Ao amanhecer, abro os olhos em uma carroça de bagagem. O Capitão Mun está ao meu lado, roncando suavemente, todo esparramado. É mais confortável dormir em uma carroça do que na tenda do Comandante Yai, porque posso rolar o quanto quiser. O pior que poderia acontecer seria esbarrar no outro cara, mas aí era só me desviar. Ainda assim, não consigo evitar de pensar no calor da luz de velas e no Comandante Yai rezando baixinho.
Saio da carroça, tentando não acordar o Capitão Mun. A luz laranja pálida pinta o horizonte. Logo, o sol nascerá sobre a linha das árvores. Se fossem os dias anteriores, a esta hora todos já estariam de pé preparando tudo para retomar a jornada no final da manhã. Mas hoje, apenas os cozinheiros estão acordados para fazer o café da manhã. Caminho cambaleante até o outro lado da pastagem, por onde passa o riacho. Ainda não estou totalmente acordado, mas preciso de um tempo sozinho para pensar.
A água do riacho está fresca. Lavo o rosto para despertar enquanto penso na noite passada. Lembro que me sentei perto do fogo com os soldados e bebi um pouco, o suficiente para minha mente divagar. O suficiente para ter um devaneio selvagem.
Foi o resultado do álcool e daquela atmosfera estranhamente romântica. Minha mente viajou a ponto de eu imaginar ter ouvido dois versos de Sunthorn Phu sendo recitados com a música. Não hesitei em agarrar aquela doçura amarga e guardá-la no coração, para me consolar e não me afundar na saudade. Observei o Comandante Yai por metade da noite, capturando a visão diante de mim e organizando-a com as imagens ternas de Khun-Yai e eu no passado. A pior parte é que fiquei tão audacioso a ponto de pensar em dar em cima do Comandante Yai.
Esfrego o rosto e solto um gemido baixo. Se o Comandante Yai descobrisse, ele me chicotearia no chão na frente de todo mundo...? Por qual motivo? Por ter o atrevimento de flertar com o comandante de Seehasingkorn? Não consigo nem imaginar o Capitão Mun segurando a barriga para não explodir de rir, sem falar no Comandante In. Ele ficaria com aquele sorriso debochado até o fim dos tempos.
Levanto-me e hesito entre relaxar aqui ou voltar para a carroça onde o Capitão Mun dorme. Mas então, ouço um barulho vindo de um lado da pastagem. Fico relutante, mas escolho caminhar até a origem do som. É o Comandante Yai. Ele está praticando esgrima no campo banhado pela luz alaranjada, tendo um boneco de palha amarrado a um poste de madeira como parceiro de treino.
O Comandante Yai move o corpo com agilidade, manejando suas espadas duplas como se estivesse dançando. As lâminas cortam o boneco, enviando palha pelo ar, que cai sobre a grama oscilante.
Fico olhando para ele, encantado. O Comandante Yai parece deslumbrante e poderoso. Seus músculos são como os de uma estátua: o peito firme, as costas largas e o abdômen definido. Ainda bem que ele está vestindo o pano enrolado bem apertado, assim posso admirar os músculos de suas coxas sem me distrair com outra coisa. Quando o parceiro de treino se transforma em palha espalhada, o Comandante Yai para. Ele limpa o suor do rosto e lança os olhos sobre os meus. Fico tenso, me xingando por ter ficado tão absorto olhando para ele que esqueci de me esconder, ficando parado ali no aberto como um bobo e sendo pego desse jeito. Luto para inventar uma desculpa.
— Vim aqui me lavar.
Aponto na direção do riacho. Ignorando minha desculpa, o Comandante Yai se aproxima. Engulo em seco quando ele para a poucos passos de mim.
— Estava me espiando? — a voz dele é baixa e rouca.
Na verdade, eu o observo desde ontem, esperando que ele não percebesse. Desvio o olhar, evitando o dele, pensando em uma razão para justificar minha ação.
— Eu me interesso pela arte da luta. Espadas, lanças, flechas... gosto de tudo. Quando vi o senhor praticando, não pude deixar de observar.
Uma risadinha baixa na garganta do Comandante Yai faz meus olhos voltarem para o rosto dele. Seus lábios se curvam.
