O presidente Júlio César Vargas Neto acordou com o pau duro e a consciência pesada — não necessariamente nessa ordem, mas certamente com a mesma intensidade patética. O ar-condicionado da suíte presidencial mantinha os dezoito graus regulamentares, temperatura ideal para um homem que nunca precisou escolher entre pagar a conta de luz ou comprar comida, que nunca sentiu o calor sufocante de uma casa de lata no subúrbio onde ventilador é luxo e ar-condicionado é fantasia de comercial de margarina.
Mas ele suava. Cristo, como suava. Não era o suor honesto de quem trabalha — Vargas Neto não sabia o que era trabalho de verdade desde que entrou na política aos vinte e cinco anos, quando descobriu que roubar com caneta era mais rentável e menos arriscado que qualquer profissão legítima. Era aquele suor viscoso e frio, o suor do animal que sente o predador se aproximando mas ainda não consegue identificar de onde vem o perigo. O suor de quem deve e sabe que a conta, finalmente, inexoravelmente, chegou.
Seus dedos gordos — dedos que nunca carregaram nada mais pesado que uma caneta Mont Blanc de vinte mil reais, presente de um empreiteiro que depois ganhou uma licitação de quinhentos milhões sem concorrência — encontraram o controle remoto das cortinas motorizadas. Aquelas cortinas importadas da Alemanha que custaram trezentos e quarenta mil reais aos cofres públicos. Trezentos e quarenta mil reais. O equivalente a dois aparelhos completos de ressonância magnética para hospitais do interior. Mas ressonância magnética não impressiona embaixadores em jantares oficiais. Ressonância magnética não aparece bem em foto. Então que se fodessem os doentes do interior — eles não votavam no bloco certo mesmo.
As cortinas se abriram com um sussurro eletrônico, revelando o jardim interno do Palácio da Alvorada. Aquele jardim projetado por Burle Marx que custava cinquenta mil reais mensais de manutenção enquanto praças públicas viravam depósitos de lixo e usuários de crack. Os holofotes LED — duzentos mil reais em licitação fraudulenta, equipamento chinês de quinta categoria vendido como alemão de primeira, sessenta por cento de propina pro deputado que aprovou — iluminavam cada centímetro do gramado com uma claridade obscena.
E lá, caminhando pelo jardim como se fosse dona do lugar, estava ela.
Uma mulher. Não, não uma mulher qualquer. UMA mulher. O artigo definido era necessário porque ela ocupava o espaço de uma forma que transformava tudo ao redor em cenário. O uniforme de copeira branco — aquele uniforme ridículo que o cerimonial do Palácio insistia em manter porque "tradição" era a palavra que políticos usavam quando queriam disfarçar nostalgia colonialista e fetiche por empregada doméstica — parecia ter sido pintado em seu corpo.
Não era a tinta que se ajustava à tela. Era a tela que se curvava para abraçar a tinta.
Seus quadris eram uma declaração política. Largos, fartos, com aquela ondulação de mulher adulta que carregou peso real na vida — não peso de bolsa Hermès, mas peso de sacola de feira, de saco de cimento, de criança no colo porque o ônibus estava lotado e não tinha onde sentar. O tecido barato do uniforme — poliéster vagabundo que custava vinte reais o metro no Brás, não linho egípcio de quinhentos dólares o metro como as roupas da primeira-dama — esticava sobre a bunda dela de uma forma que deveria ser proibida em manual de decência presidencial.
Mas não havia nada de decente em Brasília. Então por que a bunda dela deveria ser?
Era redonda. Não, redonda não fazia justiça. Era REDONDA. Com todas as letras maiúsculas, com ponto de exclamação implícito, com o tipo de curva que arquitetos estudam em cálculo diferencial. Alta, empinada, firme — não firmeza de academia cara com personal trainer, mas firmeza de quem sobe escada de prédio sem elevador, de quem fica oito horas em pé no trabalho, de quem dança em bar de bairro no fim de semana porque é o único prazer que sobra depois de pagar as contas que nunca cabem no salário.
