BREAKING NEWS: TE AMO - 4 - SOBREVIVENDO AO PRIMEIRO DIA

Um conto erótico de Escritor Sincero
Categoria: Gay
Contém 2677 palavras
Data: 14/01/2026 23:54:56

Oi, pessoal. Quem curte uma história leve e romance fofo? Clica aí.

***

BRUNO ASSIS

Quando Alessandra disse que eu iria acompanhar Miguel numa pauta de incêndio, quase pedi para sair correndo. Não porque eu não queria aprender, mas porque, de todos os repórteres daquela redação, logo o "rei da tragédia"? Eu ainda me sentia um estorvo, alguém que atrapalharia mais do que ajudaria. Mas a frase dela ficou martelando na minha cabeça:

— Quer aprender jornalismo de verdade, Assis? Então vai com ele.

Não tive escolha.

O carro da emissora cruzou avenidas largas, depois ruas cada vez mais estreitas, até parar diante de um amontoado de cinzas e cheiro de fumaça. Aquele cheiro entrou em mim como um soco no estômago. O fogo tinha engolido a casa inteira, restando apenas pedaços pretos de madeira e telhado retorcido.

Desci do carro e, por um instante, não vi apenas aquela cena — vi a minha própria casa. Relembrei o dia em que cheguei da escola, e encontrei minha mãe encolhida na calçada ao lado da minha irmã. Havia fumaça e o rastro da destruição deixado pelas chamas. Restavam cinzas e pesar. Por sorte, a casa tinha seguro, mas poucos têm esse privilégio.

Miguel se aproximou da mãe da família, uma senhora chamada Eliane. Ele falava baixo, devagar, como quem entendia o peso de cada resposta antes mesmo de ouvi-la. Não havia espetáculo no jeito dele, só respeito.

— Dona Eliane, o que a senhora precisa agora, de imediato? — perguntou.

Ela respirou fundo e respondeu com a voz trêmula:

— Um teto pros meus filhos dormirem. Só isso.

Senti o peito arder. Vi Raquel, anos atrás, tirando dos escombros os nossos poucos pertences. Vi minha mãe afundada no escuro. Eu sabia o que era não ter teto..

Quando a câmera desligou, Miguel percebeu meu silêncio.

— Tá bem? — perguntou, apoiando-se no carro.

Engoli seco.

— É que... parece a minha casa. Minha mãe entrou em depressão quando meu pai foi embora. Certa vez, ela se descuidou e acabou causando um incêndio. Perdemos tudo naquele dia. Eu sei como é sentir isso.

Miguel ficou calado, me olhando como se enxergasse algo além das minhas palavras. Depois disse:

— É por isso que eu faço isso. Não pelo Ibope, não pela fama. Mas porque eu também já perdi chão. A diferença é que a gente mostra pro país inteiro. Talvez, alguém se importe e ajude.

Aquelas palavras ficaram na minha cabeça até a pauta seguinte.

Dessa vez, não era tragédia. Era esporte. Fomos até uma escola de natação onde Felipe Viana, um rapaz de 18 anos, treinava incansavelmente. O garoto buscava patrocínio para competir na Europa. Quando Alessandra disse que essa matéria seria minha, meu coração quase saiu pela boca.

Conversei com Felipe e o treinador, orientei Amarildo sobre os melhores ângulos, e quando chegou a hora da passagem — aquele texto que o repórter fala diante da câmera — minhas mãos suavam. Mas eu respirei fundo, encarei a piscina e disse:

— E assim, braçada a braçada, que Felipe busca o sonho de entrar para a equipe brasileira de natação.

Amarildo ajustou a câmera, pegou o movimento do garoto na água e sorriu satisfeito.

— Tá ótimo! Dez de dez!

Miguel se aproximou, colocou a mão no meu ombro e disse:

— Parabéns, Bruno. Nem eu faria melhor.

Naquele instante, percebi que não era só um novato perdido. Eu podia ser, de fato, um repórter.

***

MIGUEL TORRES

O Bruno se deu bem na sua primeira matéria autoral. Nunca me achei um bom professor, mas era legal ver a evolução dos novatos. Enquanto voltávamos para a redação, olhei para trás e o vi criando o texto no celular. Concentrado, ele digitava sem olhar para o lado, e eu me peguei sorrindo com aquilo.

— Tá felizinho, Miguel. Gostando muito desse papo de ser professor. — provocou Amarildo, que dirigia tranquilamente.

