As luzes do palco se apagaram devagar, enquanto o último acorde da trilha ecoava pelo teatro. Catarina permaneceu imóvel por um segundo a mais do que o necessário, asas cintilantes abertas, varinha erguida, o sorriso suave que aprendera a sustentar.
Quando a cortina finalmente se fechou, os aplausos vieram vibrantes. Ela respirou fundo, sentindo o coração bater rápido no peito, mas desta vez não era ansiedade — sua velha companheira — mas sim satisfação. A Fada tinha funcionado. Ela tinha funcionado.
Nos bastidores, entre abraços apressados e elogios entusiasmados, Catarina sentiu aquele alívio bom que só vinha depois de se expor por completo. O figurino claro ressaltava ainda mais seus traços delicados: o rosto angelical, os olhos grandes, quase sempre associados à doçura, àquela “fofura” que as pessoas pareciam enxergar antes mesmo de ouvi-la falar. Aos dezoito anos, criada em uma família de classe média alta e envolta por um cuidado constante, quase excessivo, ela aprendera cedo a caber na imagem que projetavam dela. No palco, porém, havia conseguido algo diferente: não era apenas bonita ou gentil — era presença.
Quando voltou para o saguão, ainda caracterizada, foi cercada rapidamente. Crianças com os olhos brilhando se aproximavam, pedindo fotos, abraços, perguntando se ela era uma fada de verdade. Catarina se abaixava para ficar na altura delas, ria, posava, deixava que tocassem suas asas como se aquilo fosse mesmo mágico. Cada clique de celular vinha acompanhado de um “que linda”, “parece uma fada de verdade”. Ela agradecia, educada, sincera — mas, por dentro, uma pontada insistente se formava. Na única outra peça que fizera com o grupo, tinha feito o papel de princesa. Agora, fada. Sempre algo puro, delicado demais.
Enquanto sorria para mais uma foto, pensou no quanto desejava, um dia, vestir personagens que quebrassem aquela imagem — figuras imperfeitas, intensas, talvez até feias. O teatro tinha surgido como uma válvula de escape durante o período mais escuro da depressão, uma tentativa de respirar fora da redoma que seus pais haviam construído ao redor dela. No início, eles temeram aquele ambiente, falando em “más influências” e “gente estranha”. Depois, viram Catarina voltar a sorrir de verdade e passaram a apoiá-la.
Catarina foi a última a deixar o saguão. Enquanto os colegas já apareciam com roupas comuns, mochilas nos ombros e risadas soltas, ela ainda se inclinava para mais uma foto, mais um abraço. As crianças pareciam não se cansar dela — talvez pela fantasia brilhante, talvez pelo jeito doce com que ela falava. Seus braços já começavam a doer, o sorriso a ficar cansado, mas ela não conseguia dizer não.
— Cata, anda! — alguém gritou do fundo, rindo. — A gente vai perder a mesa!
Ela ouviu, acenou em resposta, mas logo outra criança puxou sua saia de tule pedindo “só mais uma”. Os colegas insistiam, um coro cada vez mais impaciente.
Catarina gostava daqueles momentos pós-peça: o barulho, a sensação de pertencimento, o ritual de celebrar juntos. Não queria ficar para trás.
Foi então que Ricardo surgiu ao seu lado, braços cruzados, expressão prática de quem já tinha encerrado mentalmente o expediente.
— Catarina — disse, sem dureza, mas sem espaço para negociação — já estamos saindo. Você vai com a gente ou não?
Ela olhou ao redor: crianças, pais, flashes; depois, o grupo esperando na porta, já em movimento. Suspirou, dividida por um segundo, e tomou a decisão quase rindo de si mesma.
— Vou, vou sim.
Nem passou pelo camarim. Soltou um último aceno para os pequenos “fãs” e seguiu com o grupo ainda vestida de fada, asas nas costas, glitter refletindo a luz da rua. Sentia-se um pouco ridícula, um pouco livre. Talvez as duas coisas ao mesmo tempo.
O Botequim do Manoel ficava quase em frente ao teatro, um daqueles bares antigos, de mesas de metal na calçada e cheiro constante de fritura. Assim que Catarina atravessou a rua, os olhares se voltaram para ela. Uma fada entrando num boteco numa noite comum de semana não passava despercebido.
— Isso sim é comprometimento com o personagem — alguém brincou.
Catarina riu, sentindo o rosto esquentar. Parte dela queria se esconder, outra parte — mais nova, mais ousada — achava aquilo estranhamente divertido. Sentou-se com os colegas, asas espremidas entre cadeiras
Os olhares curiosos vinham de todos os lados, alguns divertidos, outros apenas intrigados — aquilo Catarina já esperava. Uma fada sentada num boteco chamava atenção por si só. Ainda assim, enquanto ria de alguma piada do grupo, sentiu uma sensação insistente de estar sendo observada.
Ela virou o rosto devagar e então a viu.
A mulher não estava sozinha. Sentava-se à mesa com mais uma mulher e dois homens, todos espalhados de forma despretensiosa, rindo alto, com copos e instrumentos musicais apoiados ao redor. Pareciam um grupo de amigos que prolongava a noite sem pressa, animados, à vontade naquele espaço. Ainda assim, apesar da conversa e do riso coletivo, aquela mulher em especial mantinha o olhar preso em Catarina.
Tinha o nariz arrebitado, traços firmes e bonitos, uma beleza elegante. Vestia-se com simplicidade, e seu porte atlético transmitia segurança. Catarina estimou algo em torno dos trinta anos. O contraste entre a animação do grupo e a atenção silenciosa daquela mulher a deixou desconcertada.
