Júnior chegou à SUBLIME esperando um ambiente propício para organizar as estratégias. Contudo, a clínica era um fervilhar de pessoas, com um burburinho ainda mais intenso naquele dia. Vozes animadas de clientes na recepção, o telefone tocando incessantemente, e o movimento constante de funcionários, tudo conspirava contra a concentração que ele precisava para refinar as próximas estratégias para a clínica.
Aquele caos era um sinal de vitória. Uma das estratégias que Júnior havia sugerido para a SUBLIME havia dado incrivelmente certo, transformando a clínica de um deserto para um local lotado.Estava cheia, abarrotada de clientes, a ponto de o barulho da recepção invadir até mesmo o escritório de Sheila, onde Júnior tentava, em vão, encontrar um pouco de paz para mergulhar nos números e relatórios. Ele procurava um refúgio, um canto silencioso para organizar as ideias, mas parecia que até a quietude havia sido reservada pelos novos e satisfeitos clientes.
Foi então que Sheila, com a pasta de clientes na mão e um sorriso apressado, o abordou, notando a luta de Júnior para se concentrar.
— Júnior, eu preciso atender uma cliente agora, e a clínica está impossível hoje! Sei que você precisa de foco. Eduardo e Afonso estão na escola, então a casa ao lado está completamente vazia. Por que você não usa a minha mesa de jantar para trabalhar? É mais tranquilo por lá.
A oferta de Sheila veio como um bálsamo. Um local quieto, a poucos passos dali, longe daquela agitação vitoriosa, mas ensurdecedora.
— Sheila, você me salva! Aceito de muito bom grado, obrigado! — Júnior respondeu, agradecido, juntando seus papéis e o MacBook.
Em poucos minutos, ele estava na porta da casa de Sheila. A chave, que ela lhe emprestara, girou suavemente na fechadura. O ambiente interno era aconchegante, com cheiro de casa, um contraste bem-vindo com o burburinho da clínica. Mal havia dado alguns passos, já na entrada, quando seu olhar foi atraído para um par de Havaianas brancas, jogadas de forma despretensiosa perto do sofá. As mesmas que Eduardo usava no dia anterior.
Júnior sentiu um puxão. Involuntariamente, agachou-se para pegá-las. A borracha fria nas mãos, o peso inesperado. Virou-as e seu coração deu um salto. As marcas dos pés de Eduardo estavam ali, impressas na borracha branca, moldadas pelo uso, pelo suor. O rastro de uma presença, de um corpo. Ele então notou o tamanho gravado na sola:número grande, que fazia sentido com a estatura do garoto. Aquelas marcas, aquelas curvas, as saliências… cada detalhe parecia carregar a essência do rapaz, a mesma energia que o havia arrepiado no aperto de mão.
Sacudindo a cabeça, Júnior tentou afastar aqueles pensamentos. "Foco, Júnior, foco!", repreendeu-se mentalmente, colocando as Havaianas de volta no chão, exatamente como as encontrou. Sentou-se à mesa de jantar, abriu o MacBook, e tentou mergulhar nas planilhas e gráficos. Mas a imagem dos pés de Eduardo, agora visivelmente impressa na sandália, teimava em flutuar em sua mente. Ele podia quase sentir a textura da borracha, o calor de uma pegada recente. Aquela era a forma perfeita de pés, e a marca deles o deixou inquieto.
A manhã avançou em uma batalha silenciosa entre a razão e a imaginação. Júnior tentava focar, mas a cada ruído vindo da clínica, ou a cada silêncio prolongado na casa, seus pensamentos voltavam à imagem da Havaiana, aos pés que as preenchiam. A curiosidade que sentira ontem, agora se transformava em uma espécie de fascínio inegável.
Exatamente ao meio-dia, o som familiar da chave na fechadura quebrou o silêncio que Júnior havia tentado, em vão, estabelecer. A porta se abriu com um leve rangido, e passos firmes ressoaram no hall de entrada. O cheiro de casa, que antes o acalmara, agora parecia se intensificar com a chegada. Não eram os passos de Sheila. Eram os passos de Eduardo.
A calmaria durou pouco. A porta da frente bateu com um estrondo que fez Júnior pular, e então uma saraivada de objetos começou a ser arremessada pela sala. Uma mochila pesada foi jogada no chão com um baque surdo, seguida pelo som de tênis sendo chutados e um casaco sendo atirado de qualquer jeito sobre uma poltrona.
Eduardo entrou na sala como um furacão, ignorando completamente a trilha de desordem que deixava.
— E aí, Júnior! — ele cumprimentou rapidamente, sem esperar uma resposta.
