Dois desejos, uma escolha. CAP 4

Um conto erótico de Vênus de Marte
Categoria: Homossexual
Contém 4826 palavras
Data: 14/01/2026 20:08:32
Última revisão: 14/01/2026 20:14:27

Oiii pessoal, segue o terceiro capítulo, espero que gostem ;)

Ponto de vista Diego

Eu sempre soube que as pessoas mentem.

Mentem para os outros, mas principalmente para si mesmas.

Talvez por isso eu tenha me saído tão bem na medicina.

Desde a faculdade, eu aprendi a observar tudo: o tremor imperceptível das mãos, o desvio do olhar, a maneira como alguém segura o próprio corpo quando está com medo. Não foi só talento. Foi necessidade. Eu cresci entendendo que quem não lê o ambiente acaba sendo engolido por ele.

Tenho trinta e um anos, um apartamento bonito, um sobrenome que abre portas e uma vida que parece impecável por fora.

Meus pais sempre souberam comprar o que faltava — oportunidades, indicações, respeito. A medicina nunca foi um sonho. Foi uma escolha lógica. Status, dinheiro, poder. Eu só segui o caminho mais curto até tudo isso.

Aprendi o suficiente para nunca falhar de verdade e o resto veio sozinho.

Hoje, no hospital, me veem como alguém competente, confiante, sólido. Ninguém questiona minha autoridade. Ninguém imagina o quanto essa imagem foi construída, peça por peça, com a ajuda certa nos lugares certos.

Existe a Clara, linda, elegante, dessas mulheres que parecem não errar nem quando respiram. Ela se move pelo meu apartamento como parte da decoração: dobra mantas, ajeita almofadas, fala de coisas que eu quase não escuto. Clara é o tipo de mulher que combina comigo no papel. A namorada perfeita de um médico bem-sucedido.

Ela acha que me conhece.

Eu deixo.

Clara me oferece normalidade. Estabilidade. Um futuro previsível.

E talvez seja por isso que eu raramente a enxergo de verdade.

Porque eu nunca fui feito para viver só o que é previsível.

Existe uma inquietação dentro de mim que não se apaga com sucesso. Um vazio que não se preenche com jantares bonitos e planos bem organizados. Eu não quero conforto. Quero fricção. Quero sentir algo que não venha pronto.

No hospital, eu encontro isso nas pessoas.

Eu observo gente como quem abre corpos: camada por camada. Todo mundo tenta parecer inteiro. Poucos realmente são.

E foi assim que eu vi Rafael.

Ele não entrou no corredor. Ele quase pediu licença para existir dentro dele. O jeito tenso, o olhar que fugia, o cuidado exagerado em não ocupar espaço demais. Rafa carregava conflitos que quase gritavam sob a pele.

Gente assim é frágil de um jeito específico.

Não quebrada por fora — mas cheia de rachaduras por dentro.

Enquanto os outros viam apenas um residente, eu via algo mais interessante: alguém em guerra consigo mesmo. Alguém tentando se manter intacto à força.

E coisas mantidas à força sempre cedem.

Eu comecei a prestar atenção. No ritmo da respiração dele quando eu me aproximava. Na forma como o corpo dele reagia antes mesmo da mente decidir. Ele tentava esconder, claro. Mas quem se esconde demais acaba ficando mais visível.

Não era desejo ainda.

Era potencial.

E potencial sempre foi o que mais me atraiu.

De volta ao meu apartamento, Clara continuava existindo ao meu lado, falando de viagens, de reformas, de um futuro que parecia desenhado para nós dois. Eu respondia o suficiente para manter a cena de pé.

Mas minha mente já estava em outro lugar.

Rafael estava do outro lado de uma parede invisível.

E eu já tinha percebido onde ela era mais fina.

Eu não penso em pessoas como boas ou más.

Penso nelas como abertas… ou fechadas.

E Rafael estava escancarado por dentro.

E agora que eu o tinha visto,

não havia mais como fingir que não.

O refeitório estava quase vazio quando ele sentou à minha frente.

Marcos.

Cirurgião. Ego grande, paciência curta.

— Você já trabalhou com o Rafael? — ele perguntou, mexendo no café.