Quando seus olhares se encontraram, a mulher não desviou. Pelo contrário: sorriu de leve, tranquila, e ergueu o copo em direção a Catarina, num gesto claro de brinde.
Catarina sentiu o coração acelerar. Quase sem perceber, Catarina ergueu também o seu copo, retribuindo o brinde com um sorriso tímido.
Ela teve a sensação clara de que, no meio daquela mesa barulhenta e musical, alguém a via não como fada ou princesa, mas como alguém que ainda estava prestes a descobrir quem poderia ser.
Catarina percebeu quando a mulher se levantou da mesa e caminhou em direção ao banheiro, desviando dos músicos e das cadeiras com naturalidade. Não foi imediato, mas poucos segundos depois seu próprio corpo respondeu: a vontade que já estava ali encontrou uma desculpa perfeita. Ela se levantou também, tentando parecer casual, embora sentisse o coração acelerar de novo.
O banheiro era simples, iluminado por uma luz amarelada, com um espelho antigo manchado pelo tempo. Quando entrou, a mulher estava diante da pia, lavando as mãos com calma,
Catarina parou perto da porta, ajustando distraidamente a saia de tule, consciente demais da própria imagem refletida no espelho: a fantasia clara, o brilho, a delicadeza quase fora de lugar ali. Quando ergueu os olhos, encontrou o olhar da outra mulher através do reflexo. Não foi um olhar rápido. Parecia que só aquele olhar já comunicava algo.
A mulher desligou a torneira, secou as mãos devagar e se virou de frente para Catarina, apoiando o quadril na pia.
— Confesso que não é todo dia que uma fada entra no mesmo boteco que eu — disse, com um meio-sorriso. — Muito menos no banheiro.
Catarina riu baixo, sentindo o rosto esquentar.
— Não tive tempo de trocar — respondeu, quase como uma defesa, embora soubesse que não precisava se justificar.
A mulher inclinou levemente a cabeça, observando-a como antes, mas agora mais de perto, mais inteira.
— Eu estou precisando de uma fada em minha vida — completou. — Você atende desejos?
— Depende (ri suavemente). Você acredita em magia?
— Eu não acreditava… até agora.
— Ah é? Que bom! E qual é o seu pedido?
— O meu primeiro pedido é que você continue sorrindo para mim assim!
— Esse está fácil de atender — Disse Catarina sorrindo ainda mais.
— Um outro pedido, (olhando nos olhos dela) é que eu quero um novo amor. Um amor de verdade. Intenso… daqueles que fazem o mundo parar por um segundo.
—Uau — Respondeu Catarina, surpresa, mas tocada — Esse é um pedido poderoso. E você acredita mesmo que eu posso conceder algo assim?
— Não sei se pode… mas quando eu olho pra você, sinto que a magia já começou – Respondeu a mulher, mantendo o olhar intenso.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Pelo contrário. Era carregado. Catarina sentiu algo se expandir no peito, uma mistura de curiosidade e um desejo ainda sem nome. Nunca tinha sido olhada daquele jeito — não como alguém frágil, nem como algo a ser protegida, mas como alguém que despertava interesse genuíno.
— Eu me chamo Laura — disse a mulher, quebrando o silêncio com suavidade. — E você… imagino que não seja uma fada o tempo todo.
Catarina hesitou por um segundo, depois sorriu, um sorriso menos ensaiado do que o do palco.
— Catarina.
Laura repetiu o nome devagar, como se o experimentasse. Os olhares se encontraram outra vez, próximos demais para serem neutros, distantes demais para serem seguros. Havia ali uma promessa indefinida — não de algo imediato, mas de possibilidades.
Quando Catarina respirou fundo, percebeu que aquela tensão não vinha da situação inusitada. Vinha do fato de que, pela primeira vez em muito tempo, alguém parecia enxergá-la além da imagem. E isso a deixava assustada. E curiosamente disposta a descobrir o que mais poderia acontecer quando a fada resolvesse, ainda que por alguns minutos, sair do conto.
Laura apoiou as costas na parede enquanto falava, como se aquele banheiro apertado fosse apenas mais um espaço familiar.
— Eu dou aula de dança — disse, com naturalidade. — Numa escola aqui perto. Dança e música.
Fez um gesto vago com a cabeça, indicando a mesa do bar.
— Aquela bagunça toda lá fora são meus colegas. Professores de música. A gente costuma tocar depois das aulas… ou beber antes, depende do dia.
Catarina sorriu, absorvendo a informação com um interesse que a surpreendeu. Havia algo naquela mulher que parecia em movimento constante, mesmo parada. Antes que pudesse responder, sentiu o corpo lembrá-la do motivo de estar ali.
— Eu… vou usar o banheiro — disse, apontando para a cabine.
Deu dois passos e então parou, olhando para baixo, finalmente consciente do emaranhado de tule, fitas e camadas da fantasia. Tentou se virar dentro do espaço estreito, as asas raspando na parede, a saia armada se recusando a colaborar.
— É… acho que a fada não foi pensada pra isso — murmurou, meio constrangida.
Laura riu baixo, um riso quente, sem zombaria. Aproximou-se um pouco mais.
— Quer ajuda?
Catarina hesitou apenas um segundo. Assentiu.
