OS JANTARES DE QUINTA-FEIRA COM MEU CUNHADO

Um conto erótico de A Stranger on a Path
Categoria: Heterossexual
Contém 9209 palavras
Data: 12/01/2026 19:54:26
Última revisão: 12/01/2026 20:04:01

Os Ingredientes: Retratos de Família

Otávio

Eu. 27 anos. Curitibano. 1,71m. Minha rotina é previsível: café às sete, computador ligado às oito, filosofia e estudos sociais no intervalo. Sou programador sênior e, talvez por isso, obcecado por ordem e lógica, busco padrões em tudo: inclusive nas pessoas. Conversas longas me encantam, especialmente se acompanhadas de um bom vinho; é nelas que acredito que o caos humano pode ser domado pela razão.

Raquel

Minha Esposa. 25 anos. Brusquense. 1,64m. Seus olhos verdes mudam de tom conforme o humor, e às vezes fico observando-os mais do que consigo prestar atenção ao que ela diz. Cresceu cercada de conforto, mas nunca deixou que o dinheiro moldasse seu caráter: é generosa, empática e sempre movida pelo entusiasmo. Nos conhecemos no primeiro ano da faculdade de Artes: uma conversa, e já era impossível não se sentir cativado. Ela é o oposto do meu ritmo calculado; onde eu penso, ela sente.

Josué

Meu Cunhado. 40 anos. Carioca. 1,85m. Preto, ombros largos e mãos grandes, marcadas pelo tempo. Ex-policial militar, divorciado e agora casado com minha irmã Bianca há um ano, ele parece enxergar o mundo em preto e branco, usando dogmas e regras como régua. É expansivo, gosta de falar, mas discute pouco: réplica não é um idioma que ele entende. Sua presença é difícil de ignorar, e, mesmo sem dizer nada, já é capaz de tensionar a sala inteira.

...

***

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O Banquete: Das quintas aos quintos

1. O jantar

Embora intimista e reservado apenas à família, o jantar tinha sido preparado nos mínimos detalhes para ser a celebração que de fato foi. A consagração veio quando, entre o prato principal e a sobremesa, minha irmã anunciou a gravidez. A comoção tomou conta da sala de jantar. Mas eu não pude compartilhar da mesma alegria. Minha família ainda estava reagindo à boa notícia quando Josué, que já havia dominado as conversas da noite com o mesmo punhado de anedotas e certezas tacanhas de sempre, acrescentou em voz alta:

— Aqui tem bala na agulha. Vai ser um homem de fibra, com o sangue bom do paizão aqui — disse, batendo no peito. — Essa safra de hoje em dia tá vindo muito devagar, tem que renovar com o estoque de primeira aqui. O mundo vai pro buraco se depender dessa geração mansa.

Alguns sorrisos seguiram a declaração. Meu pai fez um gesto claro de aprovação. Ninguém discordou.

Pensei em dizer alguma coisa. Eu tinha vontade de desmontar aquela frase em camadas, explicar por que ela não dizia nada sobre biologia e tudo sobre medo. Já havia me silenciado por muito tempo diante daquela performance grosseira. Procurei com os olhos minha esposa; ela estava entretida em uma conversa animada com meu pai sobre a novidade. Admirei a flexibilidade dela, sua capacidade quase antropológica de transitar entre mentes tão anacrônicas sem perder o sorriso. Minha mãe discretamente enxugava as lágrimas. Ensaiei o tom, os argumentos, mas ao ver a expressão radiante da minha irmã, desisti. E, afinal, não se ensina teoria crítica em uma celebração familiar. As palavras presas na minha garganta se resolveram em um sorriso amargo. Senti uma pontada de pena daquela mesa. E limitei-me a olhar com desprezo para ele, pensando na precisão cirúrgica daquela máxima vulgar que diz que, se cunhado fosse algo bom, o nome não começaria com essa sílaba tão específica.

***

2. A quinta-feira

O caminho de volta foi silencioso. Eu dirigia como sempre: quieto. Atento ao caminho e aos meus arredores. No entanto, naquela noite, o silêncio não me trazia conforto. Eu ainda estava processando o jantar, ruminando a boçalidade do Josué.

— Fofinho, você parece distante — Rá disse assim que parei o carro na garagem. A mão pousou sobre minha coxa, o rosto virado para o meu. Preocupada.

Eu odiava aquele apelido. Ou melhor, fingia que odiava. Mas a ternura na voz dela sempre me desarmava.

— Não estou distante, Rá. Só estou… pensando.

— O que foi? Aconteceu alguma coisa?

— Nada. Foi… um jantar bonito.

Ela arqueou a sobrancelha. Conhece-me bem demais para deixar passar.

— “Bonito” não costuma ser um elogio seu.

— Você ouviu o que o Josué disse depois do anúncio da Bianca.

— O comentário sobre “homem de fibra”? — suspirou. — E?

— Aquilo foi totalmente desnecessário, Raquel. Além do reducionismo machista dele, ele quis roubar o protagonismo da Bianca. “Geração mansa”, uma ova!

Ela sorriu com aquela empatia que foi uma das razões pelas quais me apaixonei.

— Fofinho, meu querido... Você quer que o Josué discuta gênero? Você sabe de onde ele veio. Ele é um homem simples. Está no instinto dele. É lamentável, mas é como ele funciona. — Fez uma pausa curta. — Às vezes eu acho que você analisa demais as coisas.

— E isso é bom ou ruim?

Ela deu de ombros e me beijou rápido.

— Depende. Quando você usa isso para me entender, é bom. Quando usa para se torturar por causa de uma frase infeliz do seu cunhado num jantar de família, é péssimo. — Disse abraçando meu braço. — Agora vai tomar banho, meu fofinho militante.

Antes que eu respondesse, completou:

— Hoje é nossa quinta-feira.

“Nossa quinta-feira” era como chamávamos as datas reservadas para celebrar um aspecto muito específico do matrimônio. Duas por mês. Não porque ela precisasse ou quisesse impor limites; seu apetite garantiria frequência maior. Todos os dias, talvez. Eu é que apreciava a rotina.

Mesmo tendo me mandado para o banho, ela foi primeiro. Quando voltei para o quarto, ela já tinha apagado a luz principal, deixando apenas o abajur aceso. Era o sinal. Quinta-feira.

A beleza dela, mesmo depois de três anos de casados, ainda fazia meu coração acelerar. Estava deitada de lado, uma camisola fina que delineava as curvas generosas, os cabelos castanhos presos de qualquer jeito, olhando o celular sem muita atenção. Levantou os olhos quando me aproximei e sorriu, com uma expectativa que eu sempre tentava corresponder à altura.

— Demorou.

— Estava precisando de água quente para relaxar.

Sentei na beira da cama e comecei meu ritual de carinhos suaves e zelosos. Eu me esforçava nas preliminares. Rá respondeu como sempre: com facilidade. O corpo dela se abria rápido, generoso, exigente. Aquela prontidão me colocava sob pressão. Eu me concentrava nos detalhes, nos intervalos, tentando prolongar cada movimento na esperança de compensar a certeza da minha própria brevidade.

Quando finalmente me deitei sobre ela, meu corpo já vinha atrasado. Bastaram poucos movimentos para que meu próprio corpo me traísse. Afastei-me por reflexo, tentando ganhar segundos, mas já era tarde. A expressão dela carregava decepção, mas nenhuma surpresa. As gotas do meu êxtase caíram sobre a virilha dela e no lençol.

