Entrei no Uber ainda com o corpo quente do dia, mas a cabeça já começava a esfriar. Encostei a cabeça no banco e deixei o carro seguir, observando as luzes da cidade passarem pelos vidros como se não me pertencessem mais. Era sempre assim depois de dias intensos: o silêncio vinha cobrar seu espaço.
Peguei o celular. As notificações estavam ali, acumuladas, esperando por mim.
A primeira que abri foi do Arthur.
— Tô louco pra te ver de novo. Pra gente se encontrar.
— Mas no seu tempo, tá?
— Do jeito que tá minha perna, dificulta algumas coisas.Vou ficar esses dias todos trabalhando de casa. Se você se animar de passar aqui, eu vou ficar muito feliz.
No final, emojis — olhos com coração, beijo. Sorri de leve. Não era incômodo. Era carinho. Mas naquele momento, eu não tinha espaço emocional pra responder de imediato.
Rolei a tela e vi as mensagens do Arthuro.
— Cadê você, cara?
— Porra, não acredito que você não vai me responder.
Logo depois:
— Caralho, você sumiu?!
E, em seguida, um áudio. Coloquei o fone e dei play.
— Porra, Bernardo… você sumiu esse tempo todo? — ele dizia, meio rindo, meio sério. — Eu queria falar contigo. Você deve estar com o safado do Yan, né? Mas tudo bem. Quando você tiver tempo, a gente fala. Um abraço. Se cuida aí.
Não consegui evitar a risada.
— Esses irmãos… — murmurei, sozinho dentro do carro.
Respirei fundo antes de responder. Para o Arthuro, escrevi:
— Calma. Ansiedade não ajuda ninguém.
— A gente conversa depois, com calma.
Boa noite.
Depois voltei para o Arthur.
Minha rotina semanal vai começar agora.
Tenho muita coisa pra resolver e você sabe como minhas aulas são caóticas.
Vai ficar praticamente impossível da gente se ver durante a semana.
Talvez na quinta-feira à tarde eu não dê aula.
Se rolar, passo aí.
Enviei e encostei o celular na perna, deixando o tempo passar.
Alguns minutos depois, a resposta veio.
— Por mim tá fechado. Quando você puder vir, você vem. Eu te espero. Boa noite.
Respondi com um joinha, escrevi mais um boa noite e guardei o celular. O Uber seguiu pelas ruas quase vazias, e eu fiquei ali, olhando pra frente, tentando entender como tudo tinha se embaralhado tão rápido — e, ainda assim, fazia sentido.
Quando cheguei em casa, a televisão estava ligada. Meus pais estavam na sala.
— Demorou, filho — meu pai comentou, olhando pra mim. — Achei que você ia chegar mais cedo. A gente acabou jantando.
— Tudo bem, pai — respondi, me aproximando pra abraçá-lo. — Boa noite.
Cumprimentei minha mãe com um beijo no rosto.
— Tô cansado — falei. — Sol, praia… tudo junto.
— Você ama a praia, né? — ela disse, sorrindo.
— Amo — concordei. — Vou arrumar minhas coisas porque amanhã acordo cedo pra dar aula. Preciso descansar.
— Agora vem responsabilidade a mais — ela comentou.
Pensei por alguns segundos antes de responder.
— Ainda não sei se é mais uma ou se vai ser a principal — falei com sinceridade. — Tô organizando isso na cabeça. Vou conversar com o setor acadêmico da escola e ver como ajustar minha rotina.
Meu pai assentiu.
— Faça a escolha que fizer sentido pra você. Nosso apoio você já tem.
— Obrigado. Boa noite, mãe. Boa noite, pai. Amo vocês.
Subi pro quarto com o corpo pesado, mas a mente ainda desperta. Antes de me trocar, peguei o celular mais uma vez e abri a conversa com o Yan.
Cheguei bem.
Obrigado pelo dia.
Foi tudo muito bom.
A resposta veio rápido.
Que bom saber.
Eu gostei de tudo também.
Quero te ver mais vezes.
Me manda aquela foto da praia?
Enviei a foto.
Perfeita.
Boa noite.
Descansa bem.
Beijo.
Deixei o celular na mesa de cabeceira e me deitei. O quarto parecia silencioso demais depois de um dia tão cheio. Fechei os olhos com a sensação incômoda — e ao mesmo tempo inevitável — de que algo estava mudando.
Horas depois, o despertador tocou cedo. Levantei ainda meio grogue, tomei um banho rápido, me vesti no automático. Enquanto ajustava a camisa, a cabeça já estava no dia que começava: alunos, corredores, salas, e a conversa que eu precisava ter com o diretor acadêmico.
Respirei fundo diante do espelho.
Era hora de reorganizar a vida. Por dentro e por fora.
Saí de casa ainda com o dia meio indeciso. O céu estava claro, mas o ar carregava aquele cansaço típico de começo de semana. Mochila nas costas, celular na mão, fone pendurado no pescoço sem música alguma tocando. Eu gostava de sentir o barulho da cidade acordando — ônibus passando, gente apressada, passos apressados demais pra um horário tão cedo.
