Toda história, assim como a vida, tem um começo. Ou melhor, na vida existem vários “começos”, sendo que, cada nova fase vem recheada de novidade e DESCOBERTA. Algumas dessas, nos trazem prazer e alegria. Já outras, sofrimento e MEDO.
Principais Personagens:
Blanche Leblanc (https://postimg.cc/dDsxWMMZ)
Bernard Leblanc (https://postimg.cc/R31gRdXx)
Pierre Leblanc (https://postimg.cc/TpyQSfCZ)
Kurt Von Braun (https://postimg.cc/4K11tdxc)
Continuando ...
O nome de Blanche foi dado em homenagem a uma tia, irmã de sua mãe, que era muito querida por todos, mas isso era algo que ela apenas ouviu falar, pois jamais a conheceu. Já o sobrenome foi por causa da teimosia de seu pai que foi deserdado pelo pai dele e perdeu não apenas o direito aos bens como também o título de Marquês.
E tudo isso porque se apaixonou por Sarah que, por ser judia, desagradou a toda a família. Mesmo assim, ele se manteve firme em seu propósito de levar a mulher que tanto amava ao altar, mesmo sofrendo represálias da família e da sociedade da qual fazia parte.
Blanche só tomou conhecimento desse fato muito mais tarde, quando já contava com quinze anos e isso apenas contribuiu para reforçar ainda mais o amor e a admiração que tinha por seu pai. Ele e filha tinham uma ligação tão intensa que, muitas vezes, chegava a causar ciúmes em Sarah que chamava a atenção do marido, porém, sem nunca chamar a atenção de Blanche.
A dificuldade que Bernard Leblanc enfrentou para ficar ao lado da mulher que escolheu para ser sua companheira trazia à tona um assunto que muitos esquecem. O preconceito racial não era uma exclusividade dos alemães. O holocausto foi uma sucessão de crimes contra a humanidade, mas a história registra que eles já sofriam mal tratos desde os primórdios da idade média, sempre sendo usados como bode expiatório quando as coisas se tornavam difíceis para os monarcas da época.
Sem dinheiro e sem amigos, pois o Marquês Leblanc fez questão de deixar claro para as pessoas com quem mantinha relações, sejam elas de amizade ou comerciais, que aquele que tentasse ajudar ao filho rebelde seria tratado como seu inimigo pessoal. Sem ter a quem recorrer, Bernard começou a trabalhar em uma tecelagem em troca de um salário que mal cobria o valor do aluguel.
Nascida no dia 15 do mês de fevereiro de 1920, Blanche era a filha mais velha daquela pobre família, pois, dois anos depois, nasceu Claude, seu irmão, de quem ela teve que cuidar desde novinha, pelo fato de sua mãe ser obrigada a trabalhar fora de casa. Isso fez com que surgisse entre eles uma ligação muito forte. Não tanto quanto aquela que ela tinha com o pai. Isso também contribuiu para que a convivência entre Sarah e Blanche não fosse tão forte como a que a menina tinha com o pai e o irmão. Havia amor, mas um amor que raramente se manifestava.
A pobreza era tanta que não havia como as duas crianças frequentarem a escola e com isso Blanche, que havia sido alfabetizada pelo pai que se dedicava a lhe ministrar aulas que foram muito além da simples alfabetização, tomou para si a obrigação de ensinar o que aprendera ao irmão. Essa educação caseira era levada tão a sério que, anos depois, quando finalmente os dois tiveram a chance de frequentar uma escola regular, demonstraram que estavam a frente dos outros alunos, pois apresentavam uma cultura bem superior aos demais.
Apesar das dificuldades, a infância de Blanche foi algo que ela definia como o tempo mais feliz da sua vida e isso se deve, principalmente, aos fatos que aconteceram depois.
A vida de miséria começou a melhorar quando Bernard passou a ser visto como um homem honesto e esforçado por seus patrões que o colocaram para trabalhar em serviços que exigiam mais responsabilidade, o que lhe deu, como recompensa, um salário um pouco melhor.
Entretanto, parece que o destino de Bernard tinha sido escrito para que as coisas sempre fossem difíceis para ele. A prova disso foi que, logo depois de ter conquistado o direito de viver uma vida melhor, estourou a crise financeira dea crise que assolou o mundo todo e, de marido esperançoso em dar uma vida melhor para sua família, ele se viu desempregado.
Sem emprego, Bernard e sua família se viram livres da fome por uma obra do destino que, se por um lado parecia não querer que ele tivesse uma vida tranquila, por outro trabalhava para que ele, pelo menos, continuasse a viver. Depois de dois anos de extrema dificuldade, uma pessoa que fazia parte de um passado que o homem pensava estar enterrado apareceu novamente em sua vida.
Tratava-se de Pierre.
Pierre era o irmão mais novo de Bernard que depois de seu banimento da família, passou a ser o herdeiro e agora, com a morte do pai, procurou pelo irmão mais velho com a intenção de convencê-lo a retomar seus direitos à herança, assim como ao título de Marquês. Porém, o novo Marquês Leblanc não foi pessoalmente à presença do irmão, enviando emissários para tratar desse assunto, o que fez com que ele se sentisse entre ofendido e muito, mas muito desconfiado mesmo.