Eu ergui os olhos devagar.

— Já. Por quê?

— Nada demais… — ele soltou um riso curto. — Só achei que ele fosse mais acessível. O cara é bom no que faz, respeitado, mas cheio de muros. Tentei algo um tempo atrás. Não rolou. Acabei desistindo.

Desistiu.

A palavra soou pequena demais.

— E você achou que ele ia se entregar só porque você tentou? — perguntei, sem disfarçar o desprezo.

Marcos deu de ombros.

— Não vale o esforço quando a pessoa não quer.

Eu o encarei por um segundo a mais do que o necessário.

— Pessoas que dizem não geralmente só estão dizendo não desse jeito — falei. — Ou não ainda.

Ele franziu a testa.

— Você fala como se fosse um jogo.

— Tudo é um jogo — respondi, tranquilo. — Alguns só não sabem jogar.

Marcos saiu logo depois, desconfortável. Eu permaneci ali, observando o café esfriar.

Porque naquele momento eu tive ainda mais certeza:

Rafael não era fraco.

Era apenas alguém que ainda não tinha sido pressionado no ponto certo.

E eu sempre soube encontrar esse ponto.

A sala de descanso estava quase às escuras quando eu entrei. Só uma lâmpada fraca sobre a mesa e o som distante dos monitores no corredor.

Era o tipo de lugar onde as pessoas baixam a guarda sem perceber.

Rafael estava lá.

Sentado, o jaleco jogado sobre a cadeira, os óculos ao lado do tablet. Parecia cansado, mas à vontade. Humano.

— Fugindo do barulho? — eu perguntei, fechando a porta.

Ele levantou o olhar e sorriu de leve.

— Um pouco. Precisa de silêncio pra continuar funcionando.

Aproximei-me sem pressa, apoiando-me na mesa.

— Você sempre escolhe lugares assim — observei. — Tranquilos.

— Ajuda a organizar a cabeça — ele respondeu.

Havia algo aberto nele. Nada defensivo.

— As pessoas te acham difícil de ler — eu disse, casualmente. — Eu não acho.

Ele inclinou a cabeça, curioso.

— E o que você acha?

— Reservado. — sustentei o olhar dele. — Não fechado.

Rafa sorriu de canto.

— Isso soa melhor.

O silêncio entre nós não era desconfortável. Era… atento.

— Às vezes parece que você se cobra demais — continuei. — Como se estivesse sempre se

policiando.

Ele demorou um pouco a responder.

— Talvez eu faça isso mesmo.

— Nem sempre é ruim — falei, baixo. — Mas cansa.

Ele me olhou como se eu tivesse tocado em algo verdadeiro.

— Você observa demais — disse, meio em brincadeira.

— É parte do meu trabalho.

— Então o que você vê agora? — ele perguntou.

— Vejo alguém que tenta parecer muito no controle… — deixei a frase aberta — … mas que também sabe relaxar quando se sente seguro.

O canto da boca dele se ergueu.

— E eu pareço seguro aqui?

— Comigo — respondi.

Rafael pegou o tablet, se levantando sem pressa.

— A gente conversa mais outra hora — disse, quase casual.

Quando ele saiu, a sala ficou vazia.

Mas a dúvida já tinha ficado.

E dúvida…

sempre volta.

Rafa saiu da sala como se estivesse levando algo consigo.

Não uma pasta, nem o tablet.

Mas a própria dúvida.

Eu fiquei parado por alguns segundos, escutando o som dos passos dele no corredor se afastando.

Não porque esperasse que voltasse — mas porque queria entender o que ele tinha deixado para trás.

Rafa não se fechava como alguém que não quer ser tocado.

Ele se fechava como alguém que tem medo do que acontece quando abaixa a guarda.

Esse tipo de homem é o mais interessante.

E o mais frágil.

Observei-o de longe ao longo do resto do turno.

O jeito como falava com as enfermeiras, sempre educado demais

Como evitava contato físico quando não era necessário.

Como sorria, mas não se entregava ao sorriso.

Ele parecia alguém que estava sempre corrigindo a própria existência em tempo real.

Não era timidez.

Era vigilância.

E ninguém vive muito tempo em vigilância sem desejar, em algum nível, ser visto por alguém que não o julgue.