Vargas Neto sentiu seu pau — aquelas nove polegadas que ele media obsessivamente desde os quinze anos porque tamanho de pau era a única métrica de masculinidade que ele entendia, circuncidado aos trinta anos não por motivo religioso mas porque a amante francesa da época disse que "ficava mais chique" — pulsar contra a cueca de seda italiana. Marca Zimmerli, quatrocentos dólares por peça, comprada em viagem oficial a Roma que custou aos cofres públicos duzentos mil reais e serviu apenas para ele comer prostitutas de luxo no hotel enquanto fingia negociar acordos comerciais.
Ele tinha cinquenta e dois anos. Deveria ter disfunção erétil como qualquer homem da idade, mas o Cialis que tomava religiosamente todas as manhãs — disfarçado entre as vitaminas D, complexo B, ômega 3, todas receitadas pelo médico particular que ganhava cem mil reais mensais como "consultor" do Ministério da Saúde — mantinha sua libido artificial em níveis de adolescente punheteiro.
A mulher no jardim parecia ter uns trinta e poucos anos. A idade exata da força de trabalho brasileira que ele taxava, explorava e ignorava. A idade das enfermeiras, das professoras, das atendentes, das faxineiras — todas aquelas mulheres invisíveis que mantinham o país funcionando enquanto ele assinava medidas provisórias que cortavam seus direitos e chamava isso de "reforma necessária" na entrevista da noite.
Ela parou sob uma palmeira imperial. Aquelas palmeiras que existem apenas em Brasília porque foram plantadas artificialmente numa cidade artificial para criar a ilusão de grandeza natural. Virou-se. Lentamente. Como se tivesse todo o tempo do mundo. Como se o tempo trabalhasse para ela, não contra.
E olhou diretamente para a janela dele no segundo andar.
Aqueles olhos. Deus do céu e do inferno, aqueles olhos. Mesmo a trinta metros de distância, com vidro blindado entre eles, Vargas Neto sentiu o impacto físico do olhar. Não era desejo. Não era sedução. Era reconhecimento. Era a forma como um açougueiro olha para a carne antes de fazer o corte. Era a forma como um coveiro olha para o túmulo antes de cavar. Era a forma como o povo brasileiro deveria ter olhado para ele há muito tempo mas nunca olhou porque estava ocupado demais tentando sobreviver.
Ela levantou uma mão. Acenou. Não era um aceno tímido, submisso, de empregada para patrão. Era um aceno de igual para igual. Não — era um aceno de superior para inferior. De credora para devedor. De juíza para réu.
Vargas Neto recuou instintivamente. Seu ombro bateu na parede — aquela parede de gesso reforçado que custou oitenta mil reais o metro quadrado porque "segurança presidencial" era a desculpa que justificava qualquer superfaturamento. Mas não fechou as cortinas. Não conseguia. Estava hipnotizado. Paralizado. Como coelho na frente de cobra, como político na frente de CPI, como corrupto na frente da verdade.
*Ela sabe*, pensou ele, e o pensamento tinha o peso de certeza absoluta. *Ela sabe de tudo. Ela sabe das contas offshore. Ela sabe das propinas. Ela sabe dos contratos fraudulentos. Ela sabe que eu sou uma fraude completa, do pau artificialmente ereto à autoridade ilegitimamente exercida.*
A mulher sorriu. Não era um sorriso bonito. Era um sorriso de promessa. De ameaça. De cobrança.
E então ela começou a caminhar em direção ao palácio. Cada passo era medido, deliberado, como soldado marchando para a guerra. Ou como faxineira andando para mais um turno de doze horas limpando a merda alheia.
Vargas Neto finalmente conseguiu se mover. Correu para a cama, pegou o telefone presidencial — linha segura, criptografada, monitorada pela inteligência militar. Discou o ramal da segurança.
"Tem uma mulher no jardim," disse, tentando manter a voz firme. "Uniforme de copeira. Não identificada. Interceptem."
