O galo havia cantado, ainda estava escuro, não chovia mais, mas ainda ouvia-se as gotas caindo na folhas das árvores. Eu levantei como uma sonâmbula. Miguel havia deixado-me moída, esses negros fogosos acabam com gente.
Misericórdia.
Mal tinha praticado minhas orações ao pé da cama, vieram as batidas na porta, eu ia começar minhas abluções. Tomei um susto.
"Só um momento!"
Foi só cobrir-me com o lençol, não deu tempo de autorizar, a madre entrou com um ar desconfiado, olhando para todos os lados.
"Bom dia, madre! Sua bênção."
"Deus te abençoe minha filha."
Entraram ela e duas noviças que eu não conhecia.
"Informaram ter ouvido ruídos, uns fragores vindos daqui essa noite."
"Ruídos? Sinceramente não ouvi nada madre. Cheguei muito cansada como a senhora viu. Ontem foi um dia estafante."
Ela não parecia muito convencida com a minha fala. Um olhar inquisidor, meu sangue gelou nas veias.
"Tem certeza de que ouviram sons vindos daqui? Porque eu juro que não ouvia nada."
"Juras, dona Consuelo?"
"Pelo nosso Senhor."
Ela mostrou um esboço de um sorriso, inclinou levemente a cabeça na direção do ombro. Eu sustentei o olhar.
"Muito bem, agradeço a sua atenção. Devem ter confundido-se. Desculpe pelo incômodo."
"Não foi nada. E qualquer coisa ficarei atenta. Se ouvir, aviso- lhe."
"A missa será na capela daqui a meia hora."
Foi vestir-me e sair apressada, cruzei com algumas noviças carregando seus bacios. Eu simplesmente havia esquecido do meu, até porque na fazenda esse é um serviço das mucamas.
***
A missa foi longa como sempre, e entediante, padre Fábio na sua ladainha monocórdica em latim. Tive que controlar-me os bocejos antes que despertasse mais a desconfiança da madre.
Preferi não confessar, achei melhor deixar para outro dia afim de de pensar numa forma de aliviar-me da culpa sem que o padre desconfiasse de algo.
Afinal menti descaradamente em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo. Uma vergonha que afligia-me a alma, mas fazer o quê? Confessar seria pior do que arder no Inferno e pelo menos para isso havia os ouvidos do padre Fábio. Ainda bem que o homem era meio surdo e com um pouco de imaginação eu limparia o pecado que torturava-me naquele momento.
Sem confessar não comunguei, óbvio, vi algumas carmelitas olhando-me como se fosse um absurdo. Por isso, dediquei-me a uma oração fervorosa de joelhos. O chão de pedras estava frio, mas a penitência de qualquer forma aliviou minha alma.
Dali à pouco, perto das oito, estávamos todas sentadas às mesas do refeitório. Muito mais agradável, ainda mais com os aromas que vinham da cozinha. Cheiro de café torrado, o perfume do leite extraído direto das vacas e melhor ainda os pães e biscoitos do convento.
Eram famosas as freiras por serem excelentes doceiras e quitandeiras.
"Irmãs, por favor! Um momento."
A madre pôs-se de pé, um ar de gravidade no seu olhar.
"Chegaram notícias vindas da corte. Infelizmente, mês passado faleceu a imperatriz."
Houve um estribilho, os olhares demonstrando surpresa.
"Dona Leopoldina, madre!"
"É o que acaba de chegar nas cartas e jornais que vieram do Rio de Janeiro. Ela teve um aborto espontâneo e veio a falecer nove dias depois."
Uma das prioras ergueu uma folha de jornal e leu completando o que a madre acabara de relatar.
"Diz no Diário Fluminense que ela morreu de desgosto com as atitudes do imperador."
"Ele nunca foi boa bisca, uma pena o pai ter retornado a Portugal, seriamos melhor governados. Os jovens de hoje são uns devassos."
"Parece que por causa de um favorita do imperador. A qual ele colocou como dama de Honra de dona Leopoldina. Uma marquesa ao que parece."
"Inacreditável humilhação, uma imperatriz ser destratada assim pelo esposo aos olhos da corte. Não é a toa que abortou. Como é o nome da ardilosa?"
"Domitila de Castro, marquesa de Santos."
"E o imperador estava onde quando ela faleceu?"