— Me desculpa!

— Não precisa ficar assim — disse, por fim, sem se virar. — Você fez o seu melhor.

Houve um silêncio curto.

— A gente tenta de novo depois.

Ela se virou de costas, ajeitando o travesseiro com um movimento seco. Ficamos assim por alguns segundos.

"Depois", martelei, palavra sem uma definição clara. Poderia significar amanhã. Mas, geralmente, era nunca.

— Você sabe que eu me esforço — falei, já arrependido de precisar dizer aquilo. — Quero te dar o mesmo prazer que você me dá.

Raquel virou o rosto na minha direção.

— Eu sei, meu fofinho.

Ela apagou o abajur e se acomodou contra mim. Mais uma quinta-feira tinha passado. Como tantas outras.

***

3. A calma que antecede a tempestade

Os meses seguintes não trouxeram novidades.

Houve o chá de revelação. Quando a fumaça azul subiu, Josué não abraçou Bianca de imediato; primeiro ergueu o punho num gesto de vitória, como quem confirma uma aposta bem calculada.

— Eu avisei! — gritou, entre risadas.

Só então a envolveu num abraço apertado, erguendo-a levemente do chão. Em seguida, virou-se para meu pai e desferiu-lhe dois tapas pesados nas costas.

— O sangue aqui é forte!

Ele estava tratando o evento como se fosse o lançamento de um produto. Observei aquela cena sentindo um alívio silencioso. Não precisar provar nada a ninguém por meio da genética sempre me parecera uma forma superior de liberdade.

Depois veio o carro. Um SUV blindado.

— É zelo — disse.

A palavra me incomodou. Soou como um eufemismo mal ajustado, uma tentativa gentil de nomear o que, para mim, era claramente um controle obsessivo. Pensei em corrigi-la, mas permaneci em silêncio. Por entre as linhas, eu lia que compartilhávamos o mesmo incômodo, ainda que ela o expressasse de maneira mais diplomática.

E houve as nossas Quintas-Feiras. Cada uma carregando a promessa não cumprida da anterior. Até a brincadeira de eu fingir ser um estranho que chegava para seduzi-la — ideia minha, cuidadosamente elaborada — perdera o efeito. Raquel participava, mas sem o brilho inicial, como quem cumpre um acordo tácito.

Ainda assim, éramos porto seguro um do outro. O afeto entre nós se manifestava em gestos pequenos, numa intimidade funcional, quase sem conflitos. Minha admiração por ela crescia nesse terreno estável. Sentia-me privilegiado por ter sido escolhido por uma mulher tão lúcida, tão alinhada comigo na leitura do mundo. Às vezes eu me perguntava se tamanha compatibilidade compensava minhas limitações físicas ou se, ao contrário, apenas as tornava mais visíveis.

— Não se cobre tanto, fofinho — ela dizia, abraçando-me por trás, o corpo quente colado ao meu.

Eu sentia a pulsação dela, viva, constante. Aquela aceitação tranquila me afetava mais do que qualquer cobrança explícita. Rá parecia genuinamente satisfeita em entender meus limites. Ou talvez fosse apenas a boa educação dela. Eu me inclinava para a segunda possibilidade, pois não foram poucas as noites em que acordei sozinho na cama. E, vindo do banheiro, eu conseguia escutar o som abafado do brinquedo que compráramos para “me auxiliar”. Eu me esforçava para dormir antes que ela voltasse para a cama. Dizia a mim mesmo que era respeito ao espaço dela. Sabia que, antes de tudo, era fuga.

Numa tarde de sábado, encontrei Josué no jardim da casa dos meus pais, ensinando meu pai a manusear um rifle novo. Falava com calma, corrigindo a posição das mãos, explicando o peso, a mira. Comentava sobre gerações, sobre levar o neto para caçar assim que aprendesse a andar.

— Três gerações de ferro — disse, sorrindo e dando um tapinha no ombro do meu pai. — Filho meu não vai ser criado com leite com pêra. Homem tem que ser assim: fibra e chumbo.

Rá surgiu à janela ao meu lado, observando a cena.

— Ele tem uma energia paterna… transbordante, não tem? — comentou.

— Patriarcal — corrigi. — Invasiva.

Ela apoiou a cabeça no meu ombro, sem discordar, mas também sem acrescentar nada.

Pouco depois, perguntou se eu aceitaria ser padrinho. Bianca já havia comentado que o convite viria oficialmente no churrasco de sábado.

— Não sei se sou a pessoa certa para apadrinhar um “homem de fibra e chumbo” — respondi, fazendo aspas com a mão, mas cuidando para não deixar o sarcasmo transbordar.

— Você e sua sensibilidade seriam o equilíbrio — disse ela, com a mesma naturalidade com que encerrava outros assuntos.

Nesse momento Bianca se aproximou de nós, segurando um copo de suco, encostando-se no batente da janela com um sorriso satisfeito:

— Se fosse qualquer outra pessoa olhando assim para o meu marido eu teria ciúmes — ela zombou, os olhos fixos nas costas largas de Josué. — Mas eu entendo, o Nego chama atenção, né, Quel?

Rá desviou o olhar do jardim para Bianca por um segundo antes de soltar uma risada curta. Bianca pediu ajuda dela para algo na cozinha e entraram na casa. Eu continuei observando meu pai e meu cunhado no jardim. Talvez a Rá estivesse certa. Talvez coubesse a mim ser o contraponto naquela hegemonia tóxica.

O sábado do churrasco chegou sob um céu excessivamente azul, o tipo de dia que parece exigir felicidade. Enquanto calçava os sapatos e ouvia Rá cantarolar no banheiro, não imaginei que aquele seria o último dia em que eu habitaria a completa escuridão da ignorância.

***

4. O começo do fim é sábado à tarde

O churrasco estava no ápice. Era aniversário do Josué, então era mais um evento caro e suntuoso; talvez houvesse quase cem pessoas na chácara. Ele, mais do que nos outros dias, era o centro gravitacional: falava alto, gesticulava com a faca de churrasco na mão, a epítome do anfitrião dominante.

Após o almoço, os grupos se dispersaram. Rá, sempre com sua facilidade antropológica de transitar entre desconhecidos, foi conversar com minha mãe, minha irmã e alguns colegas do Josué. Eu, buscando refúgio daquela cacofonia, preferi a companhia silenciosa do meu pai.

Depois de algum tempo de conversa frívola, entrei na casa para usar o banheiro do andar de cima, fugindo do barulho da música e das risadas forçadas. Ao passar pelo corredor que levava à suíte de hóspedes, foi que ouvi o ritmo repetitivo e seco de carne contra carne. Não precisei parar para reconhecer. Os gemidos contidos, mas intensos, de uma mulher, e a voz grave do Josué, reforçavam a imagem do que estava acontecendo. Fiquei imóvel por alguns segundos, mais por incredulidade do que por curiosidade. "Deplorável", pensei. Aquilo acontecia ali, no meio da festa, com a casa cheia. Nem mesmo a atual situação da esposa era freio para ele. A ideia me causou uma repulsa imediata.

Desci as escadas com o estômago revirado, sentindo uma satisfação amarga por ver confirmada, de forma tão explícita, a falta de limites daquele homem. Era exatamente o tipo de homem que eu aprendera a abominar e que jurara nunca ser.

Quando voltei para perto da churrasqueira, Bianca estava exatamente onde eu lembrava de tê-la visto pela última vez. Ria com minha mãe, um copo de suco na mão. Não parecia ter se ausentado nem por um instante.

