Corpos, Desejos e Silêncio... Historias que Nunca Ousamos Dizer. Capítulo 27 — O Verdadeiro Show — Parte 1

Um conto erótico de Bernardo
Categoria: Gay
Contém 6109 palavras
Data: 20/02/2026 17:13:11

O ar dentro do bar parecia ter mudado de densidade desde que cruzei a porta de volta, deixando para trás a imagem perturbadora de Arthur e Yan fundidos nas sombras do carro. Meus sentidos estavam em alerta máximo, uma mistura de adrenalina, decepção e um desejo latente que eu ainda não sabia para onde direcionar. O som da música agora batia forte, um grave que reverberava no meu peito, enquanto eu tentava processar a "traição" silenciosa que acabara de testemunhar.

​Assim que recuperei o centro do salão, avistei Arthuro. Ele estava encostado perto de uma coluna, a postura relaxada, mas algo em sua imagem estava diferente. A camisa polo que ele usava antes agora estava jogada sobre o ombro, revelando um peito largo, definido, onde algumas gotas de suor brilhavam sob as luzes neon. A pele dele, de um tom bronzeado impecável da ultima praia que pagamos, parecia irradiar um calor que eu sentia mesmo a distância.

​Aproximei-me, tentando manter a voz firme apesar do turbilhão interno.

​— Por que você está sem camisa, Arthuro? — perguntei, falando baixo, quase no ouvido dele para superar o volume da música.

​Ele se virou para mim com aquele sorriso solar que, naquele momento, parecia uma afronta à escuridão que eu vira lá fora.

— Ah, Bêr... derrubaram bebida na minha camisa — explicou, passando a mão pelo abdômen traçado.

— Ficou colando, um horror. Tive que tirar, estava me incomodando.

​— Ah, entendi — respondi, meus olhos percorrendo involuntariamente as linhas dos seus ombros e a curva do seu trapézio.

— Mas por que ficar assim no meio de todo mundo?

​Ele riu, um som vibrante e sem graça, notando meu olhar escrutinador.

— Por quê? Está ruim?

​— É porque você é gostoso, né? — disparei, a honestidade vindo carregada de uma provocação ácida.

— Ficar assim, à mostra para todo o bar, é perigoso.

​Arthuro ficou levemente desconcertado, o calor subindo pelo pescoço musculoso. Lucas, que estava ao meu lado observando a interação com um olhar clínico, interveio com a praticidade de quem domina o ambiente.

​— Gente, vamos lá dentro, no espaço que reservaram para mim — sugeriu Lucas, tocando meu ombro.

— Eu sempre trago roupas extras para o show. Arthuro, se você quiser, eu posso te emprestar uma camisa. Não dá para você ir embora assim.

​— Vamos, Arthuro — reforcei, querendo tirá-lo dali antes que a tensão explodisse.

​— Mas e o Arthur? E o Yan? — ele perguntou, olhando em volta com uma preocupação genuína que me deu um nó no estômago. Ele não fazia ideia do que o irmão estava fazendo no banco de trás do carro.

​— Relaxa — respondi, com uma frieza que nem eu sabia que possuía.

— Qualquer coisa eles ligam. Não vão se perder, são bem grandinhos.

​Seguimos Lucas pelos bastidores do bar, um corredor estreito que cheirava a madeira e incenso. O espaço reservado para ele era amplo, iluminado por lâmpadas quentes. Lucas abriu uma mochila grande, revelando várias opções de roupas.

​— Acho que nós somos praticamente do mesmo tamanho — comentou Lucas, olhando para a estrutura física de Arthuro.

— Fique à vontade.

Arthuro começou a vasculhar as peças. Seus movimentos eram lentos, e cada vez que ele se inclinava, os músculos das suas costas se contraíam, criando um jogo de sombras e relevos que era puro erotismo visual. Ele pegou uma camisa branca de linho fino.

— Pode ser essa daqui? — perguntou.

​— Se bem que... — ele hesitou, olhando para uma peça escura. — Acho melhor preto, né?

​— É, você já suou bastante — comentei, observando-o vestir a camisa preta.

​A peça era ligeiramente justa, delineando com precisão os músculos do seu peito e a largura dos seus ombros. O tecido parecia abraçar seu corpo, tornando-o ainda mais imponente. Ele ajeitou a gola, olhando-se num espelho lateral, e a imagem era a de um homem que sabia o poder que exercia.

​— Ficou boa em você — Lucas elogiou, com um olhar de quem apreciava a estética da cena.

​— Obrigado, cara. E desculpa o transtorno — Arthuro respondeu, a voz recuperando a confiança.

​— Relaxa, isso sempre acontece. O bom é que a gente veste o mesmo número — Lucas deu de ombros, sorridente.

​Aproximei-me de Lucas, sentindo a necessidade de encerrar aquela etapa da noite.

— Obrigado por hoje, Lucas. Foi tudo impecável, de verdade.

​— Que nada, Bernardo. Fico feliz que gostaram. Mas escuta... eu vou terminar de organizar as coisas aqui, deve levar uns trinta minutos. Depois, eu estou querendo ir para um baile.