Laura se colocou atrás dela, com cuidado, como se aquele gesto exigisse respeito. Suas mãos tocaram o tecido primeiro, ajeitando a saia para o lado, afastando delicadamente as camadas de tule. O contato foi inevitável — e imediato. Catarina sentiu um arrepio subir pelas costas quando os dedos de Laura roçaram sua cintura por engano, firmes e quentes demais para passarem despercebidos. Sua respiração mudou quando sentiu as mãos de Laura a apertando. Parecia que o mundo respirava mais quando ela apertou assim.
— Desculpa — disse Laura, mas não se afastou de imediato.
— Tudo bem — respondeu Catarina rápido demais, a voz um pouco mais baixa do que pretendia.
No espelho, seus olhares se encontraram de novo. Dessa vez, mais próximos. Catarina percebeu o quanto estava exposta ali: o colo levemente revelado pelo figurino, a pele clara contrastando com o brilho da fantasia. Laura pareceu notar também. Seus olhos desceram por um segundo a mais do que o necessário antes de voltarem ao rosto de Catarina.
Ao ajudá-la a soltar uma das amarrações, os dedos de Laura tocaram de leve sua lateral, quase um deslize, quase nada — mas suficiente para fazer Catarina prender a respiração. Não era um toque invasivo. Era consciente.
Por um instante, o espaço entre elas pareceu menor do que realmente era. Havia ali uma tensão suave, elétrica, de algo que ainda indefinido. Quando Laura finalmente se afastou um passo, dando espaço para Catarina entrar na cabine, ambas sentiram a ausência do contato quase como um vazio breve.
— Pronto — disse Laura. — Agora a fada pode fazer o que precisa.
Catarina sorriu, dessa vez diferente. Era um sorriso novo, inquieto. E enquanto fechava a porta da cabine, teve a clara sensação de que aquela noite — e talvez algo além dela — estava apenas começando a se transformar.
Laura se afastou com discrição, deixando Catarina sozinha. O som da porta da cabine se fechando trouxe um breve respiro, mas o coração continuou acelerado. Enquanto tentava se ajeitar dentro da fantasia, o celular vibrou. Ela pegou o aparelho com cuidado e leu a mensagem de seus pais.
“Estamos chegando para te buscar. Uns cinco minutos.”
O estômago de Catarina se contraiu. Cinco minutos. Respirou fundo e saiu do banheiro, ainda sentindo na pele a lembrança recente do toque de Laura.
O bar parecia mais vivo agora. Laura e os amigos haviam se levantado, formando um pequeno círculo improvisado. Os dois homens tocavam instrumentos de corpo arredondado, semelhante ao formato de uma pera, com cordas brilhantes, enquanto a outra mulher marcava o ritmo com palmas e risadas. A música era leve, alegre, cheia de movimento, e algumas pessoas ao redor já acompanhavam com o pé ou o corpo.
Catarina se aproximou, curiosa, e entrou na roda:
— Que instrumentos são esses? — perguntou, inclinando-se um pouco para ouvir melhor.
Laura virou-se para ela, ainda sorrindo, os dedos ágeis nas cordas.
— Bandolins.
Antes que Catarina pudesse comentar qualquer coisa, Laura largou o instrumento nas mãos de um dos colegas e, num gesto súbito e confiante, segurou sua mão.
— Vem.
Catarina hesitou.
— Eu não mordo — Brincou Laura — A não ser que você peça!
Suavemente a puxou para o centro, posicionando uma mão em sua cintura e a outra conduzindo a dela. O contato foi imediato — e intenso. Catarina sentiu o corpo reagir de um jeito novo, quase assustador. A música parecia entrar pelos pés, subir pelas pernas, se espalhar pelo peito. Laura dançava com segurança, guiando-a sem força, apenas presença.
Catarina cedeu por completo. Ela deixou de pensar na fantasia, no bar, nos olhares. Passou a seguir o ritmo, o movimento, o calor do corpo de Laura tão próximo do seu. Por alguns minutos, entregou-se completamente à dança, rindo, girando, sentindo-se viva de um jeito que não lembrava de ter sentido antes.
Ela começou a dançar, como dança uma criança, se rodopiando ao som dos bandolins.
Então, num giro mais amplo, seu olhar escapou por cima do ombro de Laura — e congelou.
Na porta do bar, iluminados pela luz da rua, estavam seus pais.
A alegria se quebrou em constrangimento imediato. Catarina sentiu o rosto queimar, o corpo enrijecer. Eles tinham visto. Não apenas dançando — mas dançando com uma mulher.
Laura percebeu a mudança instantânea e soltou-a com cuidado.
— Ei… — começou, preocupada.
— Eu… eu tenho que ir — disse Catarina depressa, já recuando. — Meus pais chegaram.
Havia pressa em sua voz, mas também um pedido silencioso de compreensão. Laura assentiu, sem insistir. Pegou algo da bolsa sobre a mesa e estendeu a mão para Catarina.
— Toma — disse, com suavidade. — É o endereço da escola. Se você quiser… aparecer algum dia.
O cartão parecia pequeno demais para tudo o que carregava. Catarina o pegou, os dedos das duas se tocando pela última vez naquela noite.
— Obrigada — murmurou.
Ainda vestida de fada, com o coração confuso e acelerado, Catarina atravessou o bar em direção aos pais. Não olhou para trás. Mas, ao fechar a mão em torno do cartão, soube que aquela dança — e aquela mulher — tinham despertado algo que não seria fácil ignorar.
