Rodrigo não entrou na minha vida. Ele sempre esteve ali. Essa é a primeira verdade.
Era dessas presenças que atravessam a infância como cenário constante: festas da igreja, campeonatos no clube da cidade, gincanas escolares, aniversários coletivos no salão alugado da rua de baixo. Nossas mães conversando sobre preços de mercado e remédios, enquanto os filhos corriam suados pelo campo de terra. Rodrigo era uma presença recorrente, como um móvel que ninguém repara, mas que sempre esteve na sala.
Eu nunca gostei muito dele. Rodrigo era barulho. Era riso alto. Chute forte. Corria demais. Falava sem pensar. Era energia que transbordava sem pedir licença, uma energia que me parecia desorganizada. Eu, por outro lado, sempre precisei de silêncio para existir. Livro debaixo do braço. Observador. Sempre um pouco à margem da algazarra, que eu via quase como uma agressão.
Ele era bagunçado. Eu era introspectivo. Ele era impulsivo. Eu observava antes de agir. Ele parecia confortável no mundo. Eu parecia estrangeiro nele. Talvez por isso eu nunca tenha realmente olhado para Rodrigo.
Nós estudamos na mesma escola no ensino fundamental, mas não na mesma classe. Eu era alguns meses mais velho, diferença mínima, mas na adolescência isso parecia uma distância considerável, suficiente para que eu me sentisse em outro estágio, outra camada, outra frequência.
Eu achava Rodrigo infantil. Bagunceiro. Um pouco bobo. E talvez fosse mesmo, naquela época, afinal, ele era somente um pré-adolescente. O problema provavelmente era eu, que já queria ser adulto (talvez o motivo da minha paixão idealizada por caras mais velhos que eu, uma forma de reconhecimento, validação, aprovação? Deixo para vocês dissertarem).
Mas havia uma lembrança que insistia em permanecer. Rodrigo tinha ido brincar na minha casa numa tarde abafada de férias. Apesar de não sermos tão próximos, não era raro que as mães despachassem os filhos para a casa umas das outras quando precisavam de um descanso ou tinham alguma necessidade específica. Brincamos de videogame, depois corremos na garagem, depois inventamos qualquer disputa idiota com bola. Rodrigo voltou para dentro da casa sujo de terra, suor e risada.
— Posso tomar um banho? — perguntou, como quem pede água.
Eu lembro de não ter pensado nada específico naquele momento. Foi só quando bati na porta do banheiro, segurando uma toalha limpa, que algo mudou. Quando Rodrigo, ainda úmido, saiu do banheiro, ajeitando o cabelo castanho molhado, ele estava apenas de cueca branca. Dessas simples, finas demais para esconder completamente o corpo que começava a deixar de ser infantil. Encharcada ainda do vapor do banho. A luz do corredor atravessava o tecido com uma transparência involuntária.
Foi rápido. Mas não foi pequeno.
A luz do banheiro era amarelada. O vapor ainda suspenso no ar. Gotas escorrendo pelos ombros dele. Eu fiquei parado um segundo além do natural. E esse segundo alterou tudo. Não foi a nudez em si. Foi a consciência súbita do meu próprio corpo reagindo. Um calor abrupto. Um aperto no estômago. Um silêncio interno que parecia gritar.
Eu senti algo atravessar o meu corpo com força inédita, uma descarga elétrica sem nome. O olhar ficou preso por segundos que pareceram longos demais. Rodrigo não percebeu. Ou, se percebeu, não entendeu. Pegou a toalha, passou pelos ombros, reclamou do controle do videogame.
Eu fiquei ali parado no corredor, tentando entender o que tinha acabado de acontecer dentro de mim. Eu entendi. E não entendi.
Naquela noite, sozinho no quarto, deitado na minha própria cama, a imagem voltou com força. E voltou repetida. E voltou insistente. E eu senti algo que nunca tinha sentido antes, não daquela forma. Não era apenas curiosidade. Era desejo. O desejo claro por outro menino. E junto dele veio o medo. Um medo profundo, quase físico. O medo não de Rodrigo, mas do que aquilo dizia sobre mim mesmo.
Eu não tinha linguagem para aquilo. Não tinha repertório. Não tinha coragem. Só tinha o próprio corpo reagindo sem pedir autorização. Foi uma das primeiras vezes em que eu me masturbei. E gozei pensando naquela cueca branca, no corpo molhado de Rodrigo. Durante anos, guardei essa memória como quem guarda um objeto proibido numa gaveta trancada.
Porque naquela cidade pequena do interior de Minas, ninguém ensinava como nomear aquilo. Ninguém explicava que o corpo podia reagir assim diante de outro menino. Não havia linguagem. Não havia exemplo. Só silêncio.
Eu me perguntava: isso significa o quê? Eu sou o quê? E o pior, alguém vai descobrir? A descoberta não foi libertadora. Foi solitária.
Eu comecei a observar Rodrigo de outro jeito, contra a minha vontade. Notava o jeito como ele passava a mão no cabelo molhado, castanho e liso, depois da piscina do clube. O modo como ria com a cabeça jogada para trás. A facilidade com que encostava nas pessoas sem constrangimento.
E cada vez que eu sentia aquele calor, vinha junto uma culpa quase religiosa. Eu evitava ficar sozinho com ele, mas ao mesmo tempo desejava ficar. Esse conflito passou a morar dentro de mim. Rodrigo continuava o mesmo. Eu é que não era mais.
O que eu sentia não era uma fase. Não era um acidente. Não era imaginação. Era desejo real. E nomear isso, mesmo em silêncio, foi o primeiro passo para entender quem eu era. O medo ainda existia. A angústia ainda apertava.
