Na escada, desejo e medo

Da série Desejos fortes
Um conto erótico de Dan Katze
Categoria: Heterossexual
Contém 743 palavras
Data: 14/01/2026 02:50:43

Você para no primeiro degrau e percebe como o mundo externo começa a perder nitidez. O calor do verão não vem apenas do ar pesado do prédio; ele parece subir de dentro do seu próprio corpo, lento, constante. A escada é estreita, concreta, banal — e exatamente por isso se torna um lugar onde tudo se intensifica. O som distante de portas abertas, vozes abafadas, um rádio ligado em algum apartamento. Nada disso entra de fato em você agora. Sua atenção se recolhe. Respiração mais funda. Ombros relaxando sem que você perceba.

Você inspira.

E ao expirar, sente que algo já começou.

Você sabe que não deveria estar ali. Não exatamente ali, não exatamente com essa consciência aguda do outro tão próximo. Há regras não ditas, limites invisíveis, e ainda assim o silêncio entre vocês pulsa. Não é preciso olhar de imediato. Você sente primeiro: a presença que ocupa o espaço, a proximidade que aquece a pele antes mesmo de qualquer toque. É um reconhecimento silencioso, quase antigo, que acontece sem palavras.

Você vira o rosto devagar.

Os olhos se encontram.

E nada é dito.

O proibido não grita. Ele sussurra. Ele se instala na pausa entre um movimento e outro. Você percebe a própria respiração ficando mais lenta, mais profunda, como se alguém estivesse conduzindo o ritmo sem tocar em você. A escada parece menor agora. O ar, mais denso. Há uma consciência clara de que qualquer gesto pode ser visto — portas abertas, vizinhos distraídos, a vida acontecendo a poucos metros. E é exatamente isso que faz seu corpo responder com um calor mais vivo, concentrado no centro do peito, descendo, acumulando-se.

Você não recua.

Também não avança.

Você espera.

A voz chega baixa, próxima ao seu ouvido, sem pressa. Não há ordem explícita, apenas presença. Uma condução calma que faz você ajustar o corpo quase por instinto. Um passo mais perto. O suficiente para sentir o calor do outro misturado ao seu. O suficiente para perceber como sua pele reage, como a respiração muda outra vez.

Você sente o toque antes de ele acontecer.

E quando acontece, é mínimo.

Um roçar.

Um contato breve que diz mais do que deveria.

O beijo não vem de imediato. Primeiro, a espera. A tensão que se estende só um pouco além do confortável. Você sente o coração bater em um ritmo mais lento e mais forte ao mesmo tempo. Um arrepio sobe pela nuca quando os rostos se aproximam, quando o espaço entre vocês se dissolve em intenção. O beijo, quando acontece, é contido, quente, carregado de algo que não precisa se provar. Ele começa devagar, como se estivesse testando sua resposta — e o seu corpo responde sozinho.

Você percebe o próprio peso se ajustando ao degrau.

As pernas mais firmes.

A respiração irregular.

O medo de ser vista não afasta. Ele afina os sentidos. Cada som do prédio parece mais nítido, cada sombra mais presente. E ainda assim, você permanece. O toque continua sugerido, conduzindo sem pressa, sem urgência aparente, enquanto por dentro tudo se acelera. Você sente a tensão se acumulando, um calor que se espalha, uma pulsação interna que acompanha cada pausa intencional.

Há silêncios longos.

Deliberados.

Cheios.

Você entende, sem que precise ser dito, que o controle está no ritmo. E você se permite seguir. A entrega não é um salto; é um deslizamento lento, consciente. O corpo inclina, responde, se ajusta à proximidade como se sempre tivesse pertencido àquele espaço estreito, àquele instante suspenso. O beijo se aprofunda apenas o suficiente para deixar um gosto de mais. As mãos não invadem — sugerem. E essa sugestão reverbera dentro de você, criando imagens, sensações, antecipações.

Seu corpo aquece ainda mais.

A pele sensível.

O tempo distorcido.

Quando o afastamento acontece, é quase imperceptível. Um meio passo. Um intervalo. O suficiente para deixar o desejo ativo, vibrando, sem resolução. Você sente o efeito permanecer, como uma corrente baixa que continua mesmo depois do contato cessar. A escada volta a ser apenas uma escada. As vozes continuam. As portas seguem abertas. Mas algo em você não retorna ao estado anterior.

Você inspira de novo.

E percebe que o calor ficou.

Enquanto sobe ou desce — não importa — o resíduo daquele momento acompanha cada passo. Um estado interno desperto, atento, sensível. Você sabe que não foi apenas um encontro. Foi uma condução. E o desejo, agora, não depende mais do lugar. Ele permanece em você, silencioso, ativo, esperando o próximo intervalo onde possa, outra vez, crescer.

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Foto de perfil genéricadanrebelcatContos: 9Seguidores: 2Seguindo: 10Mensagem Gosto do sexo intenso, com uma pitadinha de romance, mas com muito erotismo. Gosto muito de fazer mulher se retorcendo de desejo.

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