Peguei o transporte público sem pensar muito. Já conhecia aquele trajeto de cor. A escola não era longe, mas o suficiente pra eu organizar a cabeça antes de entrar em sala de aula. Desci um ponto antes, como sempre fazia quando queria um café decente.
A cafeteria ficava na esquina, pequena, com cheiro constante de grãos moídos e pão quente. Entrei, pedi um café forte pra viagem — daqueles que mais acordam do que agradam — e fiquei encostado no balcão esperando, mexendo no celular.
Tinha mensagem do Arthuro.
— Você vai estar livre no horário do almoço?
Suspirei antes de responder. Digitei com calma:
Hoje acho difícil.
Meu almoço vai ser pra resolver umas coisas da vida.
Vou ficar totalmente à mercê do colégio.
Durante a semana fica meio apertado.
Mas talvez na quarta a gente consiga conversar no horário que eu costumo treinar. Vou estar na academia onde você trabalha.
A resposta veio rápida.
É que eu não queria conversar na academia…
— Sorri de canto.
Beleza então.
A gente se organiza direitinho.
Uma hora a gente se fala com calma.
Guardei o celular no bolso quando chamaram meu pedido. Peguei o copo quente, senti o cheiro subir, dei o primeiro gole ainda andando. Antes de seguir pra escola, mandei uma mensagem curta pro Yan.
Bom dia.
Boa semana pra você.
Nada demais. Simples. Do jeito que eu estava.
Cheguei à escola alguns minutos depois. O portão já estava aberto, alunos entrando aos poucos, aquele barulho característico de início de aula: risadas altas, passos correndo, professores cumprimentando uns aos outros com café na mão.
Passei pela sala dos professores, cumprimentei alguns colegas, comentários rápidos, coisas banais. Perguntei, quase por reflexo, se o Jonas já tinha chegado.
— Hoje ele chega só às nove — uma professora comentou.
Assenti com a cabeça. Peguei o celular e procurei o contato dele. Digitei:
Oi, Jonas. Bom dia, tudo bem?
Tô precisando conversar com você.
Hoje meus horários estão cheios.
Será que a gente consegue almoçar juntos pra falar sobre alguns assuntos acadêmicos?
É algo que preciso resolver com uma certa urgência.
Se não der hoje, a gente vê outro momento.
Bom dia, fico no aguardo.
Pouco depois, veio um áudio.
— E aí, Bernardo, bom dia. Tudo bem? — a voz dele era firme, calma. — Hoje eu tô mais tranquilo. Resolvi a maioria das demandas na segunda.
— A gente pode almoçar naquele restaurante perto do colégio, onde costumamos fazer as reuniões.
— Meio-dia tá ótimo.
Respondi confirmando e guardei o celular. Era isso. Pelo menos uma coisa já estava encaminhada.
Fui pra sala de aula. Português, oitavo ano. Texto, interpretação, construção de sentido. Falei, escrevi no quadro, circulei entre as carteiras. A manhã passou rápido. Quase não toquei no celular. Minha cabeça estava ali, no trabalho, nos alunos, nas perguntas que surgiam e nas respostas que eu dava quase no automático.
Quando deu por volta das dez e meia, horário do intervalo, voltei pra sala dos professores. Foi ali que vi o Jonas.
Ele estava encostado numa das mesas, conversando com outro professor. Era impossível não reparar. Jonas tinha um jeito que misturava seriedade e presença. Não era muito alto, estatura mediana, mas o corpo denunciava disciplina: ombros largos, postura firme, braços preenchendo a camisa social de forma discreta, mas evidente. As roupas mais formais escondiam parte do que ele carregava ali, mas não tudo.
O rosto era marcado, barba sempre feita de propósito, dando aquele ar de homem mais velho, embora tivesse só trinta e poucos anos. O cabelo preto, cortado e bem alinhado, reforçava ainda mais a imagem de alguém que sabia exatamente onde estava e o que fazia. Moreno, olhar atento, expressão séria — mas eu sabia que, fora daquele ambiente, ele tinha um sorriso fácil, quase contagiante.
— Bernardo — ele me chamou quando me viu. — Bom dia.
— Bom dia, Jonas — respondi, me aproximando.
Ele apertou minha mão com firmeza.
— Então, meio-dia tá de pé — ele disse. — Tudo certo?
— Certíssimo — respondi. — Obrigado por conseguir encaixar.
Ele me olhou por um segundo a mais do que o necessário.
— Quer adiantar alguma coisa agora? — perguntou, em tom baixo. — É algo muito grave?
Balancei a cabeça.
— Não é grave — falei. — Mas é algo que eu prefiro conversar só nós dois, com mais calma.
Ele assentiu, compreensivo.
— Perfeito então. A gente fala no almoço.
— Combinado.