Rafa queria controle.

Mas queria, ainda mais, alívio.

Eu sabia reconhecer isso porque já tinha visto em mim.

E em outros.

Não se aproxima alguém como o Rafa invadindo.

Você se aproxima oferecendo.

A pergunta não era “como eu chego perto dele?”

Era “o que eu posso me tornar para que ele me deixe chegar?”

Ele gostava de organizar.

De dar sentido.

De cuidar.

Não de pessoas — ainda.

Mas de tudo ao redor.

Foi aí que a ideia surgiu.

Algo simples.

Legítimo.

Inofensivo.

Um pedido.

Minha mãe fazia aniversário em poucos dias.

Nada importante o bastante para parecer planejado.

Mas pessoal o bastante para justificar aproximação.

Rafa era exatamente o tipo de pessoa que se sentiria confortável ajudando alguém a escolher algo assim.

Um presente.

Um gesto.

Uma atenção.

Não seria sobre mim.

Seria sobre ele se sentir… necessário.

Sorri sozinho, quase sem perceber.

Algumas pessoas você conquista com charme.

Outras com desejo.

Rafa?

Rafa você conquista dando a ele um lugar onde ele pode baixar a guarda.

E eu tinha acabado de encontrar o meu.

O posto de enfermagem estava mais cheio do que eu gostaria.

Mas Leila estava ali, inclinada sobre alguns prontuários, concentrada — e, pelo que eu já tinha notado, sempre muito próxima do Rafa.

Amizade real.

Daquelas que não precisam de esforço.

Aproximei-me sem pressa, como quem só está matando tempo.

— Leila? — perguntei.

Ela levantou os olhos, desconfiada por hábito.

— Sou eu. Precisa de alguma coisa, doutor?

— Só uma opinião — respondi, apoiando o cotovelo no balcão. — Nada médico.

Isso sempre quebra a tensão.

— Minha mãe vai fazer aniversário — continuei, casual. — E eu sou péssimo com presentes. O Rafael comentou uma vez que você é boa nisso… mas eu fiquei pensando nele também.

Dei de ombros.

— Ele é mesmo tão bom assim?

Leila sorriu sem nem perceber.

— O Rafa? Nossa, é. Ele repara em tudo. Se você contar uma história da sua mãe, ele já transforma aquilo em alguma coisa bonita.

Exatamente como eu imaginava.

— Ele parece reservado — observei. — Não sei se ia querer se meter nisso.

— Ah, ele finge — ela riu. — Mas se você pedir, ele ajuda. Ele gosta de se sentir útil. E gosta de fazer alguém feliz, mesmo que não admita.

Anotei mentalmente cada palavra.

— Bom saber — murmurei.

— Vai pedir pra ele? — Leila perguntou.

— Acho que sim.

Ela assentiu, satisfeita.

— Ele vai gostar.

Talvez, pensei.

Ou talvez ele só não saiba dizer não quando alguém bate na porta certa.

Encontrei ele em um corredor e lancei a proposta, como esperado, ele aceitou mas com receio, muito previsível.

Marcamos para nos encontrar em meu apartamento no domingo, quando ele chegou ele tava lindo, gostoso e deu vontade...eu tentei criar um clima que não fosse neutro.

Coloquei uma música baixa, algo lento, íntimo demais para ser só fundo.

Rafa percebeu, claro.

Ele sempre percebe.

Abri uma garrafa de vinho e servi para mim.

— Quer? — perguntei, mais por ritual do que por expectativa.

Ele balançou a cabeça.

— Não, obrigado.

Nem hesitou.

Rafa sabia onde estava um limite — mesmo quando não sabia por quê.

Isso me interessou mais do que se ele tivesse aceitado.

Enquanto ele se ocupava com o presente, eu bebi devagar, observando.

A forma como ele se concentrava, como se aquilo fosse mais do que papel e fita.

Como se, por alguns minutos, estivesse autorizado a existir sem vigilância.

Comecei a cantar baixo, quase distraído.

A música não era para ele — mas ele ouviu.

Rafa sempre ouvia.

Eu me aproximava de vez em quando, comentava algo, ajustava uma dobra, criava uma desculpa para estar perto.