A partir dessa desconfiança, Bernard passou a evitar contato com ele. Porém, nada pode fazer contra o fato de receber ajuda da parte de Pierre. Ajuda essa que acontecia de forma indireta, com oferta de empregos ou, sem que ninguém soubesse, através de Sarah que, escondida do marido, aceitava os gêneros alimentícios, remédios e roupas, que eram enviados a ela, assim como dinheiro em espécie para ser usado em alguma emergência.
E foi através da intervenção de Pierre que o irmão se viu empregado dois anos depois. Era o ano de 1931 quando ele foi pego de surpresa com um convite para comparecer em uma metalúrgica para começar a trabalhar. O que Bernard não sabia era que o proprietário dessa empresa era um nobre que mantinha relações com Pierre, o que fez com que o arranjo fosse combinado sem o conhecimento dele.
Durante os quatro anos seguintes a vida daquela família mudou da água para o vinho. Logo Bernard teve a oportunidade de mostrar seus conhecimentos, assim como um forte espírito de liderança, o que contribuiu para que galgasse cargos mais elevados e, com o salário recebido, Blanche e Claude puderam finalmente serem matriculados em uma escola regular e Sarah passou a se dedicar somente aos cuidados dos filhos, do marido e da casa.
Em 1935, novamente a roda da sorte girou a favor de Bernard. A empresa que ele trabalhava conseguiu um contrato na Alemanha que exigia que alguém da empresa se mudasse para aquele país e ele foi o escolhido. Diante da oportunidade de gozar da regalia de ocupar o maior cargo no exterior e com um salário que ele jamais sonhara, não teve como se recusar e levou a família para ir morar em Berlim.
Os anos entre 1935 e 1937, deram à Blanche a vida que ela sempre sonhou. Morava em uma casa grande, luxuosa e localizada em um bairro respeitável. Além disso, foi matriculada na escola que as demais crianças do bairro estudavam e que fornecia uma educação de excelência. Ter tudo isso e ainda poder partilhar suas alegrias, tristezas e inseguranças com amigos, coisa que ela nunca teve antes, foi a melhor coisa que já tinha acontecido para ela.
Naquele momento, ela já estava com 17 para 18 anos e, apesar da idade, já apresentava um corpo esguio de mulher. Tinha aproximadamente 1,70m de altura, cabelos castanhos, quase negros, na altura dos ombros e olhos castanhos, herdados do pai. Entretanto, parecia estar destinada a viver uma vida de altos e baixos. Durante o ano de 1937, o seu relacionamento com os demais alunos se tornou um pesadelo.
Blanche, em sua inocência, revelou para alguns colegas, as dificuldades que teve em sua infância. Essas, orgulhosas como eram, se sentiram enganadas por alguém que se fez passar por amiga delas quando, na verdade, era uma garota vinda da pobreza. Isso foi o bastante para que a garota se visse desprezada por todas e via suas tentativas de se aproximar delas serem rechaçadas.
Para seu maior desgosto, descobriu que seu irmão Claude, não passava pelo mesmo processo. Mas isso não era o pior. Pior mesmo era vê-lo agir como se fosse a pessoa mais importante do mundo. Ela não sabia se por instinto ou de caso pensando, Claude só se relacionava com garotos que, embora fossem filhos de pessoas que se enquadravam no conceito de gente bem-sucedida, eram, de uma forma ou de outra, dependentes de seu pai. Uns trabalhavam na empresa que ele dirigia e eram seus subordinados e outros em empresas que faziam negócios com Bernard. Essa opção de Claude fez dele um garoto importante em seu círculo social.
Orgulhoso e arrogante, Claude circulava em meio aos seus seguidores que faziam de tudo para agradá-lo. Alguns até por ordem dos próprios pais. E isso fez com que ele se afastasse de Blanche, passando a tratá-la com desprezo. Para piorar, desrespeitava à sua mãe com quem discutia acaloradamente sem temer por represálias, chegando até mesmo a se referir a ela como “judia”, adotando o racismo que imperava na Alemanha naquela época. O único que ele respeitava era o pai, por quem dizia sentir orgulho e gostava de se referir a ele como “O Marquês”.
Nessa época, Pierre tinha tomado coragem e viajou até a Alemanha para visitar o irmão e, ao ser bem recebido, fez disso um costume e passou a ser uma presença constante na casa de Bernard. Constante e benvinda, pois tinha o agradecimento de Sarah pôr os ter ajudado quando eles mais precisavam e o fato de expressar um intenso respeito e admiração por seu irmão mais velho, fez com que esse baixasse a guarda e passasse a confiar nas intenções de Pierre.
Para as crianças, ele tinha um tratamento diferente para cada um deles. Com Blanche ele agia sempre tentando incutir nela uma coragem e uma autoestima que ela não demonstrava e, quando sentia que estava forçando muito e sem resultados, baixava suas expectativas e procurava ficar ao lado dela conversando sobre coisas que sabia que ela gostava e, a principal delas, era a literatura. Blanche era uma devoradora de livros e Pierre, que também gostava de ler, passava horas ao lado dela falando sobre o assunto.