— Claro, é sempre bom inundar jovens mentes com conhecimento. — soltei, revirando os olhos logo em seguida. Porque eu respondi isso? Que idiota.

— Sei o que você quer inundar. — ele riu.

O Amarildo sabe que eu sou gay. Ele descobriu quando eu namorava um rapaz chamado Olavo, um babaca que me traiu com diversos caras. Na época, eu tinha acabado de criar a produtora e precisava de um cinegrafista para um job no fim de semana. Ofereci a grana para o Amarildo e ele topou. Sabe quem estava no evento que eu precisava registrar? O Olavo com um coroa que estava produzindo o evento.

Eu surtei, quase afundei a produtora, mas lavei a alma jogando tudo na cara daquele traidor. Poucas vezes na minha vida eu me desequilibrei, e essa foi uma delas. No fim do trabalho, Amarildo e eu fomos para um bar, e acabei chorando as mágoas. A cachaça pode unir as pessoas. Pedi que ele mantivesse a discrição, mas aparentemente ele está esquecendo do acordo.

— Cuidado com essa língua, viu. — ameacei.

— Tá bom, não tá mais aqui quem falou, mas eu shippo. — brincou o cinegrafista.

Ainda bem que o Bruno estava imerso no texto. Seguimos em direção à redação para fechar mais uma matéria. Porém, meu celular vibrou com uma mensagem da Alessandra. Queria falar comigo na sala de reunião após o almoço. Será que vem chumbo grosso por aí? Preciso me preparar psicologicamente. Essas reuniões com a chefia sempre são tensas, principalmente quando envolvem o ego de colegas.

Ao chegarmos, fomos direto ao almoxarifado deixar os equipamentos e depois para a redação. Nem preciso dizer que o Bruno ainda era o assunto da vez. Alguns colegas até pediram para tirar foto com ele. Ficamos um ao lado do outro em nossos computadores, imersos em textos e produções. Bruno aprendeu rápido a dominar o sistema que usávamos, tanto para escrever quanto para editar. Esse é o lado positivo dos jovens: a tecnologia não assusta.

Seguimos para o refeitório, e o Bruno meio que colou na gente. Mas era legal ter aquela energia de novato por perto, sabe? Ele acreditava em tudo o que falávamos, até mesmo no fantasma da garota que teria morrido no banheiro da redação e assustava quem fazia plantão de madrugada. Eu já passei madrugadas inteiras lá e não, não existem fantasmas. Porém, Amarildo adorava exagerar e criava versões deturpadas de cada funcionário da tarde.

Depois do almoço, fui ao banheiro escovar os dentes e encontrei o Roberto Araújo. Ele era uma das pratas da casa, daqueles jornalistas que impõem respeito. Fazia coberturas internacionais e entrevistas de peso. Com o passar dos anos, nos tornamos grandes amigos.

— Um passarinho me contou que a Alessandra vai falar contigo? — ele perguntou, lavando as mãos.

— Pois é. Espero que não seja justa causa. — brinquei.

— Eu desejo o contrário. Você é talentoso, Miguel. Espero que tire a bancada do Wilson Loney. — respondeu, me deixando sem jeito.

Puta merda. Um dos maiores jornalistas do país elogiando meu trabalho. Quando iniciei a carreira, só lembravam do Miguel do Axis. Inclusive, minha contratação saiu em sites de fofoca. Mas, aos poucos, consegui mostrar meu valor com textos e entrevistas sensíveis. Até prêmio de jornalismo eu recebi. Ainda assim, a competitividade sempre foi um obstáculo, que me fazia questionar até minha própria competência.

Respirei fundo antes de entrar na sala da Alessandra.

Ela estava lá, sentada à cabeceira da mesa de vidro, de braços cruzados. O cabelo bem liso e loiro caía sobre os ombros, os óculos de armação escura davam ares de seriedade, e o batom vermelho parecia um aviso de que não havia espaço para enrolação. Ao lado dela, Janete, a editora-chefe do Jornal da TV Mundo, observava em silêncio com aquele jeito firme de quem carrega o peso de segurar a maior audiência do país.

— Miguel Torres, o meu jornalista favorito. Pode se sentar. — disse Alessandra, apontando para a cadeira ao lado de Janete.

Sentei, já esperando uma bronca.

— Então, você sabe que eu sou direta. A gente quer que você assuma o Jornal da TV Mundo no lugar do Wilson.

— Eu? — perguntei, quase engasgando.

— Miguel, não conseguimos pensar em ninguém melhor. — afirmou Janete, pousando a mão sobre o meu ombro. — Claro que a mudança será gradual. Vamos te colocar como substituto nos finais de semana. O Wilson já fala em aposentadoria, então precisamos de você.