Ele sentia.

Mas não se afastava rápido demais.

Isso era o jogo.

O vinho não estava ali para deixá-lo tonto.

Estava ali para deixar o ar mais denso.

Quando comecei mei jogo de provocações, ele reagiu.

Ele levantou o olhar, tenso.

Curioso.

Dividido.

Eu avancei.

E isso, às vezes, é a maior provocação.

Quando ele foi embora, agradeci pelo presente e ofereci uma carona, não nego que eu queria ele.

Mas o que eu realmente tinha ganhado

era o espaço entre um limite e outro.

E esse espaço…

era onde eu pretendia ficar.

Eu me recostei na mesa após o presente ficar pronto, fui ousado mas já sabendo a resposta, como eu disse, previsível.

— Posso te levar em casa — ofereci, num tom casual demais para ser realmente casual.

Ele ergueu os olhos, surpreso só por um instante.

— Não precisa. Eu vou de uber.

Claro que ia.

Rafa sempre escolhia o caminho mais longo quando o curto parecia perigoso.

Não insisti, mas disse que ele era difícil, em um tom de brincadeira.

Insistência cedo demais quebra o encanto.

Ele assentiu, meio sem saber por quê.

Quando saiu, a porta se fechou devagar.

Eu fiquei olhando para o lugar onde ele tinha estado.

Ele tinha recusado o vinho.

Tinha recusado a carona.

Mas não tinha recusado a minha presença.

E, para mim,

isso já era o começo.

Ponto de Vista Rafael

O Uber ia tranquilo e com as ruas vazias.

Eu tentava pensar no plantão, no que me esperava no hospital, mas tudo dentro de mim insistia em girar em torno das mesmas duas pessoas.

Diego me deixava em estado de alerta.

Não era medo exatamente — era aquela sensação de estar perto de algo que pode sair do controle se você não presta atenção o tempo todo.

Eu sabia que ele via demais. Que calculava demais.

E, mesmo assim… uma parte de mim tinha gostado de ser visto daquele jeito.

Isso me irritava.

Luan, por outro lado, era fácil.

Com ele eu não precisava pensar tanto.

Mas o silêncio dele naquele dia tinha doído mais do que eu queria admitir.

Eu me perguntei, olhando meu reflexo no vidro do ônibus, se eu gostava de Luan pelo que ele era…

ou pelo que ele me fazia sentir quando estava por perto.

Menos sozinho.

Menos perdido.

Menos invisível.

Talvez eu estivesse carente demais.

Talvez estivesse tentando encaixar um sentimento num espaço que ainda estava vazio.

O hospital apareceu ao longe, aquela massa de luz no meio da noite.

Respirei fundo.

Eu não queria alguém só para preencher um buraco.

Queria alguém que quisesse ficar, mesmo quando não fosse simples.

E eu ainda não sabia se Luan era essa pessoa.

Mas também sabia que pensar em Diego daquele jeito…

não era inocente.

Entrei no plantão com o coração dividido entre a calma que eu conhecia

e a tensão que eu não sabia se deveria desejar.

O celular vibrou quando eu já estava fazendo minha primeira visita aos pacientes na internação.

Diego:

“Só pra saber… você chegou bem?”

Fiquei alguns segundos com o dedo suspenso sobre a tela.

Não era nada demais.

Mas também não era nada neutro.

Respondi do jeito mais simples que consegui.

Rafa:

“Cheguei sim. Obrigado por perguntar.”

Frio.

Educado.

Um pequeno muro.

Ele respondeu, agradecendo pela a ajuda novamente.

No apartamento do Diego, observei algumas fotos no qual a namorada estava junto dele, e meu Deus, aquela mulher era linda, parecia ser uma pessoa gentil, Diego não tinha o direito de fazer essas sacanagens/traições contra ela.

Mas, mesmo assim, eu sabia:

aquele contato já tinha sido feito.

E eu não tinha cortado.

Leila surgiu no posto de enfermagem como um furacão de mau humor bem-humorado.

— Rafa, eu sobrevivi ao almoço de domingo na casa da minha sogra, foi um grande milagre — ela disparou, jogando uma prancheta na bancada. — Aquela mulher consegue transformar frango em algo ofensivo.