​— Um baile? — perguntei, arqueando as sobrancelhas.

​— É, um baile de favela. O Baile da Gaiola. Todo mundo está falando que o clima lá está incrível. Começa a ficar bom de verdade agora, depois da meia-noite.

​Arthuro, que terminava de vestir a camisa, animou-se instantaneamente.

— Poxa, o pessoal da academia fala muito desse baile! Deve ser bom demais. Seria legal irmos.

​Olhei para os dois, hesitante. O contraste entre a sofisticação do bar e a crueza de um baile de favela era imenso.

— Tem certeza? Não combina muito comigo... não é perigoso?

​— Relaxa, Bernardo — Lucas disse, aproximando-se e falando com uma segurança contagiante. — Lá você vai ver de tudo. Desde o luxo até o lixo, e tudo o que você possa imaginar. Eu já fui, eu conheço o caminho. É tranquilo.

​— Se eu não gostar, quero ir embora na hora — impus a condição.

​— Combinado — disse Lucas.

​— Mas e o Yan e o Arthur? — Arthuro perguntou novamente. — Na verdade, o Arthur está bebendo, melhor levar o carro ele para casa. E o Yan... ele já passou do limite hoje.

— É estranho o Arthur ainda estar aguentando ele lá fora. — Disse Arthuro.

Um riso amargo quase escapou dos meus lábios. "Aguentando". Se Arthuro soubesse como o irmão estava "aguentando" o Yan...

​— Vocês não vão poder entrar de carro lá no baile — Lucas avisou.

— É melhor deixar o carro estacionado aqui e irmos de moto táxi .

​— Acho melhor não — decidi, formatando um plano na minha cabeça.

— Vamos fazer o seguinte: a gente leva esses dois que já viveram consequências demais para casa e a gente se reencontra depois. Arthuro, você leva o Arthur. Eu levo o Yan, acho que ele não consegue chegar sozinho. Tudo bem para você?

​Arthuro me olhou com uma intensidade renovada. O fato de eu estar tomando as rédeas da situação parecia atraí-lo. O ambiente ali nos bastidores, com a luz baixa e a proximidade física, transbordava uma tensão sexual que a camisa preta dele só fazia aumentar. O peito dele subia e descia ritmadamente, e eu podia ver o desejo faiscando em suas pupilas.

​— Tá... — ele murmurou, a voz ficando mais grave. — Mas você tem certeza que quer levar o Yan sozinho?

​— Tenho — respondi, sustentando o olhar dele. — Eu resolvo com o Yan. Você cuida do seu irmão. Nos vemos daqui a pouco.

​O ar dentro do bar, antes vibrante e elétrico, agora parecia carregado de uma estática pesada, quase sufocante. Eu sentia cada batida do som ressoar não apenas no meu peito, mas na minha consciência. O plano estava traçado, e Lucas, com uma perspicácia que eu ainda estava aprendendo a admirar, selou a estratégia.

​— Eu te ajudo, Bernardo — Lucas disse, sua voz cortando o burburinho. — Vou com você levar o Yan. Ele não parece estar em condições de lidar com um Uber sozinho, e nos garantimos que ele chegue ao destino sem maiores incidentes.

​— Perfeito então — respondi, sentindo um alívio misturado com urgência.

— A gente vai até a casa dele e seguimos ao seu encontro Arthuro.

— Tudo bem para você, Arthuro?

​Arthuro assentiu, a camisa preta que Lucas lhe emprestara agora moldada perfeitamente ao seu tronco largo. Ele parecia um guardião silencioso, mas seus olhos capturavam cada nuance do meu nervosismo. Lucas decidiu deixar sua mochila naquele lugar, e seguimos para o salão principal.

​Peguei o celular e disquei para Arthur. Precisava tirá-los daquela penumbra, interromper qualquer que fosse a simbiose tóxica que se formara entre ele e o Yan lá fora. Para minha surpresa, eles já haviam retornado ao interior do bar. Avistei-os perto da saída. Arthur segurava uma garrafa de água com força, as juntas dos dedos brancas, enquanto Yan cambaleava levemente, os olhos vítreos, mas com um sorriso de satisfação que me revirou o estômago.

​— Bom, meninos, nós já vamos — anunciei, minha voz saindo mais fria do que eu pretendia.

​— Mas já? — Yan protestou, a voz arrastada, aproximando-se de mim com um hálito que misturava bebidas e o cheiro acre do que quer que ele tivesse fumado.

— Tá cedo ainda, Ber... tem muita coisa para acontecer nessa noite.

​— Para você já deu, Yan. Você está visivelmente alterado e precisa de um limite — cortei, sentindo o olhar de Arthur queimar em mim.

​Arthur soltou uma risada sarcástica, um som seco que não chegava aos olhos claros.

— Deixa ele se divertir, Ber. Ele não parece tão mal assim. Ele está... aproveitando.

​Encarei Arthur, sustentando o olhar desafiador. Eu sabia o que vira no carro. Sabia que aquele cinismo era uma armadura para o que quer que ele estivesse sentindo ou escondendo.