Troquei mais algumas palavras rápidas com ele, coisas protocolares, e logo voltei pra sala de aula. Enquanto caminhava pelo corredor, senti aquele peso familiar de quem sabe que uma conversa importante se aproxima.
As horas da manhã passaram rápido demais. Entre uma turma e outra, explicações no quadro, leituras em voz alta e pequenas correções, eu mal tive tempo de pensar em qualquer coisa que não fosse trabalho. Estava concentrado, focado, quase automático.
Foi no meio de uma explicação que senti o celular vibrar no bolso da calça.
Ignorei de primeira. Continuei falando, finalizei o raciocínio, passei um exercício e só então, enquanto os alunos copiavam, me permiti puxar o aparelho discretamente.
Era o Yan.
A mensagem era simples:
Ótimo dia de trabalho pra você.
Logo abaixo, uma notificação de imagem de visualização única.
Abri.
Era ele, no box de crossfit. O corpo ainda marcado pelo treino, a pele levemente brilhando de suor, a camiseta levantada de forma quase distraída, revelando parte do abdômen cansado, forte, vivo. Ele sorria daquele jeito fácil, meio provocador sem esforço, com um semblante de quem tinha acabado de se exigir ao máximo e estava satisfeito com isso.
Ele fez um gesto rápido com a mão, algo entre um aceno e um sinal de “tô bem”, quase uma brincadeira silenciosa comigo.
Fechei a imagem com um meio sorriso involuntário. Digitei de volta, curto, direto:
Tá tudo bem por aqui.
Cansado, mas vivo.
A resposta veio rápida:
Isso já é vitória.
Se cuida 😘
Guardei o celular e voltei totalmente pra aula. O resto da manhã passou sem novas interrupções. Quando me dei conta, já no fim do primeiro turno perto do horario do almoço.
segui até a saída da escola. Jonas já me aguardava do lado de fora.
— Vamos? — ele perguntou.
— Vamos.
Seguimos juntos pela rua curta ao lado da escola, em direção ao restaurante onde costumávamos marcar reuniões mais longas. O lugar era simples, mas bem cuidado, com cardápio equilibrado e ambiente tranquilo.
Escolhemos uma mesa próxima à janela. O prato do dia era uma jardineira com carne vermelha assada, arroz e brócolis. Pedi o mesmo que ele.
Enquanto esperávamos a comida, Jonas apoiou os antebraços na mesa e me olhou com atenção.
— Então — disse ele —, sobre o que você queria conversar?
Respirei fundo. Decidi não rodear.
— Jonas, eu vou ser direto — comecei. — Primeiro, queria te dar uma boa notícia. Fui aprovado em um concurso público.
Ele parou por um segundo. Os olhos se abriram um pouco mais.
— Sério? — disse, genuinamente surpreso. — Bernardo, parabéns.
— Obrigado.
Ele fez um pequeno gesto com a cabeça, como quem já começa a calcular consequências.
— E… como isso fica? — perguntou.
Inclinei levemente o corpo para frente.
— É exatamente isso que eu queria conversar com você — respondi. — Por causa dessa aprovação.
Ele soltou um riso curto, recostando-se na cadeira.
— Não vai me dizer que você vai desfalcar meu quadro de professores assim, do nada, né? — brincou.
Havia humor, mas também atenção no olhar.
— Ainda não — respondi. — Não é essa a ideia. Mas a gente precisa pensar em ajustes. Horários. Possibilidades. Pra que eu consiga continuar aqui sem comprometer nenhum dos lados.
Ele respirou fundo, teatralmente.
— Ufa — disse. — Já tava me preparando psicologicamente.
Rimos.
A comida chegou pouco depois. O cheiro da carne assada misturado ao alho suave do brócolis subiu imediatamente, quebrando o clima mais denso da conversa por alguns segundos. O prato era simples, mas bem montado: arroz soltinho, a jardineira colorida, legumes firmes, a carne no ponto certo. Aquela ideia de alimentação equilibrada, funcional, quase disciplinada — algo que combinava muito mais com aquele momento do que qualquer exagero.
Jonas ajeitou o guardanapo no colo, com um gesto calmo, quase cerimonial. Eu fiz o mesmo. Começamos a comer em silêncio por alguns instantes, mastigando devagar, como se ambos soubéssemos que a conversa ainda não tinha terminado — ela só precisava de um fôlego.
— Então — ele retomou, depois de um gole de água —, me explica melhor como você imagina essa transição.
Apoiei o garfo no prato e organizei o pensamento.
— Hoje, minha jornada aqui é mais extensa — comecei. — Eu trabalho nos dois turnos. De manhã e à tarde. No fundamental II, eu fico com língua portuguesa e francês. Já no ensino médio, eu atuo apenas com língua portuguesa e literatura.
Ele assentiu, atento.
— E, com a aprovação no concurso — continuei, minha ideia inicial é tentar encaixar os horários. Pelo menos nesse primeiro momento. Ver como fica o quadro da escola pública, antes de tomar qualquer decisão mais definitiva.
Jonas cruzou as mãos sobre a mesa.
