Os “Filhos” Do Meu Marido Me Fizeram Chorar De Tanto Gozar - Parte 4

Um conto erótico de Gihh
Categoria: Heterossexual
Contém 4337 palavras
Data: 19/02/2026 05:02:25

# Parte 4 - O Homem Bom

O som do elevador subindo era o único ruído no mundo.

*Zzzzzzzzz.* Um zumbido mecânico, comendo andar por andar, implacável como uma sentença sendo lida.

Estávamos no olho do furacão — aquele segundo congelado onde o pânico é tão absoluto que vira silêncio. Eu destruída na cama, as pernas bambas, suada, cheirando a sexo e punição, com o gosto amargo do Wesley na boca e a porra quente dele misturada com a do Davi e do Jonathan escorrendo pela minha coxa. O lençol branco estava arruinado além do salvável — manchado, enrugado, úmido, um mapa físico de tudo que tinha acontecido nas últimas horas.

Wesley estava pálido. Num instante, toda a raiva, toda a violência, toda a fúria juvenil sumiu dele — e sobrou o menino da periferia que sabia, no osso, que quando o mundo cai em cima de preto pobre é preto pobre que paga.

Davi e Jonathan, que tinham entrado rindo, estavam estáticos.

Foi Jonathan quem quebrou o feitiço.

Não com grito. Com comando seco, a voz baixa e cortante.

"Levanta." Os olhos dele varreram o quarto. "Agora. Os dois."

Ele foi até a janela, puxou a cortina com força, olhou pra baixo. Processou. Virou.

"Davi, pega as roupas do Wesley. Tudo. Tênis, cueca, camiseta — não deixa um fio sequer no chão. E pega o lençol de baixo também, o que tá debaixo do colchão."

Davi obedeceu no reflexo, catando as peças com a velocidade de quem já fugiu de lugar muito mais complicado do que apartamento de Jardins.

"Wesley." Jonathan estaloou os dedos na cara do menino travado. "Se veste. Sem parar de tremer. Agora."

Wesley piscou e começou a enfiar a cueca do avesso, os dedos gelados e desajeitados.

"E você." Jonathan se virou pra mim. Não me olhou com pena. Não me olhou com desejo residual. Me olhou como um problema logístico que precisava de solução em menos de dois minutos. "Banheiro. Lava o rosto, tira o cheiro, passa água no cabelo. Veste o roupão. Rápido."

"Não dá tempo", eu solucei, o pânico me travando. "Eu ouvi o motor, ele já tá no quarto, quinto andar..."

"Dá tempo se você calar a boca e ir", ele disse, me puxando pelo braço, tirando meu corpo da cama com uma força que machucou. Minhas pernas falharam, ele me segurou pelo pulso. "Vai. Agora. Lava o pescoço marcado, passa pó, qualquer merda. E pega um roupão."

Me empurrou pro banheiro e bateu a porta.

***

Do lado de dentro, com as mãos tremendo, abri a torneira no máximo.

A água fria bateu no meu rosto inchado, ardeu nos lábios cortados, escorreu pelo pescoço marcado. Eu me olhei no espelho iluminado.

O que vi me assustou mais do que o César subindo o elevador.

Meu pescoço carregava a impressão digital do Wesley — manchas vermelhas que iam virar roxas até o amanhecer, o formato exato dos dedos dele gravado na minha pele como uma assinatura. Minha boca estava inchada, os lábios com micro fissuras de tanto ser forçada. Os olhos vermelhos, injetados, o rímel escorrido em linhas pretas pelas bochechas. Meu cabelo era um campo de batalha.

Mas o pior não era nada disso.

O pior era a expressão no fundo dos meus olhos.

Não era só medo. Havia uma excitação residual, suja, que eu não conseguia apagar — vibrava ali como brasas no fundo da íris, um calor vergonhoso que não tinha se apagado. Eu tinha sido usada por três homens. Humilhada, chamada de vadia, sufocada, socada, exposta. E meu corpo ainda pulsava, ainda lembrava cada detalhe com uma nitidez de alta resolução.

Aquilo me assustou mais do que tudo na minha vida.

Lavei o rosto. Passei sabonete no pescoço. Esfreguei com força tentando cobrir as marcas com vermelhidão uniforme de esfoliação. Sequei com a toalha felpuda do César que cheirava a amaciante caro.