Atordoado, voltei para próximo do meu pai, mas não disse uma palavra. Minutos depois, Rá saiu do casarão e passou por minha irmã, escutei Bianca dizendo:

— Nossa, Quel… você está tão linda… tão corada. O que anda tomando? — disse, dando um risinho, e antes que Rá respondesse algo — Aliás, você viu o Nego? Ele subiu para buscar mais cerveja gelada e não voltou mais.

Não escutei direito qual foi a resposta dela. Ela me viu com meu pai no canto, e veio ao nosso encontro. Ela parecia mesmo... revigorada. O cabelo preso de outra forma, o rosto lavado, o hálito fresco quando me beijou.

— Se arrumou? — perguntei.

— Sim, meu amor. Eu estava me sentindo tão "pesada" depois daquela carne, sabe? O alho estava me dando um desconforto horrível, achei melhor subir, escovar os dentes com calma e passar um fio dental. Aí acabei vendo que meu rímel tinha borrado um pouquinho no canto e resolvi refazer a base toda, sabe como eu sou perfeccionista com essas coisas... — Ela sorriu, uma serenidade absoluta no rosto.

Pensei em perguntar se ela tinha ouvido alguma coisa vinda da suíte principal. Mas a simples ideia de associar a Rá àquela cena de baixo calão me pareceu um insulto. Ela provavelmente passara pelo corredor distraída sem que seus ouvidos sequer registrassem o lixo que eu, infelizmente, testemunhara.

— Parece pálido, fofinho. O sol está forte demais para você? — acrescentou.

— Não sei. Talvez esteja...

Josué apareceu momentos depois, distribuindo risadas e cumprimentos, como se nada tivesse acontecido. Aquilo apenas reforçou meu nojo. Olhei para a Rá, ela era pura demais para respirar o mesmo ar que aquele homem sujo.

O convite para ser padrinho veio logo em seguida, entre brindes e aplausos. Aceitei com um nó na garganta, sentindo o peso de uma tristeza profunda pela minha irmã e uma gratidão silenciosa por ter, ao meu lado, uma mulher que jamais saberia como é descer a esse nível de degradação.

***

5. A quinta-feira inesperada

Três semanas depois, a viagem para o workshop em Porto Alegre foi cancelada na última hora. Cheguei em casa às oito da noite de uma quinta-feira que não constava no nosso calendário.

Eu estava cansado, porém havia uma empolgação em mim. Pensei que talvez pudéssemos antecipar a nossa quinta-feira. Imaginei que minha ausência, somada à surpresa do retorno, pudesse injetar alguma vitalidade no nosso roteiro habitual. Entrei em silêncio e subi as escadas guiado pela fresta de luz sob a porta do quarto.

O som veio antes da imagem.

Não era o zumbido mecânico do vibrador. Era algo orgânico, irregular, urgente. O mesmo ritmo que eu ouvira no corredor da chácara, mas agora sem qualquer tentativa de contenção. Gemidos abertos. O estalo seco da carne contra a carne.

Empurrei a porta.

A Raquel estava montada sobre o Josué, as mãos espalmadas contra a cabeceira, a mesma onde eu encostava a cabeça para ler, para refletir. As mãos grandes dele, escuras contra a pele alva dela, a seguravam pelo quadril, ditando o movimento. O som era violento: plap, plap, plap.

— Isso... — ela arfava, a voz irreconhecível — Mais... Seu cachorro... vou gozar de novo!

Meu corpo congelou. O grito saiu antes de qualquer pensamento.

— NÃO!

Avancei sobre eles. Raquel se virou assustada, ao mesmo tempo que tentava puxar o lençol para esconder a própria nudez.

— Calma, meu amor, não é o que você está pensando... — balbuciou ela, usando a frase mais clichê do mundo no momento mais obsceno possível.

Eu estava cego e surdo. Avancei com os punhos cerrados contra Josué, que já estava em pé do outro lado da cama. Meus punhos cerrados eram inúteis. Ele se desviou com facilidade, deu-me um empurrão no peito e, em um movimento fluido, me aplicou uma gravata. Me debatendo tentando escapar, senti o contato do meu braço com a ereção dele, ainda presente; o calor e o suor do corpo dele grudando no meu me trouxeram a uma realidade insuportável.

— Fica frio, mestre. Se eu apertar por mais dois segundos, você apaga… — Ele falou baixo, o hálito quente batendo no meu ouvido. — Deixa de passar vergonha. Relaxa o corpo, respira fundo... Promete que vai ser um bom garoto pra gente poder conversar?

Demorei alguns momentos antes de assentir com um som tosco. Ele me soltou devagar. Recuei como se tivesse encostado em metal incandescente. O ar entrou rasgando meus pulmões, carregado com o cheiro deles.

— Enche o pulmão e limpa esse rosto, professor. — Ele disse, sem pressa, a voz grave preenchendo o quarto. — Não quero falar com um homem histérico. Senta aí, recupera o fôlego e vamos trocar um papo reto.

Estava posicionado entre mim e a cama, compondo uma barreira de músculos e arrogância. Raquel estava sentada, enrolada no lençol que havíamos escolhido para o nosso enxoval.

— Não, Jô... É melhor você ir — ela disse, sem olhá-lo.

— Quelzinha, olha o estado do rapaz... — Josué soltou um riso seco, puxando as calças com aquela calma insultuosa de quem é dono do território. — Não vou te deixar sozinha com ele desse jeito.

O homem está fora de si, pode acabar fazendo uma besteira.

— Por favor, vai... — ela repetiu, finalmente encarando-o.

Josué deu de ombros. Vestiu-se com uma lentidão insultuosa. Pegou as chaves e o celular sobre a minha mesa de cabeceira.

— Qualquer coisa, me dá um toque — disse para ela, sem sequer desviar o olhar para mim. — Vou ficar aqui no radar. Se o professor se empolgar de novo ou tentar crescer pro teu lado, eu volto e boto ordem na casa.

A porta bateu e o silêncio que ficou era denso, tóxico.

Raquel continuou sentada na cama. Eu continuei de pé, perto da porta do quarto.

Ela soltou um suspiro longo, soltando os ombros, e me encarou.

— Meu amor... — a voz dela morreu.

— Meu amor — tentou novamente — eu queria te contar sobre isso há um tempo.

— Há um tempo? — Minha voz mal saía. Eu olhava para os lençóis, para o rastro de suor dele no meu travesseiro. — Com ele, Raquel? Logo com o Josué?

— Otávio, deixa eu explicar...

— Logo com ele! — O grito saiu rascado, feio. — Você deixou aquele bruto tocar em você... Como você pôde ser tão... tão baixa? Se entregar a alguém que não sabe nem articular uma frase direito.

Raquel ergueu o queixo. O lençol escorregou deliberadamente, revelando a pele vermelha dos apertos de Josué. Ela não fez menção de se cobrir. Pelo contrário, passou a mão pelo próprio seio, onde uma marca roxa começava a florescer.

— É isso que te dói, não é? Os diplomas dele? — ela retrucou, a voz ganhando uma vibração gélida. — Ele pode não saber citar seus autores, Otávio... mas ele não precisa de um glossário para entender o meu corpo.

Ela se ajeitou na cama, sentando-se sobre os calcanhares.

— Você o chama de bruto, mas o Josué teve a delicadeza de notar que eu estava sufocando nessa sua "ordem". Enquanto você gasta horas teorizando sobre onde e como me tocar, ele me toma. Ele não pede licença para me dar o que eu quero.

