O alarme do meu celular começou a tocar às 8:30 como um pato: um tom antigo e inextinguível do iOS que cortou meu sono. Tateei por ele, apertei soneca, depois passei um minuto inteiro piscando pro teto, meus olhos secos e ásperos. Meu corpo parecia usado. A única coisa ainda viva era a dor entre minhas pernas, uma sobra de muitas horas pensando na Manda, depois tentando não pensar nela, depois cedendo e pensando nela ainda mais forte. O que, por sua vez, só me deixou mais cansado. Fiquei ali um tempo, dormente, antes de finalmente rolar e sentar.
A casa tava tão quieta que podia ter sido abandonada. O ar tava velho e frio, e conforme caminhava descalço em direção ao banheiro, cada passo ameaçava me jogar pra frente. Tinha ido dormir às três e dormido talvez quatro horas, mas meu cérebro já tava vibrando com o tipo de clareza de ressaca que só vem do arrependimento e frustração sexual.
Abri a porta do banheiro e parei morto: no chão, bem ao lado do tapete, tinha uma calcinha da Manda.
Não do tipo do dia a dia, mas do tipo que você compra de brincadeira com uma amiga e acaba usando em dia de lavar roupa—algodão vermelho com bananinhas pequenas por toda parte. Por um segundo me perguntei se era intencional, se ela tinha deixado ali pra eu encontrar, mas então meu cérebro deu curto-circuito na implicação e só fiquei ali parado, burro, sem saber se pegava ou deixava como evidência.
*Isso tem que ser de propósito. TEM que ser. Ninguém deixa calcinha no chão do banheiro assim.*
Eventualmente só passei por cima, fiz meu negócio, e gastei tempo extra na pia lavando as mãos. O espelho acima da torneira mostrava um cara que parecia exatamente que merecia encontrar a calcinha da irmã no chão: olhos inchados, lábios rachados de mascá-los a noite toda. Não consegui evitar—dei uma última olhada nelas antes de descer, meus pensamentos em modo scramble completo. Ela já tava acordada? Ela sabia que eu veria? Isso era só mais uma "Manda sendo Manda," ou era pra ser uma mensagem?
Na cozinha, liguei a Nespresso e percebi que a única coisa que queria no mundo era um copo gigante de água gelada. Entornei dois, depois despejei um terceiro por efeito, tentando matar o gosto seco e culpado na boca.
A Manda já tava acordada, caminhando até a ilha da cozinha num par daqueles shorts de pijama xadrez felpudos e uma camiseta do Fresno que parecia ter sobrevivido três incêndios domésticos. Ela apoiou o celular contra a caneca de café e começou a assistir algum tipo de vídeo de reação musical, mas olhou pra mim.
"Bom dia," ela disse, casual demais. Não tinha menção às calcinhas. "Você vai buscar a mãe hoje, né?"
Chequei a hora no celular, fiz careta. "Ela pousa em tipo uma hora e meia."
A Manda revirou os olhos. "Você sempre diz isso e depois ela acaba ficando parada perto da esteira de bagagem por uma hora. Nem todo mundo funciona no horário de gamer, Bruno."
Dei de ombros, depois fiz uma grande produção de colocar uma cápsula de expresso na máquina, a esperança sendo que se eu parecesse ocupado o suficiente, ela pararia de me encarar com aquela expressão levemente sabida, levemente zombeteira.
Não funcionou.
A Manda sorriu pra si mesma, enfiando uma perna embaixo dela no banquinho. Conseguia ver a sombra da coxa dela contra os shorts, e, Jesus, a marca da grade do banquinho na parte de trás da panturrilha dela. Pensei na calcinha de novo, me perguntei se ela tinha notado que eu tinha notado, e então mentalmente me chutei por pensar demais em cada coisa que minha irmã fazia.
Ela olhou pra cima do celular. "Vou pro aeroporto também, a propósito."
Pisquei. "Você não tem, tipo, planos ou algo assim?"
Ela balançou a cabeça. "A Júlia tem aniversário do padrasto. E de qualquer jeito, a mãe me pediu pra ir pra ela não ter que voltar ouvindo sua música. Falei pra ela que ia te impedir de ouvir podcasts de nerd o caminho todo."