"Marina!" A voz abafada do Jonathan do outro lado da porta. Baixa. Urgente.

Abri.

O quarto estava transformado. O lençol manchado sumiu. A cama estava desfeita mas apenas como quem dormiu mal. As janelas abertas, o vento frio de São Paulo levando o cheiro que podia condenar todo mundo. As roupas deles desaparecidas.

Wesley já estava vestido, o capuz puxado, encolhido. Davi segurava sacolas de lixo pretas com as garrafas e os restos do jantar, tudo que revelava que tinham estado ali. Jonathan parado na maçaneta da porta de serviço.

O elevador social parou no andar. *Ding.*

A campainha tocou.

Jonathan me olhou.

"A porta de serviço fica trancada por dentro depois que a gente sair. Descemos pela escada de incêndio até o G2, pulamos o muro dos fundos, tem um terreno baldio que dá na transversal."

"O porteiro viu vocês subirem—"

"A Kênia cuidou disso." Ele falou como se fosse simples. Como se a Kênia cuidar do porteiro fosse coisa que acontecia todo dia. "Agora atende a porta. E atua."

Eles saíram. A porta de serviço fechou sem barulho. O trinco virou.

Fui até a porta social. Olhei pelo olho mágico.

César. Terno amassado, gravata frouxa. Mala de mão. O rosto preocupado do homem bom.

Abri.

***

"Amor?"

A voz dele — preocupada, gentil, completamente alheia — me partiu ao meio de um jeito que a brutalidade do Wesley não tinha conseguido.

"César..." Minha voz saiu rouca. Perfeita. Parecia quem acordou de um sono pesado.

"Desculpa te assustar assim." Ele entrou, me abraçou. O cheiro de avião, de ar condicionado, de perfume importado me envolveu. O oposto do cheiro de suor azedo que ainda vivia nas minhas narinas.

"Cancelaram o seminário de última hora", ele disse contra meu cabelo. "Confusão com os palestrantes. Peguei o primeiro voo disponível."

Ele se afastou, me segurou pelos ombros, me examinou.

Os olhos dele desceram pro meu pescoço. Pararam.

Vi a pupila dilatar. A expressão mudar levemente.

"O que é isso, Marina?" Os dedos dele tocaram a marca, de leve.

"Isso o quê?" Fingi confusão, levando a mão ao pescoço.

"Essa marca. Parece..." Ele pausou, franzindo. "Parece que alguém apertou."

O tempo parou. "Ah, isso?" Soltei uma risada nervosa. "Foi a bucha vegetal nova que comprei. Esfreguei forte demais no banho, irritou a pele. Sou tão desastrada."

Ridícula. A mentira era fraca e cheia de furos.

Mas o César não era um homem que procurava traição. Era um homem que procurava bondade.

"Nossa, amor. Tem que tomar cuidado." Ele beijou minha testa. "Vem deitar. Tô destruído."

No quarto, ele tirou o terno e deitou. Me chamou.

Deitei.

O cheiro ainda estava lá. Fraco, mas presente. Sexo. Suor masculino. Wesley.

César se aninhou em mim de conchinha. O braço dele passou pela minha cintura. A mão desceu.

Encontrou a umidade.

Não a umidade de desejo. A umidade excessiva, viscosa, transbordando.

Ele parou um segundo.

"Nossa", ele disse, surpreso, rouco. "Você tá muito..."

"Tive um sonho erótico", menti, rápida. "Com você. Antes de você chegar."

O ego dele inflamou. Ele não questionou. Entrou em mim.

Deslizou fácil. Sem resistência. Na porra dos outros.

Gozou rápido. Dormiu.

Fui pro banheiro, sentei no vaso, e deixei tudo sair.

Quando voltei, o celular tremia com uma mensagem de número desconhecido.

*"A gente viu a luz apagar. Boa noite, patroa. O porteiro do turno da manhã é primo da Kênia. Tá tudo dominado. Amanhã a gente volta pra buscar o que esqueceu."*

Jonathan.

Eles não iam embora.

***

### Domingo: O Almoço

César acordou querendo feijoada.

Eu acordei querendo fugir pra outro país.

Ele ligou pros meninos. Convidou todos. Pra almoçar. Na minha sala.

Davi, Jonathan e Wesley chegaram ao meio-dia.