Eu soltei um sorriso automático.

— O que ela fez dessa vez?

— Macarronada doce. DOCE, Rafa. — ela fez uma careta dramática. — Eu ainda tô sentindo o gosto.

Ela começou a rir, mas parou no meio quando me olhou melhor.

— Ei… você tá meio longe hoje. — inclinou a cabeça. — Aconteceu alguma coisa?

Eu pisquei, pego no flagra.

— Não. Quer dizer… nada demais.

— Aham. — ela cruzou os braços. — Esse “nada demais” aí tem nome?

Eu desviei o olhar.

— Tô só… pensando no Luan. No nosso encontro. Colocando algumas coisas no lugar, sabe?

Era a única parte segura da verdade.

Leila arregalou os olhos e abriu um sorriso malicioso.

— Meu Deus. — ela bateu palminhas. — Então vocês transaram e agora você tá aí todo pensativo, com saudade da pegada.

— Leila! — eu ri, quase engasgando. — Não! Não aconteceu nada disso.

— Uhum, sei… — ela piscou. — É sempre o que dizem.

— Sério. — balancei a cabeça, ainda sorrindo. — A gente só… saiu.

Ela riu mais alto.

— Que desperdício de química.

Eu rolei os olhos, divertido.

— Vai, me conta mais da macarronada criminosa da sua sogra.

Leila abriu um sorriso vitorioso.

— Agora sim, você voltou. Então, deixa eu te explicar o horror daquele molho…

E, enquanto ela retomava o desabafo teatral, eu agradeci em silêncio por aquele desvio — porque havia coisas demais dentro de mim que eu ainda não estava pronto para nomear.

Meu celular vibrou na mesa.

Era o Luan.

Luan:

“Oi… desculpa por sumir hoje. Foi corrido demais. Mal consegui pegar no celular.”

Respirei fundo.

Não parecia mentira, mas eu também sabia que ele não estava me contando tudo.

Rafa:

“Tá tudo bem… sei como é quando o dia fica assim.”

Havia algo não dito entre nós.

Um espaço que ele não preenchia, mas que eu sentia.

Luan:

“Saudades de você.”

Sorri de leve.

Rafa:

“Também…

Aceitei a desculpa dele.

Mesmo sabendo que algo estava ali, não contado.

E, de algum jeito, esse equilíbrio frágil parecia ser exatamente o que precisava.

Luan:

“Eu fiquei pensando… queria poder te dar mais beijos. Sabe? Aqueles que ficam na memória.”

Sorri, sentindo um calor subir pelo peito.

Ele sempre tinha essa forma de ser direto, mas ainda assim gentil, que me fazia querer derreter sem perceber.

Rafa:

“Luan… você fala demais.” — digitei, rindo baixo. — “Vai me deixar todo sem jeito.”

Luan:

“Não me importo se você ficar sem jeito.” — a mensagem veio quase sussurrada na tela. — “Só queria que você soubesse que eu estou começando a gostar de você. Sei lá.”

Meu coração acelerou por um segundo.

Era doce. Era simples.

Mas carregava intensidade suficiente para fazer meu peito apertar.

Rafa:

“Eu estou curtindo te conhecer e estou começando a gostar de você também… ”

Na verdade já estava gostando muito dele, mas não queria mostrar isso de uma vez, não queria mostrar desespero.

Luan:

“Que bom, lindo.” — ele respondeu rápido, como se quisesse me tranquilizar. —

“Mas não consigo evitar de pensar em você. Cada sorriso seu, seu corpo, cada gesto… eu fico preso nisso.”

Sorri de novo, mais devagar desta vez, sentindo que aquela mensagem tinha mais peso do que qualquer palavra dita em voz alta.

Luan começava a mostrar que não era só presença.

Era cuidado.

Era desejo.

E, apesar da confusão que Diego tinha deixado, algo dentro de mim queria acreditar que, com Luan, ainda podia haver calma.

Continuamos trocando mensagens por mais alguns minutos.

Luan me fazendo rir, lembrando de pequenas piadas nossas, me mandando umas indiretas fofas sobre os beijos que ainda estavam por vir.