— Eu conheço ele muito bem, Arthur. Ele vai para casa agora, e o Lucas vai me ajudar.

​Arthuro interveio, colocando a mão no ombro do irmão com autoridade.

— Maninho, a gente vai junto para casa agora. Eu vou te levar.

​Arthur arqueou uma sobrancelha, olhando para a camisa nova do irmão.

— E você vai para onde depois?

​— Vou sair com meus amigos, relaxa — Arthuro respondeu, lançando-me uma piscada rápida e um sorriso que era um pacto secreto e confiança. Devolvi o sorriso, sentindo meu sangue ferver de antecipação.

​— Então vamos, pessoal. O álcool está batendo rápido demais aqui — apressei.

​Lucas chamou o Uber com as coordenas que passei. O carro parou na frente do bar, e a dinâmica se dividiu. Entrei no banco de trás com Yan, que se jogou contra o estofado com um suspiro pesado. Lucas ocupou o banco da frente. Antes de partir, saí rapidamente para me despedir dos gêmeos.

​O abraço de Arthuro foi rápido, mas intenso.

— Até daqui a pouco, tá? Se cuida e fica de olho no celular — ele sussurrou perto da minha orelha, o cheiro de seu perfume viril agora misturado ao frescor da camisa de Lucas.

​— Pode deixar — respondi.

Virei-me para Arthur. O contato foi diferente. Um abraço protocolar, tenso.

— Depois a gente conversa sobre essa noite, tá? — falei baixo.

​Arthur me olhou fixamente, as pupilas dilatadas.

— Tá bom sim, senhor Bernardo. Depois a gente conversa — ele respondeu em um tom rude, quase agressivo, que denunciava o turbilhão interno dele.

​Entrei no Uber e o carro partiu, deixando para trás os vultos dos gêmeos entrando no veículo deles. No banco de trás, Yan parecia uma criança hiperativa e entorpecida.

​— Foi muito boa essa noite... eu aproveitei bastante — ele murmurou, aproximando-se do meu espaço, o braço roçando o meu.

​— Deu para perceber, Yan — respondi, mantendo a distância.

​— Eu poderia ter aproveitado ainda mais — ele rebateu, virando o rosto para mim. Seus olhos tentavam focar nos meus, e ele estendeu a mão, segurando minha bochecha com uma pressão um pouco exagerada, tentando me puxar para um beijo.

​— Não, Yan. Já chega. Esse cheiro de bebida... hoje não — falei, afastando a mão dele com firmeza.

​— O que foi, Bernardinho? Tá bravo? — ele riu, sem perceber a gravidade do meu tom.

​— Nada. Só estamos chegando.

​O carro entrou no condomínio silencioso. O trajeto até o apartamento dele foi um borrão de luzes de postes e o silêncio desconfortável de Lucas na frente. Subimos pelo elevador. O metal frio das paredes parecia refletir minha exaustão. Já dentro do apartamento, Yan começou a se despojar das roupas. Tirou os sapatos, a camisa, e se jogou no sofá de bermuda, revelando o corpo que, embora atraente, agora me parecia desprovido daquela aura de desejo que eu tanto pregava.

​Fui até a geladeira, peguei uma garrafa de água gelada e a entreguei a ele.

— Você precisa descansar. Toma isso e procura um remédio, ou a ressaca vai te destruir amanhã.

​— Relaxa, eu tenho tudo lá no quarto... — ele murmurou, fechando os olhos.

​Aproximei-me dele, ajoelhando-me no tapete. Apesar de tudo, da cena no carro, da confusão com Arthur, havia um carinho residual. Dei um beijo em sua testa, um gesto de despedida momentânea.

— Se cuida, tá? Depois eu quero conversar com você seriamente.

​— Tá bom... você também se cuida. Quando chegar em casa, me avisa — ele disse, a voz já sumindo no sono.

Saí do apartamento com Lucas. No corredor do prédio, a atmosfera mudou. O silêncio entre nós dois era cúmplice. Durante todo o tempo em que cuidamos de Yan, Lucas manteve uma postura observadora, mas houve um momento, enquanto o Uber ainda cortava as ruas, que Yan mencionou o beijo no palco.

​— Poderia ter sido um beijo melhor, Lucas — Yan dissera, rindo.

​Lucas apenas olhou pelo retrovisor, com um sorriso de canto que era puro desdém profissional.

— Foi o suficiente para você, cara. Relaxa aí.

​Agora, descendo pelo elevador, Lucas me olhou.

— Você é um cara paciente, Bernardo. Mas sei que sua cabeça está em outro lugar.

​Mandei uma mensagem para Arthuro:

— Já entreguei o Yan. Como estão as coisas por aí?

A resposta veio em segundos:

— Acabei de deixá-lo em casa. Em alguns minutos estou saindo. Me encontra onde combinamos.