César abraçou cada um na porta como um pai. *"Meus meninos!"*

Eles entraram. Os três.

Davi me beijou no rosto no cumprimento. A boca dele ficou perto da minha orelha. *"O lenço tá perfeito, patroa. Cobre bem a arte do moleque."* A voz num sussurro quente. Cheirava ao mesmo desodorante de coco de ontem.

Wesley não me olhou. Ficou perto da janela, quieto, olhando pro parque lá embaixo. De calça jeans e moletom escuro, de costas pra mim. Quando César virou pra pegar bebida, Wesley se virou e olhou pro espaço entre as minhas pernas. Lento. Pesado. Depois fechou os olhos e os abriu de novo, como se saboreasse uma memória.

Jonathan foi direto sentar à mesa.

Servimos a feijoada. César contava do seminário cancelado, das histórias do projeto, dos planos pra reforma do galpão. Os meninos comiam, riam, ouviam, perfeitos.

Debaixo da mesa, o jogo começou quando o César se levantou pra pegar mais farofa na cozinha.

Foi Davi quem se moveu primeiro.

A perna dele cruzou por baixo da toalha, o pé descalço — ele tinha tirado o tênis sem eu perceber — subiu pela minha panturrilha com uma calma calculada. Roçou no joelho. Subiu devagar pela coxa, por dentro da calça de alfaiataria cinza que eu tinha colocado de propósito, caindo e discreta, precisamente para não provocar. Não adiantou.

O pé do Davi chegou na minha virilha. Pressionou com a planta inteira, a força exata de quem sabe a anatomia que está apertando.

Engoli o ar.

"Tudo bem?", Jonathan perguntou, olhando pro meu prato.

"Tudo", respondi, a voz saindo fina.

César voltou com a farofa. Sentou. O pé não saiu.

Fiquei imóvel, a colher na mão, comendo mecanicamente, enquanto o pé do Davi se movia em círculos, devagar, provocando. A pressão através do tecido da calça era uma tortura. Eu estava machucada lá dentro, ainda inchada da noite anterior, e a pressão doía e excitava ao mesmo tempo, uma mistura perversa que fazia minha visão flutuar.

César falou sobre a captação de recursos do projeto. Jonathan respondeu sobre as dificuldades estruturais do galpão. Wesley comeu em silêncio, os olhos sempre no prato. O pé do Davi apertou mais forte, e eu medi a pressão dos meus dedos ao redor da colher pra não fazer nenhum som.

"Marina, você tá quieta", César observou.

"Cansada ainda", disse. "Não dormi bem."

Jonathan me olhou. A comissura da boca dele moveu levemente. Não foi sorriso. Foi constatação.

O pé do Davi ficou completamente imóvel por um segundo — e então fez um movimento único, rápido, com os dedos, que me fez contrair involuntariamente e morder o interior da bochecha pra não fazer som. Os olhos encheram de lágrima.

"Você precisa descansar mais, amor", César disse, amoroso, sem perceber nada.

"Preciso, é."

***

Foi depois da sobremesa que a coisa ficou pesada de verdade.

César anunciou que ia descer pra garagem verificar o carro — um problema no farol que tinha esquecido de resolver. "Cinco minutinhos, gente. Se servirem mais café, me guardem uma xícara."

A porta do elevador fechou.

O apartamento ficou em silêncio por exatamente três segundos.

Então Davi se levantou, pegou a mesa pelo lado, empurrou pra lá, e eu não tive nem tempo de processar — ele me puxou da cadeira com as duas mãos, me levantou pelo braço e me prensou contra a parede da sala, entre o aparador e a janela que dava pra rua, exatamente onde eu ficava invisível de qualquer ângulo externo mas completamente exposta pra eles.

"Cinco minutos", ele disse. A voz grave, sem brincadeira. Ele não estava jogando mais. "A gente não desperdiça."

"Davi, não—"

A mão dele foi direto pra cintura da calça. Abriu o botão com um estalo seco. O zíper em seguida.

"Fica quieta", ele disse. Não ameaçando. Só afirmando um fato. "Você vai ficar quieta porque você não quer que o César suba e te veja com a calça na canela."

A calça de alfaiataria foi pro chão.