O carro seguiu em silêncio por alguns quarteirões, pesado demais para uma noite que, minutos antes, parecia leve. Catarina olhava pela janela, as luzes da rua passando rápidas demais, enquanto ainda sentia no corpo o ritmo da dança, ao som dos bandolins. As asas da fantasia estavam amassadas contra o banco, um lembrete incômodo de tudo o que fora visto.
— Catarina… — a mãe começou quebrando o silêncio com cuidado excessivo. — Quem era aquela mulher?
Ela respirou fundo.
— Uma amiga. Quer dizer… alguém que eu conheci hoje.
O pai pigarreou antes de falar, a voz controlada.
— A gente achou… estranho. Vocês dançando daquele jeito. Muito próximas. É impróprio se dançar assim.
Catarina sentiu o rosto esquentar, mas dessa vez não desviou o olhar.
— Ela é professora de dança. O nome dela é Laura.
— Professora de dança? — a mãe repetiu. — Num bar?
— Ela estava com amigos. Professores de música — respondeu Catarina, já reconhecendo aquele tom que sempre antecedia uma proibição.
O pai suspirou, como se escolhesse as palavras.
— Existem escolas de dança muito boas, Catarina. Lugares sérios. As aulas não precisam ser com aquela mulher do bar.
Catarina sentiu o peito se abrir num misto de medo e decisão. Pensou na dança, no toque, no modo como se sentira plenamente feliz enquanto dançava. Pensou no teatro, na depressão, em tudo que já enfrentara em silêncio.
— Eu vou fazer aula com ela — disse, firme — Com a Laura. E essa decisão é minha.
A mãe tentou dizer algo, mas Catarina continuou, a voz trêmula, porém decidida.
— Eu preciso disso. Eu quero isso.
O restante do caminho foi tomado por um silêncio diferente. As crenças pessoais dos pais se chocavam com o amor pela filha e o desejo de vê-la feliz.
Em casa, depois de tirar a fantasia e se deitar, o sono demorou a chegar. A dança voltava em ondas, repetida sem esforço na memória: os passos, o giro, o calor do corpo de Laura guiando o seu ao som dos bandolins. Catarina fechou os olhos e deixou a lembrança tomar conta, como uma música que insiste em tocar mesmo depois que acaba.
Quando finalmente adormeceu, sonhou com Laura. Não havia palco, nem bar, nem plateia. Apenas movimento e música. E Catarina dançava sem medo.
Duas mulheres dançando juntas como se não fosse um tempo em que já fosse impróprio se dançar assim. Se preciso fosse, ela enfrentaria o mundo, ao som dos bandolins.
Acordou com a bocetinha molhada, havia gozado sonhando com Laura.
Catarina demorou alguns dias para criar coragem. O cartão ficou guardado na bolsa, depois na cabeceira, depois entre as páginas de um livro — como se mudasse de lugar por conta própria, insistindo. Na tarde em que decidiu ir, o céu estava claro demais para combinar com o aperto no peito que sentia.
A escola de dança funcionava numa casa adaptada, numa rua tranquila. Não havia letreiro chamativo, apenas uma placa discreta presa ao muro, com o nome pintado à mão. O portão baixo estava aberto, e logo na entrada Catarina reparou nos detalhes: plantas bem cuidadas, vasos de cerâmica, uma bicicleta encostada na parede. Tudo ali parecia vivo, mas sereno, como se o espaço respirasse no próprio ritmo.
Ela entrou com passos cuidadosos, sentindo-se de novo deslocada — agora sem asas, sem glitter, apenas ela mesma. A recepção era simples e acolhedora. Um balcão de madeira clara, cartazes de apresentações antigas, fotos emolduradas de alunos dançando, sorrindo, suados e felizes.
— Boa tarde — disse um rapaz atrás do balcão, com um sorriso fácil. — Posso ajudar?
Catarina hesitou um segundo.
— Eu… estou procurando a Laura.
O sorriso do rapaz se ampliou, cúmplice.
— Eu sou irmão dela. Está dando aula agora. — Apontou para o fundo do corredor. — Se quiser, pode assistir. Ela não se importa.
O coração de Catarina acelerou. Ela agradeceu com um aceno tímido e seguiu pelo corredor estreito, de paredes claras, ouvindo ao fundo a música que escapava do salão: um ritmo envolvente, marcado, vivo.
Parou na porta aberta.
O salão era amplo, com janelas grandes por onde a luz da tarde entrava generosa. O chão de madeira estava gasto pelo uso, mas bem cuidado. Espelhos ocupavam uma das paredes, refletindo corpos em movimento. E no centro de tudo, Laura.
Laura dançava graciosamente, os braços desenhavam o ar, o quadril conduzia, os pés tocavam o chão com intimidade.
No instante em que seus olhos encontraram Catarina no reflexo do espelho, Laura sorriu. Um sorriso aberto, luminoso, que não tentou esconder.
— Chegou a fada do meu botequim — disse, sem interromper o movimento.
Alguns alunos riram, curiosos. Catarina sentiu o rosto esquentar, mas sorriu de volta, um sorriso que vinha de um lugar mais fundo. Encostou-se discretamente na parede e ficou ali, assistindo.
E então algo se encaixou.
Enquanto Laura continuava a aula, corrigindo posturas, incentivando, demonstrando passos, Catarina se deu conta de que não estava apenas observando uma dança. Estava vendo alguém inteira em movimento. A força e a delicadeza conviviam no mesmo corpo. O comando e a entrega. A segurança que não oprimia, mas convidava.