Mas então o silêncio durou só um pouco mais, e ela disse, "Sabe, tudo bem se você quiser conversar sobre isso."
Congelei com o garfo no meio do caminho pra boca. "Conversar sobre o quê?"
"O que quer que seja que tá te fazendo agir como se fosse ser atropelado por um ônibus." Ela sorriu, mas os olhos dela tavam sérios agora. "Você não precisa fingir que nada aconteceu, sabe."
Não tinha resposta, então só tomei outro gole e encarei a pia até ela se virar e fingir checar o celular.
*Ele sabe que eu sei. E eu sei que ele sabe. E isso é tão bizarro.*
Às 9:15, nos empilhamos no meu carro—eu no banco do motorista, ela no carona. Ela tinha colocado roupa de verdade pra ocasião: calça jeans preta rasgada, coturno, um moletom desbotado com as mangas empurradas até os cotovelos. Eu tinha ido pro clássico "cara buscando a mãe no aeroporto"—calça de moletom limpa e camiseta branca.
No segundo que ela entrou no carro, a Manda plugou o celular e colocou uma playlist do Spotify chamada "LIXO '06." Os acordes de abertura de "Epitáfio" dos Titãs explodiram pelos alto-falantes num decibel que poderia qualificar como perturbação da paz pública.
"Tamo realmente fazendo Carpool Karaoke?" perguntei, mas tava sorrindo.
Ela só sorriu, olhos na janela. "Enfrenta, otário."
Cantamos junto, ou melhor, ela cantou e eu murmurei os refrões. Quando chegamos na entrada da rodovia, ela tava balançando a cabeça tão forte que o rabo de cavalo tava batendo no encosto. Observei ela pelo canto do olho—ela era tão ela mesma agora, brilhante e desprotegida, e por uma fração de segundo consegui acreditar que a noite passada foi só um sonho esquisito.
Quando a música terminou, ela abaixou o volume e olhou. "Você tá desafinado, a propósito."
"É, bem, você é surda," retruquei, mas era só meio sincero.
O resto da viagem foi assim: uma playlist rotativa de emo dos anos 2000, com discussões periódicas sobre o gosto musical de quem era pior. Ela me testou nos nomes das bandas e me corrigiu cada vez que errei. Pegamos trânsito perto do aeroporto, o que deu tempo dela atualizar a mãe por mensagem.
"ETA dez minutos," ela leu em voz alta, polegares voando rápido. "Ela diz pra encontrar no Portão 2. Também diz pra não deixar você fumar maconha antes de buscar ela, mas falei que você parou."
Ri. "Nunca comecei."
Ela deu de ombros. "Ela não precisa saber disso."
Ficamos parados no meio-fio das Chegadas. A mãe tava parada do lado de fora do terminal, arrastando uma mala de rodinhas e usando a mesma jaqueta sem marca que tinha há uma década. O cabelo tava preso num coque, e ela parecia exausta.
Ela nos viu e acenou, depois empurrou a bagagem com uma mão enquanto a outra segurava o celular. Saí pra ajudar com a mala, mas a Manda me passou na frente, pegando a alça e jogando no porta-malas com um movimento praticado.
"E aí, vocês dois," a mãe disse, se inclinando pra um abraço lateral rápido que de algum jeito perdeu nós dois. "Como foi o zoológico enquanto eu tava fora?"
A Manda respondeu antes de mim. "O Bruno deu uma festa gigante e me trancou no meu quarto o fim de semana todo. Você provavelmente deveria checar por danos."
A mãe olhou pra ela, depois pra mim, depois deu um sorrisinho. "Você não precisa mentir pra fazer seu irmão parecer mal. Ele faz isso muito bem sozinho."
Tentei revirar os olhos, mas a mãe já tava subindo no banco de trás.
"Então o que vocês realmente fizeram?" ela perguntou, enquanto saía do meio-fio.
"Nada," disse.
A Manda olhou pra mim no espelho. "É. Basicamente nada."
A mãe fez um hmm, aquele que ela usava quando tava arquivando algo pra depois.
Não conversamos muito no caminho pra casa. A mãe scrollou pelo email, eu foquei na estrada, e a Manda assistiu a paisagem piscar: parques industriais, concessionárias de carros, a estátua esquisita de dinossauro do lado de fora do mini-golfe. Tinha algo reconfortante sobre nós três juntos, mesmo que estivéssemos só orbitando nossos próprios pensamentos.