— Você já tem alguma noção do seu quadro lá?
Balancei a cabeça negativamente.
— Ainda não. Só vou ter essa visão completa quando for nomeado de fato. E isso deve acontecer na próxima semana. Até lá, tudo é previsão. Mas acredito que, com apoio, a gente consegue pensar em alternativas.
Ele me observava com atenção real, sem distração. Aquilo sempre me chamou atenção nele: quando Jonas escutava, ele escutava de verdade.
— A gente tem, mais ou menos, alguns dias dessa semana pra se organizar — disse ele. — Dá pra pensar em contramedidas.
Ele fez uma pausa curta, como quem escolhe as palavras.
— Pensando na sua formação… você é de língua portuguesa e literatura. Exatamente a mesma formação que a minha.
Sorri de canto.
— Com a diferença de que eu ainda trago o francês.
— Exato — ele concordou. — Eu não tenho formação em francês. Apenas Inglês no meu caso.
Ele levou o garfo à boca, mastigou, e então disse, quase com naturalidade demais:
— Então, caso você precise, nesse primeiro momento, eu posso assumir algumas turmas suas. Pontualmente. Até você conseguir se organizar melhor.
Levantei o olhar para ele.
— Isso seria… perfeito — respondi, sincero. — De verdade. Facilitaria muito.
Ele sorriu de leve, satisfeito.
— Mas eu pensei também em algo mais específico — acrescentei. — Nesse primeiro momento, eu pensei em abrir mão da minha segunda-feira livre. E, como teremos um recesso futuro, eu manteria apenas as turmas do ensino médio: primeiro, segundo e terceiro ano.
Ele franziu levemente o cenho, interessado.
— Atuando só com língua portuguesa gramatical e literatura — continuei. — O francês, que hoje está mais concentrado no ensino fundamental, eu poderia deixar de lecionar a partir do próximo módulo, semestre ou até do próximo ano. Manteria apenas o francês do projeto da tarde, aquele mais aprofundado.
Jonas recostou-se na cadeira, pensativo.
— Interessante — disse. — Isso, inclusive, abre espaço pra uma mudança que eu já vinha considerando.
Ergui a sobrancelha.
— O francês não é um idioma tão popular — ele continuou. — Talvez seja o momento de repensar isso. A gente poderia, a partir do próximo ano, substituir pelo inglês. Ou até pelo espanhol, que é algo que eu vinha querendo implementar há um tempo.
Rimos juntos, num acordo silencioso.
— Talvez essa seja a minha chance de voltar a lecionar — ele completou, com um sorriso mais aberto. — E não ficar só preso ao corpo acadêmico e administrativo.
Observei aquele sorriso com mais atenção do que deveria. Havia algo diferente ali. Uma leveza nova.
— Agora, com mais tempo… — ele disse, quase casual — eu consigo voltar pra sala de aula. Assumir algumas turmas. Dar inglês, por exemplo. Seria interessante.
Houve um breve silêncio.
— Mais tempo? — perguntei, com cuidado.
Ele desviou o olhar por um segundo, depois voltou a me encarar.
— Separação — disse, simples.
Pisquei, surpreso.
— Separação?
Ele assentiu.
— É recente. Uns quatro meses. Você sabe que eu não costumo falar da minha vida pessoal aqui no colégio… mas sim. Não estou mais comprometido.
Enquanto ele falava, eu o observava quase como através de uma lente mais sensível. Os olhos escuros, a linha da mandíbula, o jeito firme, mas não duro. Quando ele terminou, deu um sorriso curto, quase resignado.
— Isso acaba me dando mais tempo — completou. — Tempo livre. Tempo meu.
Senti algo se mover dentro de mim. Um pensamento rápido, quase indelicado.
— É uma pena — eu disse, com sinceridade. — Mas… se você acredita que isso pode ajudar nessa reorganização, talvez seja uma medida perfeita.
Ele me olhou com atenção renovada.
— Então ficaria assim — continuei. — Eu sigo com o ensino médio, língua portuguesa e literatura. E você assumiria os idiomas, substituindo o francês pelo inglês.
— Acho ótimo — ele respondeu. — Vai ser uma troca boa. Útil pra escola e pra gente.
Ele inclinou o corpo para frente.
— Só que, assumindo o ensino médio, talvez você precise pegar mais duas turmas pra fechar sua carga horária semanal.
— Perfeito — respondi, sem hesitar.
Ele sorriu, satisfeito.
— Então estamos alinhados.
Enquanto voltávamos a comer, percebi que havia algo mais naquela conversa do que apenas logística. Havia olhares que duravam um segundo a mais. Pequenas pausas. Um entendimento silencioso.
Quando ele mencionou estar solteiro, um sorriso escapou de mim — involuntário. Pensei em mim, na vontade recente de viver com menos amarras, mais leve, mais presente. Em aproveitar a vida como ela vinha, sem tantas explicações.
Nossos olhares se cruzaram de novo.