Do outro lado, silêncio. Depois: "Senhor presidente... ela já está dentro."
O telefone morreu na mão dele.
***
Na manhã seguinte, Vargas Neto chegou à reunião de segurança parecendo um cadáver maquiado. Tinha olheiras tão fundas que pareciam buracos de bala no rosto. O cabelo — tingido de preto para esconder os brancos, sessenta mil reais anuais em tratamento capilar — estava despenteado. A gravata Hermès de mil dólares estava torta. Ele parecia, pela primeira vez em quatro anos de mandato, humano.
Marcelo Dantas, seu chefe de gabinete, estava esperando. Marcelo tinha cinquenta anos e aparência de setenta. Cabelos completamente grisalhos cortados em estilo militar que não disfarçava a calvície avançada. Postura de viga de aço que não disfarçava a coluna curvada de quem carregava os segredos sujos de três governos consecutivos. Olhos cinza-acinzentados que já viram tanta merda que nada mais os surpreendia.
Marcelo era o homem que sabia onde todos os corpos estavam enterrados. Literalmente. Havia rumores — nunca confirmados, sempre sussurrados em corredores vazios — de que dois jornalistas investigativos que estavam próximos demais de descobrir um esquema de propinas em 2024 simplesmente desapareceram. Seus carros foram encontrados carbonizados numa estrada rural. Os corpos nunca. A investigação foi arquivada por "falta de provas". Marcelo estava de férias na Europa quando aconteceu. Claro.
Ele era pago muito bem para fazer desaparecer problemas. Doze milhões de dólares numa conta nas Ilhas Caiman que nem a Receita Federal, nem a esposa dele (coitada, achava que o marido era apenas um burocrata bem-sucedido), nem ninguém exceto três pessoas no mundo conheciam.
"Senhor presidente," Marcelo disse, colocando uma pasta vermelha sobre a mesa de mogno maciço. Aquela mesa que custou duzentos mil reais, feita de madeira extraída ilegalmente da Amazônia por madeireiros que depois foram homenageados com medalhas presidenciais por "contribuição ao desenvolvimento econômico". "Temos uma situação delicada."
"Delicada?" Vargas Neto quase gritou. "DELICADA? Marcelo, tinha uma mulher no meu corredor ontem à noite! No meu corredor! A três metros do meu quarto! Como diabos isso é 'delicado'? Isso é catástrofe!"
"Pior do que catástrofe, senhor." Marcelo abriu a pasta. Relatório da ABIN — Agência Brasileira de Inteligência, aquela agência que deveria proteger a soberania nacional mas que na prática espionava jornalistas, grampeava políticos da oposição e fabricava dossiês falsos para destruir reputações por ordem presidencial.
A linha destacada em amarelo dizia: **"ATIVIDADE SUSPEITA - PALÁCIO DA ALVORADA - 02:47h - MULHER ADULTA NÃO IDENTIFICADA. MÚLTIPLAS FALHAS DE SISTEMA. CFTV INOPERANTE POR 11 MINUTOS. SENSORES DE MOVIMENTO NÃO ACIONADOS. NOTA IMPORTANTE: INTERFERÊNCIA COINCIDE EXATAMENTE COM PICO DE ATIVIDADE NAS REDES SOCIAIS SOBRE SENHORA DE 73 ANOS QUE MORREU NA FILA DO SUS ESPERANDO CONSULTA ONCOLÓGICA."**
Vargas Neto sentiu o estômago revirar. "O caso da senhora em Manaus?"
"Sim, senhor. Dona Josefa Maria da Silva. Aposentada. Pensão de um salário mínimo. Câncer de mama diagnosticado tarde demais porque o posto de saúde do bairro dela estava fechado há seis meses por 'falta de verba'. Foi encaminhada para o hospital regional. Esperou sete horas e quarenta e três minutos na fila. Morreu sentada na cadeira de plástico, ainda segurando a senha de atendimento."