Eu respondia, cuidando para não me expor demais, mas deixando a gentileza fluir.

Até que ele finalmente disse:

Luan:

“Preciso dormir pois amanhã é cedo, vou visitar algumas fazendas … mas prometo que amanhã a gente conversa de novo.”

Rafa:

“Boa noite, Luan. Durma bem.”

Guardei o celular, sentindo aquela mistura de leveza e ansiedade que só ele sabia provocar.

Voltei meu foco para o plantão da madrugada.

Leila já estava à espera, com aquela energia exagerada que só ela tinha, reclamando de algum paciente ou de alguma burocracia do hospital.

— Rafa! — ela exclamou, rindo — você não vai acreditar no que a senhora do quarto 12 aprontou hoje!

Sorrindo, senti que, apesar de tudo que estava acontecendo na minha cabeça, a madrugada ainda podia ter espaço para risadas e distração.

E, por alguns minutos, foi exatamente isso que eu permiti: deixar a tensão de lado, pelo menos até o próximo turno.

O fim do plantão chegou sem alarde.

E, pela primeira vez naquela noite, eu percebi algo que meu corpo já tinha entendido antes de mim:

Diego não estava de plantão.

Senti um alívio imediato, quase automático. Não precisei lidar com aquela tensão constante, com a sensação de estar sendo observado além do necessário. Agradeci em silêncio pela ausência dele. Aquela madrugada já tinha pensamentos demais ocupando espaço.

Saí do hospital com o céu clareando devagar. No ônibus, encostei a testa no vidro frio, deixando o cansaço pesar. Mesmo exausto, minha mente insistia em voltar para o mesmo lugar.

Luan.

O jeito simples. As mensagens diretas. A presença que não exigia defesas.

Cheguei ao apartamento e comecei a arrumar a casa sem pressa. Meus pais não moravam ali — a vida deles era na fazenda, entre rotina, terra e silêncio. Eles viriam só dar uma passada mais tarde, trazer algumas coisas, matar a saudade e seguir viagem.

Essa dinâmica sempre foi assim. Aproximações intensas, mas breves. Como se todos nós tivéssemos aprendido a amar sem invadir demais.

Enquanto trocava a roupa de cama e abria as janelas, meu celular vibrou.

Luan:

“Bom dia… dormiu alguma coisa ou só sobreviveu ao plantão?”

Sorri sozinho, sentado na beira da cama.

Rafa:

“Sobrevivi hihi, agora oficialmente um ser humano funcional.”

Luan:

“Gosto dessa sua versão cansada. Fica mais sincera.”

Balancei a cabeça, rindo baixo.

Rafa:

“Perigoso você gostar demais.”

Luan:

“Já tô gostando, né…

Mas deixa eu te perguntar uma coisa.”

Esperei, sentindo aquele frio leve no estômago.

Rafa:

“Diz.”

Luan:

“Sexta eu vou estar livre à noite.

Que tal a gente fazer algo? Nada complicado… um jantar, um vinho, ou só ficar conversando besteira.”

Fiquei alguns segundos olhando a tela. Não porque não quisesse. Mas porque parte de mim ainda tinha medo de demonstrar o quanto queria.

Meus pais passariam ali naquele dia. A semana seria cheia. A cabeça, confusa.

E, ainda assim, a ideia de sexta com ele trouxe uma calma inesperada.

Rafa:

“Sexta eu consigo, sim.

Gosto dessa ideia de ‘nada complicado’.”

A resposta dele veio rápido demais para ser calculada.

Luan:

“Então tá combinado.

Prometo não morder… muito hehehe”

Sorri, sentindo o peito aquecer daquele jeito específico que só ele provocava.

Rafa:

“Vou cobrar essa promessa.”

Guardei o celular e voltei a arrumar o apartamento. Meus pais chegariam em algumas horas, fariam perguntas, dariam conselhos não solicitados, deixariam comida demais na geladeira e seguiriam de volta para a fazenda.

E eu ficaria ali, no meio desse vai e vem de afetos, tentando entender meus próprios limites.

Mas, pela primeira vez em dias, havia algo à frente que não me deixava em alerta.

Só em expectativa.

Sexta-feira.

E, naquele momento, isso parecia suficiente para seguir em frente.