Já, com relação ao Claude, ele tinha uma postura fria e distante. Isso, talvez, porque ele percebesse que o garoto o estava sempre cercando na tentativa de agradá-lo e demonstrava um servilismo acima da média e, para não chamar a atenção do sobrinho por se mostrar um bajulador, preferia manter distância.
Ainda em 1937, quando já se tornara uma pessoa solitária dentro daquele estabelecimento de ensino, Blanche notou que havia um garoto que olhava insistentemente para ela. Em sua insegurança, ficou apavorada com aquilo e, para piorar, o rapaz estava sempre fazendo alguma tentativa de se aproximar dela, o que a obrigou a passar, várias vezes, todo o horário do recreio dentro do banheiro feminino.
Naquele ano, a economia na Alemanha fervia. Hitler havia assumido o poder cinco anos antes e, com o argumento de reconstruir e fortalecer o país, se dedicou a fazer obras derrubando o índice de desemprego que praticamente sumiu. Todos se sentiam felizes com as promessas de uma Alemanha forte e temível que voltaria a assumir o lugar de um país que foi criado para liderar.
Sem poder contar com a companhia de Claude e não querendo assustar aos pais, Blanche passou a fazer de tudo para evitar a aproximação de Kurt, porém, mais uma vez o destino conspirou contra ela. No início do outono de 1937, ela foi surpreendida no primeiro dia de aula com a presença dele em sua classe. Não bastasse ter que fugir dele durante o intervalo das aulas, agora seria obrigada a permanecer na mesma sala que ele durante todo o período de estudo. Blanche queria morrer, sem saber se essa morte seria de raiva ou de vergonha.
Nessa idade, o corpo de Blanche já tinha passado pelas transformações da adolescência e ela se tornara uma linda mulher. Sua estatura, a colocava na média da altura das demais alunas. Com essa altura, seios médios e uma cintura fina que se alargava em um quadril que ia se avolumando em uma bunda arrebitada, lhe dava a aparência de uma mulher muito bonita e desejável, o que não se notava por causa das roupas largas e sem atrativos que ela usava.
Para Blanche era um verdadeiro martírio permanecer na sala de aula, pois Kurt não lhe dava sossego e, nem mesmo o fato de achar que ele era o garoto mais bonito da classe, da escola, do bairro, da cidade ou talvez do seu mundo lhe deixava animada com o assédio dele. Na verdade, ela tremia a ponto de ter que permanecer sentada todas as vezes que ele se aproximava dela.
Kurt, nessa época, já ultrapassara os cento e oitenta centímetros de estatura, tinha o físico bem delineado pela prática de esportes, cabelos negros e olhos castanho escuros. Para Blanche ele era comparável a um Deus Grego. Ele logo percebeu que o empecilho para que conseguisse o que tanto queria, pois ele se sentia atraído por Blanche, era a timidez dela. Então, mudou de tática e começou a agir no intuito de ganhar sua confiança.
Foi assim que ele começou a evitar ficar olhando para ela e se dirigia a ela apenas para lhe dar palavras de incentivo ou, muito espertamente, pedir ajuda em alguma matéria. Como ensinar era algo que já tinha feito parte do dia a dia da garota, nesses momentos, ela conseguia se soltar um pouco e o rapaz não perdia a oportunidade de dirigir a elas elogios que não se referiam à sua beleza, mas sim a sua inteligência e sabedoria.
Deu certo. Desprezada pelas outras alunas e dona de uma insegurança enorme, aos poucos, Blanche foi vendo em Kurt a sua tábua de salvação. Ele era o único na escola que conversava com ela, procurava sempre ficar ao seu lado e nunca a forçava a nada. Até mesmo quando discordava, fazia de uma forma leve e sempre se deixava convencer pelos argumentos dela.
Daí a permitir que ele a acompanhasse até perto de sua casa, quando saiam do colégio, foi um passo fácil. Nas ocasiões em que caminhavam lado a lado, sempre acontecia um toque involuntário com a mão de um tocando de leve a mão do outro e, sempre que isso ocorria, seus olhos se encontravam. Kurt mantinha o contato visual enquanto a garota se perdia na imensidão daqueles olhos quase negros. Com isso, não houve como evitar que, em algum momento, eles caminhassem de mãos dadas e se despedissem com beijos na face.
A duração desses beijos aumentava gradualmente. O alemão, sempre que beijava a face de Blanche, mantinha os lábios em contato com a pele macia e sedosa do rosto dela por mais tempo, sem falar que eles iam se aproximando, cada dia mais, da boca. Para sua alegria, ela não reclamava e aceitava aquele joguinho dele como se desejasse ser beijada.
O dia decisivo chegou quando Blanche o viu saindo do colégio de mãos dadas com outra garota. Ela não conseguia entender o motivo de ele, na última semana, começar a se afastar dela. Quando isso aconteceu, já estavam no mês de novembro.