Perguntou uma das irmãs mais indignadas com o que contavam aa cartais os jornais.
"No sul combatendo os portenhos."
A madre recuperou um pouco do autocontrole e fez uma comunicação as irmãs.
"Bom de qualquer forma, peço a todas uma oração, antes que nos recolhamos aos afazeres diários. In memorian a imperatriz e a missa das seis será em Intenção a alma de dona Leopoldina. Com certeza nos braços de Nosso Senhor Jesus Cristo."
***.
Duas batidas na porta.
"Entre!"
Pelas batidas eu sabia quem era. A porta rangeu e a irmã apareceu mostrando um sorriso matreiro.
"Dona Consuelo, tenho notícias para sinhá."
"Notícias para mim? Então fale, não escondas nada."
Estava eu a desarrumar as malas, bem a vontade, apenas com um corpete e uma das minhas anaguas. Vi que a irmã interessou-se pelos meus ombros, os braços nus.
"Madre Tereza pediu ficasse de olho em sinhá."
"Em mim? Porque sera?"
O cinismo estava estampado em nossos rostos, os olhares brilhavam. Os segredos eram o molho que nos deixam mais que unidas.
"Disseram ter ouvido rangidos vindos dos teus aposentos."
"Mentira! Não houve rangidos."
Ela foi chegando, aproximando e encarando de um modo lascivo. A curiosidade exibia nos seus modos.
"Houve o que então?"
Nos olhamos como duas devassas trocando segredos pecaminosas.
"Gemidos, foi o que houve. Miguel estava muito necessitado ao que parece."
"Ao que parece? Disseram a madre que os gritos eram mais agudos que os de um homem. Pareciam vir de uma fêmea no cio."
Estava tão próxima a mim que nossos rostos quase se tocavam. Inocência deslizou seu dedo sobre o meu ombro, desceu pelo braço até nos darmos as mãos.
Eu ainda não acostumara-me a esse tipo de intimidade com mulheres, mesmo já tendo experimentado um ano antes, justo a irmã.
"Então conta sinhá, gemestes como uma rameira na frente de um escravo?"
"Sua argúcia chega a ser pecaminosa irmã."
"Confesso minha transgressão. É que agora que deitou-me com Miguel isso deixa-me ciúmes."
"Pecado grave. Precisas curar essa chaga."
"Eu sei, assim como sinhá curou a sua com o nosso Miguel."
"Assanhada, sua abadessa sabe do que pretendes aqui, comigo?"
"Foi ela que mandou-me vir vigia-lá."
"Mas tuas são outras, queres apagar o teu fogo. Ainda não acostumei com as tuas taras. É novidade para mim."
A irmã mostrou um sorriso saliente, a voz tornou-se rouca, mais sensual.
"Basta não repremires os desejos. Lembra como foi na cachoeira?"
"Não há como esquecer. A irmã revelou-se conhecedora nas artes libidinosas, ainda mais com outras..."
"Outras o que?"
"Mulheres."
"Não sou a única, como bem sabes. Além do mais, fostes tu a ensinar-me como entregar a um homem."
Estávamos tão próximas que os lábios roçavam as faces.
"E o que pretendes de mim, irmã?"
Houve um silêncio cúmplice, meus olhos hipnotizados aos dela. Num rompante seus dedos penetraram o corpete. A mão pequena segurou o meu seio.
Só ouvia-se a nossa respiração. Inocência expôs o seio, seus dedos puxaram o mamilo, esticaram. Até me provocar grito.
"Aaah!"
"Sssh!"
Os olhos negros presos aos meus. Inocência descendo a cabeça até envolver-me o peito com a boca. Sugou-me com desejo, mamou como uma criança esfomeada. Mamou e mordeu.
"Aaah!"
"Silêncio. Anda, se despe."
O que mais encantava era o ar de autoridade que assumia quando estávamos nessas relações depravadas. Geralmente dou ordens, mas com Inocência torno-me sua serva.
"É isso que tu querias, me ver nua em pelo?"
"Espera."
Ela estava tensa com a minha imagem. Se aproximou e tocou-me a intimidade. Só mulheres sabem como agradar outras. Tocou-me com a ponta dos dedos, abriu-me, furou-me com eles. Os pontos certos, meus segredos tão bem guardados e a devassa a provocar-me tremores, humores.
"Irmã! Eu, eu..."
