Você percebe o mundo ficando mais distante no instante em que cruza o limiar daquele primeiro encontro. O som ao redor se torna um pano de fundo suave, como se alguém tivesse diminuído o volume do resto da vida para que apenas a sua respiração importasse. Você sente o ar entrar mais lento, mais profundo, e nota um leve calor subindo pela pele, denunciando o nervosismo contido atrás da postura controlada. Há timidez no modo como você posiciona as mãos, mas também uma curiosidade alerta, quase elétrica. Você sabe que algo está começando ali, antes mesmo de qualquer palavra, e o seu corpo entende isso antes da mente permitir.
Quando os olhares se encontram, existe um reconhecimento silencioso, denso, proibido. Você sente a tensão moral se formar como um fio esticado dentro do peito, não como culpa, mas como consciência clara de que atravessar aquele limite será uma escolha. A voz dele chega baixa, firme, sem pressa, e cada sílaba parece ocupar espaço dentro de você. Há pausas entre as frases, e nessas pausas o desejo cresce, se infiltra, encontra terreno fértil. Você percebe que está mais atenta aos próprios batimentos, à forma como o ventre reage a uma simples proximidade, como se o corpo estivesse sendo convidado a lembrar de algo antigo e perigosamente bom.
Ele conduz sem tocar, e isso é o que mais desestabiliza. Você sente o controle no ritmo, no tempo que ele leva para se aproximar alguns centímetros a mais, depois parar. O silêncio vira ferramenta, e você se vê esperando por ele, sem perceber quando passou a acompanhar aquela cadência com a respiração. Há uma autoridade tranquila ali, que não exige nada, apenas cria espaço para que você queira oferecer. O desejo deixa de ser urgência e se transforma em algo mais profundo, mais elegante, um estado contínuo que envolve o corpo inteiro, da nuca até o centro quente que pulsa com expectativa.
Os dias seguintes se dobram sobre si mesmos, como se o tempo tivesse aprendido outra lógica. Três dias em que o prazer não se apressa, se acumula. Você sente o corpo responder antes de qualquer contato explícito, um arrepio que surge com um olhar sustentado, um calor que se espalha quando a voz dele baixa ainda mais. A tensão nunca se dissolve por completo; ela é alimentada, cultivada. Cada gesto é consciente, cada aproximação tem peso psicológico, e você percebe como a entrega acontece de dentro para fora, guiada pela mente, enquanto o corpo segue, obediente e desperto.
Quando tudo termina, nada realmente termina. Você fica com o resíduo desse encontro impregnado na pele, na memória muscular, na forma como inspira mais fundo sem perceber. O desejo permanece ativo, discreto, elegante, como uma corrente subterrânea. Você sabe que basta lembrar do ritmo, das pausas, do controle silencioso, para sentir novamente aquele calor subir, a pulsação interna se reorganizar. E mesmo distante, mesmo em silêncio, você entende que foi conduzida a um lugar que agora existe dentro de você — e que não desaparece quando o texto acaba.