Marcelo acendeu um cigarro. Fumar era proibido em ambientes fechados desde 2014, mas leis eram para quem não tinha poder. "O filho dela filmou tudo. O vídeo viralizou. Vinte milhões de visualizações em doze horas. As redes estão pegando fogo. Hashtags pedindo seu impeachment estão em primeiro lugar. E senhor..." Ele pausou, soprando a fumaça. "O hospital que fechou o posto de saúde fez isso porque o governo federal cortou oitenta por cento do repasse do SUS. Corte que você assinou pessoalmente em troca de apoio da bancada ruralista para aprovar a reforma da previdência."
"Eu assinei dezenas de decretos. Não posso lembrar de todos."
"Dona Josefa pode. Podia." Marcelo corrigiu, cínico. "Tenho certeza que ela morreu lembrando muito bem."
Vargas Neto agarrou a borda da mesa. "E a mulher? A do jardim? O que tem a ver com isso?"
"Tudo, senhor. Tudo." Marcelo virou a página do relatório. Uma foto. Granulada, tirada de câmera de segurança de baixa qualidade porque as câmeras de alta qualidade tinham sido superfaturadas e nunca instaladas de verdade. Mas suficiente.
A mulher. De costas. A trança grossa. Os quadris largos. E no antebraço esquerdo, mesmo borrado na foto, ele conseguia ver: uma tatuagem. Não era tatuagem artística de estúdio caro. Era tatuagem de cadeia ou de desespero. Linhas grossas, tremidas, cobrindo uma cicatriz mais velha.
"O nome no registro de entrada — falsificado, obviamente — é Maya Silva. Mas puxamos biometria. O nome real é Mariana Santos Silva. Trinta e dois anos. Nascida em Belo Horizonte. Formada em enfermagem pela UFMG. Trabalhou onze anos no SUS."
"Uma enfermeira?" Vargas Neto quase riu de nervosismo.
"Ex-enfermeira. Foi demitida no ano passado quando o Hospital Regional de Contagem foi fechado. Fechado, senhor, por aquele mesmo decreto que matou Dona Josefa. Mariana era enfermeira-chefe. Responsável por vinte leitos de UTI. Quando fecharam, ela tentou protestar. Foi à imprensa. Foi às ruas. Ninguém deu bola. Então ela..." Marcelo mostrou outra foto. Mariana num carro de luxo. Num restaurante caro. Num hotel cinco estrelas. "Ela virou acompanhante de luxo."
"Puta."
"Especializada. Ela não atende qualquer um. Só políticos. Só empresários de alto escalão. Só gente com poder." Marcelo puxou mais páginas. Lista de clientes. Deputados. Senadores. Ministros. Um general. Dois desembargadores. "E senhor, ela cobra caro. Dez mil reais a noite. Mas segundo nossos informantes, ela não está guardando o dinheiro. Está gastando. Em equipamentos. Câmeras profissionais. Microfones. Servidores offshore. Software de encriptação."
Silêncio.
"Ela está documentando," Vargas Neto sussurrou. "Ela está gravando todos eles."
"E agora chegou sua vez." Marcelo apagou o cigarro no cinzeiro presidencial — cristal tcheco, presente do presidente da Rússia, dez mil dólares. "Senhor, ela não está aqui por dinheiro. Ela está aqui por vingança. Ela é a vingança do sistema que vocês destruíram. Ela é a fúria de todas aquelas enfermeiras que trabalharam turnos duplos sem equipamento adequado. Ela é a raiva de todas aquelas mães que viram filhos morrerem em filas. Ela é—"
"Ela é foda," Vargas Neto interrompeu, e o palavrão saiu estranho em sua boca presidencial. "Literalmente. Ela está aqui para me foder."
"Sim, senhor. Em todos os sentidos possíveis da palavra."
***
Vargas Neto não conseguiu dormir. Tomou dois comprimidos de Rivotril — prescrição ilegal, fornecida pelo mesmo médico corrupto que fornecia o Cialis — mas nada. Ficou acordado, olhando para o teto, pensando em todas as escolhas que o trouxeram até ali. Todas as assinaturas em documentos que nunca leu. Todas as promessas quebradas. Todos os hospitais fechados, escolas sucateadas, estradas esburacadas, enquanto ele e seus aliados desviavam bilhões.