— Você contou para ele... das nossas intimidades? — eu estava incrédulo.

Raquel soltou um riso curto, quase seco, e os dedos sobre a púbis, fazendo uma carícia inconsciente.

— Eu não precisei dizer uma palavra. Ele sentiu o meu cheiro, Otávio. Ele sentiu a fome que você fingia que não existia para não estragar o seu cronograma. E talvez o que mais te assuste... — ela fez uma pausa, olhando para as próprias mãos, que ainda tremiam levemente — ...é que nada do que a gente inventou naquelas quintas-feiras chegou perto do que ele faz sem esforço nenhum.

— Não, não é a mesma coisa — senti como se fosse vomitar. — Nossas brincadeiras eram ficção, Raquel. Algo controlado. Entre eu e você. Saudável. Isso aqui... isso aqui é o Josué. Ele não é um personagem. Ele é o homem que vai ser o pai do filho da minha irmã. É doentio.

— Controle — ela repetiu a palavra como se fosse um insulto — Você fala em controle, mas olhe para você. Você controla o quê? O calendário de quantas vezes a gente tenta transar?

Ela me encarou, e havia uma sinceridade cruel nos seus olhos verdes. Com seus movimentos agitados, o lençol agora estava no chão. A nudez não era mais um incômodo.

— Eu errei, Otávio. E sei disso. Mas não me peça para sentir nojo de ter me sentido viva com ele...

Meu corpo foi tomado por uma exaustão que parecia vir dos ossos. Eu não tinha argumentos diante uma confissão tão crua. Me senti minúsculo.

— Eu não quero mais falar sobre isso hoje — falei, sentindo minhas pernas finalmente cederem. Sentei-me na poltrona do canto, longe da cama, cobrindo o rosto com as mãos.

— Otávio... — ela murmurou, mas não se aproximou.

Eu precisava de ordem. Precisava de algo que nos devolvesse a estabilidade que tínhamos até uma hora atrás.

— Nós temos aquela viagem para a casa de praia em dois meses — continuei, a voz saindo mecânica, quase sem fôlego. — Já está tudo pago. Vamos para lá. Vamos ficar sozinhos. O que a gente construiu é grande demais para acabar de forma tão indigna.

Raquel concordou com a cabeça e estendeu a mão na minha direção. Eu não a peguei, mas também não saí do quarto.

A quinta-feira tinha terminado muito diferente de todas as outras que já tivemos.

***

6. A vida surge na água

A casa de praia cheirava a maresia e móveis fechados. O som das ondas, que deveria ser relaxante, parecia um metrônomo marcando o tempo de um deserto que habitávamos.

Tentei. Deus, como eu tentei. Preparei cafés da manhã elaborados, caminhei com ela pela areia e, em nossa intimidade, procurei tocá-la com uma delicadeza que beirava a adoração. Mas o corpo dela que antes me intimidava, agora era um território árido e estrangeiro. O que mais me machucava era o esforço dela. Raquel estava tentando... ser perfeita.

— Esse peixe está maravilhoso, amor. Você realmente tem um toque especial — ela dizia, com um sorriso que não chegava aos olhos, carregando um reforço positivo tão artificial que me dava náuseas.

Nossos momentos na cama eram os piores. Os arquejos dela eram teatrais, síncronos demais. "Isso... sua língua me deixa doida...", ela dizia, apertando minha cabeça contra sua virilha. Em um desses momentos, ela me pediu para xingá-la.

— Tudo bem, meu amor. Isso deixa mais excitante... pode me xingar... — ela incentivou.

— S-sua... safadinha!? — foi o que consegui balbuciar.

Para mim ela representava adoração, profaná-la era inconcebível, uma linha que minha natureza não cruzaria.

Minhas noites insones eram o palco de um debate exaustivo comigo mesmo. Se eu não podia dar a ela a saciedade do seu desejo, eu teria o direito de proibi-la de buscá-la?

Eu não conseguia vislumbrar nenhuma solução que não envolvesse um elemento externo ao nosso par. Mas seríamos capazes de acomodar uma peça adicional sem romper o todo?

Na penúltima noite, sentados na varanda sob um céu sem estrelas, o elefante na sala tornou-se insuportável.

— O quanto as "quintas-feiras" com ele faziam bem para você? — perguntei, a voz rouca, como se as palavras se recusassem a sair.

Raquel baixou a taça de vinho. O silêncio durou uma eternidade.

— Meu amor, você sabe como eu te amo. Minha vida com você é melhor do que eu jamais ousei sonhar que teria em um relacionamento. Mas... aquelas tardes... elas... elas me preenchiam, Otávio. A última peça para uma vida completa.

Senti meu corpo desaparecer na cadeira. O elogio do começo não amortizou em nada o impacto do final da frase. Meus diálogos internos dos últimos dias haviam me preparado para a rendição.

— Talvez — comecei, sentindo o gosto de bile na boca — pudéssemos encontrar outra pessoa. Alguém que não fosse ele. Um desconhecido. Um profissional... talvez. Uma mulher?

Ela me olhou fixamente antes de responder, medindo cada palavra.

— A gente não precisa fazer isso, minha vida. Foi um erro... E eu jamais trocaria nosso casamento por ele. Mas... se você estiver de acordo, e decidíssemos seguir por esse caminho, é melhor o mal conhecido, Otávio. O... Jô... ele já faz parte da nossa vida. Procurar um estranho seria abrir uma porta para um perigo que não controlamos. Pode ser ainda pior.

A lógica dela, embora distorcida, encontrou eco na minha necessidade de racionalizar o caos.

— Você tem razão, meu amor — murmurei, mais para mim do que para ela. — Vem do patriarcalismo que a posse é a base do amor, mas eu sou maior que isso. Não sou, Rá? Se eu não posso te dar essa... intensidade... por que eu deveria te privar dela? Nossa relação intelectual, nossa parceria... isso é o que importa. O resto é biologia.

— Exatamente, é algo puramente carnal, meu fofinho — ela sussurrou, aproximando-se e segurando minha mão. — Você é um homem incrível por entender isso.

Ela se aninhou em mim, parecia mais leve, resolvida. Dentro de mim, eu repetia a argumentação como um mantra, tentando me convencer de que estava dando um passo necessário para manter de pé o que ainda restava do nosso casamento.

***

7. A ausência presente

Os dois meses que se seguiram à nossa viagem de praia foram uma montanha-russa. A Rá estava notavelmente mais carinhosa comigo, exalando uma alegria leve; Por mais que essa melhora, me fizesse sentir acolhido, a consciência de que minha participação para isso era apenas indireta, me machucava.

O filho de Bianca nasceu em uma manhã chuvosa. Como padrinho, segurei a criança na pia batismal sentindo o peso de um paradoxo amargo: minhas mãos, que não acreditavam em Deus, juravam proteger a alma de um inocente, enquanto a poucos metros o homem que profanara minha cama sorria para os flashes.

A primeira "quinta-feira oficial" estava marcada para a semana seguinte. Eu ainda não estava totalmente convencido, e a proximidade da data me deixava com o estômago embrulhado, que eu resistia em demonstrar; não queria que a Rá desistisse apenas por piedade. Mas queria que nada disso acontecesse. Concordamos que o encontro seria no nosso apartamento, e eu estaria presente.

Quando cheguei do escritório, a ansiedade dela era palpável. Próximo à porta, ela segurou minhas mãos:

— Se ficar pesado demais, Otávio... se você sentir que não vai aguentar, apenas diga: "O mar está agitado". E eu paro tudo. Na hora.