Em um movimento fluido, tirou a camisa e a atirou para um canto do sofá, onde ela aterrissou em uma pilha disforme. Em seguida, afundou-se nas almofadas, pegou o controle remoto e ligou a TV, mudando de canal sem parar até encontrar algo que o agradasse.
Com a voz abafada pelo som da televisão e sem desviar o olhar da tela, Eduardo perguntou, num tom bem folgado:
— Minha mãe não vai fazer almoço hoje não?
Júnior, que havia voltado a olhar para a tela do MacBook, mas com um suspiro audível de quem já estava acostumado à cena, respondeu:
— Não sei, Eduardo. A clínica estava lotada hoje, ela deve estar atolada de trabalho.
Eduardo virou a cabeça para o que agora parecia ser seu refém, com uma expressão dramática que faria qualquer ator invejar.
— Ah, não! Mas eu tô morrendo de fome! Juro que se eu não comer algo agora, vou desmaiar aqui mesmo.
Júnior fechou o MacBook. O filho faminto de sua cliente superou qualquer vontade de continuar o que estava fazendo.
— Tá bom — ele disse, levantando-se em submissão. — O que você quer? Eu vejo o que dá pra fazer.
Eduardo deu de ombros, voltando a atenção para a TV.
— Qualquer coisa serve, desde que seja rápido e gostoso. Não sou fresco.
Júnior rumou para a cozinha, sentindo um misto de frustração pela interrupção e uma estranha energia que o impulsionava a agradar. Enquanto abria a geladeira, a imagem dos pés de Eduardo nas Havaianas brancas voltou à sua mente. O tamanho, as marcas… o detalhe o perturbava de um jeito inexplicável. Encontrou alguns ingredientes: ovos, queijo, pão, um pouco de presunto. Suficiente para um sanduíche reforçado.
Começou a preparar o sanduíche com uma dedicação quase cerimonial. Cortou o pão, grelhou o presunto e o queijo, fritou os ovos com gema mole, como imaginava que Eduardo gostaria. O cheiro da comida recém-preparada começou a invadir a sala.
— Hmm, que cheiro bom! — Eduardo exclamou, sentindo o aroma. — O que você está fazendo aí?
— Sanduíche de presunto, queijo e ovo. E tem um suco de laranja natural que a Sheila deixou.
Júnior terminou de montar o sanduíche e o colocou em um prato, junto com o copo de suco. Levou tudo cuidadosamente para a sala. Eduardo estava ainda largado no sofá, os pés descalços apoiados em uma almofada. Júnior notou, mais uma vez, a beleza simples daqueles pés, os dedos longos e bem desenhados, a planta lisa. Um calor subiu-lhe ao rosto.
— Aqui está — Júnior ofereceu o prato e o copo, com um sorriso quase submisso.
Eduardo pegou o prato e o copo sem se levantar, mal olhando para Júnior, já mordendo o sanduíche com avidez.
— Valeu, Júnior.
Júnior sentou-se na cadeira mais próxima, observando Eduardo comer. Cada mordida, cada gole de suco, era como um pequeno triunfo para Júnior. Ele se sentia útil, necessário, e a atenção que Eduardo lhe dispensava, por mais ínfima que fosse, era como uma recompensa.
Eduardo, entre uma mordida e outra, continuava a mudar de canal. De repente, soltou um gemido de satisfação.
— Puta que pariu, isso está bom demais! Você cozinha bem pra caramba!
Um sorriso genuíno se abriu no rosto de Júnior.
— Fico feliz que tenha gostado.
Eduardo terminou o sanduíche em tempo recorde, limpando os cantos da boca com as costas da mão. Colocou o prato vazio e o copo na pequena mesa de centro, ao lado do controle remoto, sem se preocupar em tirá-los dali.
— Valeu mesmo, Júnior. Estava morrendo de fome.
Ele se espreguiçou, seus braços fortes esticando-se acima da cabeça, e então, com um bocejo, recostou-se no sofá, fechando os olhos.
— Acho que vou tirar um cochilo agora. Meus pés estão moídos de tanto andar hoje.
Júnior sentiu o coração acelerar. Aquela frase, dita com tanta naturalidade, fez seus olhos descerem novamente para os pés descalços de Eduardo. Ele imaginou o peso da Havaiana, o suor, o cansaço. E, de alguma forma, sentiu uma vontade incontrolável de aliviar aquele cansaço, de tocar aqueles pés que tanto o haviam intrigado. Mas se conteve, mantendo-se em seu lugar, esperando a próxima instrução, a próxima migalha de atenção. O silêncio voltou a reinar na sala, pontuado apenas pela respiração tranquila de Eduardo e pelo som distante da TV. Júnior permaneceu ali, imóvel, sentindo a presença do rapaz, a aura de autoridade que ele emanava mesmo dormindo. A tarde prometia ser longa.