Quando chegamos na garagem, tinha começado a garoa de novo—só uma fina e incerta, como se o mundo tivesse tentando dar reset. A Manda pulou pra fora, pegou a mala, e liderou o caminho pelo trajeto, coturno esmagando pela lama. Fiquei pra trás, sentindo o peso da noite passada e o peso da manhã, ambos se empilhando no meu peito.
Dentro, a casa parecia a mesma de sempre, mas agora tava de volta à potência total: três pessoas, três conjuntos de passos, três pulls gravitacionais separados.
Uma vez que a porta fechou atrás de nós, a Manda largou a mala da mãe perto das escadas, depois virou pra mim com um estalar de dedos. "Rápido rápido. Preciso de café da manhã e não confio na mãe pra cozinhar nada pra gente parecendo tão cansada."
Ela não esperou por resposta, só saiu pra sala, onde ouvi o riso metálico de um TikTok. A mãe ergueu a mala um degrau de cada vez.
Me retirei pra cozinha, coloquei uma panela no fogão, e comecei a trabalhar. Bacon primeiro, depois ovos, depois pêssegos da geladeira fatiados em luas crescentes. Coloquei cottage cheese em três pratos, e então comecei a queimar meu polegar na borda da panela.
Enquanto o bacon chiava, scrollei o Reddit. Fechei o app, encarei a panela, e deixei minha mente vagar pro banheiro de novo. A calcinha. O jeito que a Manda tinha me olhado. O jeito que meu corpo tinha ido a todo vapor, como se eu fosse um brinquedo de corda com só uma configuração.
Mandei mensagem pra mãe quando os ovos tavam prontos.
Também gritei pra Manda, "E aí, Idiota, comida pronta."
Ela respondeu instantaneamente: "traz pra mim, plebe"
Levei a comida pra sala. A Manda tava enrolada no sofá, ainda na regalia punk, celular segurado a centímetros do nariz. Ela olhou pra cima, pegou o prato, e deu um sorrisinho. "Você é tão obediente."
Sentei na poltrona do outro lado dela, balanceei meu próprio prato num joelho, e tentei não notar o jeito que as pernas dela tavam dobradas. Comemos em silêncio, exceto pelo baque molhado de pêssegos contra cottage cheese e os sons abafados de uma animação do YouTube tocando no celular dela. Depois de um minuto, a mãe arrastou os pés pra dentro, ainda nas roupas do aeroporto, e colapsou na outra ponta do sofá. O cabelo dela tava uma bagunça. Parecia ter envelhecido um ano no tempo que levou pra subir e descer as escadas.
"Ovos?" ofereci, levantando o prato.
"Sim, por favor."
Fiz um café pra mãe e deslizei pela mesa. Ela tomou um gole, suspirou, depois fixou a Manda com um olhar que poderia vaporizar uma planta de casa.
"Então. Qual o plano hoje?" a mãe perguntou, brilhante demais.
A Manda não olhou do celular. "É terça-feira. Não tem plano."
"Sempre tem um plano," a mãe disse, e então olhou pra mim como se eu fosse pular e salvá-la.
Dei de ombros. "Podia fazer uma ida no Atacadão se você quiser. Já resolve pra semana."
A mãe animou, tanto quanto alguém pode "animar" depois de dois dias de comida de aeroporto e iluminação fluorescente. "Gosto dessa ideia."
A Manda revirou os olhos, mas não protestou. "Beleza. Mas não vamos pegar aquele pão low-carb de novo. Tem gosto de tristeza."
A mãe tomou um gole do café, olhos afiados por cima da borda. "Vocês dois vão comigo, então?"
Acenei, e, pra minha surpresa, a Manda também. Ela até sorriu. "O quê? Não quero ficar em casa sozinha," ela disse, depois piscou na minha direção. Quase deixei cair o garfo.
Terminamos o café da manhã, limpamos, e passamos meia hora na confusão familiar de compras—a mãe cavando pela garagem por sacolas reutilizáveis, a Manda procurando um gorro aleatório, eu vagando pelo corredor fingindo estar ocupado. Peguei um cheiro do perfume dela—algo cítrico, azedo e doce ao mesmo tempo—pairando no ar quando ela passou, e isso disparou outra reação em cadeia estúpida na minha cabeça. Saí disso quando ela chamou meu nome da porta da frente.