— Eu... — comecei, mas Alessandra me interrompeu.

— Você? — ela perguntou, inclinando-se sobre a mesa.

— Eu aceito. — soltei, surpreso com a própria resposta.

— Perfeito! — exclamou Alessandra, me entregando um cartão. — Esse é o endereço do alfaiate. Seu orçamento é de dez mil reais.

— Vamos anunciar amanhã, durante a reunião de pauta. — completou Janete, com um leve sorriso.

Saí da sala atordoado. Eu estava prestes a ser âncora do Jornal da TV Mundo.

***

BRUNO ASSIS

Parte da equipe se reuniu na redação para acompanhar a matéria que eu tinha feito. O tema era Felipe Viana, um jovem nadador que sonhava em integrar a equipe de natação do Brasil. No papel parecia simples, mas quando vi no ar, senti um peso no peito. Não gostei do texto e, principalmente, não gostei da minha passagem. Achei minha voz estranha, meu jeito duro, quase artificial.

— Parabéns, cara. A matéria ficou incrível. — disse Júnior, sempre sorridente, o oposto de mim.

— Verdade, mas parte desse sucesso é meu, afinal, eu quem fiz a pauta. — se gabou Sabrina.

— Parabéns, novato. — disse Kris, com aquela expressão mais antipática do mundo.

— Eu não tenho nada a ver com isso. — respondi sem graça, apontando para Miguel, que conversava com outros colegas. — O Miguel Torres me deu uma verdadeira aula de jornalismo.

— Miguel? — Kris olhou na direção dele e sorriu de canto. — Cuidado, viu. O Miguel gosta de novatos. — jogou, antes de sair.

Fiquei sem reação.

— Eu odeio esse homem. — resmungou Sabrina. — Quer saber, Bruno? A gente precisa de um happy hour. Vamos para o bar da Mama Rose?

— Mama Rose? — perguntei.

— Sim, o barzinho em frente à TV. Pertence a uma senhora colombiana, a Mama Rose. Nem aceito não como resposta. — afirmou Júnior, batendo de leve no meu ombro. — Vamos sair às três.

Antes que pudesse decidir, fui chamado na sala da Alessandra.

Ela me recebeu com um sorriso firme, daquele tipo que não dá pra decifrar se é aprovação ou aviso.

— Bruno, eu amei a sua primeira matéria. — disse, ajustando os óculos. — E fico aliviada que você não tenha se metido em confusão.

Tentei rir, mas não saiu som nenhum.

— A partir de agora, você vai sair para externa apenas com o Amarildo. O Miguel vai passar para outro setor. — explicou, olhando diretamente para mim. — Mas preciso que mantenha discrição sobre isso.

Assenti, sem coragem de questionar. Quando saí da sala, carregava uma sensação estranha: de um lado, uma responsabilidade nova; do outro, a impressão de que algo grande estava acontecendo e eu era só uma peça no tabuleiro.

No corredor, encontrei Sabrina e Júnior rindo. Estavam comentando sobre o teleprompter do jornal da tarde. Alguém tinha escrito "sexo" no lugar de "seixo". Só no Brasil mesmo para pedra virar sacanagem no ar.

Seguimos juntos para o bar.

O bar da Mama Rose parecia um refúgio improvisado para todo mundo da TV Mundo. O espaço era apertado, mas vibrante. As paredes eram cobertas de quadros, fotografias e cartazes antigos, enquanto mesas simples de madeira disputavam espaço com cadeiras de palha gastas. O ar-condicionado, um guerreiro cansado no canto, era disputado como ouro — claro que Sabrina escolheu uma mesa bem embaixo dele.

— Não é meio cedo para beber? — perguntei, sentando.

— Querido, Bruno... — Júnior estalou os dedos para chamar minha atenção. — Nunca é tarde para uma biritinha. Fora que a gente sofre tanto nesse emprego que precisamos de uma válvula de escape.

— Ele tem razão, Bru. — Sabrina afirmou, largando a bolsa na cadeira. — Agora me conta sobre você: casado? filhos? ficha limpa?

Antes que eu respondesse, uma senhora gordinha e baixinha se aproximou, falando em uma mistura de espanhol e português. Era a Mama Rose. Sabrina pediu uma torre de chopp, mas a mulher se deteve em mim. Os olhos brilharam de reconhecimento. Claro, a reportagem da bomba. Pediu para tirar uma foto comigo. Atendi, sem jeito. Ela se despediu garantindo que o garçom traria o chopp em breve.