Tudo começou na semana anterior. Era uma quarta-feira, dia em que Blanche saia mais tarde por causa da aula de educação física e, ao contrário dos outros dias, ele não estava esperando por ela. Sem saber o motivo, ela foi sozinha para casa.
O fato se repetiu nos dois dias seguintes. Blanche olhava sem entender o rapaz sair apressado da sala depois da última aula e, quando saiu atrás dele, não o encontrou. Isso fez com que aquele final de semana fosse, até aquele momento, um dos piores de sua vida. Ela passou os dois dias tentando encontrar um motivo que explicasse o jeito que Kurt estava agindo e, quando não estava perdida nesses pensamentos, sua mente ficava imaginando coisas que ela sequer tinha coragem de contar para alguém, pois em seus devaneios, ela sentia a maciez dos lábios do rapaz pressionando os seus e a rigidez da língua dele invadindo sua boca. Quando isso acontecia, Blanche se fechava no quarto e se tocava com desespero, descobrindo a maravilha do orgasmo, para depois se sentir suja e culpada com o que tinha feito.
Na terça-feira Kurt não compareceu às aulas e na quarta-feira ele a evitou de todas as formas impedindo que ela sequer trocasse uma palavra com ele e, ao sair do colégio, ela descobriu o motivo.
Com os olhos banhados em lágrimas, ela foi para sua casa onde entrou como se fosse uma fugitiva para impedir que sua mãe visse o seu estado. Em seguida, trancou-se no quarto, se atirou na cama e chorou. Chorou até sentir que não tinha mais lágrimas e dormiu um sono agitado e picotado por vários pesadelos.
Quando foi para a escola na manhã seguinte, Blanche tinha tomado uma decisão. Ela não permitiria que qualquer outro homem, jamais, se aproximasse dela. Kurt, ou qualquer outro, não teriam mais a oportunidade de fazê-la sofrer.
Foi uma decisão que pouco durou. Pois foi ela mesma que, sem conseguir resistir aos seus impulsos, se aproximou dele e o questionou sobre o fato de ele ter se afastado dela e, quando ele começou a desfiar uma história como desculpa, ela não resistiu e falou abertamente:
– Não minta para mim, Kurt. Eu vi você indo embora com a Ava.
Ao contrário do que ela esperava, a acusação não o desconcertou. Como se já esperasse por isso, ele apenas respondeu:
– É verdade. Eu tenho me aproximado dela.
– Por quê? Eu fiz alguma coisa que te ofendeu e de repente a amizade dela é mais importante do que a minha.
Sem vacilar, o rapaz contra-atacou:
– Não é isso. É que a Ava não fica com frescura e a gente se beija.
Blanche ficou plantada no chão. Então era isso? Ela não se lembrava de tê-lo impedido de beijá-la. Só não tomara a iniciativa. Foi ele quem agiu como se não quisesse.
Tudo bem que a simples ideia de ser beijada por Kurt a deixava confusa. Ela não sabia fazer uma relação entre o desejo de ser beijada e o medo das consequências desse ato. O que os outros iriam falar dela se descobrissem que ela deixou um rapaz beijar sua boca. Então ela não tomava a iniciativa e, ao mesmo tempo, ansiava para que fosse ele a fazer isso. Então, sem pensar direito, ela falou para ele que já se afastava dela:
– Foi você que nunca quis me beijar. Eu nunca disse que não podia.
Ele parou ao ouvir a resposta de Blanche e foi se virando lentamente. Quando Blanche pode ver o seu rosto, não havia nenhum sinal de que ele estivesse comemorando a rendição dela. Em vez disso, havia uma expectativa tão forte que seus olhos pareciam emitir raios brilhantes. Ato contínuo, ele começou a andar lentamente em direção a ela, segurou sua mão e falou em uma voz quase inaudível:
– Vem. Vamos sair daqui.
Os dois jovens saíram andando tentando fazer parecer que andavam normalmente, mas Blanche caminhava ao ritmo de seu coração que batia desesperadamente enquanto Kurt fazia o mesmo ao compasso das pulsações do sangue correndo por suas veias.
Não foram longe. De repente, não era mais importante esconder aquele ato de ninguém e, em plena via pública, os dois pombinhos se abraçaram e suas bocas se encontraram em um beijo apaixonado.
Esse beijo foi o início de um relacionamento que tinha tudo para se transformar em casamento. Tanto é que, sem conseguir mentir para o seu pai, Blanche revelou para ele o que estava acontecendo entre ela e Kurt e Bernard, para a surpresa e alegria dela, não a reprimiu e apenas exigiu que, se fosse para namorar, que o rapaz viesse até a casa dela e pedisse a permissão para os pais dela.
E, para felicidade de Blanche, ele aceitou essa imposição e, dois dias depois, em um sábado, apareceu na casa dela todo perfumado e vestido como se fosse um noivo, gaguejou um pedido de permissão para namoro para um pai que tinha dificuldades em esconder como estava achando aquilo divertido e, depois de permitir, convidou o rapaz para tomar um vinho com ele onde começou a desfiar um rosário de exigências e condições.