"Bruno. Move a bunda. A mãe tá esperando."
A ida pro Atacadão foi rotina: CBN no fundo, a mãe reclamando de alguma parada da câmara municipal, a Manda scrollando pelo celular no banco de trás, fones enfiados. Tentei focar na estrada, mas cada vez que olhava no retrovisor, pegava ela me observando—olhos grandes, sobrancelhas pra cima, como se tivesse tentando me pegar pensando algo que não deveria.
Entramos no depósito juntos, e a rajada de ar frio bateu como um soco. Instantaneamente, a Manda desapareceu nos corredores de amostras, enquanto a mãe me arrastou pra direção oposta.
A mãe assumiu o dever do carrinho e tava olhando uns livros na seção de livros, saí pra pegar mais multivitamínicos. Fiquei parado na frente da parede de vitaminas, e peguei duas garrafas diferentes, comparando ambas. Do nada, a Manda se aproximou do meu lado, segurando uma garrafa de magnésio numa mão e uma caixa de stroopwafels na outra.
Ela se inclinou perto, abaixou a voz. "Sabe, o TikTok diz que magnésio ajuda com sua... ah... saúde sexual." Ela pronunciou "saúde sexual" com uma pequena entonação, alto o suficiente só pra eu ouvir.
Senti minhas orelhas ficarem vermelhas. "Não que você precise de ajuda," ela disse, fria quanto podia.
*Acabei de falar isso. Merda. Por que eu falei isso?*
Ela deu um sorrisinho, colocou o magnésio de volta na prateleira, e foi embora com um balanço lento e exagerado nos quadris que fez meu cérebro dar curto-circuito. Observei ela ir, observei ela desaparecer dobrando a esquina no corredor de barras de proteína, e percebi que tava apertando a garrafa de vitamina tão forte que meus nós dos dedos tavam brancos.
Segui atrás, meu coração batendo forte, cada pensamento na minha cabeça reduzido a um único gif repetindo dos quadris da Manda se movendo embaixo da calça jeans.
Fizemos o resto das compras num borrão: saladas ensacadas, leite de aveia, mix de castanhas, aquele pão low-carb estúpido que a Manda jurou que odiava mas sempre comia metade do pão de qualquer jeito. No caixa, ela fez questão de jogar um pacote gigante de vitaminas de goma, depois sorriu pra mim.
No carro, a tensão fervilhou. A Manda sentou atrás, pernas esticadas então o coturno batia na parte de trás do meu banco a cada solavanco do carro. Ela passou a maior parte da viagem cantarolando baixinho, olhando pela janela, depois me olhando no espelho e fazendo caretas bobas quando me pegava olhando.
Tentei ignorá-la. Falhei.
De volta em casa, descarregamos a carga do Atacadão e nos retiramos pros nossos cantos: a mãe pro escritório, eu pra cozinha pra guardar tudo, a Manda pro quarto. Pensei na piada do magnésio, o jeito que ela tinha me olhado quando disse "saúde sexual," e aquele flutter esquisito no peito que não parecia ansiedade ou medo mas algo completamente diferente.
Saímos de novo não trinta e cinco minutos depois, dessa vez pro mercado orgânico, porque a mãe insistiu que o hortifruti do Atacadão era "tudo sobre quantidade, nunca sobre sabor." Mal consegui guardar tudo do Atacadão antes da Manda estar buzinando na garagem, a mãe já no meio das escadas com a bolsa gigante batendo no quadril.
Na seção de hortifrúti, a mãe entrou em modo ditador completo, escaneando e rejeitando metade dos vegetais com a mesma fungada julgadora que usava no perfume do pai quando éramos crianças. A Manda ficou pra trás, jogando casualmente uma abobrinha amarela pro ar, mas quando chegou na cesta de pepinos ela pegou um—comprido, grosso, e curvado o suficiente pra fazer um ponto—e segurou pela ponta, balançando levemente na mão.