Minutos se arrastaram em uma eternidade silenciosa, pontuada apenas pelo som da televisão que ainda exibia cenas aleatórias. Então, um leve gemido. Eduardo se espreguiçou languidamente, seu corpo jovem esticando-se com força, um bocejo preguiçoso escapando de seus lábios. Ele piscou, abrindo lentamente aqueles vívidos olhos verdes, que pareciam ainda mais intensos após o sono. Seu olhar varreu a sala, parando brevemente em Júnior antes de se fixar na tela.
— Que horas são? — Eduardo murmurou, a voz ainda rouca de sono. Ele esfregou os olhos e se sentou, ajustando o boné que havia escorregado. Seus pés, que momentos antes haviam sido o objeto da ousadia de Júnior, agora estavam plantados firmemente no chão.
Júnior, tentando parecer o mais casual possível, fechou o MacBook e olhou para o relógio na parede.
— Quase três da tarde.
— Três? Nossa, dormi demais. — Eduardo resmungou, procurando algo ao redor. — Você viu meu celular? Acho que joguei em algum lugar.
Júnior indicou com a cabeça a mochila de Eduardo, que jazia no chão, perto do sofá, os tênis descartados por perto.
— Acho que está na sua mochila, ou por perto. Você jogou ela ali quando chegou.
Eduardo olhou para a pilha de objetos, com uma preguiça quase irritante.
— Ah, que saco. Tô com uma preguiça de levantar. Pega pra mim, Júnior? Por favor.
Aquele "por favor" era mais uma formalidade do que um pedido, vindo com a naturalidade de quem esperava ser atendido. Júnior sentiu um calor estranho. Uma chance. Uma oportunidade de se aproximar, desta vez, com permissão.
Ele se levantou e caminhou até o sofá. A mochila de Eduardo estava jogada perto da almofada, a poucos centímetros de seus pés descalços. Júnior agachou-se, seus olhos fixos nos pés. Agora que estavam acordados, pareciam ainda mais imponentes, as unhas bem feitas, a pele lisa. O cheiro de suor se misturava ao perfume do corpo de Eduardo.
Com os dedos hesitantes, Júnior abriu o zíper da mochila. O celular estava no fundo, junto com alguns cadernos e um fone de ouvido emaranhado. Ao pegá-lo, sua mão roçou acidentalmente na bota de Eduardo, que ainda estava jogada ali, e em um de seus pés. Um choque quase imperceptível. Eduardo nem piscou.
Júnior entregou o celular a Eduardo.
— Aqui está.
— Valeu — Eduardo disse, pegando o aparelho e voltando a se concentrar na tela, ignorando o quase-toque.
Júnior permaneceu agachado por um instante a mais do que o necessário, seus olhos ainda presos aos pés de Eduardo. Ele podia ver a mesma gota de suor de antes, agora seca, no espaço entre o dedão e o segundo dedo. Uma fascinação inexplicável.
Eduardo, sem tirar os olhos do celular, pareceu perceber a presença imóvel de Júnior.
— Que foi?
Júnior pigarreou, voltando à realidade com um sobressalto.
— Nada, só... achei que talvez você quisesse uma água. Sua mãe ainda está lá na clínica, e você não comeu nada desde o almoço. Quer dizer, o sanduíche.
Eduardo pensou por um momento, as sobrancelhas franzidas.
— Ah, é. Uma água gelada seria boa. Pega pra mim?
Mais uma vez, a oportunidade. Júnior sentiu um arrepio.
— Claro — ele disse, a voz um pouco mais suave do que o normal.
Ele se levantou. Com um movimento rápido e quase imperceptível, Júnior aproveitou para recolher o prato e o copo vazios que repousavam na mesa de centro, vestígios do sanduíche de Eduardo. Levando-os consigo, seguiu para a cozinha. Enquanto lavava a louça e depois pegava a água com gelo, seus pensamentos estavam a mil. Eduardo, com sua indiferença e pedidos casuais, estava, sem saber, abrindo portas para os desejos mais ocultos de Júnior. Ele entregou o copo de água a Eduardo, que bebeu longamente.
— Valeu de novo, Júnior. — Eduardo disse, sem olhar para ele, já mergulhado nas redes sociais.
Júnior sentiu-se como uma sombra, presente apenas para servir, mas, estranhamente, essa sensação não era desagradável. Pelo contrário. Ele se afastou, voltando para sua cadeira, os olhos sempre atentos a qualquer sinal, qualquer necessidade de Eduardo. A tarde avançava, e o sol começava a desenhar sombras mais longas na sala. Eduardo se levantou com um bocejo, esticando-se novamente.
— Bom, tenho futsal com os caras daqui a pouco. Preciso me arrumar.