Catarina sentiu o peito apertar de um jeito doce e assustador. A cada giro, a cada deslocamento fluido de Laura pelo espaço, algo dentro dela se reconhecia. Não como no palco, onde tudo era ensaiado, nem como na fantasia, onde tudo era personagem.
Ela se lembrou da sensação no bar, da música entrando pelos pés, da mão firme em sua cintura. Mas agora entendia: não tinha sido apenas o momento. Era Laura. O modo como ela habitava o próprio corpo. O modo como fazia do movimento uma linguagem.
Sem perceber, Catarina levou a mão ao peito, como se precisasse se ancorar. O pensamento veio claro, simples, impossível de ignorar e falou consigo mesma:
Eu estou apaixonada.
Quando a música cessou e os alunos começaram a se dispersar, Catarina permaneceu ali, ainda absorvendo o que sentia. Laura se aproximou, agora sem pressa, o corpo ainda levemente ofegante, os olhos vivos.
— Fico feliz que você tenha vindo — disse, baixo, como se aquele momento fosse só delas.
Catarina respirou fundo.
— Eu também — respondeu. E soube, com uma tranquilidade nova, que aquela casa, aquela dança, aquela mulher… eram o começo de algo que mudaria o compasso da sua vida.
Quando os últimos alunos se despediram e a casa voltou a um silêncio morno, Laura fechou a porta do salão e soltou os ombros, como quem deixa a aula para trás, mas não a energia.
— Então… — disse, caminhando ao lado de Catarina pelo corredor — aqui também é minha casa.
Catarina olhou em volta com atenção nova. Agora sem música, percebeu melhor os detalhes: quadros simples nas paredes, fotos de apresentações, vasos com plantas espalhados como se fizessem parte da coreografia do espaço.
— Eu dou aula aqui junto com meu irmão — continuou Laura. — E também numa escola maior, perto do botequim onde a gente se encontrou. Mais formal, mais cheia… mas aqui é onde eu respiro.
Catarina assentiu, sentindo que aquelas palavras diziam mais do que pareciam. Respirar. Era isso que ela também buscava.
Laura foi abrindo portas enquanto falava, mostrando a cozinha pequena e iluminada, a sala com livros empilhados no chão, instrumentos encostados num canto. Tudo tinha um ar vivido, imperfeito e acolhedor. Por fim, parou diante de outra porta.
— Meu quarto.
Não havia convite explícito, mas também não havia proibição. Catarina entrou.
O quarto era simples: cama baixa, colcha clara, uma janela aberta deixando o vento balançar a cortina. Havia plantas ali também, e uma estante com livros e pequenos objetos. Um ursinho de pelúcia repousava sentado sobre uma cadeira, encarando o ambiente com olhos de botão.
Catarina sorriu sem perceber.
Laura se aproximou devagar. Parou a poucos centímetros de Catarina, próxima o suficiente para que ela sentisse o calor do corpo, o perfume leve misturado ao suor.
— Posso? — perguntou, a voz baixa.
Catarina engoliu em seco. O coração batia tão alto que parecia ocupar o quarto inteiro.
Laura se inclinou um pouco mais, e quando seus lábios estavam prestes a se tocar, Catarina ergueu a mão, hesitante.
— Espera… — disse, quase num sussurro.
Laura parou imediatamente.
— Tudo bem?
— É que… — Catarina respirou fundo, procurando coragem nas próprias palavras. — Eu sou nova nisso. E eu fico com vergonha. Parece que tem alguém olhando.
Laura franziu levemente a testa, confusa. Olhou ao redor do quarto, depois voltou o olhar para Catarina, com um meio-sorriso curioso.
— Mas só estamos nós duas.
Catarina mordeu o lábio, corando ainda mais. Então apontou, tímida, para a cadeira.
— Ali.
Laura seguiu o gesto e encontrou o ursinho de pelúcia encarando-as solenemente. Por um segundo, ficou em silêncio. Depois riu — um riso aberto, quente, que preencheu o quarto.
— Ah… — disse, aproximando-se do ursinho. — Perdão, amigo.
Com toda a seriedade do mundo, virou o bichinho de pelúcia de costas, apontando-o para a parede.
— Pronto. Agora ele não está vendo nada.
Catarina riu também, o nervosismo dissolvendo um pouco no peito. Quando voltou o olhar para Laura, encontrou ternura ali — e algo mais, algo que fazia o ar parecer mais denso.
Laura não perguntou de novo. Apenas se aproximou, devagar, como quem conduz uma dança delicada. Dessa vez, Catarina não recuou.
O beijo começou suave.
Mas logo se intensificou!
Catarina agarrou Laura pela camisa e começou a empurrá-la carinhosamente para trás, lhe dano vários beijos logos, enquanto ia tirando a sua roupa.
Os beijos foram se tornando mais intensos, a língua de uma, entrando na boca da outra, cada vez com mais firmeza, mais força e mais agilidade. Subindo, descendo se entrelaçando.
O tesão subindo rapidamente, os únicos sons ouvidos eram a respiração forte e os primeiros gemidos de prazer que surgiram.
A mão de Catarina que alisava a coxa Laura subiu em direção a bunda, bolinando, apertando, sentindo o corpo macio
Enquanto era apalpada, Laura percebeu o próprio corpo sendo conduzido para trás. Não resistiu, não porque não poderia, mas porque não queria
A parte de trás de sua perna tocou a cama. A cama estava ali.
Sem se afastar, sem interromper o beijo, ela se deixou cair para trás e se sentou na beirada. Não foi uma queda, foi uma entrega suave. Suas mãos puxaram Catarina junto.