Eu estava de costas pra parede, de frente pra janela que mostrava São Paulo lá fora — o domingo branco, as pessoas no parque, a cidade completamente alheia. Jonathan estava sentado à mesa ainda, a xícara de café na mão, me observando com aquela frieza clínica de sempre. Wesley tinha ficado na cadeira, os braços cruzados, os olhos fixos em mim com uma expressão que eu não sabia decodificar.

Davi ficou de joelhos na minha frente. Sem cerimônia, sem construção, sem pedir licença — ele puxou minha calcinha pra baixo, deixou no joelho, e colocou a boca em mim.

O som que saiu da minha garganta foi abafado pela minha própria mão na boca, esmagando o gemido antes de existir. Estava machucada lá dentro, ainda sensível da brutalidade do Wesley, e a língua do Davi encontrou isso e trabalhou em cima exatamente. Não foi delicado. Foi preciso e proposital e completamente sem piedade, a língua em círculos no grelo, os lábios sugando, os dentes roçando quando ele queria me fazer tremer.

*"Mmmfff—"* O som escapou entre os dedos.

Jonathan pousou a xícara de café. Olhou pro relógio.

"Três minutos", ele disse, seco.

Davi não aumentou o ritmo. Não era sobre me fazer gozar rápido. Era sobre me manter no limiar, no fio da navalha, na zona onde qualquer ruído involuntário podia acontecer. Ele me mantinha num estado de tremor controlado com uma habilidade técnica que não tinha nada de improviso — era de quem conhecia corpo de mulher o suficiente pra saber exatamente até onde empurrar sem deixar cair.

Eu estava de costas na parede, os joelhos dobrados levemente, as unhas arranhando o papel de parede importado do César enquanto tentava não desfazer. Os olhos fechados. Minha mente dividida entre o prazer que subia e o terror de escutar o elevador voltar.

"Dois minutos", Jonathan disse.

Davi se levantou devagar, limpou a boca na manga da camisa, me olhou de baixo pra cima.

"Tá bonita assim", ele disse. "Com a calça na canela e a cara de quem vai ser pega."

Puxou minha calcinha de volta, ajeitou o elástico com calma, pegou a calça do chão e me ajudou a vestir — o mesmo homem que tinha me humilhado na piscina, que tinha me usado com brutalidade, que tinha rido de mim na cama com o Wesley, me ajudava a me vestir como um namorado preocupado, e aquela contradição me partia ao meio.

Abotoou a calça. Fechou o zíper.

"Se senta", ele disse.

Me sentei.

"Um minuto", Jonathan avisou.

O elevador subiu.

Quando César entrou, Davi estava servindo mais café e eu estava com a xícara nos lábios, o olhar perdido na janela, as coxas tremendo que nem folha.

"O farol era só a lâmpada frouxa, rapidinho", César anunciou, animado. "Todo mundo quer mais café? Wesley, você tá bem?"

Wesley levantou os olhos do prato.

"Tô, professor."

***

### A Foto e o Fim do Almoço

A tarde foi virando lentamente, como veneno de ação lenta.

Quando eles foram embora, César os acompanhou até o elevador. Fiquei recolhendo a mesa. Os pratos ainda cheiravam a domingo normal, a família, a vida que eu estava destruindo em câmera lenta.

Meu celular vibrou.

Número desconhecido. Foto.

Abri.

A imagem era granulada, tirada no escuro com câmera de péssima qualidade, mas nítida o suficiente. Eu na cama, de quatro, o Wesley atrás, os olhos fechados, a boca aberta. A marca dos dedos dele no meu pescoço visível.

A legenda:

*"O álbum completo tá salvo em três nuvens diferentes. Se não aparecer no galpão amanhã às 14h, o César recebe o link com geolocação do apartamento na hora do envio. Vem com o vestido branco. Sem calcinha."*

Apaguei a mensagem. Apaguei a foto. Limpei o histórico.

Mas não dava apagar o fato.

Alguém tinha estado no apartamento enquanto a gente transava. Com uma câmera. Gravando.

E eu tinha ido dormir acreditando que tinha escapado.

Jonathan voltou. Entrou de novo. "Esqueci o celular."

Não tinha esquecido celular nenhum. Veio me avisar pessoalmente que a mensagem tinha chegado.

"Quem bateu essas fotos?", perguntei, controlando a voz.

"Ninguém que você conheça", ele disse.