O ar noturno estava carregado de uma umidade que fazia a pele brilhar sob os postes amarelados do condomínio de Yan. Lucas e eu caminhávamos em silêncio até a guarita, mas o peso do que eu guardava no peito era maior do que o cansaço da noite. Eu precisava de um aliado, ou pelo menos de uma testemunha que não estivesse enrolada nos lençóis daquela confusão.

​Encostei a mão no braço firme de Lucas, sentindo a musculatura tríceps dele sob a manga da camisa.

— Lucas, espera... antes da gente seguir, eu preciso te explicar algumas coisas. Não quero que você vá para esse baile achando que eu sou um completo maluco, embora talvez eu seja.

​Lucas parou, virando o corpo para mim. A luz da guarita realçava o desenho do seu maxilar e a profundidade do seu olhar.

— Bernardo, tudo bem. É a sua vida. Eu não vou questionar nada, apesar de estar, confesso, um pouco confuso com o troca troca dessa noite.

​Eu ri, um som nervoso, e apontei para um banco de madeira perto da saída.

— Senta aqui cinco minutos. Coisa rápida, só para você entender o caos.

​Sentamos. O silêncio do condomínio de luxo contrastava com o barulho que ainda ecoava na minha mente.

— Eu te apresentei o Yan como meu ficante, e realmente estávamos nessa. Conheci ele através do Arthuro, o gêmeo simpático. O Arthur e o Arthuro são meus melhores amigos de longa data... mas a coisa desandou.

Lucas cruzou os braços, a camisa apertando ainda mais o seu peito definido.

— Deixa eu adivinhar... você ficou com o Arthuro ?

​— Com os dois — confessei, baixando o tom de voz. — Fiquei com o Arthuro, que é quem eu realmente sinto algo mais profundo, e fiquei com o Arthur hoje à tarde, naquela tensão que você viu. Só que um não sabe do outro. E agora tem o Yan no meio... isso está me corroendo, Lucas. Não tenho com quem compartilhar.

​Lucas soltou um assobio baixo, um sorriso de canto surgindo em seus lábios.

— Caramba, Bernardo... você pegou os dois gostosos de uma vez? Que delícia de problema, hein?

​Dei um tapa leve no ombro dele, rindo.

— Para de graça! É sério. Eu sinto que estou andando em um campo minado.

​— Olha — Lucas começou, mudando para um tom mais sério, seu olhar escaneando o meu rosto com sinceridade profissional.

— O que ficou nítido para mim lá do palco é que o Arthuro gosta muito de você. Ele buscava seu olhar o tempo todo, te respeitava no espaço. Já esse Yan... não sei, ele não faz o seu tipo. Ele é legal, mas a bebida transforma o cara. Agora, o Arthur? O irmão? Esse tirou a noite para te provocar. Eu senti isso de longe.

​— Ele é... intenso — murmurei, lembrando do toque de Arthur no meu pescoço.

​— O resto é com você, Bernardo. Somos colegas de trabalho, não vou me intrometer, mas se precisar desabafar, eu sou um túmulo. E sobre os dois serem "héteros"... bom — Lucas deu uma risada curta, olhando para as próprias mãos.

— Você viu o Arthur com o Yan no carro. Você não vai tirar ninguém do armário, mas o armário deles parece ter porta de vidro.

​— Pois é. Minha vida é um caos — suspirei.

​— Mas que caos gostoso você é, Bernardo. Queria eu estar no seu lugar, entre dois gêmeos daqueles e um Yan da vida — ele provocou, piscando para mim.

​— Para, Lucas! — exclamei, sentindo meu rosto queimar.

— E você? Falando de mim, mas olha esse seu porte. Você chama atenção de qualquer um. Esse peito estufado, esse jeito de artista... você é um pecado, garoto.

​Lucas desviou o olhar, um pouco tímido, o que era raro para alguém que acabara de dominar um palco.

— Obrigado... mas ainda não chamei a atenção de quem eu realmente queria nesta noite.

​Arqueei a sobrancelha.

— Ainda não?

​— Ainda não. Mas essa conversa fica para depois — ele cortou, levantando-se e pegando o celular.

— Vou chamar os mototáxis. O Arthuro já deve estar chegando no ponto de encontro. Só um aviso: vocês dois juntos, você e o Arthuro, vão chamar muita atenção naquele baile. Prepare-se para lidar com os olhares.

​As motos chegaram rugindo. Subimos, cada um em uma, e a adrenalina do vento no rosto limpou um pouco da minha confusão. Cruzamos a cidade de forma veloz, os reflexos das luzes da cidade passando como borrões. Quando paramos no ponto combinado, a silhueta de Arthuro já estava lá, mas não de carro.

​Ele estava montado em sua moto, uma máquina potente que parecia uma extensão do seu próprio corpo. Ele usava a camisa preta de Lucas, que agora estava aberta até o meio do peito devido ao calor da pilotagem, revelando a pele bronzeada e o brilho do suor.

​— Arthuro! Você veio de moto? — perguntei, descendo da garupa.

​— É, achei melhor. Tem onde estacionar lá e depois a gente sai voando daqui — ele disse, com um brilho selvagem nos olhos claros.

— E o Yan?

​— Entregue e apagado — respondi.