Quando Laura se deu conta já estava por cima dela descendo a calça, e se deparou com uma calcinha branca ensopada. Deslizou um dedo por cima daquela bocetinha rosinha, fazendo Catarina estremecer e gemer mais alto.
As roupas foram arrancadas com pressa, quase rasgadas, elas se agarraram cada vez mais entregues uma à outra.
As mãos de Laura passearam por todo o corpo de Catarina e terminaram por pousar nos seios.
As mãos forma substituídas pela boca, sugando seu mamilo com um vigor que a fez sentir prazer misturado com uma pontinha de dor e fincar as unhas nas costas da amante.
Continuaram assim por um tempo, até que Laura foi descendo, beijando a barriguinha dela até chegar onde queria, segurou as coxas dela e iniciou um oral delicioso, pressionando seu clitóris, chupando com força e enfiando a língua.
Catarina se contorcia, acariciando o próprio corpo e gemendo cada vez mais alto.
Quando achou que o prazer já havia atingido o ápice, sentiu o dedo de Laura entre bem gostoso no seu cu, lentamente.
Foi uma explosão de sensações, que a fez gritar alto e perder completamente o controle de tudo, gozando como nunca antes.
Laura sugou todo o seu líquido, e não demorou muito para que ficasse toda lambuzada.
Catarina gemia enlouquecidamente puxando o rosto de Laura ao seu encontro, gritando:
- Por favor, Laura, continua, eu quero mais!
- Mais o que, meu amor? - Perguntou inocentemente.
- Me Fode!
Laura parou, pegou uma pequena malinha próxima a cama, e de lá retirou um pênis de borracha:
- Eu também tenho uma varinha de condão – Disse sorrindo, enquanto balançava o pênis. – Fica de quatro pra mim?
Catarina olhou para o pau com um certo pânico no olhar!
- Relaxa, se você pedir eu paro – Disse Laura com um sorriso ainda maior, e já colocando a cinta para a penetração
Catarina se colocou na posição, completamente entregue, empinando o quadril para oferecer a bucetinha tão rosinha e delicada
Laura falou pra ela relaxar que ia ficar gostosinho e começou a penetração devagar, movimentando com cuidado para ela se acostumar.
Catarina começou a gemer ainda mais gostoso.
- Você tá gostando de ser minha putinha? - Sem deixar ela responder, a puxou pelo cabelo com uma das mãos, enquanto a outra segurava na cintura.
- Me fode com força, sua safada, é isso que você quer ouvir né? Me fode com força!
Laura começou a movimentar rapidamente, Catarina começou a arfar, curta e rápida. Os dedos se fecharam com força, e a mandíbula travou — um dente pressionado contra o outro, a boca cerrada e os olhos começaram a revirar, anunciando orgasmo
Enquanto penetrava, Laura contemplava o corpo de Catarina. A cintura bem-marcada, as costas, retas e delicadas que a faziam pensar numa fada, e revelavam uma postura firme apesar do momento. O cabelo emoldurando com graça, caindo em ondas suaves no pescoço e nos ombros com leveza. Um contraste bonito com a rigidez do corpo se contorcendo de prazer.
Mas naquele ângulo favorável. O que mais lhe chamava a atenção era a bundinha delicada, e o cuzinho gostoso.
- Nossa, que cuzinho lindo! Dá até vontade de cadastrar a impressão digital!
- Cadastrar a impressão digital ? ?!! ? ? - Perguntou surpresa, entre gemidos – Mas do que é que você tá fa ... AAAAAAAíííííííííií o meu cu!!!
Era o que faltava para Catarina gozar, uma dedada no cu. Ela estremeceu, sentindo um calor se espalhar pelo corpo e as pernas começarem a tremer levemente. A energia parecia se esgotar de uma vez só. O corpo ficou mole, rendido ao prazer. Sem resistir, Catarina se entrega, deixando-se deitar na cama.
Laura começou a massageá-la com carinho, enquanto dava leves beijinhos em todo o corpo, sentindo o cheiro da pele macia. Conseguia sentir ela arrepiando conforme ia beijando, principalmente quando encostava no seu pescoço, onde deixou uma marquinha de um chupão.
Quando sentiu que ela se recuperava, colou a xereca na dela e começou a movimentar rapidamente. Mais uma vez explodiram de prazer.
Por último Catarina se sentou na cara de Laura, melando todo seu rosto e começaram um 69 muito gostoso. Cravou as unhas em sua bunda e enfiava a língua o mais fundo possível.
Enquanto estavam se chupando, Catarina sentiu que havia algo se movendo no quarto e olhou para o lado
— Ai!
Laura piscou, assustada.
— O que foi?
Catarina apontou para o canto do quarto.
— Aquilo… aquilo está olhando pra gente.
Laura seguiu o olhar e, antes mesmo de falar, começou a rir.
Sentado no chão, tranquilo e atento, um cachorro pitbull as observava com olhos curiosos e expressão calma, como se estivesse apenas acompanhando mais uma cena cotidiana da casa.
— Esse é o Brad — disse Laura, ainda rindo. — Pode ficar tranquila. Ele é um cavalheiro.
— Ele estava me encarando — Catarina disse, meio constrangida, meio divertida. — Eu fico… intimidada.
Brad quebrou o clima completamente, ambas se levantaram e se vestiram.
Laura então se aproximou, passando a mão pela cabeça do cachorro, que abanou o rabo lentamente.