— Você gosta da arte da luta? Você parece alguém que emergiu dentro de uma flor de lótus e nunca tocou em uma arma na vida. Mas, se você for capaz de lançar feitiços, enganar ou armar emboscadas, eu não ficaria surpreso.
Meu coração vacila. Por que ele está me dando esse sorriso? Mesmo sendo meio desdenhoso, afeta demais o meu orgulho. E essas palavras... ele não consegue decidir se me elogia ou me insulta? Foi como se ele dissesse que eu tenho a pele bonita e clara, mas pareço traiçoeiro e não confiável. Minha cabeça está uma névoa agora. Não consigo processar coisas complicadas.
— O senhor está me subestimando demais. Posso não ser musculoso como todos vocês, mas não sou fraco. Eu costumava aprender esgrima.
É verdade. No ensino médio, era uma das matérias de Educação Física. O Comandante Yai levanta a mão, e meu coração afunda quando ele gira o pulso para girar a espada. Dou um pulo quando ele a crava no chão bem na minha frente.
— Espero testemunhar isso ao menos uma vez. Poderia abençoar meus olhos com sua esgrima?
Parece um pedido, mas sua expressão e voz deixam claro que é uma ordem impositiva. Olho em pânico para a espada longa à minha frente... É sério? Ele está me mandando mostrar minhas habilidades de luta? Ugh... E aquela é uma espada de verdade. Não faço ideia se ela já cortou o pescoço de alguém ou atravessou o estômago de outra pessoa. Engulo em seco e a encaro nervoso antes de olhar para ele. O Comandante Yai fixa os olhos em mim. Acho que tenho que mostrar de verdade se não quiser que ele acredite que eu estava apenas admirando o corpo dele e que não entendo nada de luta.
— Tudo bem — digo.
Rezo para o Sr. Polawat, que ensinou esgrima, e tento recordar os movimentos antigos. Prendendo a respiração, puxo a espada do Comandante Yai, seguro-a firmemente e entro na postura de luta que aprendi. Felizmente, lembro de algo. Ajusto minha postura para o básico. Coloco o polegar e o indicador juntos sobre o peito e dou um passo à frente. Passo, junto o outro pé, e levanto a espada.
Parece estranho no começo, mas melhoro meus movimentos um momento depois. Mostro o trabalho de pés e executo meu movimento letal.
Segurar, unir os dedos, fechar o passo, estocar, golpear! O Comandante Yai fica sem fala por um segundo, então pergunta com um tom de voz estranho:
— Onde fica a sua escola?
A atitude dele me deixa furioso. Ele está desrespeitando minha escola? Eu fui aluno de um professor! Mesmo que o Sr. Polawat fosse um professor de Educação Física, e não um comandante, ele ensinava seus alunos com seriedade e sempre era generoso nas notas. Se ele tem que culpar alguém, que culpe a mim por ser bom em desenho e péssimo nisso. Digo a ele o nome da minha escola secundária.
Ele balança a cabeça negativamente.
— Nunca ouvi falar. Ela ainda está de pé?
— O que o senhor quer dizer com isso, Comandante Yai?
O Comandante não consegue mais segurar o sorriso. Ele aponta para o meu peito e diz:
— Se a sua esgrima é essa porcaria, sua escola inteira não pereceria em batalha? Não vá lutar com ninguém só para acabar morto.
Ele toma a espada da minha mão e se afasta, deixando-me fervendo de raiva no meio do gramado. No final da manhã, eles enviam alguns servos para buscar mais suprimentos. Não vou à aldeia desta vez, pois o Capitão Mun precisa guardar o acampamento.
Ele resmunga que perdeu a chance de cortejar as mulheres no mercado e diz que ficará solitário por dias, podendo acabar perdendo o juízo e se casando com uma macaca.
À noite, assim que terminam de embalar os suprimentos para a viagem, é hora de recreação. Hoje eles não bebem ao redor do fogo como na outra noite, porque a jornada continuará amanhã cedo. Por isso, fazem outra atividade.
Eles jogam um jogo. É um jogo de luta que exige, especialmente, força. Estão divididos em dois times de dez pessoas cada. Cada time amarra tiras de cores específicas nos braços. Há dois postes altos de madeira com bandeiras das cores dos times penduradas no topo. O time que alcançar o poste e agarrar a bandeira do outro primeiro, vence.
Para ser justo, o Comandante Yai e o Comandante In protegem os mastros de times diferentes.