Ela pegou meu olhar e mexeu as sobrancelhas, depois deu no pepino uma passada lenta e obscena antes de largá-lo no saco com uma nonchalância praticada. Meu corpo inteiro ficou rígido, cada molécula de sangue se redirecionando pro lugar menos apropriado possível. Segui atrás dela, tentando ajustar a cintura discretamente, mas quanto mais tentava, pior ficava.
A mãe chamou, "Bruno, pega mais três desses. Os grandes—eles duram mais." Ela nem olhou pra gente, já focada laser no próximo alvo.
A Manda voltou e ficou ao meu lado, perto o suficiente pra eu sentir o calor do corpo dela. "Precisa de ajuda escolhendo?" ela sussurrou, a respiração quente no meu ouvido.
Balancei a cabeça, tentei pegar os primeiros pepinos que encontrei, mas cada vez que olhava pra baixo, via os dedos dela, as unhas descascadas de preto, a pequena cicatriz em lua crescente no nó dos dedos de quando éramos crianças. O saco quase escorregava da minha mão quando chegamos no caixa.
Em casa, a Manda largou as sacolas de mercado no balcão e chamou dibs no chuveiro. Ela desapareceu escada acima enquanto a mãe começou a fazer almoço: saladas Caesar, croutons extras, parmesão ralado de verdade, e—claro—os pepinos, fatiados finos e em leque na borda de cada tigela.
Sentei na ilha da cozinha, estômago em nós, meio ouvindo a mãe narrar o próprio processo de pensamento em voz alta.
"Saladas Caesar são clássicas por uma razão," ela disse, mais pra si mesma que pra mim.
A Manda voltou quinze minutos depois, cabelo úmido, agora usando um shorts de ciclismo e um corta-vento retrô grande que engoliu os braços dela e fez ela parecer uma viajante do tempo dos anos 80. Ela se jogou numa cadeira e imediatamente começou a enfiar croutons na boca.
A mãe colocou as saladas e finalmente sentou, depois passou um minuto inteiro scrollando pelo celular antes de lançar numa recapitulação ponto por ponto da viagem de trabalho. Foi um borrão de lobbies de hotel, colegas de trabalho esquisitos, e "o pior café que já tomei na vida." Acenei e uh-huh em intervalos apropriados, mas cada vez que a Manda espetava uma fatia de pepino e enfiava na boca, eu conseguia sentir minha própria pele esticando mais.
"Então, qual seu plano pro resto do recesso?" a mãe perguntou, olhos de repente em mim.
Me atrapalhei. "Só... jogando, saindo com a Manda, acho." Senti as palavras saírem, ocas e estúpidas.
A mãe olhou pra Manda, depois de volta pra mim, depois pro celular. "Tenta pegar um ar fresco, pelo menos? Talvez não hiberne até o próximo semestre começar, Manda."
"É," disse, "com certeza."
A Manda terminou a salada em tempo recorde, limpou a boca com as costas da mão, depois anunciou, "Vou fazer um dia de spa com a Júlia amanhã. Máscaras faciais e tal. Você vai sobreviver?"
Levou um segundo pra perceber que ela tava falando comigo. "É, óbvio," disse, rápido demais.
Ela sorriu, todos os dentes e desafio. "Legal."
Depois do almoço, voltei escada acima, ainda tentando fazer desaparecer a memória dela segurando o pepino, o pequeno brilho nos olhos dela, o jeito que a boca dela parecia quando envolveu no garfo da salada. Queria acreditar que ela tava só mexendo comigo. Queria acreditar que eu não era o maior pervertido do mundo por querer que ela fizesse de novo.
Mas eu era, e queria.
Passei a maior parte da tarde no meu quarto, headset ligado, moendo partidas de Valorant com o mesmo squad com quem jogava desde o ensino médio. Era pra ser um reset—um jeito de branquear meu cérebro e lavar cada pensamento intrusivo—mas só consegui duas rodadas antes de me distrair e perder um ping de inimigo, custando a extração do meu time.
"Mano, que porra?" crepitou nos meus ouvidos, e murmurei algo sobre lag antes de virar o mic no mudo. A razão real era um flash de amarelo e azul perto da minha cômoda: uma tanga, amassada no chão, obviamente da Manda.
Encarei por um minuto inteiro, dividido entre horror e um interesse baixo e pulsante. Ela deve ter deixado de propósito durante o chuveiro pós-mercado, mas tava bem ali, no meu quarto, visível da minha escrivaninha—como se ela soubesse que eu veria. Como se ela quisesse que eu visse.
