As duas visitas subsequentes ao terreiro foram diferentes da primeira. Sem o choque da novidade, havia espaço para um prazer mais tátil, mais exploratório. Aline aprendeu os nomes dos músculos nas costas de Luan, o ponto exato atrás da orelha de Thiago que o fazia tremer, o jeito que Dagoberto gostava de ser beijado no pescoço. Joaquim, sempre o líder, a ensinou a controlar a respiração, a segurar um orgasmo enquanto dois deles a preenchiam ao mesmo tempo.
Ela não era mais apenas a "branquinha putinha". Era a deles, uma aprendiz devota de um prazer que só aquela irmandade baiana podia ensinar. E Henrique assistia, sempre no mesmo banco, sua mão trabalhando seu próprio pau com uma urgência cada vez mais silenciosa e focada. Seus olhos, porém, já não seguiam apenas Aline. Eles percorriam a linha dos dorsos largos, a tensão dos músculos glúteos, o movimento poderoso dos quadris dos homens. Uma atração sôfrega e cheia de vergonha interna começou a coçar em sua mente.
De volta a Minas, à rotina de terra fria e céu cinza, o casal carregava um segredo pesado e dourado. O corpo de Aline parecia ter memória própria — às vezes, no meio de uma reunião, uma pontada entre as pernas a fazia lembrar do peso de Joaquim, e ela corria ao banheiro para se tocar rapidamente, sufocando um gemido.
O reencontro com Camila foi marcado por uma intimidade acelerada. Não houve mais preliminares de trabalho. Foi direto para o apartamento da morena, num fim de tarde de quarta-feira.
— Me conta tudo — Camila ordenou, já despindo Aline no corredor, suas mãos famintas. — Cada segundo. Cada pau. Cada gozo.
Deitadas na cama dos lençóis de seda pretos, Aline contou. Com detalhes crus, poéticos e embaraçados. Contou do cheiro do terreiro, da aspereza do chão contra sua pele, do sabor salgado de Dagoberto em sua boca, da sensação de ser preenchida por dois ao mesmo tempo. Contou da vista que tinha de Henrique, parado no canto, com a mão no shorts, os olhos escuros e indecifráveis.
Camila ouvia, masturbando Aline com dedos lentos e precisos, sua própria respiração ficando mais ofegante a cada revelação.
— E você… gostou de ser a putinha deles? — sussurrou Camila, os olhos vidrados nos lábios de Aline.
— Amei — confessou Aline, arfando. — Me senti… possuída de verdade. De um jeito que nem com você e Luciano. Era mais… selvagem.
— E o Henrique? Só ficou olhando?
— Só. Mas… ele ficou diferente.
Camila parou seus dedos, pensativa. Rolou para o lado e acendeu um cigarro, algo que Aline nunca a vira fazer.
— Eu te entendo — disse Camila, após uma baforada longa. — Há uns anos, antes de conhecer o Luciano, eu viajei sozinha para o Nordeste. Conheci um pescador. Um homem mais velho, pele queimada de sol, mãos calejadas. Fiquei uma semana na cabana dele. Ele me tratava como uma princesa e como uma cadela no cio, ao mesmo tempo. Era uma posse… ancestral. De macho e fêmea, entende? — Ela olhou para Aline, seus olhos brilhando com um segredo próprio. — Desde então, tenho uma… vontade oculta.
— Qual? — perguntou Aline, virando-se para ela, o tesão momentaneamente substituído por curiosidade aguda.
Camila sorriu, um sorriso pequeno e perigoso.
— De ser dada. Não apenas compartilhada, como fazemos com vocês. Mas dada como um presente, oferecida completamente a um homem como aquele pescador… ou como os seus capoeiristas. De ser a oferenda absoluta de um casal para um terceiro que é puro instinto. — Ela baixou a voz. — Luciano topa muitas coisas, mas isso… ele acha que é degradante demais. Que eu perderia o respeito por mim mesma.
Aline sentiu um frisson percorrer sua espinha. Não era apenas tesão; era reconhecimento.
— E você… quer que a gente…? — ela não ousou completar.
— Ainda não sei — Camila interrompeu, apagando o cigarro. — Mas saber que você fez isso… que você sobreviveu e ficou mais forte, mais radiante… Isso me dá uma coragem que eu não tinha. — Ela se virou e beijou Aline, um beijo doce e profundo. — Você é minha espelho corajoso, ruiva.
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Enquanto isso, Henrique estava em casa, sentado em sua poltrona no escuro do escritório. Na tela do celular, uma foto que ele arriscara tirar na segunda visita ao terreiro: um close involuntário de Joaquim e Luan, de costas, seus corpos tensionados no esforço de mover Aline entre eles. A foto era borrada, mas a força emanava.
Ele não entendia. Sempre se considerou heterossexual, atraído exclusivamente pela delicadeza feminina de Aline, depois pela sensualidade ousada de Camila. Mas aquela atração que sentira, e que ainda queimava baixo em seu ventre, era diferente. Não era desejo por eles. Era… **desejo deles. Era a vontade de ser aceito por aquela fraternidade poderosa. De ter seu valor reconhecido por aqueles homens. Era uma atração feita de admiração, inveja e uma submissão latente que o envergonhava profundamente.
Ele fechou os olhos e lembrou do olhar de Joaquim, justamente no momento em que o capoeirista se levantava de cima de Aline e passava a mão em seu suor, olhando diretamente para Henrique no canto. Não havia desafio naquele olhar. Havia… cumplicidade. Como se Joaquim dissesse: "Ela é sua, mas neste momento, ela é nossa. E você, marido, faz parte disso."
Era isso que o excitava de forma tão perturbadora? A sensação de ter cedido algo tão precioso (Aline) e, nesse ato, ter sido incluído num pacto de homens fortes?
Ele apagou a foto, com um misto de alívio e arrependimento. Precisava falar com alguém. Mas não podia ser com Aline. Talvez… Luciano? O único homem que conhecia uma fração desse universo paralelo em que viviam agora.