"Jonathan." Meu tom endurece. "Quem estava no meu apartamento com câmera?"

Ele ficou me olhando por um segundo. Por um segundo apenas, eu vi alguma coisa passar nos olhos pretos dele. Não foi culpa. Foi cálculo. A expressão de alguém decidindo quanto de verdade é estrategicamente útil revelar.

"A Kênia não ligou do lado de fora do prédio", ele disse, por fim. A voz baixa, controlada. "Ela ligou do quarto de hóspedes."

O chão sumiu.

"Ela estava aqui?"

"Ela entrou antes de vocês subirem da piscina. Pelo serviço. Eu deixei a chave pra ela." Uma pausa. "Ela não participou de nada. Ficou no quarto com o celular apontado. Só registrou."

"Você planejou isso?", sussurrei, a incredulidade me engasgando. "Desde o começo você planejou?"

Jonathan não respondeu.

Não precisou.

O sorriso que apareceu no canto da boca dele era de quem ganha partidas que começaram muito antes do adversário saber que estava jogando.

"Amanhã, 14h", ele disse. "Vestido branco. Sem calcinha."

***

### Segunda-Feira: O Galpão

Fui.

Claro que fui.

Claro que vesti o vestido branco — aquele de linho, sem bojo, sem alça, aquele que o César tinha dado de presente no aniversário passado. Sem calcinha, como ordenado.

O galpão ficava no Brás, fundo de uma rua onde os caminhões de descarga bloqueavam o trânsito toda manhã. Uma construção de tijolo aparente, telhado de metal ondulado, altos vigamentos de aço enferrujado no teto. O cheiro de São Paulo bruto — escapamento, poeira, frango assado na barraca da esquina — invadindo cada fresta.

Cheguei às 14h02 no Uber.

A rua estava quieta.

Entrei pela porta lateral de ferro que chiou nos gonzos.

O galpão estava semiescuro. As janelas altas deixavam entrar lâminas de luz branca que cortavam o ar empoeirado em diagonais. Beliche nas laterais. Um cheiro de mofo novo misturado com desodorante masculino e esse cheiro específico de lugar onde pessoas jovens vivem em grupo — suor, macarrão instantâneo, sabão em pó de plástico roxo.

"Fecha a porta."

Jonathan. Sentado num caixote virado, os braços apoiados nos joelhos, os olhos em mim desde que eu entrei.

Fechei.

Olhei ao redor. Davi estava encostado na parede do fundo, os braços cruzados, uma expressão estranha no rosto — não o sorriso de lobo de sempre. Algo mais fundo, mais quieto. Wesley não estava.

"Cadê o Wesley?", perguntei.

"Chegou antes", Jonathan disse. E nada mais.

Eu não gostei daquilo. Daquele "chegou antes" sem endereço, sem contexto.

"Tira os sapatos", Jonathan mandou.

Tirei. O chão de cimento áspero frio sob os meus pés descalços.

"Vem aqui."

Fui.

Ele me fez ficar parada no centro do galpão, na lâmina larga de luz que caía pela janela mais alta. O vestido branco de linho, fino o suficiente pra contraluz mostrar a silhueta, deixava quase tudo visível naquela luz específica.

Jonathan ficou me analisando. Davi ficou quieto na parede.

"Levanta o vestido", Jonathan disse.

"Jonathan—"

"Levanta."

Levantei devagar, a barra do linho subindo pela minha coxa, passando pelo quadril. Parando na cintura.

Ele olhou por um segundo — confirmando que a instrução tinha sido obedecida. Fez um gesto de queixo. Abaixei de volta.

"Vem."

Me levou até o fundo do galpão, passando pelos beliches enfileirados. No beliche do canto — o mais afastado da porta, o mais escuro — ele parou e se virou.

"Deita."

"Davi vai ficar olhando?", perguntei.

"O Davi não tá aqui por causa de você", Jonathan respondeu, e havia algo nessa frase que soou errado, que soou maior do que o contexto, mas eu não consegui decodificar por quê na hora.

Deitei no beliche.

O colchão fino afundou. Cheirava a detergente e a Wesley — aquele cheiro específico de corpo jovem que eu tinha catalogado sem querer.

Jonathan ficou de pé ao lado do beliche. Ele não se deitou. Ficou olhando pra mim lá de cima, os olhos pretos calculando.

