Eu permaneci. Não porque tivesse sido perdoado, isso nunca aconteceu de fato, mas porque o mundo continuou girando, indiferente às ruínas íntimas que eu carregava. As pessoas seguem vivendo mesmo quando algo essencial se quebra; essa foi a primeira lição cruel que aprendi.
Permaneci, não porque tudo tivesse sido resolvido, nem porque o tempo tivesse suavizado as arestas. Permaneci porque a vida, às vezes, não oferece a alternativa da fuga. Há escolhas que não expulsam, apenas marcam.
Eu continuei circulando pelos mesmos lugares, cumprindo os mesmos rituais mínimos da normalidade. As pessoas me viam ali, inteiro por fora, funcional, educado, atento. Mas havia algo no modo como eu agia, sempre um segundo atrasado, que denunciava a fratura. Como se eu estivesse constantemente atravessando um eco.
Heitor não voltou. E isso foi definitivo. Não houve retorno triunfal, nem reconciliação dramática, nem recaída, nem encerramento catártico, nem cena final à altura do que havíamos sido. O que houve foi um afastamento sólido, sem espetáculo. Uma distância adulta, irreversível, que não precisa mais ser explicada.
Heitor partiu como quem fecha uma porta por dentro: sem bater, sem aviso, mas com a certeza de que não abriria mais. Isso foi o que mais doeu nele. Ele aprendeu a conviver com a própria decepção como quem aprende a caminhar com uma cicatriz profunda: sem alarde, mas com limites claros.
Ele não me odiava. O que havia se perdido era mais grave que o ódio. Era a perda da possibilidade do que podíamos ter sido.
Compreendi tarde demais que nem toda perda é visível. Algumas não levam pessoas embora, levam versões do futuro. Eu segui adiante, sim, mas carregando uma ausência específica, impossível de substituir. Nenhuma nova relação foi injusta comigo; apenas incompleta. Faltava sempre algo que eu não sabia mais nomear, mas reconhecia no corpo.
Eu tentei, por um tempo, reescrever a história em silêncio. Me convenci de que eu fizera o que pude. De que ninguém ama perfeitamente. De que crescer também exige errar. Mas essas narrativas internas não resistiam às noites longas, nem às músicas que surgiam por acaso, nem aos lugares onde a ausência de Heitor era quase física.
Havia noites em que me lembrava de Heitor tocando violão, não pela música em si, mas pelo que ela significava: alguém que permanecia mesmo quando não era prioridade. Alguém que acreditava. E era aí que a dor se tornava mais aguda, porque eu finalmente entendia, não se trai apenas um amor; trai-se uma confiança que nunca mais retorna da mesma forma.
A consequência não foi solidão imediata. Foi algo pior.
Eu segui amando depois, segui me envolvendo, segui sendo desejado. Segui vivendo, mas com a consciência crua de quem aprendeu a lição sem a chance de refazer a prova. Havia sempre um atraso emocional, como se parte de mim chegasse tarde demais aos próprios sentimentos. A entrega vinha com freio. A confiança, com cautela excessiva. O amor, com cláusulas invisíveis.
Eu aprendera, tarde demais, que algumas perdas não ensinam a amar melhor, apenas ensinam a amar menos. E que há perdas que não matam, mas nos condenam a lembrar.
A culpa não me destruiu, mas me moldou. Me tornou alguém mais contido, mais consciente, mais responsável talvez, e irrevogavelmente menos inteiro. Em certos momentos, percebia com nitidez incômoda: não era mais capaz de amar como amara Heitor. Não porque faltasse sentimento, mas porque agora conhecia o custo.
Heitor foi o preço. E ele foi pago integralmente.
O nome das coisas, que antes parecia simples, tornou-se impronunciável. Eu nunca mais consegui dizer “para sempre” sem sentir um leve constrangimento interno. Nunca mais acreditei plenamente na ideia de que o tempo corrige tudo. Algumas escolhas não pedem desculpa, pedem aceitação.