Às 02:13, ouviu passos no corredor.
Levantou da cama usando apenas a cueca boxer. Abriu a porta do quarto. O corredor estava vazio. Ou deveria estar.
Mas ela estava lá. Maya. Mariana. A vingança ambulante.
Estava parada no meio do corredor, ajustando um quadro na parede com uma tranquilidade obscena. O uniforme de copeira branco brilhava sob a luz artificial dos lustres — lustres de cristal italiano, cada um custando oitenta mil reais, vinte e quatro ao todo, quase dois milhões em decoração enquanto escolas não tinham carteiras.
"Como você entrou?" ele perguntou, voz trêmula.
Ela não se virou imediatamente. Continuou ajustando o quadro. Uma paisagem de Brasília pintada por Di Cavalcanti, avaliada em três milhões de reais, comprada com verba do Ministério da Cultura enquanto teatros públicos fechavam por falta de patrocínio.
"Eu disse 'boa noite' para o segurança do turno," ela respondeu casualmente. "Ele me conhece. A esposa dele trabalhou comigo no hospital. Antes de ser demitida. Antes de ter que virar caixa de supermercado porque enfermeira desempregada não paga aluguel." Finalmente se virou. "Ele me deixou passar. Com prazer."
O rosto dela sob aquela luz era uma obra-prima de contradições. Bonita, sim, mas uma beleza que vinha da força, não da delicadeza. Testa alta e inteligente, marcada por uma linha horizontal de quem franze a sobrancelha de preocupação constante. Olhos amendoados com aquela cor impossível — como mel de eucalipto mesclado com raiva antiga. Sobrancelhas grossas, naturais, sem design. Nariz fino mas com uma pequena irregularidade na ponte, como se tivesse sido quebrado uma vez e consertado sem cirurgião plástico.
Boca larga. Lábios cheios, secos — só um brilho de vaselina básica. No queixo, uma cicatriz minúscula. Vargas Neto teve a impressão perturbadora de que conhecia cada cicatriz, cada marca, cada imperfeição. Eram as marcas do Brasil real. Do Brasil que ele governava mas nunca visitava.
"O que você quer?" ele perguntou, tentando soar autoritário. Falhou miseravelmente.
"Eu quero," ela disse, caminhando lentamente em sua direção, e Cristo, a forma como ela se movia era hipnótica, quadris balançando com um ritmo que não era sedutor, era ameaçador, "que você tire essa cueca ridícula e fique nu na minha frente."
"Eu sou o presidente da—"
"Você é um ladrão fantasiado de estadista." Ela parou a um metro dele. "E eu sou a cobradora. Tire."
Suas mãos foram automaticamente para a cintura da cueca. Ele obedeceu. Não porque queria. Porque alguma parte primitiva dele — a parte que entendia hierarquias de poder reais, não artificiais — reconhecia que naquele corredor, naquele momento, ela era a autoridade.
A cueca caiu. Seu pau, traiçoeiro, estava semi-ereto. Não completamente duro, mas reagindo. O corpo dele não ligava para política, para escândalo, para consequências. O corpo dele só entendia estímulos básicos. E a presença dela era um estímulo impossível de ignorar.
"Olha só," ela comentou, olhando para baixo sem nenhum pudor. "Nove polegadas. Circuncidado. Bem cuidado. Depilado na base — você manscaping mesmo, presidente? Vaidade é pecado, sabia?" Ela sorriu, cruel. "Mas tudo isso não vale nada se não tiver substância. E você, Júlio César..." Ela estendeu a mão. Agarrou o pau dele sem delicadeza. "Você é só embalagem. Aparência. Photoshop político."
A mão dela era quente, calejada, forte. Mão que colocou cateteres, que comprimiu feridas, que fechou os olhos de pacientes mortos. Agora estava envolvida ao redor do pau presidencial com uma pegada que era possessiva, dominadora.