*Isso. É. De. Propósito. Tem que ser.*
Levantei, fechei a porta pro corredor, e tentei esquecer. Durou talvez cinco minutos antes da curiosidade me puxar de volta. Peguei, senti o estiramento macio do tecido, e então joguei no banheiro como se fosse radioativa. Mesmo depois de lavar as mãos, a imagem tava queimada no meu cérebro: as bolinhas, o calor fraco, a memória proibida das pernas da Manda na cozinha, enroladas embaixo dela enquanto comia croutons e fazia piadas sobre vitaminas.
Voltei pra escrivaninha, desmutei, e imediatamente levei gank de novo.
"Cara, você tá chapado?" meu companheiro de squad exigiu.
"Só cansado," menti. "Dia longo."
Digitei "ggs, parei por agora" no chat, sai do jogo, e passei a próxima hora scrollando TikTok com o som baixo, ignorando tudo exceto o pulso na virilha e a sensação estranha e oca no peito.
Às 17:15, meu celular vibrou com uma mensagem: manda: mãe disse jantar em 10 mins.
Lavei o rosto, tentei limpar a cabeça, depois desci. A cozinha brilhava com o tipo de luz do pôr do sol que você só pega no auge do inverno, uma névoa dourada que fazia tudo parecer macio e limpo, até a pilha de pratos sujos perto da pia.
A mãe tava tirando a massa de macarrão que tinha feito antes da viagem—em camadas com quantidades obscenas de queijo, crocante nas bordas e borbulhando no meio. Ela me passou uma faca e me disse pra fatiar "como uma pessoa normal," que era o jeito dela de dizer pra não cortar um pedaço do tamanho de um tijolo e comer de pé.
A Manda já tava no balcão, cabelo ainda úmido, usando outro dos meus moletons antigos e shorts de academia. (Ela trocou de novo?) Ela olhou quando sentei e fez uma cara, depois colocou queijo extra no prato dela.
Comemos mais em silêncio, exceto pelo raspar de garfos e o som da mãe catalogando sobras pra si mesma. A mãe ocupada Googlando o tempo pra amanhã. "A gente deve ter mais chuva hoje à noite," ela disse. "Talvez vocês dois possam limpar a calçada de manhã?"
A Manda gemeu. "Trabalho manual, nessa economia?"
Acenei, e tentei não olhar pra boca dela.
Depois do jantar, limpamos, carregamos a lava-louças, e esperamos pelo próximo movimento. A mãe se retirou pro quarto, e a Manda foi escada acima também, me deixando sozinho na cozinha com a travessa de massa vazia e os últimos pedaços crocantes de queijo.
Encarei a janela, observei a escuridão rolar, e pensei na tanga no banheiro.
Sobre o que significava, se significava alguma coisa.
Sobre quanto tempo conseguiria aguentar antes de algo—eu, a Manda, a família toda—finalmente estourar.
Depois de uns 10 minutos, a casa toda deslizou pra aquele estado preguiçoso onde ninguém queria fazer nada além de clicar num controle remoto ou abrir uma lata de refrigerante. A Manda já tava esparramada pelo sofá, cabeça enterrada no celular. A TV tava no mudo, mostrando o loop de preview do YouTube, o que significava que provavelmente acabaríamos assistindo alguma compilação boba até a mãe decretar que era hora do "programa de verdade."
Sentei na ponta do sofá em L, puxando um cobertor sobre as pernas. A Manda olhou pra cima, me viu, e então, com lentidão calculada, girou as pernas e as jogou sobre meu colo. Os pés dela tavam frios mas ela mexeu os dedos embaixo do cobertor como se tivesse todo o direito do mundo de me usar como apoio de pé.
"Você é tipo o travesseiro mais confortável," ela disse, sem olhar do celular.
"É, mas você tem calcanhares ossudos," reclamei, mas não a empurrei. O calor das panturrilhas dela irradiava pelo tecido, e não consegui evitar pensar na tanga de bolinhas lá em cima.
A mãe entrou alguns minutos depois, Coca Zero na mão. Colocou na mesa de centro e sentou na poltrona do outro lado da sala.