— Promete?

— Prometo. Eu quero muito o que teremos essa noite, mas não quero que seja desconfortável para você.

Ela me deu um beijo casto na testa e caminhou para o banheiro. O som do chuveiro ecoou por algum tempo. Eu estava deitado na cama quando ela entrou, enrolada na toalha.

— Otávio... você pode ir para a sala agora?

— Por quê? Achei que pudéssemos ficar juntos enquanto você...

— Eu preciso me arrumar — ela interrompeu. A voz era suave, mas carregava uma autoridade nova. — O Jô já vai chegar.

— Eu sei, eu só achei que pudesse ajudar a escolher o que você vai vestir, ou...

— Não! Quero me arrumar para os olhos dele, entende? Parte do nosso acordo, é que eu seja dele essa noite...

— Tá bom! Eu já entendi. — murmurei, sentindo uma pontada de irritação, e caminhei para a sala.

Os minutos se arrastaram até que a campainha tocou. Dei um salto da poltrona, a Rá se apressou para abrir a porta. Usava um vestido envelope azul-claro. O tecido macio caía gentilmente sobre as curvas generosas do seu corpo. Nos pés, sapatos de salto alto e meia-calça. Eu ainda não terminara de avaliar o visual quando Josué irrompeu pela porta.

Sem dizer uma palavra, ele a puxou pela nuca e colou a boca na dela com ferocidade. O beijo foi profundo, sonoro, uma exploração faminta. Uma das mãos segurava a nuca dela; a outra puxava firmemente o quadril dela de encontro ao dele. Quando pararam, vi o rosto ruborizado da Raquel. Ela sorria, tímida, movendo uma mecha de cabelo para trás da orelha, evitando qualquer contato visual comigo.

— E aí, mestre? — Josué disse, apontando para o laptop no meu colo. — O professor aí, como sempre, batendo tecla. Tá ganhando a vida ou só deixando a vida te ganhar?

Meu rosto queimou.

Jantamos. Rá me pediu para preparar o meu risoto especial e escolher o vinho que harmonizaria. Fiz como ela pediu. Era uma cena surreal: eles dois sentados lado a lado, eu sozinho no outro lado da mesa encarando a comida mal tocada. Pouco participativo, eu me limitava a observar as risadas ocasionais dela para as piadas brutas dele, e as mãos que se demoravam sobre as coxas um do outro. Minha vontade era de levantar e acertar o soco que eu tinha errado da última vez. A segunda garrafa de vinho estava pela metade, quando o Josué, olhando para mim, disse:

— O jantar estava de primeira, mas eu sou um homem que não abre mão da sobremesa. — Ele disse, limpando a boca com o guardanapo e lançando um olhar pesado para a minha esposa. — E eu sei que hoje o doce vai estar bem recheado pra coroar o dia, não é, professor?

A Raquel soltou uma risadinha, e deu um tapinha no ombro dele:

— Safado...

Ele não a deixou terminar; beijou-a novamente. A Raquel gemeu alto. Minha visão era parcial, mas tive a certeza de que ele a apalpava por baixo do vestido. Quando ele se levantou, puxando-a pela mão, ela olhou para mim:

— Fofinho, pode tirar a mesa antes? — ela pediu, a voz ofegante. — Sabe que não gosto de ver as coisas desorganizadas.

Eu pensei em contestar, mas talvez o trabalho braçal ajudasse a limpar minha mente.

— O resto dessa garrafa a gente mata na sala — disse Josué.

Eles saíram abraçados, a mão dele espalmada sobre as nádegas dela, apertando a carne com a força de quem confere a qualidade de uma mercadoria na feira.

Me apressei em terminar as louças, sentindo que não devia deixá-los fora de vista por muito tempo. Quando cheguei na sala, o vestido dela já estava aberto no decote. A mão de Josué apalpava o seio semi-exposto. Fiquei parado, sem saber o que fazer, até me sentar na poltrona à direita deles. Cogitei ligar a TV para abafar os sons, mas a Rá se levantou e veio até mim:

— Fofinho, o Jô e eu conversamos sobre o seu... descontrole da última vez. — olhou para ele, pedindo validação. — Decidimos que, para que funcione hoje e você não interfira em um rompante, precisamos de uma garantia.

— Que garantia? — perguntei, o estômago se contraindo.

Ela buscou no quarto dois pares de algemas interligadas.

— É para sua própria segurança, professor — Josué disse, com aquele sorriso de quem conhece o medo alheio. — E como vai ser? Vai assistir o serviço com essa roupinha de doutor apertada ou prefere ficar mais à vontade para ver o que um homem de verdade faz com a sua mulher?

Meu corpo reagiu antes que eu pudesse pensar, e vi tudo vermelho. Não era só raiva; era a indignação de perceber que havia planos ali que me envolviam, mas cujos movimentos eu não tinha antecipado. Respirei fundo, não para me acalmar, mas para não implorar.

Olhando para minha esposa:

— Não acho que seja necessário, Rá… — falei para ela. — Eu só quero estar presente… Eu sei como funciona… Não tenho motivos para descontrole.

A Raquel e o Josué se entreolharam, com um sorriso discreto, como se compartilhassem uma piada que só eles entendiam.

— Seja um bom menino e entre na brincadeira, fofinho. Olha... — ela balançou o metal — isso não deixa tudo mais divertido?

Não deixava. Mas eu não queria prolongar a reclamação. Minha única e minguante esperança era que, ao ver a que ponto aquilo estava chegando, ela mesma a trouxesse de volta a realidade e desistisse por conta própria. Eu precisava que a renúncia viesse dela; se eu a forçasse a parar, eu apenas alimentaria o desejo dela pelo proibido.

— Tá bom. Só não aperte muito.

Josué fez questão de que estivessem justas. Prendeu meus pulsos à estrutura da poltrona, limitando meus movimentos.

Ele voltou para o sofá e estalou os dedos para ela:

— Chega de enrolação, boneca. Tira esse trapo aí. — se acomodou melhor no sofá — Mas tira devagar... sem pressa.

A Raquel não concordou de imediato. Ela virou o rosto para mim, quando seus olhos encontraram os meus, notei uma centelha de desejo que nunca vira antes. Josué não lhe deu tempo para hesitar. Conectou o celular na TV e as batidas graves de um funk proibidão transformaram a sala de estar em um bordel.

— Sensualiza pro negão aqui, que o teu maridinho precisa de uma aula de como se saboreia uma mulher.

Ela começou a se mover. O vestido envelope azul-claro, que no jantar parecia elegante, agora era a antessala da devassidão. Ela puxava o decote com as pontas dos dedos, revelando o vale dos seios enquanto mordia o próprio lábio, os olhos fixos em Josué, ignorando minha existência amarrada a poucos metros.

— Isso... desce até o chão! — Josué rugiu por cima da batida grave da música. — Dá um show pro frouxo ver como é que uma fêmea seduz o seu macho. Rebola, que hoje você é minha!

Os quadris rebolavam com uma naturalidade rítmica que me fazia duvidar se aquela era, de fato, a primeira vez. Ela deu as costas para ele e abaixou o tronco, fazendo o tecido subir até o limite. O estalo da mão de Josué contra a bunda dela foi sonoro, um golpe seco que deixou uma marca avermelhada instantânea na pele branca. Minha esposa não reclamou; ela soltou um gemido de aprovação que me atravessou como uma lâmina.