Foi assim que no início de 1938, três dias antes de completar dezoito anos, Blanche se viu em um relacionamento de namoro aprovado por seu pai e com o homem que ela aprendera a venerar. Kurt, aos poucos, foi se tornando o centro do universo para ela.
O namoro, agora sob às vistas dos pais, passou a exigir alguma criatividade da parte dos pombinhos para que pudessem se beijar à vontade, com beijos que cresciam em volúpia a cada dia. Quando houve um o intervalo regular no meio do ano letivo, por insistência de Pierre, Sarah viajou para a França levando com ela seus dois filhos. Bernard não pode acompanhá-los, pois a empresa exigia cada vez mais dele.
O lugar era lindo. Embora não se comparasse aos encantos das praias francesas que ficam no Mediterrâneo, pois essa ficava no litoral Oeste, diante do Canal da Mancha, para Blanche era um verdadeiro paraíso e ficou ainda melhor quando, três dias depois de chegar ao local, foi surpreendida pela presença do namorado que, dizendo não conseguir aguentar a ausência dela, veio ao seu encontro.
Com isso, Blanche viu a conjunção de todos os fatores se unirem em um só momento para quebrarem as últimas resistência que ela impunha aos constantes avanços de Kurt. Eles já tinham avançado muito e ela jamais se esqueceria da primeira vez que ele chupou seus mamilos com avidez a levando à loucura, ou quando ele avançou com sua mão atrevida por baixo de sua saia rodada e tocou sua bucetinha que, mesmo estando protegida por uma calcinha de algodão, vibrou com aquele toque pecaminoso.
Agora, na praia, usando um maiô e com suas pernas longas e perfeitas à mostra, enquanto ele exibia o físico exuberante de um jovem dedicado à prática de esportes, seus hormônios faziam seus corpos tremerem ao simples toque. Tudo era desejo e o que antes era pecado ia se transformando, a cada segundo, em algo sublime e esperado com ansiedade.
E aconteceu. E nem precisou que Kurt se esforçasse tanto. Em uma noite de lua cheia, Blanche se retorcia na cama enquanto seu corpo fervia de ansiedade. Ela queria ser tocada e que suas roupas fossem arrancadas para livrarem seu corpo daquela prisão indesejada. Ela se via rolando na areia, totalmente nua, com seu corpo se enroscando ao de seu namorado também nu, sentindo a rigidez do pau dele pressionando sua pélvis.
E foi nesse momento que ela ouviu barulhos na janela. O primeiro ela não teve muita certeza, ficou quieta aguardando para ver se acontecia de novo e não demorou para que se repetisse. Ela se levantou da cama, se esgueirou até a janela e, olhando para baixo, viu Kurt se preparando para atirar mais uma pedra, no intuito de chamar a sua atenção. Sorriu para ele que se limitou a fazer um sinal com a mão como se a chamasse para descer.
Quando ia saindo do quarto, Blanche percebeu que estava usando apenas uma camisola transparente. Mas como não queria perder tempo, se enrolou com a manta que usava para se cobrir e desceu as escadas com todo o cuidado para não fazer barulho. Seus esforços foram recompensados quando saiu ao ar livre e foi praticamente atacada por ele que a abraçou e a beijou. Beijou com tanta ânsia que ela foi obrigada a empurrá-lo e avisar:
– Seu doido. Nós podemos ser vistos aqui.
Sem dizer nada, Kurt agarrou a sua mão e a puxou em direção à praia que ficava a cerca de duzentos metros da casa onde ela se hospedava. Assim que chegaram na areia, ele pegou a manta das mãos de Blanche a e estendeu no chão. Ela não soube em que momento a sua camisola foi perdida, pois, em segundos, ela já estava completamente nua.
Tendo a lua como testemunha, o incômodo da areia grossa sob a manta, ferindo sua pele, sequer foi sentido, Blanche entregou a Kurt a sua inocência. Para ela, foi algo que jamais poderia ser repetido. A sensação de sentir o pau duro de seu namorado invadindo a sua buceta até então intocada sem sentir dor ou qualquer outro incômodo e apenas aproveitando o prazer que aquela entrega lhe proporcionava, foi algo sublime.
Como se fosse uma mulher experiente, ela não se incomodou quando ele pediu para transar em outras posições e foi assim que Blanche acreditou que tinha perdido a sua virgindade da forma mais completa que poderia existir, pois além da tradicional posição de papai-e-mamãe, ela foi fodida de quatro e de ladinho e, como cereja de bolo, todas as vezes que o amante gozou, tomou o cuidado de retirar seu pau de dentro dela e jorrar o líquido de seu prazer em algum lugar do corpo.
Blanche se deliciou ao esfregar a porra que cobriu seus seios na primeira gozada e riu depois de retirar a porra acumulada em seu rosto com os dedos. Ela não disse ao Kurt que o primeiro jato a pegara desprevenida e acertara seus lábios e ela, levada pelo tesão que sentia, usou a língua para poder sentir o gosto e não se arrependeu.
Para uma garota tímida, retraída e insegura, aquela primeira vez era algo realmente para ficar na memória para o resto de sua vida.