A campainha tocou no começo da tarde.

Eu já sabia quem era antes mesmo de abrir a porta.

— ¡Mi hijo! — minha mãe disse assim que me viu, me puxando para um abraço apertado demais para quem “só ia dar uma passada”. — Mira você, todo magrinho… você tá comendo direito, Rafael?

— Tô sim, mãe — respondi, rindo baixo, ainda preso nos braços dela.

Meu pai veio logo atrás, carregando duas sacolas.

— Ela sempre acha que você não come — disse, com aquele tom calmo de quem já conhecia o roteiro. — Mas tá com cara de cansado. Plantão?

— Plantão — confirmei. — Entra, pai.

Minha mãe entrou olhando tudo, como se estivesse fazendo uma inspeção silenciosa.

— Esse apartamento… ay, Rafa, você deixou tudo muito fechado. Tem que abrir janela, deixar o ar entrar, assim a casa respira. — Ela foi direto abrir a varanda. — Na fazenda o vento entra sem pedir licença.

— Aqui o vento vem com barulho de ônibus, mãe.

Ela riu, mas logo me lançou um olhar reprovador.

— E fala espanhol comigo, meu filho. Em casa você falava, agora fica me respondendo tudo em português. — balançou a cabeça. — Parece que desaprendeu.

— Não desaprendi — respondi, mudando o tom sem perceber. — Só… acostumei.

— Acostumou nada — ela retrucou, já misturando tudo. — Español no se pierde, Rafa. É raiz.

Sorri, sentindo aquele aperto familiar no peito.

Enquanto meu pai deixava as sacolas na cozinha, minha mãe me observava com atenção demais.

— Você tá diferente — disse. — Mais quieto.

— Tô só cansado, mamá.

Ela cruzou os braços.

— Cansada eu também fico. Mas isso aí não é só cansaço. — apontou para o peito. — É coisa do coração.

Desviei o olhar, abrindo uma das sacolas.

— Você sempre acha que é drama.

— Porque quase sempre é — respondeu, sem hesitar. — Agora, vem cá… — ela pegou meu rosto entre as mãos. — Você tá feliz?

Respirei fundo antes de responder.

— Tô… tentando.

Ela me abraçou de novo, mais devagar dessa vez.

— Entonces tá bien. A gente tenta, e o resto a vida vai ajeitando.

Meu pai apareceu na porta da cozinha, segurando um pote.

— Trouxemos algumas verduras. Porque, sim, você come — disse, sorrindo de canto.

— Eu sabia — murmurei.

Sentamos à mesa por alguns minutos. Conversa simples, histórias da fazenda, reclamações do tempo seco, da estrada esburacada. Aquela normalidade que sempre me lembrava de onde eu vinha.

Enquanto minha mãe falava, eu pensei em como tinha esquecido de comentar com Luan que falava espanhol. Não por vergonha. Mas porque, de alguma forma, aquela parte de mim ficava guardada em casa, junto com eles.

Minha mãe tinha me ensinado desde pequeno. Espanhol misturado, vivo, cheio de afeto. Era língua de cuidado, de bronca, de amor.

Talvez fosse algo que eu ainda estivesse aprendendo a dividir.

Antes de saírem, minha mãe parou na porta da cozinha, segurando minha mão com as duas dela

.

— Rafa… mi niño, cuídate, sí? — disse, olhando direto nos meus olhos. — Tú trabajas demasiado.

— Lo sé, mamá. — respondi, apertando os dedos dela. — Pero estoy bien. De verdad.

Ela me puxou para um abraço apertado, desses que parecem querer compensar distância e tempo.

— Siempre dices eso. — murmurou no meu ouvido. — Pero tu corazón… yo siento que está inquieto.

Afastei um pouco o rosto, sorrindo com carinho.

— Tal vez. — admiti. — Pero no estoy solo. Eso ya es algo.

Ela sorriu, aliviada.

— Eso me gusta escuchar. — passou a mão pelo meu rosto. — Y no te olvides de quién eres, Rafael. Ni de dónde vienes.

— Nunca. — respondi, sincero. — Todo lo que soy, lo aprendí contigo.

Meu pai pigarreou alto atrás da gente.