​Lucas desceu da outra moto, se ajeitando.

— Bom, eu vou para minha casa daqui a pouco, moro pert, não se preocupem comigo.

— Mas Arthuro, você sabe que não pode beber se vai pilotar isso, né?

​Arthuro deu um sorriso de lado, descendo da moto com uma agilidade. Ele caminhou até mim, parando a centímetros de distância. Eu conseguia sentir o calor irradiando do seu corpo, o cheiro de asfalto, vento e o perfume que ele exalava.

— Eu sei me controlar, Bêr... Mas não vou beber, fica tranquilo. Hoje eu só quero sentir aproveitar.

​Lucas olhou para nós dois — eu, ainda tentando processar as confissões que fizera a ele, e Arthuro, transbordando uma virilidade crua e magnética.

— Partiu então? Agora é só andar um pouquinho e a gente entra no Baile da Gaiola.

​— Vamos — eu disse, sentindo o olhar de Arthuro descer pelo meu corpo, parando na minha boca por um segundo eterno antes de ele segurar minha mão com firmeza.

​Caminhamos em direção ao som abafado do funk que vinha da comunidade. A cada passo, a batida ficava mais nítida, o grave fazendo o chão tremer. O Verdadeiro Show estava prestes a começar, e eu estava exatamente onde queria estar: ao lado do gêmeo que fazia meu sangue pulsar mais rápido do que qualquer motor.

Caminhamos em direção ao coração do Baile da Gaiola. Lucas, com sua experiência de quem já dominou palcos em todos os cantos da cidade, tomou a frente. Ele se movia com uma ginga natural, abrindo caminho entre as pessoas com uma confiança que parecia contagiar o ambiente. Eu e Arthuro vínhamos logo atrás, rindo de qualquer bobagem, mas a verdade é que o meu estômago dava voltas. A expectativa era uma corda esticada; eu nunca tinha pisado em um lugar assim.

​Quando as estruturas finalmente se revelaram, eu perdi o fôlego. Não era apenas um baile; era um organismo vivo. O paredão de som, imenso, cuspia um grave tão potente que eu sentia os pelos dos meus braços se arrepiarem e meu tórax vibrar em sintonia com a batida. As luzes estroboscópicas cortavam a fumaça, revelando uma multidão que parecia não ter fim.

​— Chegamos! — Lucas mencionou.

Fiquei estático por um segundo. O setlist era eclético; um rap nacional pesado dava lugar a um funk de batida seca, e a energia era palpável, quase sólida. Lucas, prático como sempre, encostou no meu ombro.

— Vou pegar umas bebidas para a gente! — ele avisou, já se virando.

​— Ah, Lucas, não precisa... — tentei protestar, mas ele nem me ouviu.

​— Relaxa, Bêr! — Arthuro interveio, aproximando-se tanto que eu senti o calor da sua pele atravessar a camisa preta.

— Vamos aproveitar por mim hoje. Deixa o cara.

​Seguimos em uma espécie de trenzinho humano através da massa de corpos. O cheiro era uma mistura de perfumes caros, energético, suor e a fumaça doce que pairava no ar. Chegamos ao balcão e Lucas pediu os copões. Eram misturas potentes de gin, energético e gelo de coco, servidos em recipientes de setecentos mililitros que custavam uma fração do que pagaríamos no bar de onde viemos.

​— Caralho, que lugar! — Arthuro exclamou, os olhos claros brilhando, refletindo as luzes coloridas. Ele parecia em casa naquele caos.

​— É bem diferente de tudo o que já vi — confessei, segurando meu copo.

Lucas deu um gole na sua bebida e se inclinou para nós, com um sorriso malicioso.

— Eu avisei. E olha ao redor... já tem gente de olho na gente.

​Ele não estava mentindo. O nosso trio destoava da média; éramos três homens altos, bem vestidos e com uma energia que emanava algo proibido. Arthuro, com a camisa de Lucas aberta, exalava uma virilidade bruta. Lucas tinha o carisma magnético. E eu... bom, eu carregava o peso de uma tarde intensa e de segredos que me deixavam com um brilho febril no olhar.

​Nos posicionamos perto de um espaço lateral ao bar, onde o som batia com força total. Formamos um triângulo: Arthuro à minha frente, Lucas às minhas costas. Eu me sentia estranhamente protegido, cercado pela força física dos dois. Começamos a nos mexer no ritmo do funk, movimentos curtos, já que o espaço era disputado centímetro a centímetro.

​Olhei para Arthuro. O suor já começava a sua testa, e a camisa preta grudava levemente em seu peitoral quando ele se movia. A tentação de tocá-lo ali, na frente de todos, era quase insuportável.

— Se diverte, tá? — gritei perto do ouvido dele.

— Aproveita tudo e não se prenda a nada por minha causa.

Arthuro parou de dançar por um instante, me encarando com uma expressão confusa.

— O que você quer dizer com isso, Bêr? — perguntou, a voz alta e rouca.

​— Quero que você aproveite! Olha quanta gente linda... eu sei que você quer curtir.