Com um movimento fluido, ela desamarrou o laço lateral, e o vestido deslizou livremente pelos ombros até o chão. O que surgiu por baixo me tirou o fôlego. Ela não usava nenhuma das lingeries que eu conhecia. Era um conjunto de tiras finas de cetim preto colados ao corpo, dividindo a carne em gomos. O sutiã mal cobria os mamilos, os seios pareciam saltar em direção ao rosto do Josué. As pernas cobertas por meias que terminavam em renda na altura das coxas, presas a uma cinta-liga de couro. E no cós do fio dental finíssimo, o insulto final. Quatro joias pendiam, balançando conforme ela rebolava, formando a palavra: P-U-T-A.

Me revirei na poltrona, o metal das algemas rangendo. Josué avançou. Suas mãos grandes exploravam o corpo dela sem delicadeza, apertando a carne até deixar marcas. As respostas dela eram gemidos cada vez mais intensos.

— Que saudade desse pau grosso — ela sussurrou, a voz carregada de uma fome que era nova para mim.

Ela se ajoelhou ali mesmo, no tapete da sala. Vi o brilho do ouro da nossa aliança contra a pele escura do Josué enquanto ela o segurava com adoração. "Na alegria e na tristeza", o juramento ecoou na minha mente como um escárnio.

— O negão aqui também sentiu falta da sua boca, cadelinha. Baba nele com vontade!

Ele segurava a cabeça dela com firmeza, movendo os quadris em um ritmo violento. Soltou uma gargalhada áspera ao notar as joias na calcinha. Inclinou-se, puxou o fio com dois dedos e acenou para mim como quem diz: "Viu só?". Não esperou minha resposta.

— Engole o teu dono, sua puta! Engasga com essa pica pro corninho aprender quem é que manda em você!

A palavra não era uma novidade, era apenas a legenda de uma imagem que eu já vinha editando há meses; agora amortizada pelos barulhos molhados saindo da boca da minha esposa. Era uma mistura de falta de ar e gemidos guturais.

Josué interrompeu o ato com um solavanco, puxando uma mordaça de couro da mochila, aproximou-se de mim e forçou a peça entre meus dentes. Tentei recuar, mas as algemas me travavam. Ele apertou a fivela na minha nuca com força excessiva, enterrando o couro na minha boca. A Raquel observava tudo de baixo, ofegante, com os olhos brilhando entre a culpa e um desejo que ela já não fazia questão de esconder.

— Fica quietinho, professor, que agora o espetáculo começa de verdade — ele sussurrou no meu ouvido — Levanta, branquela imunda. Vamos para o quarto que o teu serviço ainda está na metade — ele ordenou, arrastando-a pelo pulso como se a levasse para um abate, deixando-me para trás com o som do funk ecoando nas paredes vazias.

***

8. O mar está agitado

Eles entraram no quarto e deixaram a porta aberta. A luz derramada no corredor era a única coisa que eu via, mas o som... mesmo sob o funk estrondoso, o som tinha a nitidez cruel de uma fotografia. O ritmo seco da carne se chocando contra a carne, o ranger da nossa cama, e os gritos da minha esposa. Eram gritos que eu nunca ouvira nos nossos cinco anos juntos: agudos, famintos, preenchidos, cheios de êxtase animal.

O pânico subiu como bile.

"O mar está agitado."

Eu tentei gritar a frase. Meus pulmões ardiam, eu forçava as cordas vocais até sentir o gosto de sangue, mas por entre a mordaça, o meu pedido de socorro morria em grunhidos abafados e patéticos. Eu balançava a cabeça freneticamente, a saliva escorrendo pelo canto da boca, o suor frio ensopando minha camisa. A Raquel prometera parar, mas ela estava em um mundo onde a minha voz não tinha mais alcance.

E então, em meio à agonia de ouvi-la ser levada ao limite por ele, algo doentio aconteceu.

Minha impotência tornou-se o combustível de uma ereção dolorosa, pulsante, quase obscena. Imobilizado e emudecido, eu era nada. E ser nada, naquele instante, era a experiência mais intensa da minha vida.

Eu chorei sob o couro da mordaça, sentindo meu corpo celebrar a minha própria ruína.

***

9. A última onda

O barulho vindo do quarto persistiu por muito tempo antes de vir o silêncio. Josué apareceu na sala. Nu, triunfante. Ele se vestiu com uma calma insultuosa, deu um tapinha condescendente no meu ombro e saiu sem dizer uma palavra.

A Raquel surgiu no corredor momentos depois. Ela caminhou até mim com um sorriso de êxtase, uma aura de satisfação que a tornava estranhamente radiante. Segurou meu rosto com as mãos ainda quentes. Havia um desalinho inédito; estava inebriada pelo gozo recente e pelos vinhos que o precederam, ela havia sido arrebatada a um estado de nirvana profano.

— Obrigada, Otávio... — ela sussurrou, e eu senti o cheiro de suor e sexo vindo da pele dela. — Você foi um esposo maravilhoso por me deixar viver isso.

Ela me beijou, um toque seco por cima do couro da mordaça. Tentei desviar o olhar, mas ela manteve meu rosto firme, forçando-me a encarar o brilho selvagem nos olhos verdes dela.

— Eu gozei cinco vezes, fofinho. Minhas pernas estão bambas… — o sorriso dela se alargou — A primeira foi só de sentir aquele pau grosso na minha boca. Eu nem precisei de muito. Senti o gosto dele no fundo da garganta e meu corpo simplesmente desligou. Foi... — ela fechou os olhos por um segundo, revivendo a cena — ...extraordinário!

Minhas mãos tremiam, fazendo o metal das algemas tilintar contra a poltrona. Um som rítmico que denunciava o meu colapso.

— Depois ele me queria de quatro. Me puxou pelos cabelos com tanta força que eu achei que ia desmaiar de prazer. Gozei de novo enquanto ele me chamava de nomes que você nem consegue pensar, Otávio. Nomes que eu adoro ouvir. E foi ainda melhor sabendo que você estava aqui, ouvindo tudo. Saber que você estava nos esperando do outro lado da porta... deixou tão molhada que estava escorrendo.

Ela abriu o meu zíper. O contato das mãos dela com a minha pele fria me fez dar um solavanco. Meus sentimentos estavam em carne viva, mas meu corpo respondia ao relato com uma urgência traidora.

— Ele me usou de todos os jeitos — ela continuou, o ritmo das mãos dela acompanhando a cadência das palavras. — De lado, por cima dele, sentindo cada centímetro...

Fechou os olhos por um instante, respirando fundo, como quem saboreia algo que ainda está na boca. As mãos não pararam um segundo sequer. Quando voltou a me encarar, havia fogo nos olhos dela.

— Eu implorei para ele me foder, Otávio. Implorei para ele meter forte, para me comer como você nunca deu conta de fazer. Deus… como eu desejava ser fodida assim. Livre. Sem culpa. Sabe aquela sua "delicadeza"? Aquela preocupação toda com os toques gentis? Pois é... não é o que eu gosto. Eu amo ser dominada. Gosto de sentir um homem de verdade me fazendo de puta.

Eu soltei um grunhido abafado, um som que se perdeu no couro da mordaça. Meus ombros subiam e desciam, em uma luta inglória contra o choro e o desejo.