Depois da primeira vez, o casal de pombinhos gastou o resto do tempo da viagem procurando formas de ficarem longe das vistas de alguém da família de Blanche e, quando Sarah reclamou que eles estavam sempre fugindo dela e que desejava a companhia da filha, Kurt se aproximou de Claude e passaram a aproveitar a praia, fazendo o que os jovens sempre fazem, como mergulhar ou nadar, entre outras coisas.
Aquela aproximação fez com que os dois descobrissem que tinham muitas coisas em comum. E a pior delas era que ambos viam em Hitler um verdadeiro herói que tinha surgido para fazer com que a Alemanha retomasse seus tempos de glória. E ambos nutriam o mesmo ódio pelos judeus.
Kurt não sabia da origem judaica da mãe de sua namorada e, portanto, dela também. Desde que chegaram à Alemanha que Bernard, vendo o incentivo do governo nazista ao antissemitismo, convenceu à sua esposa que sua origem deveria ser escondida. Foi assim que eles pararam de frequentar a sinagoga e todo e qualquer objeto que fazia referência ao judaísmo foi tirado de vista e escondidos. Os filhos foram orientados para nunca comentarem esse fato com ninguém, o que foi fácil para Blanche que, já tendo sofrido o preconceito por ter tido uma infância pobre, sabia como ninguém como seria tratada se sua origem fosse revelada.
De volta à Alemanha, a vida voltou à rotina, agora com a diferença de que Blanche e o namorado sempre davam um jeito de transarem. Ao mesmo tempo, a campanha nazista contra os judeus atingira um patamar intolerável e o fato deles serem semitas deixou de ser uma preocupação pelo emprego do Bernard ou do direito de seus filhos frequentarem a escola. Agora tudo se resumia em uma questão de vida e morte.
E um fato novo iria mudar as suas vidas. Na noite entre os dias 9 e 10 de novembro de 1938, populares apoiados por membros da AS, grupo paramilitar criado pelo partido Nazista e protegido pela polícia e militares do exército alemão, promoveram um ataque aos judeus expulsando-os e queimando suas casas, além de seus estabelecimentos comerciais.
Para piorar, os judeus começaram a ser presos indiscriminadamente e enviados para campos de concentração, o que fez com que Bernard tomasse a decisão de abandonar a Alemanha. Agora, ciente de que contava com o apoio do irmão, Pierre, era possível retornar à França sem ter que enfrentar a miséria.
Um plano foi minuciosamente montado com a ajuda de Pierre que iria até Berlim com o pretexto de estar em uma viagem de negócios e, quando regressasse para a França, levaria com ele: Blanche, Sarah e Claude. Bernard permaneceria em Berlim por mais alguns dias até encontrar um pretexto para ir até a França, de onde não retornaria.
O plano parecia bom, exceto pela resistência de Blanche que não aceitava se afastar de Kurt. Foram usados todos os argumentos, inclusive, o de que o ele fugiria para a França junto com seu pai, algo que ela não acreditou. Ela já conhecia bem seu namorado e tinha assistido ele se tornando um fanático nazista a cada dia que passava.
Estavam nesse impasse quando Claude, empanturrado com as doutrinas preconceituosas pregadas na escola, cometeu uma indiscrição na presença de Kurt em um dos dias em que ele recebia permissão para visitar a namorada.
Quando a conversa chegou ao assunto sobre a Noite de Cristais, Bernard e Sarah evitaram participar e tentaram mudar de assunto. Entretanto, Claude estava muito animado com o que acontecera e exaltava a bravura dos destemidos paramilitares alemães que se mostraram tão valentes contra uma população pacífica e que não ofereceu resistência em momento nenhum, com Kurt lhe dando apoio.
A conversa descambou para as medidas que deveriam ser adotadas contra os judeus. Kurt defendia que todos deveriam ser expulsos da Alemanha sem poder levar seus bens que seriam confiscados para indenizar aos alemães pelo que tinham feito com a economia do país, demonstrando que ele tinha decorado a cartilha do nazismo. Claude, mais radical e para o horror de seus pais, defendia consequências mais severas de todos eles.
Ele criticou a ideia de Claude dizendo que não precisava chegar a esse ponto. Que bastava expulsar a todos. A discussão seguiu com ambos defendendo seus pontos de vistas e Kurt estava levando a melhor com seus argumentos, quando Claude, que não gostava de perder nem uma discussão, disparou:
– Você fala isso porque vai se casar com uma ...
A frase de Claude ficou suspensa no ar. Bernard olhava para o filho com uma expressão de censura e Sarah com raiva da indiscrição dele. Blanche, com os olhos fixos em seu amado, pedia a Deus que ele, perdido em seus próprios argumentos, não tivesse entendido o que seu irmão dissera
Mas não foi o que aconteceu, pois logo Kurt perguntou:
– Uma o que?
Aquela pergunta congelou o ambiente da sala. Bernard fez um movimento de negativa quase imperceptível com a cabeça e Sarah abaixou os olhos, ao mesmo tempo em que, retorcia as mãos que repousavam sobre seu colo. Claude olhava para o alemão enquanto tentava encontrar uma resposta e, não a encontrando, disse apenas:
– Nada, não. Eu não disse nada.