E foi isso que me restou. Aceitar que permaneci vivo, funcional, presente no mundo, mas marcado. Não como vítima. Nem como vilão. Marcado como alguém que aprendeu, da forma mais definitiva possível, que amar não basta quando se falha no momento exato em que era preciso escolher. E isso, eu entendi tarde demais, é uma consequência que não passa.
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A mudança aconteceu pouco mais de um ano depois. A família de Heitor partiu outra vez, como quem fecha portas sem fazer muito barulho. Não houve despedida coletiva, nem anúncio dramático. Apenas a notícia que chegou por terceiros, como quase tudo que envolve aquilo que já não nos pertence:
“Foram embora.”
Outra cidade. Outro recomeço. Outra tentativa de reorganizar o que nunca foi simples. E, dessa vez, eu não senti o chão tremer. Dessa vez, não doeu.
Miguel foi o único que ficou. Assumiu os negócios da mãe com uma disciplina quase silenciosa, com a serenidade prática de quem nunca teve vocação para tempestades emocionais, como o restante da família.
Casou-se cedo, dessas decisões firmes, sem espetáculo, e teve um filho, que é a cara do pai e do tio Heitor. Comprou uma casa de esquina com varanda ampla. Às vezes o via pela cidade, ainda no mesmo bairro de sempre, com um carrinho de bebê e uma expressão que misturava cansaço e realização. Ele parece bem. Parece ter encontrado o tipo de estabilidade que não grita, mas sustenta, uma paz discreta. Há algo de honesto na permanência dele.
Júlia, por sua vez, seguiu outro roteiro. Como era de se esperar, construiu uma vida exibida em molduras. Ostenta o título de “casada” na bio do Instagram. Fotos de casal ao pôr do sol, viagens organizadas, cafés esteticamente posicionados, cabelos sempre alinhados.
Frases motivacionais intercaladas com stories sobre autocuidado, rotina, looks calculados, “minhas queridas seguidoras”. Ela construiu uma vida que parece harmoniosa, e talvez seja. Não me cabe mais julgar. Aprendi que felicidade não precisa se parecer comigo para ser legítima. Ela parece feliz. Há pessoas que encontram sentido em serem vistas. E isso não é menor, é apenas diferente.
Rafael… Rafael virou rumor.
A última notícia que ouvi dizia que ele havia se mudado para a capital de outro estado. Trabalhava, segundo ele, numa grande empresa nacional. Nunca soube exatamente qual. Nunca soube exatamente nada.
Também ouvi que rompeu com a família adotiva, o que, convenhamos, talvez tenha sido o gesto mais saudável que ele já tomou. Aquela casa nunca soube acolhê-lo sem disputa.
Se é verdade o sucesso que conta, não sei. Também não sei se importa. Rafael sempre soube contar boas versões de si mesmo. Às vezes, afastar-se de uma família tóxica é o único gesto possível de sobrevivência. Mas torço para que, pela primeira vez, ele esteja vivendo uma vida que não precise provar nada para ninguém. Espero que ele tenha encontrado alguma forma de paz, ainda que inquieta.
E Heitor… Heitor hoje mora na praia.
Uma cidade paradisíaca, turística, dessas onde o pôr do sol parece sempre preparado para fotografia, que vendem equilíbrio em tons de azul. Seus posts falam de gratidão, presença, respiração, maré. Fotos descalço na areia, livros ao lado de cafés, horizonte aberto.
Tenho a impressão, talvez equivocada, talvez não, de que ele não trabalha como nós, reles mortais. Que vive da renda que soube conservar. Que transformou herança em liberdade. E, curiosamente, eu já não o julgo. Talvez ele simplesmente tenha escolhido um ritmo que não precisa provar nada a ninguém.
Quando era mais jovem, eu julgava. Achava falta de ambição. Falta de direção. Falta de vontade de crescer. Falta de personalidade. Eu queria expansão, carreira, conquista, diploma, reconhecimento. Queria sair do interior, estudar, vencer o mundo, ou pelo menos vencer as minhas próprias inseguranças.