— Isso… te excita? Te excita saber… que o seu cunhado… me fez gozar assim… na sua própria cama? Eu gozaria muito mais, mas ele se deu por satisfeito. Me colocou para mamar e encheu minha boquinha de leite. Gozou como um cavalo, fofinho. Engasguei um pouco, mas não fiz feio. Engoli tudo. Até a última gota. Ele é um animal. Eu quero isso sempre... mas o que você pode fazer? É algo que você sozinho jamais conseguiria me dar… Nem perto disso, né, fofinho? Nem se tentasse por toda vida.

O olhar dela mudou; um meio sorriso de confirmação, enquanto meu próprio êxtase se derramava sobre a minha coxa. Era o ponto final daquela cena patética.

Só então, começou a soltar as algemas com a mesma calma com que alguém recolhe folhas de papel que o vento espalhou.

O jantar dessa quinta-feira tinha, enfim, terminado.

...

***

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Os Restos: Os dias após a quinta-feira

a. Sexta-feira: Agora quinta-feira é todo dia

“...Se eles são capazes de manter tamanha euforia. Se sou capaz de suportar tanta agonia. Eu tenho certeza que a gente podia fazer com que fosse quinta-feira todo dia...”

Um riso seco escapou após esses versos. Eu não estava mais triste; a tristeza exige uma esperança que eu já não possuía. Eu estava... entorpecido.

Depois daquele encontro que entre a Raquel e o Josué, a porteira se abriu. No início, o minúsculo respeito de ainda me consultar. Depois, passou a ser apenas um aviso. Agora, o Josué tinha a sua própria chave. Eu já não sabia quando a fechadura estalaria, mas o som já não me sobressaltava. Ele entrava e saía com a naturalidade de quem paga o aluguel. Às vezes, dormia no nosso quarto com a Raquel enquanto eu me virava no sofá. Outras vezes, eram encontros rápidos e violentos, e a Raquel estava sempre pronta. Sempre aberta.

A grande contradição é que nosso relacionamento nunca esteve tão calmo. Ela era uma mulher completa. Os cuidados eram divididos: eu trazia a estabilidade, o Josué entrava com intensidade. Se ela estava feliz, se ela me tratava com uma doçura renovada após cada tarde com ele, quem era eu para intervir com conceitos arcaicos?

Tentei falar com ele uma vez, em um lampejo de dignidade. Tentei argumentar de "sócio" para "sócio". Ele nem se deu ao trabalho de justificar uma resposta. Apenas riu e ergueu o copo de cerveja em um brinde, celebrando a Raquel e a sorte dela em ter homens que dessem a ela o melhor de cada mundo. “Como se diz…? Algo em inglês… Hostile takeover”, pensei.

No dia seguinte, a Raquel me pediu dinheiro para uma tatuagem no cóccix. Tentei argumentar. A conclusão foi que eu precisaria fazer horas extras. As outras nem sei como são.

Em meio a esse tufão, eu ainda tinha uma âncora: a Bianca. Pobre Bianca, presa na sua ignorância, cuidando de um berço enquanto o seu animal devorava a minha vida. Fui até a casa dela em uma tarde qualquer, carregando a verdade como se fosse uma granada. Precisava da última pessoa que ainda falava a minha língua.

***

b. Terça-feira: Bianca, a última das inocentes

O cheiro de lavanda da casa dela e a imagem da esposa perfeita me lembravam o que eu tinha antes de tudo desmoronar. Sentei-me à mesa. Bianca me serviu um café. Olhei os braços finos, o avental impecável. Senti vontade de chorar por nós dois.

— Bi, eu não posso mais carregar isso sozinho... — comecei, sentindo o pino da granada entre os dentes. — O Josué… Ele e a Rá…. Eles estão tendo um caso...

Esperei o grito. O desmaio. O barulho de porcelana quebrada. Nada. Minha irmã apenas ajeitou o açucareiro, alinhando-o perfeitamente com a borda da bandeja, e se sentou.

— Você sempre foi tão sensível, Tavinho — ela disse, maternal. — Mas você precisa entender que nem todo mundo se alimenta apenas de... poesia. O Nego é um homem de necessidades volumosas.

E a Quel... bem… você sabe como ela sempre foi vibrante. Você não pode condenar uma mulher como ela por sentir tesão nele.

— Bianca… ele é seu marido! Ele… Ele está me desonrando e… traindo você sob o meu teto!

— Ele não me trai, Tavinho. Ele tem necessidades e se satisfaz… — sorriu — Eu sou o centro, a mãe do filho dele, a dona da casa que ele sempre volta. O que ele faz com a Quel é apenas uma... diversão. — tirou um minúsculo grão de pó de café da toalha de renda branca — Eu sempre soube, desde antes mesmo de eu engravidar. Na verdade, eu consenti. É um equilíbrio… O Josué precisa de um pasto novo para continuar sendo o rei do meu jardim. — continuou, sem desviar os olhos da mancha invisível que acabara de limpar.

Fiquei atônito. A granada explodira na minha mão.

— Você consentiu…

— Otávio, olhe para mim — ela inclinou-se levemente, o rosto sereno como o de uma madona. — Eu tenho tudo o que uma mulher pode desejar: estabilidade, um filho saudável e um marido que, por saber que pode saciar os seus instintos em outro lugar, me trata como uma rainha aqui dentro. Ela não foi a primeira, Otávio… E nem hoje é a única. Eu sei e sempre soube de todas. Mas ela, para o bem e para o mal, é a favorita do Nego... e a minha também. Desde a primeira vez que você me apresentou a ela, nutri um carinho especial pela Quel, e só intensificou quando descobri que a mesma dedicação que ela usa para servir aos homens, ela empenha para agradar as mulheres. No fim, não tenho porque sentir ciúmes do que ele dá a Quel, porque a mim também não falta.

Saí de lá com a sensação de que o ar do mundo tinha acabado. Ela não era vítima, era coautora. Eu era apenas o colateral. Estava sozinho. Na próxima semana, meu aniversário. Não tinha razão alguma para comemorar.

***

c. Segunda-feira: Hoje não estou de parabéns

Eu esperava uma trégua por ser "o meu dia". Ainda assim, fiquei surpreso ao entrar em casa e encontrá-la sozinha. O silêncio era um presente. Ela se aproximou e me beijou no rosto.

— Feliz aniversário, meu fofinho. Te amo! Vamos jantar. E para a sobremesa fiz o seu bolo preferido: de chocolate com recheio de nozes.

O jantar foi uma (quase) lembrança perfeita de felicidade. Eu tentei, por hábito, puxar algum fio de conversa sobre o que líamos, sobre o futuro ou sobre a vida. Mas a Rá me parecia apenas interessada em frivolidades; ela passava minutos descrevendo o brilho de um novo gloss ou sobre qual o melhor biquini para uma “marquinha” mais sexy. Quando ela voltava para a mesa com o bolo, como se fosse coreografado, o estalo da fechadura cortou o ar.

Josué entrou. Barulhento como sempre. Mas, desta vez, ele não estava sozinho. Logo atrás, surgiu a figura serena de Bianca.

— Parabéns, Otário... digo, Otávio! É a força do hábito, mestre — ele gritou, batendo nas minhas costas com uma força que me fez engasgar com o vinho. — Cheguei a tempo da sobremesa ou vocês já acabaram a festa sem mim?

Bianca contornou a mesa e depositou um beijo morno na minha bochecha.

— Feliz aniversário, Tavinho! — depois, virando para a Raquel — Quel… esse bolo… está com uma cara melhor do que a nossa vovó fazia...