— Dá pra traduzir aí ou vocês vão continuar conversando em segredo? — reclamou, cruzando os braços. — Eu tô me sentindo um figurante.

Minha mãe riu.

— Ay, deixa de drama. A gente tá falando de amor. Você entende isso em qualquer idioma.

— Entendo nada — ele retrucou. — Só sei que toda vez que vocês começam com esse espanhol, eu fico sobrando.

Abracei os dois ao mesmo tempo.

— Relaxa, pai. — sorri. — É só saudade misturada com carinho.

— Sempre é — ele respondeu, mas me apertou contra o peito antes de soltar.

Pouco depois, eles foram embora. E o apartamento voltou a ficar quieto, com aquele silêncio cheio de coisas não ditas.

A semana seguiu com aquela normalidade estranha que só quem vive de plantão conhece.

Com Luan, as conversas continuaram todos os dias. E já não eram só leves — eram quentes na medida certa, íntimas o bastante para me deixar acordado à noite imaginando coisas que eu ainda não tinha vivido com ele.

Na terça, eu precisei trocar o plantão de sexta-feira. Uma troca simples, dessas que todo mundo faz quando a vida pede espaço. Nada demais. Pelo menos era o que eu dizia para mim mesmo.

Eu queria estar livre para encontrar Luan.

Quinta-feira chegou sem alarde.

O hospital estava mais silencioso quando Diego se aproximou no fim do corredor, passos tranquilos, como se tivesse ensaiado aquele momento.

— Rafa, posso falar com você um instante?

Assenti.

— Minha mãe vai fazer um jantar no sábado, é seu aniversário — começou. — Coisa pequena. Família, alguns amigos.

Esperei.

— Eu já entreguei o álbum e ela amou e comentou que queria conhecer o autor da delicadeza. — sorriu de leve. — Eu pensei em você.

Meu primeiro impulso foi recuar.

— Diego eu fico feliz que ela gostou mas,… eu nem conheço sua mãe, ajudei no presente me baseado no que você disse.

— Justamente. — respondeu, calmo. — Não precisa levar nada. Só ir.

Hesitei. Meu corpo inteiro avisava para ter cuidado.

Sexta seria Luan.

Toque.

Desejo.

Algo que eu queria de verdade.

Sábado… aquilo era diferente. Incerto.

— No sábado vou passar a tarde com uma amiga que vai chegar na cidade— falei, tentando criar uma barreira. Mas não era mentira, minha melhor amiga iria chegar em Uberlândia e eu queria muito vê-la.

— O jantar é à noite — ele respondeu rápido demais. — E se ficar cansado, pode ir embora quando quiser.

Silêncio.

— Pensa com carinho — completou. — Eu gostaria muito que você fosse.

E ali estava o problema: ele sempre colocava como escolha, nunca como pressão.

— Tá… — respondi, sentindo o sim escapar antes do medo. — Eu vou.

O sorriso dele foi contido, mas havia algo por trás. Algo que eu não soube nomear.

— Ótimo. Te mando o endereço.

Quando ele se afastou, eu soube que tinha acabado de aceitar algo que não entendia completamente.

Um pouco depois, o celular vibrou.

Luan:

“Falta pouco pra sexta… tô pensando demais em você, se desse eu queria era te ver hoje mesmo.”

Sorri, sentindo o corpo reagir antes da cabeça.

Rafa:

“Eu também.”

E, pela primeira vez, o pensamento de estar com alguém de verdade — pele, desejo, entrega — não me pareceu distante.

Mas havia duas datas no meu horizonte agora.

Uma que me dava vontade.

Outra que me deixava em alerta.

E eu não sabia qual delas me mudaria maisBom pessoal, capítulo quatro entregue, peço por gentileza que quem puder comentar dizendo oque acha, se a história tá chata ou algo do tipo se o cap tá pequeno ou grande demais, isso incentiva demais, agradeço pela a leitura e fiquem bem ;)

Siga a Casa dos Contos no Instagram!

Este conto recebeu 0 estrelas.
Incentive Tavinho567 a escrever mais dando estrelas.
Cadastre-se gratuitamente ou faça login para prestigiar e incentivar o autor dando estrelas.

Comentários