O almoço já caminhava para o fim quando o assunto, quase naturalmente, começou a escorregar do profissional para algo mais íntimo. Não foi brusco. Foi como tudo entre nós até ali: lento, cuidadoso, cheio de espaços.
Jonas repousou os talheres no prato e respirou fundo, como se decidisse algo.
— Posso… falar um pouco de algo pessoal? — perguntou, com um meio sorriso contido.
Levantei o olhar na mesma hora.
— Claro — respondi. — Fica à vontade.
Ele assentiu, passando a mão pelo copo, distraído.
— Eu não costumo perguntar muito sobre a vida das pessoas — disse. — Principalmente aqui, no colégio. Mas, às vezes, a gente cruza histórias… e elas se reconhecem.
Havia algo sério e, ao mesmo tempo, frágil no jeito dele falar.
— Eu sofri bastante com o fim do meu último relacionamento — continuou. — Fui um homem que se doou demais para permanecer onde estava. Hoje, eu ainda carrego isso… mas também estou aprendendo que não preciso continuar sofrendo por algo que naturalmente acabou.
Observei o jeito como ele mantinha o olhar firme, mas os ombros um pouco soltos demais para alguém tentando parecer neutro.
— Agora, solteiro — ele disse —, eu estou querendo aproveitar mais a vida. Não no sentido inconsequente… mas no sentido de liberdade. Eu sempre saí de um relacionamento direto para outro. Nunca parei.
Ele deu uma pequena risada, curta.
— E agora… estou pensando em mim.
Sorri sem perceber. Havia honestidade ali. Daquelas que aproximam.
— Jonas — eu disse, com calma —, acho que você não perguntou exatamente a pessoa certa.
Ele arqueou levemente a sobrancelha.
— Eu sou um homem gay assumido. Sempre fui. Tenho muito orgulho disso. Mas eu não sou exatamente o tipo que está em todas as festas, todas as baladas.
Ele sorriu de lado.
— Somos dois, então.
Continuei:
— Eu sou reservado. Tenho um grupo de amigos que me acompanha desde a infância. Gosto de programas simples. Família. E, principalmente… praia e natureza.
Meus olhos brilharam ao dizer isso.
— A natureza me ressignifica. O sol, o mar. Estar ali me reorganiza por dentro.
Jonas me observava com atenção quase silenciosa.
— E, sendo sincero — acrescentei —, essa fase de concursos, estudos, cobranças… eu acabei negligenciando minha vida social. O prazer de simplesmente viver.
Ele riu baixo.
— Isso é quase um traço de personalidade nosso — disse. — Professor sempre pensando na carreira.
— Exatamente — disse — Mas, de vez em quando, a gente precisa se permitir escapar. Conhecer gente nova. Respirei.
Jonas concordou.
— Talvez pra você funcione algo mais tranquilo — Uma trilha, por exemplo. Ou um passeio com amigos.
Jonas inclinou a cabeça, pensativo.
— Meu grupo de amigos… — disse ele — já não combina tanto comigo hoje. A maioria casou, tem filhos.
Olhei para ele com leveza.
— Nunca é tarde — falei.
Ele sorriu, me analisando com mais atenção do que antes.
— Pra você, que é jovem, bonito, saudável… promissor — respondeu, com um tom que carregava mais do que as palavras.
Senti o calor subir de leve.
— Obrigado — respondi. — Mas você também é jovem. Inclusive… eu nem sei sua idade.
— Trinta e três — disse ele.
— Pois é — retruquei. — Você aparenta bem menos.
Ele riu, um pouco sem jeito.
— Talvez seja o estresse acumulado ao contrário.
A conversa seguiu leve.
— Qualquer dia desses — sugeri —, a gente pode marcar algo com alguns amigos meus. Sem compromisso.
— Pode ser — respondeu. — Gosto da ideia.
Ele pensou por um instante.
— Mas confesso que essa coisa da trilha me chamou atenção.
— É ótimo — disse eu. — Faz anos que não faço uma. Hoje, minha terapia é mais praia mesmo.
Passei a mão pelo braço distraidamente.
— Gosto de manter o bronzeado em dia.
Jonas me olhou dos pés à cabeça, sem disfarçar totalmente.
— Bronzeado… — murmurou. — Já faz tempo que não vejo o meu.
Sorri.
— Realmente — provoquei, com suavidade. — Você está um pouco pálido.
Ele riu, aceitando a provocação.
— Talvez eu precise de um guia — disse. — Ou de uma boa companhia.
Inclinei a cabeça.
— Se quiser, a gente marca — falei. — Praia. Meu grupo de amigos… ou só nós dois.
O silêncio que se instalou não foi desconfortável. Foi denso.
— Eu aceito — disse ele, por fim. — De verdade.
Terminamos de almoçar. Pagamos a conta. Saímos juntos, caminhando lado a lado de volta para a escola. O sol batia forte. O corpo dele caminhava próximo ao meu, sem encostar — e isso, curiosamente, dizia mais do que qualquer toque.
Antes de entrar para o segundo turno, meu celular vibrou.