O jogo começa com muita empolgação. É uma disputa vibrante e inofensiva. Ambos os times avançam um contra o outro e lutam com vigor na tentativa de arrancar as tiras dos braços dos adversários. Aqueles que perdem suas tiras são eliminados imediatamente. O time que consegue mais tiras tem mais chances de chegar à bandeira. É divertido pra caramba! O som do confronto e os rugidos contínuos ecoam. Poeira sobe no ar com a luta. O gramado está cheio de gritos de incentivo. Nós berramos de emoção toda vez que alguém arranca uma tira do braço inimigo. Cada time perde seus membros gradualmente. Por fim, restam apenas duas pessoas.
Se um deles consegue a tira primeiro, corre para o mastro do outro time, com o guardião da bandeira do próprio time ajudando. Os espectadores gritam quando ambos arrancam as tiras um do outro ao mesmo tempo. Isso significa que ambos os times perderam todos os jogadores e o jogo termina empatado. Ninguém ganha ou perde. No entanto, o Comandante Yai se recusa a terminar assim. Ele agarra o mastro da bandeira do seu time e o arremessa para cravar na terra no meio do campo de batalha, desafiando o Comandante In a ir buscá-la.
O Comandante In solta uma gargalhada estrondosa antes de agarrar seu mastro e lançá-lo ao lado do outro.
Ambos os comandantes avançam um contra o outro e começam a lutar, levantando poeira, sem deixar que o outro toque em sua bandeira. A torcida é barulhenta, como se estivéssemos assistindo a uma luta entre um tigre e um urso. Você consegue adivinhar para quem estou torcendo, né? Eu aplaudo e grito o nome do Comandante Yai sem nenhuma vergonha de como parece estranho eu torcer pelo homem que tem me tratado com tanta frieza.
A cena diante dos meus olhos me leva a perguntar ao Capitão Mun:
— O Comandante Yai e o Comandante In não se parecem nem um pouco.
— Compreensível — o Capitão Mun não tira os olhos da luta. — O Comandante Yai é filho da segunda esposa, e o Comandante In da primeira.
— Hum...? — Meus olhos se arregalam de curiosidade.
Após algumas explicações do Capitão Mun, eu finalmente entendo. O Comandante Yai e o Comandante In compartilham o mesmo pai. A mãe do Comandante In foi casada com o pai dele por anos, mas não conseguia engravidar. Por fim, ela permitiu que o marido trouxesse uma concubina, que acabou dando à luz o primeiro filho, o Comandante Yai.
No entanto, um ano após o nascimento de Yai, a primeira e a segunda esposas engravidaram ao mesmo tempo. A mãe do Comandante In faleceu dois dias após dar à luz. A segunda esposa, que acabara de ter uma menina, irmã de Yai, sentiu uma pena terrível da criança órfã e pediu permissão para criar o Comandante In e amamentá-lo. Portanto, ela é tanto sua madrasta quanto sua ama de leite.
Não é surpresa que esses dois irmãos, nascidos de mães diferentes, sejam tão próximos. Foram criados juntos, lado a lado.
Bem, é um tanto estranho que meus dois amores sejam irmãos neste período, mas não tenham parentesco algum no outro, sendo apenas duas pessoas vivendo na mesma cidade. Encaro o Comandante Yai. Ele parece estar se divertindo de verdade com o jogo. Seus lábios se abrem em um sorriso brilhante, e isso me lembra do tempo em que ele sorria para mim. Sei que estou prestes a divagar de novo, embora não tenha tomado uma gota de álcool.
...Que inapropriado. Eles estão lutando com afinco enquanto minha mente vaga para os lábios carnudos e beijáveis dele, que eram macios e úmidos quando nossos lábios se tocavam. Relembro as palavras doces que Khun-Yai despejava sobre mim. Não importa onde o destino pregue uma peça e me jogue, suas palavras de amor permanecem gravadas no meu coração. Penso em nossa conversa da qual me lembro claramente:
"Quando você começou a me amar...? Foi amor à primeira vista?" "Não exatamente. Parecia que eu já te amava há muito tempo. Eu sabia que te amava antes mesmo de te conhecer naquele dia."