"Abre as pernas", ele disse.

Abri.

E então ele fez algo que eu não esperava.

Não veio pra cima de mim.

Ficou parado, de pé, me olhando.

Tirou o celular do bolso. Abriu a câmera.

"Não", eu disse imediatamente, sentando.

"Fica deitada."

"Você não vai me filmar de novo. Não vou deixar—"

"Eu não vou te filmar." Ele girou o celular pra mim. Na tela, estava uma chamada de vídeo aberta — e do outro lado, uma imagem granulada, escura, trêmula. Levou um segundo pra eu entender o que estava vendo.

Era um corredor. Iluminado por luz fluorescente fraca. Azulejo branco nas paredes. Uma câmera filmando uma porta de madeira.

"O que é isso?", perguntei.

"É o corredor do apartamento de vocês", Jonathan disse. Pausou. "Câmera instalada no interruptor falso, semana passada. Enquanto o César deixava eu usar o banheiro."

O horror foi físico. Uma náusea real, subindo do estômago.

"Você não..." Não consegui terminar.

"Tá, eu filmei. Tá gravado. Tá na nuvem." Ele guardou o celular. "E a câmera ainda tá lá. Ativa. Mas não é pra te controlar, Marina."

"Então pra quê?"

Ele ficou me olhando por um longo segundo.

"Tem gente interessada no César que não tem nada a ver com o projeto social dele."

Aquilo não fez sentido. E fez todo sentido. E eu não quis entender.

"Deita de volta", ele disse.

Deitei.

E dessa vez, ele veio.

***

O que Jonathan fez naquele beliche não foi o que o Davi fez, não foi o que o Wesley fez. O Davi tinha feito com certeza de animal. O Wesley tinha feito com ódio de apaixonado. Jonathan fez com intenção fria, técnica e absoluta — como um cirurgião que não se permite sentir o paciente, só o resultado.

Ele levantou meu vestido até a cintura, sem tirar. Ficou de pé ao lado do beliche, abriu a calça, abaixou o suficiente. E entrou em mim em pé, inclinado, o ângulo estranho que forçava uma pressão específica lá dentro que eu não conseguia descrever anatomicamente mas sentia nos rins.

Não fez barulho. Não dizia palavras sujas. Não me chamava de nada. Era silêncio absoluto exceto pelo som dos nossos corpos e pelo rangido lento do beliche de metal enferrujado. *Rangg. Rangg. Rangg.* Rítmico como um relógio.

Eu tentei fechar os olhos mas ele disse, baixo: "Olha pra mim."

Olhei.

Aqueles olhos pretos não me devolveram nada que eu esperava encontrar — nem tesão, nem crueldade, nem poder. Me devolveram atenção pura. Como quem estuda alguma coisa que precisa entender antes de usar.

"Por que o César não foi pro seminário?", perguntei, de repente, sem calcular.

Ele continuou se movendo. Não mudou o ritmo. Não mudou a expressão.

"Porque ele foi avisado que a viagem seria perigosa."

"Avisado por quem?"

"Dorme."

"Jonathan—"

"Você não quer saber isso agora." Ele aprofundou, uma estocada mais lenta e mais funda, me fazendo perder o fio do raciocínio por um segundo. "Depois."

A humilhação daquela cena era de uma ordem diferente das anteriores — não era a brutalidade explícita do Wesley, não era o deboche do Davi. Era a humilhação de ser tratada como variável secundária em algo que eu não compreendia, de ser usada com frieza clínica enquanto carregava perguntas que ele se recusava a responder.

Do fundo do galpão, Davi se moveu. Ouvi os passos dele no cimento. Parou a uns três metros.

Jonathan não parou.

"Jhow", Davi disse. A voz baixa. Um tom que eu nunca tinha ouvido nele. Algo entre urgência e cautela. "Teve um problema."

Jonathan parou. Saiu de dentro de mim. Ajeitou a roupa num movimento só.

"Que problema?"

Davi olhou pra mim rapidamente. Depois de volta pro Jonathan.

"O Wesley não chegou antes, Jhow."

Silêncio.

"Ele não chegou antes", Jonathan repetiu, plano.