Mensagem do Arthuro.
“Quero adiantar as coisas. Que horas você sai hoje? Posso passar aí pra te buscar.”
Respirei fundo e respondi.
Respirei fundo e respondi.
“Saio às 17h30, no máximo. Esse é o endereço.”
Ele respondeu rápido.
“Não vou de carro. Estou perto. A gente conversa no caminho, algo rápido, e depois voltamos juntos.”
Pensei por um segundo.
“Pode ser. Se for uma conversa rápida.”
“Fechado. Até mais tarde. Se cuida.”
Respondi com e curti a mensagem.
Guardei o celular no bolso.
A tarde passou de um jeito quase irreal. As aulas fluíram, os alunos estavam mais atentos do que o normal, e eu me percebi estranhamente organizado. Talvez fosse cansaço. Talvez fosse antecipação. Ou talvez fosse só aquele estado de alerta silencioso que se instala quando algo importante está prestes a acontecer.
Pouco depois das cinco, mandei a mensagem avisando que já estava saindo. Disse que nos encontraríamos na esquina da escola. Guardei o celular na mochila, atravessei o portão e respirei fundo.
Foi então que eu o vi.
Arthuro estava encostado no poste, perto da faixa de pedestres. Vestia uma calça de moletom ajustada, escura, uma camiseta clara de academia que marcava bem o peito e os braços. A mochila jogada em um dos ombros, o corpo relaxado, mas o olhar atento — daquele tipo que procura antes mesmo de encontrar.
Quando nossos olhos se cruzaram, ele sorriu. Um sorriso inteiro, aberto, que sempre me desmontou um pouco.
— Ei — ele disse, abrindo os braços.
Nos abraçamos. Um abraço firme demais para dois amigos que só iriam “conversar”. O corpo dele estava quente. Próximo. Familiar demais.
— Que bom que você aceitou conversar hoje — ele disse, ainda perto. — Eu precisava muito disso.
Afastei um pouco o rosto e o encarei.
— Eu também — respondi. — Acho que a gente já estava devendo essa conversa.
Ele me olhou com intensidade.
— Mais do que você imagina.
Seguimos andando lado a lado até uma lanchonete que já conhecíamos bem. Um lugar tranquilo, de comidas naturais, com um espaço mais reservado no fundo. Pedimos algo simples. Nos sentamos frente a frente. Arthuro colocou a mochila no banco ao lado dele. Fiz o mesmo.
Por alguns segundos, ficamos em silêncio.
Ele respirou fundo.
— Não é fácil dizer isso — começou.
Inclinei o corpo um pouco pra frente.
— Tô aqui pra isso, Arthuro. Pra conversar. Sem rodeio.
Ele me olhou nos olhos, sério, e estendeu a mão por cima da mesa, segurando a minha. O toque foi imediato. Intencional.
— Ber… — disse, usando o apelido que ele ainda se permitia usar. — O que eu vou te falar eu quero manter só entre nós dois. Eu confio em você. E… depois das minhas atitudes, você é a única pessoa com quem eu consigo falar disso agora.
Segurei a mão dele com firmeza.
— Então fala — respondi. — Sem enrolação. Você já me beijou duas vezes. Eu quero entender essas atitudes. Quero saber se você gosta de homens ou se isso tudo é só impulso, festa, confusão.
Ele riu, nervoso.
— Você sempre direto.
— Sempre — confirmei.
Arthuro respirou fundo de novo.
— Eu tive uma experiência recente — disse. — E… se fosse anos atras, eu diria que isso nunca aconteceria comigo. Mas aconteceu. Foi diferente. E eu nunca parei pra entender de verdade o que aquilo significou.
Arqueei a sobrancelha.
— Vamos falar direto? — provoquei. — Você transou com um cara?
Ele desviou o olhar por um segundo.
— Não exatamente.
— Então fala logo, Arthuro.
Ele passou a mão no rosto, visivelmente tenso.
— Você sabe que eu gosto de aproveitar a vida — disse, me encarando.
— O que isso tem a ver comigo? — questionei. — Com esses beijos?
Ele respirou fundo e falou de uma vez:
— Eu tive uma experiência com mais de uma pessoa ao mesmo tempo.
— Dois homens? — perguntei, sem rodeio.
— Não — ele respondeu rápido. — Foi… diferente.
Ele baixou a voz.
— Enquanto eu estava com uma garota… um cara me chupou.
Levei a mão à boca, rindo de nervoso.
— Tá — falei. — Você recebeu uma mamada de um cara. E daí? Você gostou?
Ele assentiu lentamente.
— Gostei. E isso me fez pensar em coisas antigas. Em sensações que eu sempre ignorei.
Inclinei a cabeça.
— E o que isso tem a ver comigo?
Ele apertou minha mão.
— Tudo.
Meu peito apertou.
— Ber… — ele disse — eu sempre gostei de você.
Fiquei em silêncio.
— A gente sempre foi amigo — continuei, com cuidado. — Eu também gosto de você.