​Ele soltou uma risada curta e se aproximou mais, o corpo dele pressionando o meu contra o Lucas, que estava atrás.

— Ah, Bêr, não fala assim. Eu quero aproveitar com você.

​— Arthuro, tudo bem — respondi, sustentando o olhar dele com uma maturidade que eu buscava no fundo da alma.

— Eu sei que você gosta de mulheres também. Isso não é um problema para mim.

— Sério.

​Ele me olhou assustado, como se eu tivesse lido um arquivo confidencial dele.

— Tem certeza disso?

​— Certeza absoluta. Quero que você aproveite o momento, o ambiente, tudo o que a vida te proporcionar. Eu nunca vou ficar chateado, desde que você seja honesto comigo.

​Arthuro apertou minha mão com força, um gesto de gratidão silenciosa, e por um momento parecia que íamos nos beijar ali mesmo. Mas o destino — ou a dinâmica do local, tinha outros planos. Um grupo de quatro garotas se aproximou, e Lucas, com sua lábia impecável, já começou a trocar ideia com uma delas. Logo, elas se integraram ao nosso espaço.

Eram lindas. Uma delas, uma morena de cabelos cacheados volumosos e um sorriso predatório, fixou o olhar em Arthuro. Eu via o jogo de olhares. Ela se aproximava, o corpo dela roçando no dele enquanto a batida do funk ficava mais sugestiva. Arthuro, fiel ao que havíamos conversado, começou a dançar com ela.

​Senti uma pontada aguda de ciúme, um aperto no peito ao ver as mãos dela tocarem os braços dele, mas reprimi. Eu queria que ele fosse livre. Queria que ele sentisse que comigo não havia as amarras que o Arthur tentava impor. Fiquei ali, bebendo meu gin, observando a malemolência de Arthuro enquanto Lucas se divertia com outras meninas do grupo.

​Até que uma das garotas, que estava mais próxima de mim, inclinou-se para falar no meu ouvido.

— Ai, minha amiga é muito atirada, né? — ela disse, rindo e apontando para a morena que agora estava quase colada em Arthuro.

​— Como assim? — perguntei, tentando parecer desinteressado.

​— Olha lá, ela está dando em cima do seu amigo sem nem disfarçar.

​— Deixa eles aproveitarem — respondi, dando um gole longo na bebida.

— Estão felizes, estão solteiros...

​A garota me olhou com uma expressão de quem vai contar a verdade?

— Esse é o problema... ela não é solteira. O namorado dela é um dos caras que cuida da segurança daqui do palco. Se ele vir o seu amigo encostando nela desse jeito...

​Meu sangue gelou. Olhei para Arthuro, que estava de costas, rindo enquanto a garota passava as mãos pelo pescoço dele. O perigo, que até então era apenas sexual e emocional, acabara de ganhar uma face física e violenta. A sensualidade da dança agora tinha um cronômetro de contagem regressiva para o caos.

​— Ela não é solteira? — repeti, a voz saindo tensa.

​— Nem um pouco — a garota respondeu, bebendo um gole do seu copão.

— E o cara é ciumento nível pesado. Se ele bater o olho naquele peitoral do seu amigo colado nela... o clima vai virar.

Eu olhei para o palco, tentando identificar os homens da segurança. Vi vultos de homens grandes, de rádio no ombro, observando a massa. Lucas estava logo ao lado, entretido com outra menina, mas percebi que ele também mantinha um olho no ambiente, como se o seu instinto de sobrevivência estivesse ligado no modo automático.

​Aproximei-me do Arthuro. A música mudou para um beat de caixa mais seco, um funk de favela raiz que fazia todo mundo descer até o chão. A morena se colou ainda mais no quadril do Arthuro, uma provocação clara. Eu sentia o ciúme queimar, não o ciúme de posse que o Arthur sentia por mim, mas um medo real de que algo acontecesse com o homem que eu desejava.

​Toquei o ombro do Arthuro. O músculo estava rígido, quente.

— Arthuro... — chamei, mas o som do paredão engoliu minha voz.

​Ele se virou levemente, os olhos claros meio nublados pelo energético e pela adrenalina, e abriu um sorriso de lado que me desarmou. Ele parecia estar adorando o perigo, mesmo sem saber dele. A morena lançou um olhar desafiador para mim, como se marcasse território.

​— Bêr! Essa música é foda! — ele gritou, puxando-me para perto do círculo deles.

​— Arthuro, me escuta — colei minha boca no ouvido dele, sentindo o cheiro de suor e do perfume dele que me deixava tonto.

— A gente precisa se afastar um pouco. Essa garota... o namorado dela é da segurança daqui.

​Vi o exato momento em que a pupila dele dilatou. O sorriso não sumiu, mas mudou de forma. Arthuro não era um cara de recuar fácil; ele tinha aquela arrogância jovem de quem se sente invencível, mas o meu olhar de súplica o fez considerar a situação.

​— Tem certeza? — ele perguntou, a mão dele descendo da cintura da garota para segurar a minha, um aperto firme que dizia: eu estou com você.

