“Reencontro”
Tiago, um jovem de 22 anos, desceu do ônibus interestadual com a mala na mão direita e os fones de ouvido ainda tocando uma playlist melancólica que ele nem prestava mais atenção. O ar quente e úmido de fim de tarde em Santa Catarina o envolveu como um abraço pegajoso. Joinville já ficava para trás há horas; agora ele estava no interior, numa rodoviária minúscula de uma cidade que mal aparecia no Google Maps.
Olhou o celular: 18:42. Uma mensagem de Daniel de cinco minutos atrás.
“Chegou, priminho? Tô de caminhonete preta na frente da rodoviária. Não tem como errar, é a única que não parece estar caindo aos pedaços.”
Tiago sorriu sem querer. Daniel sempre conseguia colocar um tom de deboche carinhoso até nas mensagens mais simples.
Ele atravessou o pequeno saguão, passou pelo cheiro de pastel frito e café requentado, e saiu. De fato, a caminhonete preta estava lá, estacionada meio torta, com o pisca-alerta ligado. Daniel estava encostado na porta do motorista, braços cruzados, camiseta cinza colada no peito largo, boné virado para trás. Quando viu Tiago, abriu um sorriso largo, daqueles que mostravam os dentes alinhados e faziam os olhos se apertarem.
— Caralho, tu cresceu ou eu que tô diminuindo? — Daniel gritou antes mesmo de Tiago chegar perto.
— Cresci uns quatro quilos de ansiedade desde a última vez que a gente se viu — respondeu Tiago, tentando soar irônico, mas a voz saiu mais tímida do que ele queria.
Daniel deu dois passos largos e puxou Tiago num abraço apertado, daqueles que levantam a pessoa do chão por meio segundo. Tiago sentiu o cheiro de sabonete masculino misturado com suor limpo e um restinho de lenha queimada. O corpo de 26 anos de Daniel era quente, sólido, e por um instante Tiago se permitiu ficar ali, rosto contra o ombro largo, antes de se afastar envergonhado.
— Tá bonito, hein — Daniel disse, segurando Tiago pelos ombros e olhando de cima a baixo sem disfarçar. — Tá com cara de quem lê livro de poesia inteiro no busão.
— E tu tá com cara de quem corta lenha sem camisa pro Instagram — retrucou Tiago, vermelho nas orelhas.
Daniel riu alto, jogou a cabeça para trás. Era um riso fácil, contagiante, que fazia as pessoas ao redor sorrirem mesmo sem entender a piada.
— Entra logo antes que eu te deixe aqui pra virar comida de mosquito.
Tiago colocou a mala no banco de trás e subiu na cabine. O interior da caminhonete cheirava a couro velho, café e um aromatizante de pinheiro que já tinha perdido quase todo o cheiro. Daniel ligou o motor, o ronco grave encheu o espaço, e eles saíram da cidadezinha pela estrada de terra batida.
O silêncio inicial durou uns cinco minutos. Tiago olhava pela janela, vendo o verde das plantações de milho e eucalipto passar em borrões. Daniel tamborilava os dedos no volante.
— Então… — começou Daniel, voz mais baixa agora. — Como tá a cabeça?
Tiago engoliu em seco. Daniel sempre soube ler ele melhor do que a maioria da família.
— Tá… bagunçada. Terminei com o Lucas faz três meses, o trampo na agência tá me sugando, minha mãe tá me cobrando casamento… o de sempre.
Daniel assentiu devagar, sem tirar os olhos da estrada.
— Por isso que eu te chamei pra vir pro sítio. Dez dias de férias aqui, sem dores de cabeça, sem cobranças, sem gente enchendo o saco. Só tu, eu, os passarinhos e as vacas me olhando torto.
Tiago riu baixo.
— Tu ainda tem aquelas vacas que parecem que vão me julgar?
— Elas julgam todo mundo. É o hobby delas.
Mais alguns quilômetros de silêncio confortável. O sol já estava laranja queimado no horizonte, jogando sombras longas nos pastos.
— Sério, valeu por me chamar — Tiago murmurou, quase para si mesmo.
Daniel virou o rosto rápido, só o suficiente para encarar o primo por dois segundos.
