulo, bufando de raiva. Ricardo deu um sorriso de canto, saboreando a sua vitória psicológica.

Dormi naquela noite com a imagem da camisola champagne da minha mãe gravada na retina e a promessa de que aquele seria o último mês de Ricardo naquela casa. O jogo tinha começado, e agora tínhamos uma espiã que ele jamais veria chegar. O "Dono da República" não aceitaria ser humilhado no seu próprio solo por muito mais tempo.

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Comentários

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Uma espiã? Ele é esperto,e se ele enganar e seduzir a Vitória e usar ela como trunfo?

E se a Vitória,por um acaso,descobrir o envolvimento do triangulo amoroso entre os irmãos,as transas e brigas deles,o desprezo e ciúmes das irmãs ?

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