– Como assim? Você disse, sim. Eu ouvi muito bem você falar de algo sobre eu me casar com “uma”. “Uma” o que?
– Francesa. O que o Claude quis dizer é que você vai se casar comigo que sou uma francesa. – Falou Blanche tentando desesperadamente encontrar uma saída.
– E o que tem isso a ver? A gente não estava falando de franceses e sim de …
Por trinta segundos o silêncio que cobriu aquela sala permitiria que as batidas de asa de um inseto que ali voasse, fossem ouvidas. Ninguém sequer respirava diante da gravidade da situação até que Kurt mudou de expressão como se, de repente, fosse invadido pela realidade do que acontecia. Então ele se dirigiu à Blanche gritando:
– Então é isso! O Claude quis dizer que você é judia?
Blanche olhou para seu pai, o que não devia ter feito, pois aquilo se tornou uma confissão e Kurt, depois de olhar rapidamente para Bernard, voltou a olhar para ela e disse:
– Então você é judia?
As palmas das mãos de Blanche sangraram com o fato de ela fechá-las com tanta força que foram feridas pelas unhas e sua expressão não deixava dúvidas do medo que lhe assaltava, porém, o medo naquele momento era apenas o de perder o amor da sua vida. O homem para quem tinha entregado sua inocência.
E isso foi o suficiente para o seu namorado explodisse de vez e passasse a lhe acusar:
– Sua vadia! Você mentiu para mim para se dar bem na vida, judia suja. Seu irmão está certo. Vocês judeus têm que morrer mesmo. Sanguessugas dos infernos.
Dizendo isso, Kurt se levantou e saiu da casa batendo a porta enquanto a única reação de Blanche foi a de começar a chorar enquanto sua mãe começava a repreender ao Claude, dizendo:
– Você viu o que você fez? Todos nós estamos em perigo agora.
– Não adianta nada ficarmos nos recriminando. Temos que sair daqui. E agora? – Falou Bernard.
Dizendo isso, ele começou a dar ordens:
– Sarah, suba e arrume as malas. Pegue roupas quentes, mas não precisa exagerar que ainda estamos no outono. – E apontando para os filhos: – Vocês dois vão até a despensa e peguem os alimentos que conseguirem carregar. Eu vou dar uma olhada no carro.
Blanche obedeceu e nem percebeu que seu irmão não a seguiu. Menos de dez minutos depois Bernard entrou na cozinha e viu Blanche guardando alimentos não perecíveis em duas sacolas e, não vendo o Claude, perguntou:
– Cadê seu irmão?
– Eu não sei. Ele não foi com o senhor? – Respondeu ela sem interromper a tarefa que realizava.
– Não, eu falei para ele vir te ajudar.
Depois de dizer isso, o homem voltou para a sala e viu Sarah descendo as escadas trazendo, com dificuldade, uma pesada mala enquanto havia outra no topo dela, o que fez com que ele subisse para ajudá-la enquanto perguntava:
– O Claude está lá em cima?
– Não. Ele está com a Blanche na despensa. – Respondeu ela.
– Não. Não está. Já verifiquei. – E depois, demonstrando nervosismo, disse a ninguém em especial: – Mas onde se enfiou esse menino?
Não precisou de muito para que Bernard entendesse o que tinha acontecido. A porta aberta já era uma indicação. Mas Blanche só teve consciência do que era quando viu seu pai correndo até a calçada. Foi atrás dele e ambos conseguiram ver Claude caminhado apressado e já distante, mas não o suficiente para que não ouvisse quando seu nome foi chamado. Mas o rapaz apenas olhou rapidamente para trás e depois correu até a esquina mais próxima, desaparecendo das vistas de seus familiares;
Entre correr atrás do filho e abandonar a filha e a esposa, a opção de Bernard recaiu sobre salvar as mulheres. Mesmo porque ele sabia que não alcançaria o filho. Retornou para dentro da casa e disse à esposa:
– O Claude fugiu. Precisamos nos apressar.
– Apressar pra ir aonde?
– Para fugir daqui. Logo seremos atacados. Não podemos ficar aqui.
– Eu não vou a lugar nenhum sem o meu filho. – Respondeu Sarah.
– Vai sim. Não podemos ficar aqui nem mais um minuto. – Depois de falar de maneira ríspida com Sarah, gritou para ser ouvido pela filha: – Blanche. Vamos logo, minha filha.
– Me ajude aqui, pai. – Pediu ela em resposta e ele correu para a cozinha onde a encontrou completando a tarefa de colocar os alimentos nas sacolas e dois minutos depois retornando com várias delas nas mãos.
– Eu já disse que não vou sem o Claude. – Falou Sarah plantada no meio da sala.
Bernard não disse nada. Apenas correu para a garagem e jogou as sacolas no banco traseiro do carro voltando apressado para a sala, ordenando que Sarah e Blanche fizessem o mesmo. A garota obedeceu e seguiu a ele que arrastava as duas malas enquanto carregava as sacolas com alimentos. Quando chegou no carro, depositou as duas malas no porta-malas e quando se deu por satisfeito, viu que a filha voltava para a sala e perguntou:
– Aonde você vai?