Paraliso com a lembrança. Espera aí... Ele me amava antes mesmo de me conhecer. O espanto percorre todo o meu corpo. E se aquelas não fossem apenas palavras românticas de uma pessoa apaixonada? E se elas viessem dos sentimentos verdadeiros de seu coração e o significado fosse literal?
Khun-Yai tinha um apego profundo por mim antes mesmo de nos conhecermos. Isso explicaria por que ele pareceu atordoado quando meu barco passou pelo pavilhão à beira-mar pela primeira vez!
Talvez isso seja desespero meu, minha luta contra a decepção, o fato de eu não aguentar a situação em que fui colocado sem escolha e, por isso, buscar uma explicação para suportá-la. Independentemente disso, não consigo parar meus pensamentos.
Sinto arrepios por todo o corpo ao refletir sobre a crença na reencarnação, passada desde a geração dos nossos bisavós. Khun-Yai poderia ter me amado desde este período, onde era o Comandante Yai, e guardado esse amor para outra vida. Seria a alma uma energia indestrutível como toda matéria? Não tenho a resposta para isso. Mas, neste segundo, considero outra explicação. São as possibilidades potenciais das nossas decisões. Nossas ações e decisões de hoje afetam diretamente o nosso futuro.
É baseado na teoria dos universos paralelos, uma hipótese da física quântica. Ela afirma que, a cada segundo, nossas ações exigem decisões — virar à esquerda ou à direita, continuar ou parar, ou até escolher um prato para comer — e as consequências serão diferentes cada vez que decidirmos.
Se o Comandante Yai nesta era me amar, possivelmente impactará o Khun-Yai de 1927 (B.Ea me amar também.
Posso estar perdendo o juízo ao chegar a tal conclusão, mas não acredito plenamente na teoria de que universos paralelos são inteiramente separados. Se meu gato fosse morto por um cachorro esta noite, e eu viajasse no tempo para matar o cachorro de manhã, antes do incidente, o cão que eu mataria poderia ser um diferente do que morderia meu gato à noite. Isso criaria um universo paralelo onde meu gato sobreviveria.
Mas não aguento mais. Se existem dezenas de milhões de versões de universos paralelos a serem criadas a partir deste segundo, quero que todas elas levem ao Khun-Yai de 1927 me amando.
Pelo menos, quero aumentar as chances o máximo possível. Não suporto a ideia de ele olhar através de mim sem um pingo de lembrança, de não ter interesse em mim e nunca tentar nos aproximar e nos apaixonarmos.
Esta é a esperança à qual vou me agarrar. Quer a teoria dos universos paralelos e a crença na reencarnação sejam reais ou bobagem, a única verdade em tudo isso é o meu amor por ele, e isso é poderoso o suficiente para me fazer decidir meu próximo passo.
Encaro o Comandante Yai e o Comandante In lutando no chão, nenhum disposto a se render, com meu coração cheio dessa imensa ambição.
Comandante Yai... eu vou roubar seu coração.
No final da manhã do dia seguinte, partimos de Baan Thung Hin. Caminho pela estrada cercada por pastagens em direção à borda da mata e às grandes montanhas diante de nós. O sol hoje está forte e venta muito. O vento sopra a grama e envia folhas e pedaços brancos de algodão das plantas voando pelo ar. Talvez sumaúma ou salgueiro. Olho para o céu nublado, imaginando qual é a data de hoje.
Desde que cheguei aqui, tenho sido como um cego, sem uma percepção clara de nada. Julgando pelas árvores perdendo as folhas e pelo ar da manhã que não está tão fresco quanto nos primeiros dias, presumo que estou na transição do inverno para o verão. Talvez seja fevereiro. Ah... Não tenho ninguém para segurar a mão neste mês do amor. Não consigo evitar de esticar o pescoço para frente, esperando vislumbrar alguém passando a cavalo.
Desde cedo, vi o Comandante Yai apenas uma vez, quando ele fez a última vistoria antes da comitiva começar a se mover. Supostamente o verei novamente ao meio-dia ou à tarde, ou o observarei de longe à noite.
Isso não está certo. Meu amor não correspondido por ele é triste. Essa abordagem passiva não está me levando a lugar nenhum. Preciso ser mais proativo. Preciso encontrar uma maneira de ficar mais perto dele.