— Eu sei — ele respondeu. — Mas eu nunca soube o que fazer com isso. Nunca quis estragar nossa amizade. E… eu não me entendo como um homem gay.
— Quem sabe? — retruquei.
— Talvez. Mas não agora — ele disse.
Afastei a mão, cruzando os braços.
— Então por que me beijou? — perguntei. — Se você não quer nada, se não quer se entender, por que me beijou duas vezes?
Ele me olhou com intensidade.
— Porque eu não queria experimentar com qualquer homem. Eu queria experimentar com você. Meu melhor amigo.
Meu estômago revirou.
O silêncio se instalou entre nós.
Na minha mente, tudo veio rápido: o quarto dele com o Arthur, o cheiro, a proximidade. Depois Yan. O banho. A pele quente. E, por fim, aquele primeiro beijo com Arthuro, inesperado, intenso.
Respirei fundo.
— Arthuro… — comecei — você precisa entender uma coisa.
Inclinei o corpo pra frente.
— Eu não sou um teste.
Ele baixou os olhos.
— Eu sei.
— E eu não posso ser o espaço onde você se confunde — continuei. — Porque eu sinto. E eu me envolvo. Eu amo você, eu amo nossa amizade.
Ele levantou o olhar, sincero
— Eu sei, Ber... E é por isso que eu quis falar. Antes que fosse longe demais.
Ficamos em silêncio novamente.
Ele se levantou por um segundo, veio até mim e me puxou para um abraço rápido demais, intenso demais.
— Arthur — murmurei. — A gente tá na rua.
Ele riu contra meu ombro, se afastando.
— Desculpa.
— Eu não te vejo como um teste, Bernardo — disse. — Nunca vi. Pelo contrário. Se fosse pra eu tentar entender alguma coisa em mim… eu queria que fosse com alguém que eu realmente gostasse. Com alguém por quem eu sinto algo de verdade. Alguém que eu confio.
Meu peito apertou. Não por ilusão, mas pela responsabilidade que aquela frase carregava.
— Arthuro… — comecei, com cuidado — é justamente aí que mora o problema.
Ele franziu a testa.
— Se você não sabe ainda o que gosta, o que deseja, o que você é… — continuei — você acaba jogando essa confusão no colo de outra pessoa. E isso cria expectativa. Cria vínculo. Cria sentimento.
Ele engoliu seco.
— Eu sei — murmurou.
— Antes de transbordar qualquer coisa pra alguém — completei — você precisa entender isso dentro de você. Sozinho. Com calma. Sem usar o afeto do outro como espelho.
Arthuro novamente passou a mão pelo cabelo, nervoso. O corpo dele ainda era bonito, presente, magnético. Mas agora havia algo mais ali: vulnerabilidade.
— Eu não queria te machucar — disse. — Nunca foi minha intenção.
— Eu sei — respondi. — Mas intenção não anula consequência.
Ele assentiu lentamente.
— Talvez eu tenha sido egoísta — confessou. — Eu gostei de ser desejado. Gostei de sentir algo diferente. E… você sempre esteve ali. Sempre foi seguro pra mim.
Olhei direto nos olhos dele.
— Segurança não é permissão pra confusão emocional.
O silêncio voltou a se instalar. Mas não era um silêncio hostil. Era denso. Cheio de coisa não dita.
Arthuor se inclinou um pouco pra frente, os cotovelos apoiados na mesa.
— Eu acho que tô com medo — admitiu. — Medo de descobrir coisas sobre mim que mudem tudo. Principalmente as pessoas.
— Isso é normal — respondi. — Mas o caminho não pode ser atropelando sentimentos alheios.
Ele sorriu de canto, triste.
— Você sempre foi mais maduro do que eu.
— Não é maturidade — retruquei. — É sobrevivência emocional.
Ele soltou um pequeno riso, quase um suspiro.
— Eu sinto muito, Ber...
Aquela frase não veio como defesa. Veio como reconhecimento.
Ele estendeu a mão novamente, mas dessa vez não tocou. Parou no meio do caminho, respeitando o espaço.
— Desculpa pelos beijos. Pela confusão. Por te colocar nesse lugar.
Olhei para ele por alguns segundos antes de responder.
— Eu precisava ouvir isso.
Arthuro assentiu.
O pedido chegou. Pagamos a conta em silêncio. Quando nos levantamos, ele se aproximou e me puxou para um abraço curto, contido, respeitoso.
— Arthuro… — murmurei. — Ele sorriu.
— Desculpa. Força do hábito.
Saímos juntos da lanchonete. O sol já estava baixo, já era início de noite. Caminhamos lado a lado por alguns metros, até a esquina onde nos separaríamos.
— Obrigado por me ouvir — ele disse. — Mesmo sendo duro.
— Às vezes, cuidar também é saber colocar limites — eu disse, sustentando o olhar.
Arthuro assentiu devagar. Não parecia contrariado. Parecia pensativo. O sorriso que surgiu no rosto dele foi diferente dos outros. Menos brincalhão. Mais contido. Mais sério.