Eu achava, talvez moldado bastante pelos valores dos meus pais, que quem não corria atrás estava parado demais. Achava que ambição era sinônimo de valor. Que produtividade era medida de caráter. Hoje eu sei que não é tão simples.
Eu estudei. Formei. Construí carreira. Conquistei independência. Sucesso profissional. Conquistei aquilo que parecia imprescindível. Eu queria movimento porque precisava provar a mim mesmo que podia sair de onde estava. E às vezes, ironia delicada da vida, penso que talvez, agora, eu largasse tudo para morar à beira da praia (embora eu prefira a cidade), fazendo um bom nada, ao lado de um amor de verdade.
Talvez...
Heitor já vinha de outro lugar., uma outra realidade, uma outra cabeça. Naquela época, a diferença de idade entre nós era gritante, mas o que um dia foi um abismo, hoje seria detalhe. Eu estava começando a entender quem eu era. Ele já estava cansado de tentar ser outra coisa.
Mas a fase errada não era apenas cronológica, era emocional. Às vezes a gente encontra a pessoa certa numa versão imatura de si mesmo. Talvez a gente tenha se encontrado na pessoa certa, mas na fase errada. Hoje, essa diferença seria irrelevante. Natural. Quase invisível.
Às vezes penso, não com saudade, mas com curiosidade serena, que, se nos conhecêssemos agora, talvez fosse diferente. Talvez eu entendesse melhor o valor de uma vida desacelerada. Talvez ele entendesse melhor a necessidade de crescimento antes do descanso.
Ou talvez não. A verdade é que não fomos feitos para durar. Fomos feitos para despertar. E o que não sobrevive ao tempo não é necessariamente falso, apenas não estava pronto.
Eu não romantizo mais o que tivemos. Também não desmereço. Heitor foi uma paixão verdadeira, mas que me desorganizou. Ela foi bastante injusta, quando penso na pouca idade que eu tinha e na completa falta de maturidade para lidar com a profundidade daquela relação. Mesmo assim, Heitor me ensinou que desejo, puro e simples, não é amor.
Rafael foi o erro que me ensinou limite próprio e com os outros.
Júlia foi o espelho que me obrigou a enxergar manipulação e vaidade, nos outros e em mim.
Miguel foi a prova de que estabilidade também é escolha.
E eu?
Eu aprendi, finalmente, que autonomia emocional é o único amor que não pode falhar. Aprendi que ninguém é responsável por me salvar. Que paixão não substitui cuidado. Que limite é forma de respeito próprio.
Eu me tornei alguém que sabe ir embora. Alguém que entende que desejo não é amor. Que intensidade não é cuidado. Que autonomia emocional é a capacidade de permanecer inteiro mesmo quando o outro parte. Hoje não guardo rancor. Guardo aprendizado.
A vida não mede sucesso apenas por dinheiro ou ambição. Nem por fotos bonitas na praia. Nem por seguidores. Nem por cargos. Ela mede pela capacidade de dormir em paz com as próprias escolhas. E eu durmo.
Hoje, se eu quisesse, talvez largasse tudo para morar na beira da praia, fazendo um bom nada, ao lado de um amor tranquilo e verdadeiro. Mas, se eu fizer isso, será por escolha, não por fuga. Essa é a diferença. A tempestade passou. Não levou tudo. Levou somente o que precisava ir.
Às vezes penso em Heitor. Não com saudade que dói. Mas com gratidão que amadureceu. Porque no fim das contas, depois de toda a tempestade, restou algo simples: eu aprendi a me escolher. O que ficou não foi o romance, foi o amadurecimento. E essa foi a única história de amor que realmente sobreviveu.
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Quando comecei a escrever esta história, não imaginei que ela atravessaria dois meses inteiros da minha vida e, muito menos, que se transformaria em 30 contos.