Se eu ficar sentado, sorrindo e lançando olhares de flerte à distância, esta vida acabará antes que eu perceba. Mas, como não sei muito sobre o Comandante Yai, tenho que buscar informações imediatamente. "Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas." Aproveito uma chance durante o descanso da tarde e interrogo sutilmente o Capitão Mun, minha única fonte de informação.
— Hum... Capitão Mun, o senhor por acaso sabe do que o Comandante Yai gosta?
O Capitão Mun me lança um olhar estranho.
— Não sou a esposa dele. Como eu saberia?
— Hein..? O quê? — Meu rosto gela de susto, meu coração cai no chão. — Ele tem uma esposa?
— Não — o Capitão Mun balança a cabeça. — Por que a pergunta?
Droga, Capitão Mun. Ele quase me matou do coração. Felizmente, a resposta não é horrível.
— Nada. Bem, o Comandante Yai gentilmente me libertou dos grilhões, então quero retribuir.
O Capitão Mun pensa por um breve momento e responde:
— Além de selecionar e treinar soldados, nunca o vi se interessar por nada.
— Selecionar soldados... — murmuro, refletindo.
É como um alistamento? O que eles fazem? Há um teste de aptidão física ou algo assim?
— Como ele os seleciona, Capitão Mun?
— Ele os agrupa e os faz lutar entre si.
Isso é demais para mim... Dada a minha esgrima, duvido que o Comandante Yai me selecionaria para seu exército. E eu não quero lutar com ninguém. Balanço a cabeça e resmungo:
— Vocês todos realmente amam brigar, hein?
— Que coisa estranha de se dizer. Quem lutaria se não fosse necessário?
Vendo-me piscar estupidamente, ele explica:
— Nossa cidade não está em paz, Ai-Jom. Embora tenhamos nos submetido ao Rei Kham de Chiang Mai, estamos longe de confiar uns nos outros. E ainda não sabemos se o Reino de Ayutthaya é nosso aliado ou inimigo. Se um dia eles marcharem com o exército para tomar nossa cidade e Chiang Mai em sucessão, não teremos escolha a não ser morrer pela nossa pátria.
Essa conversa com o Capitão Mun foi uma verdadeira aula de geopolítica do século XVIII! O Jom finalmente conseguiu situar onde (e "quando") está: no Período de Ayutthaya, em uma cidade-estado chamada Seehasingkorn que vive sob a bota de Chiang Mai.
Fico atônito com a nova informação que me atinge do nada. Ele acabou de dizer... Reino de Ayutthaya! Meu coração bate tão rápido que quase pula do peito. Isso significa que Seehasingkorn faz fronteira com o Reino de Ayutthaya? É por isso que eles têm medo de serem atacados e dominados por eles? Em que momento do Período de Ayutthaya eu estou? Não faço ideia de quando o Rei Kham, o governante de Chiang Mai, reinou em comparação com Ayutthaya.
Aperto minhas mãos, tentando manter minhas emoções e voz estáveis.
— Você está dizendo que Seehasingkorn se dá bem com Chiang Mai, mas tem inimizade com o Reino de Ayutthaya? É isso?
— Que tipo de "boas relações" se expressam com vitimização? — o Capitão Mun desdenha, com o olhar anuviado. — Seehasingkorn foi tomada por Chiang Mai na época em que Chiang Mai se recusou a se submeter a Hansawadee e decidiu ser independente. Sua Majestade, o Rei Kham, planejou expandir seu poder, então marchou com seu exército para tomar Seehasingkorn. Estamos sob o domínio deles desde então.
— O Comandante Yai perdeu a batalha? — deixo escapar.
— Não — o Capitão Mun baixa a voz. — O Comandante Yai nem era soldado naquela época. O pai de Sua Alteza Real, o Príncipe Seeharaj, liderou o exército pessoalmente e foi morto por uma foice em cima de seu elefante. Tendo alcançado a vitória, o Rei Kham nomeou o Príncipe Seeharaj como governante de Seehasingkorn. Temos que enviar tributos a Chiang Mai três vezes por ano. Já faz três anos.
Olho para o Capitão Mun, que trinca o maxilar, e sinto simpatia por eles. Eu nasci em uma era onde os países travam guerras econômicas, não anexando outros com guerra real. O Capitão Mun percebe a raiva solidária nos meus olhos e continua:
— É realmente angustiante. Metade do que colhemos deve ser entregue a eles. Pior ainda, exigiram que as duas irmãs de Sua Alteza se oferecessem ao Rei Kham. No entanto, a saúde da Princesa Amphan não é boa, pois o clima gélido de Chiang Mai causava dores em seu peito. O Rei Kham ordenou que ela voltasse para Seehasingkorn para se recuperar, deixando a Princesa Duean Klum lá.