"Vou fazer você gozar," ela anunciou, começando um movimento lento, firme, subindo e descendo. "Rápido. Porque homens como você sempre gozam rápido. Vivem com medo. Medo de serem descobertos. Medo de serem interrompidos. Medo de que algum dia, alguém venha cobrar."
"Tem câmeras," ele acusou, mas a voz saiu ofegante.
"Cinco." Ela apontou com a cabeça livre. "Uma no lustre. Uma no quadro. Uma no extintor de incêndio. Uma na luminária. Uma no meu colar." E sim, havia um colar pequeno, discreto, no pescoço dela. Ele não tinha notado. "Alta definição. Áudio profissional. Streaming para três servidores offshore em países diferentes. Se algo me acontecer, dispara automaticamente para todas as redes. Globo. Record. SBT. CNN. E pornografia também — RedTube, Pornhub, Xvideos. Imagina a manchete: 'Presidente do Brasil recebendo punheta de ex-enfermeira demitida por suas políticas'. Poético, não acha?"
Ele deveria estar em pânico. Deveria gritar por segurança. Deveria fazer alguma coisa.
Mas tudo que conseguia fazer era gemer. Porque a mão dela era boa demais. Técnica demais. Não era mão de amadora. Era mão de profissional. Mão que entendia anatomia, que conhecia pontos de prazer, que sabia exatamente onde apertar, onde acariciar, onde provocar.
"Você gosta," ela afirmou, não perguntou. Acelerou o ritmo. "Gosta de ser dominado. Gosta de finalmente não ter que fingir. Gosta de alguém tirar o controle de você porque no fundo, Júlio César, você está cansado. Cansado de mentir. Cansado de atuar. Cansado de ser esse personagem que você criou."
Era verdade. Deus, era tão verdade que doía.
"Olha para mim," ela ordenou.
Ele obedeceu. Olhou nos olhos dela. E então, ela começou a cantar. Baixinho no começo, mas depois mais alto, mais firme, a mão nunca parando de trabalhar:
*"Ouviram do Ipiranga as margens plácidas..."*
O hino nacional. Ela estava cantando o hino nacional brasileiro enquanto batia punheta nele.
*"De um povo heroico o brado retumbante..."*
A voz dela era contralto, firme, afinada. Não era zoação. Não era paródia. Era reverência. Reverência real pelo hino, pela nação, pelo povo. E irreverência absoluta pelo homem que deveria representá-los.
*"E o sol da liberdade, em raios fúlgidos..."*
Ele ia gozar. A combinação absurda do hino sagrado com o ato profano era demais.
*"Brilhou no céu da pátria nesse instante..."*
"Não," ele gemeu. "Não posso... não assim..."
*"Se o penhor dessa igualdade..."*
"IGUALDADE," ela gritou a palavra, apertando mais forte, punhetoando mais rápido. "Que igualdade, presidente? Que igualdade existe quando você tem cortinas de trezentos mil reais e trabalhadores morrem em filas de hospital?"
*"Conseguimos conquistar com braço forte..."*
"Com BRAÇO FORTE," ela repetiu, e o braço dela estava forte mesmo, músculos definidos de anos de trabalho braçal disfarçados sob aquele uniforme. "O braço que você nunca usou. O braço que nunca carregou nada mais pesado que caneta de propina!"
*"Em teu seio, ó liberdade..."*
Ela abriu a blusa do uniforme com a mão livre. Os seios saltaram — não eram enormes, eram médios, perfeitos, naturais, com mamilos escuros e eretos. "LIBERDADE! Olha meus seios! São de uma mulher livre! Livre porque não tem mais nada a perder! Você tirou tudo de mim! Meu emprego! Minha dignidade! Minha fé no sistema! Então agora eu sou livre para destruir você!"