— Tu sempre foi meu refúgio quando eu precisava fugir dos problemas, lembra? Agora é a minha vez.
Tiago sentiu um aperto no peito que não era exatamente tristeza. Era algo mais confuso, mais quente. Ele desviou o olhar para a janela de novo.
Chegaram no sítio quando já estava quase escuro. A casa principal era de madeira clara, varanda grande, telhado de telha colonial. Ao lado, um galpão pequeno, um curral vazio e um pomar de jabuticabas carregado. Daniel desligou o motor e ficou olhando a casa por um instante, como se estivesse vendo ela pela primeira vez.
— Bem-vindo ao meu reino de solidão chique — brincou, mas havia um tom de orgulho genuíno na voz.
Tiago desceu, respirou fundo o ar fresco da noite que começava. Cheiro de mato molhado, terra, um leve perfume de jasmim vindo de algum lugar.
Daniel pegou a mala dele antes que Tiago pudesse protestar.
— Vem, vou te mostrar teu quarto. Tem vista pro pomar e tudo. Se tu acordar cedo demais, as galinhas vão te xingar.
Subiram os degraus da varanda. Daniel abriu a porta e acendeu a luz. A sala era simples, mas acolhedora: sofá velho de couro, tapete de tear, estante cheia de livros de botânica, mecânica e uns poucos romances velhos. Na parede, fotos antigas da família — inclusive uma de quando os dois eram crianças, sentados no mesmo balanço que ainda estava lá fora, enferrujado.
Tiago parou na frente da foto. Daniel ao lado dele, ombro colado no ombro.
— A gente era tão pequeno… — murmurou.
— E tu já era tímido pra caralho — Daniel completou, rindo baixo. — Eu te convencia a pular do trampolim e depois tu ficava chorando que ia morrer.
— Eu era muito medroso e tu me convenceu que pular de cabeça era “evolução humana”.
Daniel riu de novo, mas dessa vez o riso morreu devagar. Ele colocou a mala no chão e olhou para Tiago de um jeito diferente. Não era deboche. Era… atenção.
— Tu mudou bastante desde aquela foto — disse, voz mais grave.
Tiago sentiu o estômago dar uma volta.
— Tu também.
Silêncio pesado. Daniel pigarreou.
— Teu quarto é no corredor, segunda porta à esquerda. Banheiro tem água quente, mas se demorar muito no chuveiro a caixa d’água reclama. Janta em meia hora. Tô fazendo carne na brasa e salada de manga. Tu ainda gosta?
Tiago assentiu, sem conseguir falar direito.
— Então vai se ajeitar. Qualquer coisa me grita.
Daniel deu um tapinha leve no ombro dele — um toque que durou meio segundo a mais do que o normal — e foi para a cozinha.
Tiago ficou parado no corredor, coração batendo um pouco mais rápido do que deveria.
Ele entrou no quarto. Cama de casal com lençol azul-marinho, janela grande dando para o pomar escuro, uma luminária antiga de cabeceira. Colocou a mala no chão, sentou na beirada da cama e respirou fundo.
Dez dias aqui.
Sozinho com Daniel.
Sem ninguém para interromper.
Sem ninguém para julgar.
Sem ninguém para lembrar que primos não deveriam sentir o que ele estava começando a sentir de novo, depois de tantos anos tentando enterrar.
Ele tirou a camiseta, jogou na cadeira. Olhou o próprio reflexo no espelho pequeno pendurado na parede. Barriga macia, peitoral cheio, pele lisa porque ele tinha mania de se depilar inteiro — uma mania que Lucas achava “esquisita demais”. Passou a mão pelo peito, desceu até a cintura. Sentiu o pau dar um leve sinal de vida só com o toque.
Fechou os olhos.
“Para com isso, Tiago. É só teu primo. É só um lugar de descanso.”
Mas no fundo ele sabia que não era só isso.
Não mais.
Ele ouviu o barulho da lenha estalando lá fora, a voz grave de Daniel cantarolando alguma música sertaneja velha enquanto virava a carne.
Tiago sorriu sozinho, nervoso.
Dez dias.
Ele não sabia se ia aguentar dez dias sem deixar escapar alguma coisa.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, a ideia de deixar escapar não parecia tão assustadora.
Continua…