"Whindersson ou Porta dos Fundos?" a Manda perguntou, olhando entre mim e a mãe.
"O que você quiser," disse. "Tô cheio demais pra ter opinião."
A mãe deu de ombros. "Vocês dois assistem isso há anos. Não é hora de diversificar?"
"Não até eles pararem de ser engraçados," a Manda retrucou, já colocando um clipe do Porta dos Fundos.
Assistimos em silêncio companheiro por um tempo, o tipo de silêncio que só acontece quando todo mundo conhece os ritmos um do outro de cor. Os dedos da Manda cavaram embaixo do cobertor, e de vez em quando ela mexia, pressionando as canelas na minha coxa ou enrolando o pé embaixo do meu joelho. Parecia um acidente, mas depois da décima vez, percebi que não era.
Em um momento, ela se espreguiçou e plantou o calcanhar bem no meu pau. Não forte o suficiente pra machucar—só o suficiente pra eu sentir cada terminação nervosa acender como uma árvore de Natal.
Pulei, só um pouco, e a Manda olhou, sobrancelha arqueada.
"Desculpa," ela disse, voz monótona e não convincente.
Tossi, tentei ajustar sem tornar óbvio, mas a mãe olhou, olhos estreitando.
"Você tá bem?" ela perguntou.
"É, só... cosquento," menti.
A Manda bufou, depois tirou o outro pé de baixo do cobertor e o apoiou no meu joelho, o arco do peito do pé pressionando gentilmente na minha calça de pijama.
Meu pau tava ficando duro agora, e não tinha jeito de esconder exceto puxar a almofada de lado e enfiar no meu colo. A Manda tentou cutucar o dedão embaixo, como se tivesse jogando algum jogo secreto de footsie, mas prendi a almofada e a ignorei.
*Ele tá duro. Merda. Fiz ele ficar duro com meu pé. Por que isso é tão... bom?*
A mãe durou mais um clipe antes de levantar e se espreguiçar. "Vou dormir," ela anunciou. "Não fiquem acordados até tarde demais."
"Só quero terminar esse," disse, voz esganiçada.
Ela desapareceu escada acima, e esperei um minuto inteiro antes de exalar. Os pés da Manda ainda tavam no meu colo, dedos flexionando.
"Você é tipo um spaz de verdade," ela disse, revirando os olhos.
"É, bem, você tem pés esquisitos."
Ela mostrou a língua, depois retirou as pernas e se enrolou no canto oposto do sofá, mangas do moletom puxadas sobre os punhos.
Assistimos o fim do clipe, nenhum de nós dizendo nada. Quando terminou, ela jogou o controle na mesa de centro, levantou, e se espreguiçou. A camisa dela subiu só um pouco, mostrando um flash de barriga, e por um segundo não consegui desviar o olhar.
"Boa noite, otário," ela disse, sem me olhar.
Murmurei algo em retorno, esperei até ouvir a porta dela fechar. Peguei um copo de água na cozinha, scrollei o Reddit no celular por alguns minutos, depois entrei no banheiro pra escovar os dentes. O quarto da mãe já tava fechado, o som de um drama criminal vazando por baixo da porta.
Foi quando vi: outro par de calcinha da Manda no chão, dessa vez um shortinho azul claro, o tecido completamente molhado na virilha. Peguei, segurei por um segundo, e me perguntei se era tudo de propósito—se ela queria que eu encontrasse, se isso era alguma comunicação estranha e silenciosa que nenhum de nós conseguia dizer em voz alta.
De volta no meu quarto, sentei na beira da cama, cérebro rodando a um milhão de milhas por hora. Pensei na massagem nos pés, sobre os pés dela pressionando no meu pau, sobre o jeito que ela tinha me olhado o dia todo como se tivesse esperando por algo.
Fechei os olhos e me deixei ir, mão deslizando pela frente das minhas cuecas, passando devagar. Pensei na curva do arco dela, o frio dos dedos, o jeito que ela tinha dado risadinha quando me pegou encarando ela na cozinha.
Gozei rápido, mordendo os nós dos dedos pra não fazer barulho.
*Isso tá errado. Tão errado. Por que não consigo parar?*
Sabia que amanhã ia ser ainda mais esquisito.
Mas pela primeira vez no dia todo, realmente me senti de boa com isso.
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