*"Desafia o nosso peito a própria morte..."*
"A PRÓPRIA MORTE!" Ela inclinou para frente, gritando no rosto dele, a mão nunca parando, o pau dele vazando pre-cum que lubrificava a punheta, tornando-a mais rápida, mais intensa. "Dona Josefa desafiou a morte sete horas sentada naquela cadeira! E perdeu! Perdeu porque você assinou um papel!"
*"Ó Pátria amada, idolatrada, salve! salve!"*
Ele explodiu. O orgasmo veio como tsunami, irresistível, devastador. Esperma jorrando em jatos grossos, quentes, brancos, sujando a mão dela, o antebraço dela, respingando no uniforme dela, no chão de mármore, em todo lugar. Ele gemeu tão alto que tinha certeza de que o palácio inteiro ouviu. Não se importou. Ou melhor: não conseguiu se importar porque todo seu sistema nervoso estava em curto-circuito.
Maya continuou cantando enquanto ele gozava:
*"Brasil, um sonho intenso, um raio vívido..."*
Ela ordenhava cada gota dele, apertando da base até a ponta, não deixando nada dentro.
*"De amor e de esperança à terra desce..."*
O corpo dele tremeu, joelhos fraquejando, e ela o segurou com a mão livre, impedindo-o de cair. Segurando-o como enfermeira segura paciente.
*"Se em teu formoso céu, risonho e límpido..."*
Os últimos jatos saíram, mais fracos, quase dolorosos.
*"A imagem do Cruzeiro resplandece..."*
Quando finalmente parou, quando não havia mais nada para sair, ela o soltou. Ele cambaleou para trás, encostou na parede, respirando como animal ferido.
Ela levantou a mão suja de esperma. Olhou para ela. Depois olhou para ele. E lambeu. Lambeu cada dedo, lentamente, metodicamente, os olhos fixos nos dele.
"Você tem gosto," ela disse quando terminou, "de homem culpado. Salgado demais. Amargo demais. Com gosto de medo e Cialis."
Ela limpou a palma da mão no uniforme, espalhando o resto do esperma como se fosse condecor
ação de guerra. Depois puxou uma cadeira — aquela cadeira de jacarandá do século XIX que estava no corredor, avaliada em cento e cinquenta mil reais — e sentou. Cruzou as pernas. Olhou para ele com toda a calma do mundo.
"Ato um completo," ela anunciou. "Amanhã é o ato dois. Você vai me comer. Mas não vai ser como você quer. Vai ser como EU quero. Com as posições que EU mandar. No ritmo que EU ditar. Porque presidente..." Ela sorriu, e era o sorriso mais aterrorizante que ele já viu. "Você não manda mais em porra nenhuma. Nem no próprio pau."
Ela se levantou. Começou a andar para a saída. Parou. Olhou por cima do ombro.
"Ah, e Júlio César? Os vídeos de hoje já estão salvos. Mas não vou vazar. Ainda. Porque o clímax..." Ela piscou. "O clímax vem no ato três. Quando eu te arrebentar de uma vez por todas. Quando eu mostrar para o Brasil inteiro que você não é nada além de um homem fraco, patético, que goza em três minutos enquanto o hino nacional toca."
Ela saiu. Os passos descalços dela não faziam barulho no mármore. Como fantasma. Como vingança. Como justiça.
Vargas Neto deslizou pela parede até sentar no chão. Nu. Coberto de suor. Com o próprio esperma secando na barriga. O pau murcho, envergonhado, encolhido.
E pela primeira vez desde que assumiu o cargo, ele chorou.
Não de tristeza. De reconhecimento. Do reconhecimento de que finalmente, depois de anos de impunidade, alguém havia descoberto seu ponto fraco. E esse alguém não era um rival político com poder equivalente. Era uma mulher sem nada. Uma ex-enfermeira demitida. Uma prostituta por necessidade. Uma sobrevivente do sistema que ele ajudou a quebrar.
E ela era mais poderosa do que ele algum dia seria.
Porque ela tinha algo que ele nunca teve: motivo verdadeiro.
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[FIM DO ATO I]
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