Ele não se virou imediatamente para ir embora.
Ficou ali, parado à minha frente, como se estivesse medindo cada palavra antes de deixá-la escapar.
— Ber… — chamou, baixo.
Levantei o olhar novamente.
— E se… em algum momento… — ele fez uma pausa curta, respirando fundo — eu me decidir de verdade?
Meu corpo reagiu antes mesmo da minha mente. Um leve enrijecer nos ombros. Um alerta silencioso.
— Como assim tentar? — perguntei.
Arturo se aproximou um passo. Não invadiu meu espaço. Mas ficou perto o suficiente para que eu sentisse o calor do corpo dele.
— Se eu tivesse certeza da minha orientação sexual — continuou — se eu tivesse certeza do que eu quero, com quem eu quero… e do momento certo… — ele engoliu seco — haveria alguma possibilidade entre nós dois?
A pergunta ficou suspensa no ar.
Eu respirei fundo antes de responder. Sabia que qualquer palavra ali teria peso.
— Arthuro… — comecei, escolhendo com cuidado — essa é uma pergunta muito difícil de responder agora.
Ele manteve o olhar fixo em mim.
— A gente é muito amigo. Quase irmão. E qualquer resposta que eu dê nesse momento pode definir um futuro inteiro pra nós dois. Principalmente pra nossa amizade.
Passei a mão pelo rosto, sentindo o cansaço e a lucidez misturados.
— Como você mesmo disse, eu nunca vou querer destruir o que a gente tem. Mas a sua mente parece caótica agora… e a minha vida já é caótica o suficiente. Minhas responsabilidades, meu trabalho, meu passado… tudo isso já exige muito de mim.
Arthuro escutava em silêncio.
— Eu não posso te dizer “sim” nem “não” agora — continuei. — O que eu posso te dizer é que eu te amo. Você sempre foi meu grande amigo. Assim como o Arthur também é. Nós sempre fomos um trio. Uma espécie de irmandade. E eu me sinto parte disso.
Meu tom ficou mais baixo.
— Qualquer passo além disso pode nos levar a caminhos de construção… ou de destruição. E eu não sei se estamos prontos pra lidar com isso.
Arthuro soltou um riso curto, quase nervoso.
— Você tá me enrolando — disse. — Eu fiz uma pergunta simples. Se houvesse possibilidade. Se eu estivesse decidido.
Balancei a cabeça, negando.
— Não é enrolação. É cuidado. Primeiro você precisa se organizar consigo mesmo. Depois pensar em incluir alguém na sua vida. Eu não sou como as garotas que você sai uma noite e no dia seguinte não responde mais mensagem.
Dei um passo à frente também.
— Eu sou seu melhor amigo. E qualquer coisa que a gente faça agora vai ter consequência. Hoje, amanhã, daqui a meses. Sempre vai ter consequência.
O silêncio voltou. Mais denso do que antes.
Foi então que Arthuro levou a mão até o meu rosto.
O toque foi lento. Intencional.
Meu corpo inteiro reagiu.
— Ber… — ele disse, os dedos deslizando pela minha mandíbula — posso fazer uma coisa?
Olhei rapidamente para os lados. A rua. Pessoas passando. Luzes. Movimento.
— Arturo… — murmurei — a gente tá na rua.
Ele sorriu de um jeito quase provocador.
— Eu sei. E quem liga pra isso?
Baixei o olhar por um segundo. Quando ergui novamente, ele já tinha levantado meu rosto com delicadeza.
— Ber… — disse, mais perto agora — comigo, sempre vai ser o momento certo.
E então ele me beijou.
Não foi um beijo apressado.
Foi intenso. Cheio. Profundo.
Minha respiração falhou no primeiro segundo — e depois eu cedi.
Minhas mãos foram quase por instinto para as costas dele, puxando-o mais para perto. Senti o corpo de Arthuro colado ao meu, firme, quente. A boca dele se movia contra a minha com uma mistura perigosa de desejo e afeto.
Uma das mãos dele segurava meu rosto. A outra desceu até a minha cintura, firme, possessiva.
O beijo era lento, mas carregado. Daqueles que fazem o tempo diminuir. Que fazem o mundo ao redor desaparecer.
Eu senti.
E isso foi o mais assustador.
Quando consegui me afastar, ainda ofegante, encostei a testa na dele.
— Arthuro… — sussurrei — aqui não. Não agora. Não é o momento. Não é o lugar.
Ele sorriu, os olhos brilhando, a respiração ainda descompassada.
— Aqui sim — respondeu, baixo. — Com você… sempre vai ser o momento e o lugar certo.
E ficou ali, me olhando, como se soubesse exatamente o efeito que causava.
Como se soubesse que aquele beijo… não era só um beijo.
Era um aviso.
Era um risco.
Era uma linha que, uma vez cruzada, jamais voltaria ao mesmo lugar.
E nós dois sabíamos disso... principalmente das consequências que nós aguardava...