Tampou-me a boca com a outra mão. Os olhos negros faiscantes, ela como um ar senhorial. A face crispada, ela tensa a masturbar-me como nem mesmo eu.
Inocência furou-me com os dedos em cunha, penetrou como um pênis largo, o punho invadiu-me o útero. Eu fervilhava como uma chaleira no fogo.
"Oooh! Oooo!"
Ela sabia que havia me levado ao ápice. Seus lábios avançaram sobre os meus, gulosos, sedentos. As nossas línguas se agitaram como loucas no espaço de nossas bocas.
A irmã fornicava-me coma sua mão. Penetrava-me a boca como se fosse um falo.
Urrei e cheguei. Cheguei esguichando como se fosse um mijo molhando o piso e os dedos de Inocência. Ficamos a nos encarar, eu assustada, mais que envergonhada ela vaidosa que fez comigo.
"Saudades, sinhá. Saudades dos teus orgasmos molhados."
"E agora, irmã?"
Ela tirou a touca, deixou cair o hábito. Nua em pelo, morena dos seios pequenos, da vulva triangular, as coxas finas.
A irmã agachou-se e beijou-me de um modo novo. Nunca antes, nem ninguém, provou minha vulva com a sua boca. Eu agarrada aos cabelos crespos e ela dando-me um beijo imoral na boceta.
"Rebola Consuelo, não acanhes."
Movi a cintura contra a face de Inocência, uma miríade de sensações afloraram em mim. A língua matreira trabalhava o ponto sensível que toda mulher tem.
Os atos libidinosos, os lábios ávidos da irmã, a língua de uma vadia. Fui levada de volta ao estado de loucura. Eu vibrava intensa, mais ainda quando seus beijos massageam o ventre. Beijo tarado, mais que apaixonado.
"Uuuuh! Aaah! Irmã!"
Explodi outra vez. Jorrei meus pecados em gotas na boca da minha amante. Inocência bebeu meu orgasmo. Meu sumo escorreu em seu rosto respingou nos seios
"Tua perversão assusta, irmã."
"A minha, sinhá? A tua não?"
Ela se elevou até ficar aos meus olhos.
"Agora sinhá. Deita que te faço mulher."
"Vais montar, me cavalgar."
"Até gozar, as duas. Anda, deita!"
Deitei servil e ela veio. Os seios empinados, os bicos estufados e morenos. As coxas abraçaram as minhas, a vulva negra achouma minha. Fui abrindo, afastando as pernas, aceitando ser dela.
"Vem irmã."
Ela sentou e rebolou, nossos lábios se encaixaram, íntimos, no mais pleno segredo. Porém, o que começou com movimentos suaves foi se tornam intenso, foi levando ao arrebatamento. Sensações profundas emergiam, deixando-me, como se possuída por um macho.
Mas era a vulva de Inocência masturbando-me intensa, cada vez mais frenética. Agarrei-me aos peitos da irmã, seus bicos excitados. Ela atingiu o seu pico. As pernas morenas tremeram e ela soltou um esgar. Espremi com gosto as tetas novas. Inocência se agitou e lhe veio orgasmo. O corpo moreno arrepiado, as pernas agitadas como num ataque de nervos.
Nossos humores se misturaram nos lambuzando as coxas. A tensão máxima veio o relaxamento extremo. Inocência esparramou-se em meu corpo. Suadas, molhadas, mais do que nunca duas devassas abraçadas.
Beijamos, beijo tão profundo quanto sereno.
"Meus pecados triplicaram, o que eu faço?"
"Contas ao padre, sinhá."
"E tu contas!?"
Ela riu e fez que sim com cabeça.
"Sua louca! O padre Fábio?"
"Ao diácono Afonso que vem aqui, quando o padre não pode."
"Jura! Ele não fala nada?"
"Masturba-se que eu sei. Masturba e geme."
"Sem penitências?"
"Cinco Ave Marias e dez Pai Nossos."
"Tão pouco para um crime tão grave."
"Pois é, quem sabe com nós duas ele nos obriga a uma penitência mais... forte."
"Irmã! Eu sou uma mulher casada e tu uma noiva de Nosso Senhor."
"Se os bois pastam e os reis comem quem lhes apetece por que nós não podemos?"
"Háháhá! Nos apedrejam se descobrem."
"É só não contar."
"E quando ele vem?"
"O diácono, acho que semana que vem."