A vida seguiu. Como vocês bem sabem, vieram Leandro, Heitor, Rafael. Vieram as experiências erradas. Vieram os homens mais velhos, os desequilíbrios, as idealizações.
Rodrigo continuava por perto, nos churrascos, nos encontros do bairro, nos grupos de amigos que se sobrepunham como círculos concêntricos.
O novo ano trouxe uma mudança silenciosa em mim. Depois do rompimento definitivo com Heitor, algo se reorganizou. Eu já não buscava caras mais velhos como quem procura aprovação, como se buscasse neles uma validação adulta do que eu ainda não entendia em mim. Já não romantizava diferença de idade como sinônimo de profundidade. Comecei a observar pessoas da minha própria idade.
E foi num sábado qualquer, no clube da cidade, que eu realmente vi Rodrigo, se não pela primeira vez, mas com outros olhos. Não o Rodrigo da infância. Não o garoto barulhento. Mas o rapaz que ele tinha se tornado.
Rodrigo estava sentado na borda da piscina, pés na água, rindo com dois amigos. O riso ainda era alto, mas havia maturidade no corpo agora. Ombros mais largos. Postura mais firme. Traços que haviam se definido. Eu senti algo conhecido, mas diferente do que sentira anos atrás. Não era choque. Era reconhecimento.
Rodrigo percebeu meu olhar. E sustentou. Foi breve, mas houve algo ali que não existia antes: consciência. Rodrigo se aproximou primeiro.
— Você anda sumido — disse, simples.
A voz era a mesma, mas menos desordenada.
— Ando ocupado — respondi.
Era verdade. Mas também era defesa.
— Você sempre foge da bagunça, né? — ele disse, rindo.
— Você sempre faz parte dela — respondi.
Conversamos banalidades. Escola (estávamos em escolas diferentes, agora no ensino médio). Planos. A cidade pequena que parecia sempre igual. Rodrigo falava com gestos amplos. Eu escutava com atenção que já não era distante. A conversa entre nós não era mais infantil.
Houve um momento específico, pequeno, quase invisível, em que o joelho de Rodrigo encostou no meu enquanto estávamos sentados lado a lado nas cadeiras plásticas do clube, cada centímetro de pele em contato parecia amplificado. O toque não foi retirado imediatamente. Nem ampliado. Ficou ali.
E aquele toque simples despertou no meu corpo algo mais profundo que a antiga fantasia pré-adolescente. Despertou desejo amadurecido. E, junto dele, veio a velha angústia, agora mais refinada.
“E se eu estiver projetando?”
“E se ele for só simpático?”
“E se eu perder a amizade antes mesmo de começar?”
“E se eu estiver lendo errado?”
Eu já sabia, mais que abundantemente, que era atraído por homens. Mas desejar alguém tão próximo, alguém da minha própria história, era diferente. Era tirar o desejo do campo da fantasia distante e trazê-lo para o território real. Rodrigo se inclinou levemente. Meu coração batia rápido demais para algo aparentemente simples.
— Você tá diferente — comentou.
— Diferente como?
— Não sei. Mais tranquilo. Menos… fechado.
Eu sorri, um sorriso pequeno. Talvez fosse verdade. Talvez eu estivesse aprendendo a existir sem esconder tanto.
— E você? — perguntei.
Rodrigo deu de ombros.
— Eu sempre fui meio bagunça. Mas tô tentando organizar umas coisas.
A frase ficou suspensa entre nós. Organizar o quê? Vida? Sentimento? Desejo? Eu senti o coração acelerar, não como pânico, mas como antecipação. Havia uma possibilidade ali. Ainda não declarada. Ainda não segura. Mas viva.
Eu queria dizer tudo. Eu queria dizer nada. Fiquei em silêncio. E, pela primeira vez, ele também. Não houve confissão. Houve tensão. Houve uma troca de olhares longa demais para ser inocente.
Quando nos despedimos naquele dia, Rodrigo segurou o meu braço por um segundo a mais do que o necessário. Não foi explícito. Mas também não foi casual. Eu voltei para casa com o corpo elétrico, em estado de vigília. Não havia culpa, como na pré-adolescência. Não havia vergonha. Mas havia ansiedade.
Era a primeira vez que eu me permitia olhar para alguém da minha própria idade sem projetar superioridade ou busca por validação. Era diferente. Era mais equilibrado. E, por isso mesmo, mais assustador.
Porque agora, se doesse, doeria sem a desculpa da imaturidade alheia. Diferente do que acontecera com caras mais velhos antes, ali havia algo que me assustava ainda mais: Rodrigo me conhecia desde sempre. Leandro, Heitor e Rafael eram todos estranhos na minha vida, por assim dizer, quando eu os conheci, coincidentemente, todos eram forasteiros que tinham acabado de chegar à cidade.
Mas Rodrigo e eu nos conhecíamos a vida toda. Se ele rejeitasse quem eu estava descobrindo ser, não seria apenas um fora. Seria a perda de uma história inteira. E talvez por isso eu tenha demorado tanto para atravessar essa linha. Porque descobrir quem somos é difícil. Mas descobrir quem somos diante de quem nos viu crescer é infinitamente mais assustador.
Naquela noite, eu não me masturbei com a memória antiga. Eu não precisava mais daquela fantasia pré-adolescente. Agora o desejo tinha rosto atual. Tinha voz. Tinha possibilidade concreta. E, pela primeira vez, eu não queria apenas sentir. Queria tentar.