"Ninguém sabe onde ele tá desde ontem à noite." Davi passou a mão no rosto, e pela primeira vez desde que eu conhecia esse homem, vi alguma coisa que parecia medo na expressão dele. "O primo da Kênia ligou. Falou que viu ele saindo do prédio de vocês depois de meia-noite, pela entrada de serviço. Câmera de segurança flagrou ele virando na rua de baixo." Uma pausa. "Depois não tem mais imagem."

O ar no galpão ficou diferente.

"O celular dele?" Jonathan perguntou, a voz absolutamente controlada.

"Desligado desde as 00h47."

Jonathan ficou parado por um tempo que não foi longo mas pareceu. Então se virou pra mim.

"Você pode ir."

"Jonathan—"

"Marina." A voz veio com uma firmeza que não aceitava réplica. "Vai embora. Chama o Uber agora. Vai direto pra casa. Não fala com ninguém."

"O Wesley tá bem?", perguntei, levantando do beliche.

Nenhum dos dois respondeu.

E foi nesse silêncio que eu entendi que a resposta, fosse ela qual fosse, não era boa.

***

### Terça-Feira: A Notícia

Li no G1 às 11h da manhã seguinte.

*"Jovem encontrado inconsciente às margens do Tamanduateí na madrugada de segunda-feira. Sem documentos. Suspeita de afogamento."*

A foto era borrada, tirada de longe por um transeunte que postou antes da PM isolar o local. Mas eu reconheci o moletom cinza lavado. O tênis Nike branco com a sola separando no dedão.

Meu telefone escorregou da minha mão.

César estava do meu lado, no sofá, lendo o jornal dele.

"Que foi, amor?"

"Nada", consegui dizer. "Me assustei com uma barata."

Fui pro banheiro.

Sentei no chão de mármore frio, os joelhos no peito.

*"Inconsciente."* Não morto. Inconsciente. Mas às margens do Tamanduateí. A centenas de metros do galpão. Numa área que não tinha motivo nenhum pra Wesley estar.

Três perguntas giravam:

Quem levou ele até lá.

Por quê.

E por que Jonathan não tinha parecido surpreso quando Davi deu a notícia. Tinha parecido, se eu fosse honesta comigo mesma, quase confirmado.

Meu celular vibrou.

Jonathan. Uma mensagem de texto.

*"Afogamento acidental. Escorregou no barranco tentando um atalho pra casa. Tá estável. Não vai falar com ninguém sobre nada. Vai entender o motivo de ficar calado."*

Então uma segunda mensagem, dez segundos depois:

*"A câmera no corredor de vocês captou uma coisa ontem às 22h. O César saiu do apartamento sem você perceber e ficou quarenta minutos na garagem sozinho. Você vai querer saber com quem ele estava no telefone."*

E uma terceira, imediata:

*"Ainda não te mostro. Mas você vai precisar de mim em breve, Marina. Por razão diferente do que você pensa."*

Olhei pra porta fechada do banheiro.

Do outro lado, ouvi o som da TV, a voz do César rindo de algum programa de domingo.

O marido bom. O santo do projeto. O homem que todo mundo amava.

O homem que tinha ficado quarenta minutos sozinho na garagem falando com alguém às 22h.

Botei o celular no bolso e enxaguei o rosto.

Quando abri a porta do banheiro, César estava sorrindo.

"Quer almoçar fora hoje, amor?"

Sorri de volta. Perfeita.

"Quer sim."

***

*Fim da Parte 4*

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Foto de perfil de contradio contradio Contos: 149Seguidores: 229Seguindo: 18Mensagem Sou só um cara comum que escreve contos eróticos por hobby, nos intervalos entre o trabalho de verdade e a vida real. Não sou nenhum daqueles ‘grandes autores’ que se acham donos da sabedoria universal, corrigindo o mundo com lições de vida disfarçadas de sacanagem repetida até enjoar. Escrevo porque gosto do tesão de imaginar cenas quentes, de brincar com palavras que fazem o sangue ferver, sem pretensão de mudar o mundo ou salvar o gênero. Meus textos são o que são: diversão crua, sem aula moral no final, sem aquela pose de quem descobriu a fórmula mágica do prazer e agora desce do pedestal pra ensinar os mortais equivocados. Leio, gozo, escrevo, rio — e pronto. Se alguém curte, ótimo. Se não, vida que segue. Só um amador feliz da vida, sem ego inflado.

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