​— Absoluta. Não vale a pena — respondi.

​Nesse instante, Lucas percebeu a movimentação. Ele se aproximou com a ginga de quem sabe desarmar qualquer situação.

— Bernardo, Arthuro... vamos dar um giro? O DJ vai trocar o set agora, vamos pegar mais um gelo

— Lucas sugeriu, já se posicionando entre Arthuro e a morena, quebrando o contato físico de forma diplomática, mas firme.

​A garota morena fez um bico de decepção, mas a amiga dela, a que me avisara, a puxou pelo braço, sussurrando algo que a fez olhar rapidamente para o fundo do palco e empalidecer.

​Nós três nos afastamos em direção a uma área um pouco mais aberta, perto de um dos paredões laterais. O calor ali era insuportável, mas a sensação de termos escapado de um confronto imediato trouxe um alívio elétrico. Arthuro parou, ofegante, e secou o suor da testa com as costas da mão. A camisa de Lucas estava quase totalmente aberta agora, revelando o abdômen trincado que se movia com a respiração pesada.

​— Caraca, Bêr... — Arthuro disse, encarando-me com uma intensidade que fazia o barulho ao redor desaparecer.

— Você me salvou de uma fria ou de uma briga que eu não ia querer ter hoje.

​— Eu disse para você aproveitar, mas não para se suicidar — brinquei, embora minhas mãos ainda estivessem tremendo levemente.

​Arthuro se aproximou mais, ignorando a multidão. Ele colocou as mãos na minha cintura, os dedos grandes apertando a carne ali com uma possessividade que ele nunca tinha demonstrado de forma tão aberta.

— Eu queria ver até onde você ia — ele admitiu, a voz descendo para um tom vibrante, carregado de desejo.

— Queria saber se você ia ficar com ciúmes ou se ia me deixar ir.

​— Eu fico com ciúmes, Arthuro. Mas eu prefiro você vivo e inteiro comigo — respondi, subindo minhas mãos para os ombros dele, sentindo a pele quente e úmida.

​Lucas, ao nosso lado, observava a cena com um sorriso de quem entende de todas as coreografias da noite.

— Vocês dois são um perigo público — Lucas comentou, dando um gole no seu copão.

— No Baile da Gaiola, o amor e o caos andam de mãos dadas. Mas agora que a poeira baixou... o que a gente faz?

​Arthuro não tirou os olhos dos meus. O olhar dele desceu para a minha boca e depois subiu para os meus olhos, um convite silencioso que gritava mais alto que qualquer caixa de som. A tensão sexual entre nós atingira um ponto de não retorno. O segredo sobre o Arthur e o Yan ainda estava lá, no fundo da minha mente, mas ali, sob as luzes da Gaiola, só existia o calor do Arthuro.

​— Eu sei o que eu quero fazer — Arthuro murmurou, o hálito quente de gin e hortelã batendo no meu rosto.

​A tensão que pulsava entre mim e o Arthuro foi abruptamente cortada por uma necessidade mundana, mas que, naquele cenário, parecia um rito de passagem.

— Eu preciso mijar em algum lugar — Arthuro murmurou, a voz rouca contra o meu pescoço, o calor do corpo dele me deixando tonto.

​— Vamos, eu vou contigo — respondi de imediato. Não queria perdê-lo de vista nem por um segundo naquele mar de gente.

​Lucas, sempre atento, interveio com um sorriso cínico.

— Vamos aonde? Não tem banheiro aqui não, rapazes. Aqui o esquema é na rua mesmo. Bora, eu vou com vocês e depois a gente volta pro foco.

​Seguimos Lucas, que abria caminho com uma autoridade natural. Ao sairmos do epicentro do som, o silêncio relativo da rua lateral pareceu estranhamente opressor.

— Pô, tem gente andando atrás da gente — Lucas soltou, a voz baixa, sem olhar para trás.

​— O quê? — Senti um calafrio.

​— Olha ali, pelo canto do olho. Não para de andar — ele instruiu.

​Percebi três rapazes nos seguindo à distância, mantendo um passo calculado. A adrenalina, que antes era puramente sexual, agora se tingia de um instinto de sobrevivência. Encontramos um canto mais reservado, um muro de chapas metálicas que exalava o cheiro de asfalto e noite.

​— Vai lá, Arthuro — eu disse.

​— Não, vão vocês dois primeiro — Lucas propôs, ficando de vigia. — Eu espero, depois a gente reveza.

​Aproximei-me de Arthuro no escuro. O som do zíper descendo pareceu amplificado naquele silêncio tenso. Aliviamos juntos, lado a lado, em uma intimidade crua, masculina, onde o vapor subia no ar gelado da madrugada. Arthuro olhou para mim de canto, um sorriso travesso surgindo.

— Tem em ponto de bala já — ele brincou, referindo-se à empolgação que o álcool e o ambiente causavam.

​— Para de graça — ri baixo, sentindo o peso do olhar dele sobre mim mesmo ali.