Josué passou o dedo pela cobertura do bolo e provou com um sinal de aprovação. Repetiu o gesto, mas dessa vez levou à boca da Rá, que chupou o dedo com sofreguidão.

— Hoje o dia é teu, mestre, mas quem ganha o presente sou eu por ter amigos tão... mansos. — ele acrescentou, gargalhando.

Antes que eu pudesse fazer algo(?), a língua do Josué já explorava a boca da minha esposa. A coreografia da nossa "paz" foi desmantelada. Bianca sentou.

— Às vezes, eu gosto de só olhar — disse ela, a voz tão límpida quanto o cristal da taça que segurava.

Com uma mão, Jôsué abriu o vestido da Raquel na altura do busto, libertando os seios dela; com a outra, forçou-a para baixo, arqueando seu corpo sobre a mesa. Os seios dela afundaram na massa de chocolate e nozes. O bolo, que deveria ser o meu agrado, tornou-se o apoio para a perversão deles. Jôsué se posicionou atrás dela, puxando o cabelo dela para trás com uma força que esticou a pele do seu pescoço.

— Hoje o presente é especial, não é, professor? — Jôsué rosnou, enquanto se preparava. — Isso aqui é o que seus bons modos não te deixam pedir, mas é o que faz o olho dessa branquela brilhar.

A Raquel debruçada, a boca entreaberta de desejo, as mãos afastando as nádegas com firmeza, escancarando o caminho para ele.

— Ela quer pressão, mestre. Quer um pau de macho atolado nesse cuzinho rosa.

Me faltam palavras para descrever toda a selvageria. Meu cunhado se forçou por entre as carnes da minha esposa. A dor e o prazer extremo no rosto dela se misturavam enquanto ela mantinha o contato visual comigo.

— Desculpammm, fofinho... — ela arquejou, o rosto vermelho, a voz falhando, subindo num tom agudo, enquanto a mesa rangia. — Mete, meu negão!.... Desculpa, eu... eummm não planej... Ai, cachorro! Que delíciammm... Eu faço... outro... bolo.... depois.... Arromba meu cu de puta!... Eu juro...

A RaQuel mantinha contato visual. Entre os gemidos e os insultos do Jôsué, a boca dela me pedia desculpas. Mas o corpo se entregava às investidas dele.

— Geme pra mim, sua cadela imunda! — Josué rugiu, a mão espalmada estalando na carne dela. — Geme alto pro teu maridinho ouvir o que é um homem de verdade!

Os tapas na bunda ecoavam pela sala, deixando marcas vermelhas que contrastavam com a brancura da sua pele suja de chocolate. Ele a virou de frente com um solavanco. Os seios volumosos, lambuzados, foram esmagados contra o peito retinto. O pau ainda estava no cu? Não sei. O espasmo final deles passou, finalmente. Jôsué se ajeitou, limpou o suor na toalha de mesa. Me deu um último olhar antes de conduzir nossa mulher para o quarto deles.

Bianca os seguiu. Fiquei sozinho. O bolo, uma pasta irreconhecível. Espalhada pela madeira, misturada ao sêmen dele e aos fluidos dela. Minha ereção latejava. Uma dor aguda e insistente por baixo da calça. Libertei-me do tecido. Com uma das mãos, comecei um movimento rítmico e desesperado. Com a outra, mergulhei os dedos na massa à minha frente. Esperei. Enfiei tudo na boca. Meu espasmo chegou. Violento. Fiquei sem fôlego. O prazer amargo se esvaindo, enquanto eu ainda mastigava os restos do meu aniversário. O bolo de chocolate com nozes tinha gosto de derrota.

***

d. Quarta-Feira: O troféu de carne

Eu já não discuto. Saco de batatas. Sou passageiro. Tudo é passageiro? Nirvana profano. Pago as contas. Pintou? Eu assino. Assino mais lábios. Lábios grandes. Grandes lábios. Famintos. Para sempre. Assino peitos. Mais peitOOs. Agressão visual. Nossa mulher. Uma boneca de carne.

Minha família. Distância. Não vejo. Só Jô, Quel e Bi. Meu lar. Hoje? Jantar na casa dos meus pais.

— Esse vestido não está curto demais? — perguntei.

Hábito. Ecos distantes.

Ela não respondeu. Apenas sorriu para o próprio reflexo. Pintando os lábios de rosa-choque. Brilhante.

Fomos no carro. Eu ao volante. Frio. Sou Motári… Mo… Motorista. Atrás, eles dois. Calor. Jô tirou um pacote.

— Uma surpresa para o professor e para a família — anunciou — Piranha tem que se vestir como tal.

Espiei. Ela se despia com o carro em movimento. O corpo... volumoso. Carne balançando. Vestiu o trapo sintético. Só o trapo. Saltos altíssimos. Maquiagem carregada. Cílios imensos.

Estacionei.

— Espera, mestre. O motorista só desliga o carro quando eu mando. — segurou a Quel pela nuca. — Essa branquela me deixou no ponto, e seria falta de educação entrar com o fuzil travado na casa do sogrão… — olhando pra ela: — Você, termina o serviço. Agora!

Ajustei o espelho. Quel sabe o que fazer. Abre o zíper. A cabeça desceu. Ruído de boquete molhado. Que delícia. Não me toco. Jô balança a cabeça dela como uma bola. Ela gemia agudo. Sorvia. Sem respirar. Som de carne batendo no fundo da garganta. Me viro. Para olhar. Jô solta um urro. Encheu a boca dela. Encheu o estômago dela. Não me toco. Gozo.

Entramos. Choque elétrico. Meu pai engasgou com água. Quel caminhava vulgar. Carne balançando. Os bicos dos melões. Furaram o trapo? Piercings furaram os bicos. Eu nem sabia que existiam. Ela tinha o cheiro dele.

Minha mãe me puxou.

— Otávio, por Deus... o que aconteceu com ela? Ela está parecendo uma...

— Hoje as mulheres são livres, mãe — eu interrompo — A Quel está apenas explorando a própria estética. Quem somos nós para julgar?

Bianca sorria. Batom da Quel borrado. Bianca ri mais. Ela sabe. Meu pai disfarçado encara os melões. Dia de feira? Ele apertaria. Meu padrinho. Olhos abertos. Devorando. Quando sozinho. Olhos fechados. Lembrando. Brincaria de boneca.

No prato principal, Quel levantou. Carne balançando. Taça no alto.

— Gêntchi, mi iscúta… — a voz aguda, infantilizada. — tô grá’vidam…

Silêncio. Absoluto. Meu pai sorriu amarelo. Minha mãe. Apreensiva? Feliz?

— Vai ter um irm… um priminho para brincar — sussurrou ao filho.

Jô ao meu lado. Mão pesada na minha coxa. Apertando. Dono.

— Crescei e multiplicai! — gargalhou — À família! Que venha com saúde para honrar o sobrenome do mestre e o vigor daqueles que o cercam. Amém!

Brindei. Olhei Quel. Barriga. Carne balançando. Serei equilíbrio. Filho deles. Nosso filho. Melhores pais. Melhor safra.

Tomei uísque.

Doce.

***

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Comentários

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Não posso dar nenhuma estrela para este tipo de conto onde existe traição,humilhação,brutalidade,imbecil idade,um marido patético e trouxa,alimentando uma piranha e um troglodita.Acha outro tipo de situação colega pra escrever,algo mais palpável e erótico e não este conto escrito que deve ser a tua situação vivida com esta mulher.Zero tolerância para este tipo de conto erotico. Bahhhhhhh

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