— Eu o resgatei perto do botequim do seu Manoel. Estava machucado, cheio de marcas de maus-tratos. Agora acha que é gente.
Catarina olhou para o cachorro com outros olhos. Depois para Laura. Depois sorriu, daquele jeito constrangida.
— Desculpa… eu sou meio boba.
Laura negou com a cabeça, os olhos suaves.
— Não. Você é… — parou um instante, escolhendo as palavras — incrivelmente fofa.
E enquanto Catarina sentia o rosto esquentar outra vez, Laura teve a certeza silenciosa de que aquele jeito tímido, delicado e honesto tinha atravessado qualquer defesa que ela pudesse ter. Não era só encanto. Era afeto intenso começando a surgir.
Enquanto Laura ainda acariciava a cabeça de Brad, Catarina caminhou pelo quarto com curiosidade mansa. Não era invasiva; era o olhar de quem começa a imaginar aquele espaço como algo possível de dividir. Sobre a escrivaninha, havia uma pequena pilha de papéis cuidadosamente organizados e, ao lado, um envelope pardo, já gasto nas bordas, como se tivesse sido manuseado muitas vezes.
Ela não tocou de imediato. Apenas inclinou a cabeça, lendo palavras soltas: formulários, traduções juramentadas, certificados.
— Laura… — chamou, com suavidade. — O que é tudo isso?
Laura demorou um segundo antes de responder. Aproximou-se, pegou o envelope nas mãos e respirou fundo, como quem revela um desejo antigo.
— É a documentação pra um curso de dança — disse — Em Paris.
Catarina a encarou, surpresa.
— Paris?
— Uma escola famosa. Muito tradicional… e muito exigente. — Laura sorriu, meio torto. — Eu tento há alguns anos. Nunca me senti pronta o suficiente. Mas agora… — fez um gesto vago, como se algo tivesse se alinhado dentro dela — agora eu me sinto.
Havia brilho nos olhos de Laura, mas também receio. Catarina percebeu. Aproximou-se, tocando de leve o braço dela.
— Isso é incrível — disse, sincera — É o seu sonho.
Laura assentiu.
— Se eu for aceita, fico seis meses. Só seis. — Olhou para Catarina com cuidado. — Ainda não é nada certo.
Catarina sorriu, e naquele sorriso havia maturidade e promessa.
— Então vamos torcer juntas.
E torceram. Nos dias que se seguiram, Catarina voltou à escola de dança. Primeiro como aluna, depois como presença constante. Aprendeu a ouvir o próprio corpo, a errar sem pedir desculpas, a confiar no toque firme de Laura guiando seus passos. Entre uma aula e outra, surgiram conversas longas, cafés improvisados na cozinha, risadas espalhadas pela casa.
O romance não explodiu. Ele cresceu.
“Fica mais um pouco” que se transformava em noite. Catarina ainda carregava inseguranças, mas Laura tinha um jeito paciente de acolhê-las, como quem conduz alguém num compasso novo até que o corpo aprenda sozinho.
Quando deram por si, já eram namoradas.
Contar aos pais não foi simples. Catarina tremeu mais do que no dia da estreia no teatro. Houve silêncio, perguntas duras, olhares desconfiados. Laura permaneceu firme, respeitosa, sem se diminuir. Falou de amor sem discursos, com atitudes: buscava Catarina no estágio, esperava na porta da faculdade, vibrava com cada pequena conquista dela.
Aos poucos, a resistência cedeu lugar ao inevitável. Eles viam a filha viva, presente, inteira. E viam também o cuidado silencioso de Laura, o jeito como ela escutava Catarina antes de falar, como nunca tentava apagá-la — apenas dançava ao lado.
Um dia, depois de um ensaio aberto na escola, com bandolins ecoando pelo salão e Catarina girando com um sorriso que não cabia no rosto, a mãe a abraçou mais forte do que de costume.
— Se é isso que te faz assim… — disse, contida — então é isso que importa.
O mundo lá fora ainda não era gentil. Houve olhares tortos, comentários atravessados, pequenas violências disfarçadas de opinião. Mas elas enfrentavam tudo juntas, de mãos dadas, dançando sempre que podiam, como se cada passo fosse um gesto de resistência. Os bandolins voltavam a aparecer, às vezes no botequim, às vezes num ensaio improvisado, sempre lembrando Catarina de que o corpo também era lugar de liberdade.
Até que, numa manhã comum demais para uma notícia tão grande, Laura recebeu o e-mail.
Leu uma vez. Depois outra. Sentou-se devagar.
— Catarina…
A voz denunciava tudo antes mesmo das palavras.
— Eu fui aceita.
O coração de Catarina deu um salto — de alegria e de medo, juntos.
— Paris?
— Paris.
Elas se abraçaram forte. Catarina sentia orgulho, verdadeiro, pulsante. Laura merecia aquilo. Merecia o mundo. Mas, quando a noite chegou e o silêncio se estendeu entre elas, a ausência futura começou a tomar forma.
— Eu não posso ir agora — Catarina disse, deitada ao lado dela, encarando o teto. — A faculdade… o estágio. Eu lutei tanto pra chegar aqui.
— Eu sei — Laura respondeu, passando os dedos pelos cabelos dela. — Eu vou. Mas volto. Seis meses passam.
Catarina respirou fundo.
— E o Brad… — disse, depois de um instante. — Eu faço questão que ele fique comigo.
Laura sorriu, emocionada.
— Tem certeza?