​Não havia onde limpar as mãos. Arthuro esfregou as palmas na própria bermuda, e eu fiz o mesmo, um gesto compartilhado de quem já estava entregue ao caos da Gaiola. Lucas foi rápido, trocando de lugar conosco.

— Fica de olho — ele pediu.

​Foi quando os vi claramente. Os caras que nos seguiam pararam do outro lado da rua, encostados em um carro, observando cada movimento nosso com uma fixidez predatória. Lucas voltou, ajeitando a calça, o olhar afiado.

— Espera aí, não vamos voltar pra lá agora não. Sacou, né, Bernardo?

​— Já vi — respondi, o coração martelando. — Será que é o namorado daquela garota?

​— Como assim? — Arthuro perguntou, finalmente percebendo que a atmosfera havia mudado.

​— Aqueles caras estão nos monitorando desde lá de dentro — Lucas explicou.

​Tentamos caminhar, mas eles se aproximaram com uma rapidez que não permitia fuga.

— Ei! Ei, vocês aí! — Um deles gritou. Tinha o porte físico de quem passava o dia carregando peso, e o olhar injetado de quem não estava ali para conversar.

​Segurei a mão de Arthuro com força, sentindo a palma dele quente.

— Oi. Boa noite — respondi, tentando manter a voz estável.

​— Eu vi vocês juntos com a minha namorada lá dentro. Esse cara aí, ele apontou para Arthuro, o dedo quase tocando o peito dele. Tava dançando com ela. Que intimidade é essa, porra?

​Arthuro gaguejou, o corpo tencionando para o combate. Lucas ficou estático. O perigo era real. Foi então que meu instinto de proteção e uma dose de audácia, tomou o controle.

​— Ah, aquelas garotas que chegaram perto da gente? — comecei, forçando um riso leve, quase de desdém.

— Elas estavam conversando com a gente, sim. E uma delas até pediu licença para vir dançar com o meu namorado. Ela disse que queria fazer ciúmes pro namorado dela. Não foi isso, amor?

​Virei-me para Arthuro e, antes que ele pudesse processar, colei meu corpo ao dele e dei um beijo demorado e úmido no seu pescoço, subindo até a mandíbula. Senti a pele dele arrepiar sob meus lábios. Arthuro, captando a jogada, relaxou os ombros e passou o braço pela minha cintura.

— É, foi isso — ele confirmou, a voz agora firme.

— Ela disse que queria ajuda e eu só ajudei.

​— Sério que ela fez isso? — O cara pareceu murchar um pouco, a confusão tomando o lugar da raiva.

​— Fez — continuei, me aninhando no peito de Arthuro.

— Eu até achei estranho, mas como a gente é... bem, você sabe.

— Lucas completou com um sorriso cúmplice: — Nós somos amigos especiais"

, se é que você me entende.

​Para selar o acordo e dissipar qualquer dúvida de macho alfa do cara, puxei Arthuro pela nuca e dei um beijo direto na boca dele. Não foi um selinho; foi um beijo de posse, de desejo, que fez o silêncio da rua vibrar. Quando nos separamos, os três caras nos olhavam com uma mistura de choque e alívio.

​— Porra, foi mal — o namorado disse, coçando a cabeça. — A gente tá meio brigado e eu achei que... enfim. Já que vocês são de boa, se quiserem chegar ali na frente, tem um camarotezinho nosso. Bebida liberada. Vamos com a gente, eu faço questão.

​Eu e Arthuro nos olhamos. O perigo havia se transformado em um convite perigoso.

— Não precisa, a gente já está indo embora — tentei recusar.

​— Que nada, ainda está cedo! Vamos lá, vocês são gente fina — ele insistiu.

​Em um movimento instintivo, dei uma mão para Arthuro e a outra para Lucas. Seguimos os três homens como se fôssemos convidados de honra para o coração do submundo. Entramos em uma tenda ampla, um espaço reservado com carpetes escuros, cadeiras e um bar improbisado exclusivo com garrafas de uísque e vodca que brilhavam sob luzes indiretas.

​O ar ali era mais frio, o cheiro de tabaco caro e álcool forte dominava. Lucas pegou um copo de uísque para nós, e ficamos os três ali, ombro a ombro, processando a reviravolta. Eu estava de costas para a entrada, sentindo a mão de Arthuro repousar na base da minha coluna, quando uma voz familiar, carregada de surpresa e uma ironia cortante, atravessou o som ambiente.

​— Professor? Você por aqui?

​Virei-me bruscamente. Meu coração parou. Ali, no centro do camarote, cercada por figuras que exalavam poder e perigo, estava uma figura que eu jamais esperaria encontrar no Baile da Gaiola naquela noite. O olhar dela escaneou Lucas, e finalmente parou em mim com uma intensidade e curiosidade...

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Comentários

Foto de perfil de Xandão Sá

Sensacional a reviravolta, as novas subtramas, as histórias que desdobram a trajetória de Bernardo em outras situações. Gostando demais e imaginando se vai rolar um menage a trois com Arthuro e Lucas, ou com Lucas e Beto... e ainda tem Jonas em tecla pause... eita lelÊ..

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