Júnior assentiu, observando-o. Eduardo foi até seu quarto e voltou com um par de chuteiras gastas, mas bem cuidadas. Ele se sentou no sofá, tirou as Havaianas brancas e, com movimentos ágeis e acostumados, calçou suas chuteiras. Amarrou os cadarços com firmeza.
— Merda! — Eduardo exclamou, franzindo a testa. — Esqueci que precisava de uma grana para a quadra e um refrigerante depois do jogo.
Ele se levantou, ajeitando o boné e a camisa.
— Júnior, tô indo. Falou!
Júnior apenas assentiu. A cada passo, sentia um estranho vazio, uma antecipação do que estava por vir.
Chegando à clínica, o ambiente estava mais movimentado do que o esperado. Eduardo avistou Sheila na recepção, mas ela estava ao telefone, gesticulando e com a testa franzida, claramente lidando com uma situação complicada. Ele esperou um pouco, mas Sheila parecia enredada numa conversa interminável. Quando finalmente desligou, suspirou e, ao ver Eduardo, fez um gesto. — Dudu, desculpa, tô numa correria que você não faz ideia, e eu não consigo te atender agora, de verdade.
Eduardo sentiu a frustração começar a borbulhar. Ele precisava de algo, e com Sheila ocupada, seu plano de conseguir uma ajuda se esvaía. Decidiu tentar a Ananda, que estava no escritório atrás do balcão, organizando papéis.
— Ananda, posso falar rapidinho? — Eduardo perguntou, tentando soar casual. Ela ergueu os olhos azuis por cima de um prontuário.
— Claro, Dudu. O que houve?
— Então, eu precisava de uma grana rapidinho... tipo, uns cem reais. Dava pra você me adiantar do caixa? Minha mãe paga depois, sem falta.
Ananda franziu o cenho, seus lábios se apertando. — Eduardo, você sabe que não posso fazer isso. O caixa é para as despesas da clínica, não posso simplesmente tirar dinheiro. É contra as regras, você sabe.
A negativa de Ananda foi a gota d'água. Eduardo sentiu o rosto esquentar de raiva. Não era a primeira vez que ele tentava algo assim, mas sempre havia uma esperança. Ele balbuciou um — Ah, tá, entendi — e deu as costas, o semblante completamente fechado.
O caminho de volta para casa foi pesado. Cada passo de chuteira parecia ressoar sua irritação. — Que inferno! — resmungou para si mesmo.
Ao abrir a porta de casa, Júnior mais uma vez perdeu a concentração de seu Macbook e olhou para Eduardo, percebendo o rosto contraído e os ombros tensos do rapaz.
— O que aconteceu? Você está bem? — Júnior perguntou, a voz tranquila.
Eduardo jogou a mochila no chão com um baque surdo e se atirou no sofá cruzando os braços e olhando para Júnior. — Ah, foi tudo. Minha mãe tava ocupada demais pra me dar atenção, e a Ananda se recusou a me dar um puto do caixa! Porra parece que ninguém entende que eu preciso de algo, caralho! — Ele desabafou, tomado frustração.
Júnior ouviu com atenção, sem interromper. Quando Eduardo terminou, ele apenas deu um suspiro. Sem dizer uma palavra, tirou a carteira do bolso de trás da calça, abriu-a e, com um gesto rápido, puxou uma nota de cinquenta reais, entregando-a a Eduardo.
Eduardo olhou para a nota em sua mão e depois para o rosto calmo de Júnior. Um sorriso malicioso, quase imperceptível, surgiu em seus lábios. Ele viu o brilho nos olhos de Júnior, a ânsia de agradar.
— Valeu, Júnior, você é gente fina! Assim vamos ser bons amigos — Eduardo disse, guardando a nota, mas não sem antes acrescentar, com um tom de voz que não deixava dúvidas sobre a folga. — Mas sabe, cem reais seria o ideal pra hoje... Pra não ficar apertado.
Júnior sentiu um puxão no estômago, mas o sorriso de Eduardo e a perspectiva de vê-lo satisfeito eram mais fortes. Sem hesitar, ele tirou outra nota de cinquenta da carteira, entregando-a ao rapaz.
— Não, Júnior, sério. Não precisa... E depois eu peço pra minha mãe te pagar, tá? Ela te devolve.
Júnior deu de ombros, guardando a carteira. — Que nada, relaxa. Usa aí. É pra isso que os amigos servem, pô. — Um pequeno sorriso se formou no rosto de Eduardo, a raiva de antes se dissipando, substituída por um calor de gratidão e uma nova percepção do quanto Júnior estava disposto a fazer por ele. Aquele gesto inesperado, aquela demonstração de cuidado e desapego, reacendeu a faísca de fascínio em Júnior. Eduardo, com sua marra e seus problemas, era... irresistível.