— Tenho. — Catarina virou-se para encará-la. — Assim, um pedaço seu fica.
Brad, como se entendesse, levantou a cabeça e abanou o rabo lentamente.
Na despedida, no aeroporto, não houve promessas grandiosas. Apenas um beijo demorado.
— Continua dançando — Laura sussurrou. — Mesmo quando eu não estiver.
— Eu danço — Catarina respondeu. — Por nós duas.
Quando Laura atravessou o portão, Catarina sentiu o aperto — mas não o vazio. Dentro dela, os bandolins continuavam tocando. E ela sabia: algumas histórias não se separam pela distância. Apenas aprendem novos passos, até o dia em que a música chama de novo para o mesmo lugar.
A ligação veio tarde, quando o quarto de Catarina já estava mergulhado naquela penumbra confortável da noite. O celular vibrou sobre a mesa de cabeceira, e o nome de Laura iluminou a tela como um pequeno milagre.
— Oi… — Laura disse, do outro lado do oceano.
Só aquela voz já apertou algo no peito de Catarina.
— Oi — respondeu, sorrindo e sentindo os olhos marejarem antes mesmo de entender por quê.
Laura falou de Paris com honestidade crua. Disse que a escola era maravilhosa, exigente, tudo o que sempre sonhara. Falou das aulas longas, dos corpos exaustos, da sensação de estar aprendendo algo novo a cada dia. Mas, logo depois, a cidade entrou na conversa.
— Aqui é frio de um jeito que entra nos ossos — confessou. — Está nevando agora. É bonito… mas solitário.
Fez uma pausa curta, como se escolhesse as palavras.
— Tem ratos por todo lado. E as pessoas… elas não são gentis como aí. Ninguém puxa conversa, ninguém sorri de graça. E no metrô tem que ficar atento com os pickpockets
Catarina ouviu em silêncio, sentindo a distância se materializar entre cada frase.
— Eu sinto falta de você — Laura disse, por fim, sem rodeios.
Catarina não conseguiu responder de imediato. As lágrimas vieram sem pedir licença.
— Eu também — disse, a voz falhando. — Todos os dias.
Choraram juntas. Não era desespero; era saudade viva, daquelas que doem porque valem a pena. Quando desligaram, prometeram nada além do óbvio: continuar dançando, continuar sentindo.
O quarto voltou ao silêncio.
Brad estava deitado perto da cama, observando Catarina com aqueles olhos atentos, quase humanos. Ela se abaixou, puxou-o para o colo e o apertou contra o peito.
— Você me lembra ela — murmurou, afundando o rosto no pelo quente. — O tempo todo.
Levantou-se com o cachorro nos braços e começou a rodopiar devagar pelo quarto, como fazia quando ninguém estava olhando. O movimento veio quase sem perceber, embalado por uma ausência que precisava virar ação.
Mas sem Laura, era uma valsa triste!
— Eu queria que fadas existissem de verdade… — disse em voz baixa, meio rindo de si mesma.
Então parou.
Inclinou a cabeça.
— Brad… — sussurrou. — Você está ouvindo isso?
Um som distante, delicado, começou a preencher o ar. Cordas vibrando. Um ritmo conhecido demais para ser invenção.
— São bandolins… — disse, com o coração disparado. — Você tá ouvindo os bandolins?
Brad foi colocado no chão, curioso, enquanto Catarina permanecia imóvel por um segundo — até sentir.
Não era exatamente um toque físico. Era memória, presença, calor. Como no banheiro do botequim. Como na primeira dança. Como se mãos invisíveis encontrassem sua cintura com a mesma segurança tranquila de sempre.
A magia não pediu permissão.
Catarina começou a dançar.
Os pés se moveram sozinhos, o corpo reconhecendo um compasso antigo. Girava, avançava, recuava, como se alguém a conduzisse. E, naquele espaço invisível à sua frente, ela sentia Laura — inteira, real, dançando com ela.
Parecia que o mundo respirava mais quando Laura a apertava assim!
Ao mesmo tempo, a mais de nove mil quilômetros dali, Laura interrompeu o que fazia no pequeno apartamento parisiense.
O som a encontrou primeiro.
— Não… — murmurou, rindo e chorando ao mesmo tempo. — Não pode ser.
Mas o corpo já sabia.
O frio pareceu recuar. O quarto pequeno se expandiu. Laura sentiu mãos conhecidas, um toque que atravessava continentes, um calor que nenhuma neve apagava. E ela também começou a dançar.
Em Paris, com a vista da Torre Eiffel pela janela.
No Brasil, ao som dos bandolins.
Duas mulheres, em cidades diferentes, unidas pelo mesmo ritmo. Dançavam como se o mundo não tivesse fronteiras, como se o amor tivesse aprendido a se mover fora do tempo e do espaço.
Não era ilusão. Não era sonho.
Era magia suficiente. A realidade se tornou apenas um detalhe diante da magia.
Quando a música cessou, Catarina parou ofegante no meio do quarto. Sorriu, com lágrimas nos olhos, e teve certeza: algumas fadas não precisam de asas. Algumas aprendem a existir no exato instante em que alguém ousa amar sem medo.
E enquanto Brad se aninhava a seus pés, Catarina soube — com a tranquilidade de quem encontrou seu próprio compasso — que, onde quer que estivessem, ela e Laura continuariam dançando.
Sempre.
Ao som dos bandolins.
{ Baseado na Música Bandolins de Oswaldo Montenegro, e também em uma história verdadeira}