Como refém, hein? Olho para o guarda-sol branco de cabo longo à distância. Apesar da nobreza, a princesa sofre de uma maneira que plebeus como nós jamais experimentaremos. Ela não pode decidir o caminho da própria vida; tudo depende do bem de sua cidade.
— Por que enviar as duas? Sua Alteza não poderia enviar apenas uma? — o Capitão Mun rosna. — Eles temiam que Seehasingkorn os traísse formando uma aliança com o Reino de Ayutthaya e oferecendo uma princesa ao Rei de Ayutthaya.
— E vocês têm que seguir as ordens deles assim? — minha voz falha.
— O que podemos fazer? — Mun ferve de raiva. — Pense um pouco. Se resistíssemos e sofrêssemos outro ataque, nossa cidade não seria demolida? Nosso exército não está pronto. Temos que suportar por enquanto, mas não por muito tempo, Ai-Jom. Nossa viagem a Chiang Mai desta vez nos mostrou a capacidade do exército deles. Assim que o Comandante Yai fortalecer nossas tropas e preparar elefantes, cavalos e carruagens suficientes, e assim que Sua Alteza der a ordem, nós vamos...
Ele faz uma pausa, percebendo que falou demais. O Capitão Mun limpa a garganta e finge irritação.
— O que é esse monte de perguntas? Olha... o Comandante está mandando a gente se preparar. Se você bobear e for acorrentado de novo, eu vou rir da sua cara.
Apresso o passo atrás do Capitão sem dizer mais nada, embora minha boca esteja coçando para perguntar mais. Bem, não ganhei muitos fatos pessoais sobre o Comandante Yai hoje, mas o restante das informações valeu a pena. Agora estou confiante de que viajei de volta para o Período de Ayutthaya.
O ano exato ainda é incerto. O motivo de eu não conhecer Seehasingkorn pode ser meu conhecimento raso de história. Ou talvez Seehasingkorn seja uma cidade pequena que nunca apareceu em registros históricos, como muitas províncias da Tailândia que raramente são mencionadas.
A história que o Capitão Mun revelou involuntariamente em sua fúria muda minha visão sobre o Comandante Yai de forma positiva. Ele não é uma rocha sem emoção e sem coração. Ele precisa ser rigoroso devido aos fardos da cidade que carrega nos ombros, por isso não pode se dar ao luxo de baixar a guarda e brincar por aí. Retiro o que disse sobre ele ser feroz como um cão selvagem.
Estico o pescoço por cima das fileiras de soldados, mas tudo o que vejo são as traseiras das carroças das damas da corte. O Comandante Yai deve estar cavalgando lá na frente para manter as coisas em ordem. Penso em seus olhos determinados e no pequeno sorriso que ocasionalmente aparece quando ele se sente satisfeito. Se eu puder fazer algo por ele, eu farei.
À noite, acampamos na mata. Parece que será assim por várias noites. Enquanto como ao lado do Capitão Mun, uma ideia surge na minha cabeça. Corro os olhos por cada prato desta refeição: carne salgada, pasta de pimenta, vegetais frescos e cozidos. São pratos simples e caseiros. Às vezes recebemos algo especial como curry de peixe grelhado em folhas de bananeira ou Larb (carne moída picante com arroz torrado), mas, embora gostosos, não são pratos bonitos ou delicados.
Pouso meu prato e me viro para o Capitão Mun.
— Capitão Mun, o senhor sabe qual é a comida favorita do Comandante Yai?
— Eu costumo vê-lo comer de tudo. Somos soldados. Quão exigentes podemos ser? Estamos bem com inhames e batatas.
É verdade. Mas se houver pratos deliciosos que sejam agradáveis aos olhos e ao paladar, quem não amaria? Eu não sou um mestre-cuca, mas acredito no "Verso de Comidas e Sobremesas" e no que testemunhei quando esperava na cozinha para entregar as refeições do Khun-Yai na casa pequena todos os dias.
