Acordo meio dormindo, confuso. Talvez eu tenha bebido, talvez tenha sido muito, talvez por isso minha cabeça gire e eu sinta essa vertigem que me impede de levantar do chão.
Tenho nas mãos um calhamaço de papéis manuscritos. Perco algum tempo tentando entender o que é.
Está em alemão, ao menos a parte feita com uma caligrafia de letras miúdas e redondas. A outra parte mistura português, inglês, francês e, a julgar pela letra, fui eu quem fiz a partir do texto original.
Putamatri. Esse é o título. Que diabos é Putamatri? Porque eu estava trabalhando nisso? Quando foi que eu comecei a fazê-lo? Nada, não recordo de nada.
Pelo visto, levei dias pra fazer tudo aquilo e agora eu não me lembro sequer de ter começado.
Já está anoitecendo lá fora, ou amanhecendo, não dá para saber porque o relógio que vejo na parede do quarto de hotel na beira da estrada deve estar quebrado, os ponteiros estão correndo em sentido contrário.
Com algum esforço, consigo levantar. A vertigem aumenta e tenho que sentar-me na cadeira tosca em frente à mesinha de madeira gasta. Nesse momento, Haylin entra no quarto e, não sei porque, sinto um ímpeto de esconder o manuscrito.
Não dá tempo, eu tentei escondê-lo entre as pernas, mas ela repara. Pelo visto, eu estou confuso mesmo, porque minha companheira parece feliz com aquilo.
“Edu, que bom, você voltou a escrever! Já era hora, você faz isso tão bem! Eu sabia que vir para cá resgataria suas palavras”, comenta sorrindo.
Não sei bem o que fiz para que uma mulher como Haylin se juntasse comigo.
Acho que eu não presto, estou sempre com a cabeça perdida, minha memória tem lacunas, a tal ponto que eu não consigo trabalhar. É ela que nos sustenta, enquanto eu desperdiço meu tempo e esse talento para a escrita que ela acha que eu tenho.
A loira alta se aproxima de mim, se inclina e me beija. Há algo estranho nisso, eu quase adivinho. Enquanto sua língua desliza pela minha e nossos lábios se absorvem, eu só consigo pensar no Putamatri e que eu preciso terminar de escrever minha versão.
Mas o beijo de Haylin se prolonga, como se ela soubesse que eu estou divagando e quisesse me trazer de volta para ela. “Vem, vamos rapidinho antes de eu sair para o trabalho na lanchonete do outro lado da estrada”, ela sussurra no meu ouvido já me puxando pela mão, e qualquer reticência minha se esvai.
Minhas pernas estão tremendo, como se perdessem a força a cada movimento que faço ao pé da cama que domina o quarto, vendo Haylin se contorcer gemendo baixinho, inclinada para frente e agarrando o lençol puído enquanto a satisfaço.
Desde que estamos juntos é assim, Haylin tem um apetite por mim imenso e sabe como fazer para que a atenda quando deseja. Talvez por isso eu siga junto a ela, não é tanto pelo sexo, mas para sentir que ainda sou útil.
Haylin atinge o clímax com um gemido longo e fino que vai se tornando gutural à medida que a domina.
Venho logo em seguida e, como se estivesse atravessando um surto, senti sua pele lisa tornar-se fria em minhas mãos retendo-a pela cintura e que sua tez branca e rósea tornou-se um tanto azulada, com seus cabelos loiros parecendo tão negros como a noite.
Me assusto, é como se Haylin esteja se transformando em outra mulher, ou quase em outra coisa, como se não fosse humana. Ao dar-me conta disso a vertigem aumenta, minhas pernas falham, olho para a parede do quarto e ali está o relógio, girando ao contrário em sua contagem regressiva.
Desmaio, ou creio que desmaio, pois quando abro os olhos estou esparramado sobre a cama e Haylin está terminando de vestir o uniforme de garçonete. Ela sorri para mim, se inclina sobre meu peito e diz que devo acompanhá-la até a lanchonete do outro lado para comer alguma coisa, pois estou tão fraco que desmaio.
Eu quero objetar, a tal tradução do manuscrito voltou à minha cabeça com força e é como se eu precisasse terminar aquilo mais que tudo no mundo, sentindo uma urgência absurda sem razão de ser.
Mas Haylin me beija e, uma vez mais, minha mente cede a seu pedido e esqueço de tudo para obedecê-la.
Estou sentado num estofado de couro vermelho olhando um bife imenso sobre a mesinha de fórmica verde presa à parede junto à janela no fundo do salão da lanchonete, enquanto Haylin leva pedidos ao balcão e volta com vários pratos, equilibrando-os habilmente sem perder o sorriso congelado no rosto.
Não tenho fome, nem um pouco, e o cheiro da carne grelhada me dá ânsias. Contudo, Haylin uma e outra vez olha para mim e arqueia a sobrancelha, apontando com o queixo para indicar que eu preciso comer.