No início, era apenas um exercício de memória. Um episódio puxava outro, uma lembrança abria espaço para outra mais antiga, mais delicada, mais mal resolvida. E, quando percebi, não estava mais apenas narrando fatos, estava reorganizando minha própria história enquanto escrevia.
Este romance é uma autoficção. Isso significa que há verdade nele, mas não há compromisso absoluto com o registro documental. Há memória, mas também há reconstrução. Há diálogos que talvez não tenham acontecido exatamente assim, mas aconteceram emocionalmente. Há frases que, na época, ninguém teve maturidade para dizer, mas que hoje eu sei que precisavam ser ditas.
Escrever foi, acima de tudo, um exercício pessoal. E isso explica, inclusive, algo que muitos leitores perceberam com muita sensibilidade: o estilo da narrativa foi mudando ao longo da série.
No começo, a trama era mais direta, mais impulsiva, como o próprio Mateus era naquele momento da vida. Com o tempo, a escrita foi ficando mais psicológica, mais filosófica, mais introspectiva. Isso não foi um cálculo estético. Foi reflexo da minha própria reflexão. À medida que eu revisitava o passado, também o reinterpretava.
Alguns disseram que a história ficou filosófica demais. Que Mateus parecia menos real. Que os diálogos soavam resolutos demais. Que talvez tudo fosse coisa da cabeça dele, do que poderia ter sido. Bem, talvez seja. A memória não é um gravador fiel. É um organismo vivo. Ela amadurece com a gente. E, quando revisitamos uma dor antiga, já não somos a mesma pessoa que a viveu.
Também li que faltou alma. Que ficou duro. Que Mateus parecia querer justificar tudo à luz de teoria, conceito, simbologia. Eu entendo esse ponto. Quando a gente sofre, muitas vezes pensa demais para não sentir demais. Filosofar pode ser um mecanismo de defesa. Mas também pode ser crescimento.
Alguns leitores sentiram que Mateus ficou frio. Que tentou sair por cima. Que repetia teorias para ver se colava. Talvez, em certos momentos, ele realmente estivesse tentando se convencer.
Crescer não é virar uma versão iluminada de si mesmo. É aprender a sustentar as próprias escolhas, mesmo quando elas doem. E autonomia emocional não significa ausência de sentimento. Significa não se abandonar para caber na expectativa do outro.
Também li o cansaço de vocês com os términos e recomeços. Mas a vida real é assim. Nem sempre há uma linha reta de evolução. Às vezes há recaídas. Às vezes há repetições. Às vezes aprendemos a mesma lição mais de uma vez, até que finalmente ela fique.
E para quem perguntou: é assim? Acabou e ponto final? Sim. Algumas histórias acabam sem música de fundo. Mas acabam porque cumpriram sua função.
Fico especialmente tocado pelos leitores que desejaram que Mateus encontrasse um amor sincero, correspondido, saudável. Eu também desejo isso a ele. E talvez essa seja a maior mudança do personagem: ele agora sabe que merece esse amor e não qualquer amor.
Se Rafael e Heitor estão melhores do que Mateus? Eu realmente espero que estejam. Não escrevi esta história para vencer ninguém. Nem para parecer superior. Nem para apagar erros. Muito menos para reescrever o passado como triunfo.
Escrevi para entender. E entender não é absolver. É integrar.
Esta jornada foi longa. E profundamente pessoal. Mas ela só se tornou maior porque vocês acompanharam, com visualizações, curtidas, comentários, críticas, entusiasmo e até irritação. A irritação também é uma forma de envolvimento.
Se esta história provocou algo, incômodo, identificação, rejeição, nostalgia, então ela cumpriu seu papel. Obrigado por terem caminhado comigo por essas trinta partes. Obrigado por terem ficado até o fim.
No final das contas, toda autoficção é uma pergunta aberta: quem fomos quando ainda estávamos aprendendo a ser?
Com carinho e verdade,
— Mateus (ou quem ele se tornou)