– Buscar minha mãe! – Informou ela.
– Deixe que eu faço isso. Entre no carro.
Mas Blanche já tinha voltado para o interior da casa e ele a acompanhou e quando chegou se deparou com a cena que o deixou exasperado. A filha suplicava para a mãe para acompanhá-la e ela apenas balançava o rosto negando. Sabendo que não tinham muito tempo, Bernard não se preocupou em achar palavras suaves para convencer a esposa e falou de forma ríspida:
– Não seja idiota, Sarah. O Claude fugiu, pensa como eles. Ele nos odeia mais do que os alemães porque queria ser um deles e sabe que nunca vai ser. Ele nos culpa por isso. Afinal, ele é judeu por nossa causa.
– Por minha causa. Você não é judeu.
– Sou sim. Posso raramente ter entrado em uma sinagoga e não conhecer o Torá. Mas me tornei judeu no dia em que descobri que te amava. E agora não temos tempo para isso.
Isso não ajudou em nada. A mulher teimava em permanecer ali e esperar por seu filho. O impasse acabou quando ouviram vozes de pessoas que se aproximavam falando de forma exaltada. Pelos gritos, eles não estavam indo à uma festa. Desesperado, Bernard segurou firmemente o pulso de Sarah e a puxou para si. A mulher ainda tentou resistir e ele se abaixou, segurou as duas pernas dela fazendo com que ela caísse por sobre seu ombro esquerdo e a carregou assim até onde estava o carro a jogando no banco traseiro. Quando ocupou o volante, viu que a filha caminhava em direção ao portão no intuito de abri-lo e gritou:
– Volte aqui, Blanche. Não há tempo.
– Mas … E o portão?
– Dane-se o portão. Entre logo.
A urgência em sua voz fez com que fosse obedecido e Blanche teve apenas tempo de ocupar o banco dianteiro e o carro foi colocado em movimento. Dirigindo com apenas uma das mãos enquanto a outra segurava a roupa da esposa que tentava sair do carro, acelerou. Um estrondo foi ouvido quando o carro se chocou contra o portão.
De repente, os gritos que antes pareciam estar longe ecoaram em volta dos três fugitivos. Ao se chocar com o portão fechado, esse se abriu com violência e atingiu dois manifestantes que estavam mais próximo e os atirou longe. A turba, ao ver dois dos seus serem atingidos, ficou ainda mais enfurecida e aquilo que era, para eles, uma diversão perversa, passou a ser uma vingança.
Blanche, olhando em volta, conseguiu ver seu irmão se movimentando atrás dos manifestantes e notou que ele gritava e gesticulava num sinal que não deixava dúvidas soar de um incentivo. O choque de ver alguém do seu próprio sangue clamando por sua morte e a de seus pais, fez com que Blanche perdesse o foco momentaneamente.
Quando controlou o caos que se formou em sua mente, viu seu pai avançar com o carro fazendo com que os atacantes recuassem e em seguida, olhou para a frente e viu Kurt surgir na esquina mais próxima, mas ele não estava sozinho e atrás deles vinham vários homens, todos com porretes nas mãos.
Ele passou por Blanche sem lhe dirigir o olhar. Ele estava empenhado em falar alguma coisa para os homens que o acompanhavam e apontando o dedo para alguém. Ela olhou na direção em que Kurt apontava e viu que era para o Claude. Não conseguiu sequer gritar e viu o irmão receber o primeiro golpe na cabeça e cair enquanto uma saraivada de golpes e chutes eram despejados contra ele.
Sarah, ao ver seu filho sendo atacado e já livre por não ter mais o marido segurando sua roupa, saiu do carro e correu na direção do filho, desaparecendo em meio aos atacantes. Mas isso não evitou que ouvissem seus gritos quando começou a ser golpeada.
Bernard pisou fundo no acelerador atropelando três manifestantes. Ele não sabia o que estava acontecendo com sua esposa e, ao ver a rua ficar livre, desenvolveu a velocidade necessária para fugir daquele local. Ele mantinha uma mão no volante enquanto com a outra segurava o ombro da filha. Talvez acreditando que fosse sua esposa, num gesto típico de alguém que tenta fazer com que outra pessoa volte à razão.
Então veio a imagem que Blanche nunca mais conseguiu apagar de sua mente. Quando o carro virava a esquina, ela olhou para a confusão que tinha ficado para trás. Naquele exato momento, os atacantes se afastaram permitindo que ela tivesse a visão do corpo de sua mãe jogado na rua. Coberto de sangue enquanto ela se arrastava no asfalto com as mãos estendidas para a frente, em um gesto que deixava claro que tentava proteger o corpo massacrado de Claude, estirado à sua frente.
Aquela cena fez com que algo se quebrasse no espírito da jovem. De repente, ela foi dominada por uma frieza que lhe causou arrepio e só conseguiu pensar que precisava ajudar seu pai a saírem daquele país.