Eu vejo seus lábios pintados de vermelho e é como se estivesse beijando-a outra vez, o que me leva a comer aquilo, mesmo a contragosto.
Sinto como se estivesse mastigando algo de borracha coberto de isopor, apesar da aparência real, o bife é como um desses de mostrador, artificial.
Corro até o banheiro perto de minha mesa nos fundos, eu preciso cuspir tudo. Termino vomitando sobre a pia, quando um senhor distinto sai de uma das cabines sanitárias e me vê ali, fitando-me por trás de um monóculo um tanto aristocrático para uma lanchonete americana da década de cinquenta na beira da estrada.
– Finalmente. Estou te esperando faz horas. Desculpe pelo truque da carne falsa.
– Eu… O bife falso… Foi você? Mas que mer..
– Não era falso, foi só uma ilusão passageira. Eu preciso falar contigo, longe de… Não sei o nome que ela está usando agora. Falo da loira que entrou contigo, aquela vestida de garçonete.
O velho olhava para os lados enquanto sussurrava, como se estivesse sendo observado. O medo se estampava em seu olhar e sua voz tremulava.
– Mas, o que tem ela? O que a Haylin fez?
– Não há tempo de explicar tudo, ela não pode me ver aqui, falando contigo. Você percebeu o relógio?
– O relógio andando pra trás no quarto de hotel? O senhor também viu?
– Não é o relógio, é o tempo, se acaba a cada dia e depois recomeça. Você está preso nisso, pulando de realidade todos os dias.
– Não pode ser. Estou com Haylin faz uns quatro anos, desde que nos conhecemos no Potomac.
– Isso não é verdade, é só uma ilusão. A cada dia, a contagem regressiva termina e tudo muda, só para mantê-lo preso. Ela o tem nas mãos, se alimenta de ti, e você nem percebe!
– Isso não faz sentido! Afinal, quem é o senhor? Porque está me dizendo tudo isso?
– Germain, ou Saint Germain, assim era como me conheciam. E agora, eu tenho que ir. Ela já percebeu a sua ausência e está vindo por você.
Neste exato momento, Germain sopra e a porta do banheiro bate. Alguém lá fora começa a forçá-la e a gritar meu nome desesperadamente. É a voz de Haylin.
– Mas o que é isso? Como você sabe que ela vinha?
– Eu já fui você, quer dizer, estive na mesma condição. Agora, eu preciso de você para nos livrar dela para sempre. Como vai a tradução? Terminou sua versão do Putamatri?
– O Putamatri? Não, eu não sabia. O que é aquilo?
– É a chave de tudo. Emprestei pra você em outra vida, para você se libertar. Ela provavelmente já sabe que você está reescrevendo, mas não pode destruí-lo, está protegido. Ela vai fazer de tudo para impedi-lo, mas você precisa terminar!
– Mas porque é tão importante?
– Continue, precisa ser feito por você mesmo, ou as palavras não revelarão seus segredos. Você tem uma vida de verdade, tem mulher e filhos, e tem que voltar para eles!
O velho entra correndo de volta na cabine sanitária, justamente quando Haylin consegue arrombar a porta do banheiro. Volto a olhar para a cabine, mas já não tem ninguém lá.
O tal Saint Germain desapareceu tão misteriosamente quanto surgiu. E agora Haylin está indócil, brigando comigo, dizendo que eu não posso me trancar no banheiro por conta da minha cabeça, que fica me enganando. Segundo ela, eu sou um perigo para mim mesmo.
Sem saber o que pensar, atravesso a pista voltando para o quarto e deixo Haylin terminando seu turno na lanchonete. Sobre a mesinha, vejo o tal manuscrito do Putamatri.
Releio algumas partes traduzidas por mim e vejo que fala sobre o que pode ser um anjo caído, ou um demônio feminino, ou uma bruxa secular, ou ainda uma ninfa mágica - o alemão é uma língua traiçoeira em significados.
Penso em Haylin e tudo que Saint Germain me contou se encaixa perfeitamente. Mas lembro também que eu estou fraco da cabeça, que o tal Saint Germain talvez nem exista e que Haylin é a única pessoa no mundo que se importa comigo.
Segundo ela, o tal Putamatri não passa de um texto que eu estou escrevendo com base num manuscrito velho de um sebo de livros. Pura ficção da minha mente confusa. Bem, se escrevo para ter mais clareza, o Putamatri não está ajudando em nada.
A única coisa que não se encaixa nessa versão é o tal relógio na parede, andando para trás em sua contagem regressiva.
Estou atônito, não sei no que acreditar. Quero ficar com Haylin e quero terminar o Putamatri, mas estes dois desejos parecem colidir, anulando-se um ao outro, duas polaridades invertidas que se repelem. Sinto isso na alma, não racionalizo.
Então, uma ideia toma forma em mim, algo diferente, uma terceira saída para este dilema. Eu quero continuar, eu preciso continuar, mas eu não não sei se consigo… continuar?