— Bem... sobre as perguntas. Sou solteiro, sem filhos e ficha limpa. Pelo menos por enquanto. — falei, tentando soar simpático.

— Gay ou hétero? — Júnior soltou sem cerimônia, me deixando desconfortável.

— Gay. — respondi, baixinho, mas firme.

— Graças a Deus. — soltaram Júnior e Sabrina juntos, e isso me fez relaxar.

— Amo homens sem problema com a sexualidade. — Sabrina disse, batendo palmas devagar.

— Tipo o Miguel e o Roberto. — comentou Júnior, até receber uma bronca dela.

— Para de falar deles, tá. Eu gosto dos dois. — Sabrina rebateu.

— Pera aí... o Miguel é gay? — perguntei, surpreso. Mas a torre de chopp chegou antes que eles respondessem.

Olhei para eles e ri sozinho. É, eu acho que bons amigos vão ser primordiais para eu aguentar meus dias na TV Mundo. Principalmente aliados. E ainda por cima... eles conhecem o Miguel.

MIGUEL TORRES

Depois que saí da redação, segui direto para o alfaiate. O homem, muito gentil, me recebeu com fita métrica nas mãos e um sorriso discreto. Em poucos minutos, tirou todas as minhas medidas e garantiu que os ternos estariam prontos no fim daquela semana — justamente no dia em que eu subiria pela primeira vez à bancada do Jornal da TV Mundo.

Já apresentei jornais locais, sei a pressão que é. Mas esse... esse é líder absoluto de audiência. O peso não é apenas do teleprompter, é da expectativa. Do país inteiro.

Quando saí de lá, respirei fundo, tentando acreditar que aquilo era real. Eu, Miguel Torres, que já tinha me reinventado tantas vezes, agora prestes a assumir o noticiário mais assistido do Brasil.

No fim da tarde, passei na produtora. Ajudei a equipe na captação de imagens de um novo parceiro comercial. É curioso... lembro que, na época de estrela teen, eu ficava fascinado com os bastidores dos clipes. Talvez sempre tenha tido essa queda pelo audiovisual, mesmo sem perceber. Mas apresentar o maior telejornal do país? Isso nunca esteve nos meus planos. Jamais.

Naquela noite, voltei para o apartamento. Minha mãe estava na sala, me esperando com uma taça de vinho na mão e a televisão ligada. O que passava? Um clipe antigo da Axis, a boyband que me fez famoso na adolescência. Ela sempre faz isso. Sempre coloca as músicas antigas, talvez como forma de trazer aqueles tempos de volta.

— Olha isso, Miguel! — disse, emocionada, com a voz arrastada pelo vinho. — Você era um astro. O país inteiro gritava seu nome. E agora? Fica se sujando de cinzas em favela?

Larguei a mochila no sofá, cansado. Eu já sabia que ela exagerava sempre que mergulhava nessas lembranças embaladas em taças de vinho.

— Mãe, a Axis acabou faz mais de dez anos. Eu não quero isso de volta.

— Claro que quer! — insistiu, gesticulando com a taça quase derramando. — Você nasceu para os holofotes, não para noticiar tragédia. Esse jornalismo é coisa passageira. Um rosto bonito como o seu devia estar em novela, em reality show...

Esfreguei os olhos, tentando conter a irritação. Como explicar que eu acabara de receber a promoção da minha vida? Mas de que adiantava? Seria como bater em prego velho: ela só enxergava o brilho que já não me pertencia.

— Eu não quero ser lembrado como um produto, mãe. Quero ser lembrado por alguma coisa que importe.

— Importar? — ela riu, amarga. — Você fazia poesia através das músicas. Olha as cartas dos fãs. Eles eram loucos por você, Miguel.

Subi para o quarto sem responder. Carregar uma mãe que vive do passado é como arrastar correntes. Um passado que, para mim, nunca foi liberdade — foi prisão.

E, no fundo, enquanto encostava a cabeça no travesseiro, pensei em apenas uma pessoa: Bruno. O sorriso dele tem algo diferente, algo que mexe comigo mais do que eu gostaria de admitir. Além disso, é um cara inteligente e esforçado. Mas o que alguém como eu poderia oferecer ao Bruno? Melhor deixar isso quieto, Miguel. A partir de agora, você tem uma grande responsabilidade. Essa é a sua chance de mostrar para a sua mãe — e para si mesmo — que pode ser muito mais do que a Axis.

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