O plano na minha cabeça está tomando forma. Não vou chegar ao ponto de fazer bolinhos em forma de flor ou macarrão de arroz em molho de curry. No entanto, o Comandante Yai vai provar o doce de arroz grudento com manga, a refrescante melancia com flocos de peixe seco e o prato matador que pretendo fazer com sucesso: o Curry Run Juan, que fará o Comandante Yai ansiar por mais depois de apenas uma prova.
O caminho para o coração de alguém é pelo estômago. Respiro fundo, cheio de ambição e determinação.
— Capitão, teria algum problema se eu desse uma mãozinha aos cozinheiros? Quero ajudar, não apenas comer e dormir sem fazer nada.
O Capitão Mun responde com uma expressão que diz claramente: "Tanto faz".
Após a refeição, vou até os cozinheiros. Há homens e mulheres. Quando expresso minha intenção, uma mulher gordinha e um homem se afastam para discutir em sussurros. Eles parecem ter o poder de decisão sobre a cozinha. Logo, o homem volta até mim.
— Você pode fazer qualquer coisa, menos cozinhar.
— Ah. Por quê?
— Esse tipo de coisa deve ser feita por cozinheiros habilidosos. A maioria são as mulheres.
Após alguns segundos, eu entendo. Eles têm medo de que eu envenene a comida. Como não sou nem um estranho total, nem alguém da confiança deles, não confiam em mim para cozinhar para os outros.
— Você pode ajudar a abater os animais — ele aponta com o queixo para onde as gaiolas estão.
Viro a cabeça. Uma tem uma galinha viva e a outra um coelho. Engulo em seco e forço um sorriso.
— Tem mais alguma outra coisa em que eu possa ajudar?
Alguns minutos depois, saio de lá cabisbaixo, sentindo-me derrotado. Meu plano de roubar o coração dele pela comida foi inevitavelmente por água abaixo. Além disso, terei que ajudá-los a rachar lenha amanhã, porque não tive coragem de matar a galinha nem de esfolar o coelho. Antes de chegar à área onde o Capitão Mun está acendendo uma fogueira, avisto o Comandante Yai saindo de sua tenda e indo para o lado oposto.
Ele está sem camisa. Olho para o céu, agora escuro e estrelado, e um estalo me vem à mente... Certo, o Comandante Yai vai tomar banho! Hum... A chance surgiu do nada! Corro até a carroça onde guardei minhas roupas e procuro pelas limpas, com medo de não conseguir alcançar o Comandante. Não tenho tantas chances assim de conversar com ele, então não posso perder essa. Quando encontro o conjunto novo, grito para o Capitão Mun:
— Capitão Mun, vou tomar banho!
Então, saio disparado como se estivesse sendo perseguido por um búfalo na direção que o Comandante Yai seguiu. Não tenho medo de me perder, pois vi os outros indo por ali. Deve haver uma lagoa ou um rio, já que eles sempre escolhem acampar perto de fontes naturais de água.
Após alguns metros, ouço vozes. Sigo o som e logo me deparo com um largo riacho que desce da montanha. Um grupo de servos está esfregando o corpo e conversando. Dou uma olhada rápida — não tenho desejo de observar as "coisas" de ninguém —, mas o Comandante Yai não está lá. Presumo que ele queira mergulhar sozinho, em silêncio.
Pondero para qual lado ir. Rio abaixo ou rio acima? Decido ir rio acima. Se fosse eu, iria para lá. Finalmente, o vejo. O Comandante Yai nada sozinho, submergindo na água como um peixe — um peixe enorme e incrivelmente forte. Ele emerge após ficar algum tempo debaixo d'água. Passa a mão grande pelo cabelo cor de corvo para trás, fazendo-o grudar na nuca.
Contenho-me para não ficar apenas olhando e salvar meu plano. Afinal, eu já vi tudo. Já fiz até mais do que apenas ver. Afasto-me na ponta dos pés, evitando fazer barulhos indesejados. Felizmente, é uma noite sem lua. A luz é fraca, e qualquer ruído que eu faça é abafado pelo canto dos insetos. Quando já estou longe o suficiente para não ser visto por ele, entro na água que flui suavemente. Mergulho até a cintura antes de imergir o corpo todo e emergir novamente.
Splash... splash...
Bato na água com força, de propósito, para que ele saiba que há alguém ali. Nado como se estivesse me divertindo, esperando até que ele perceba que alguém está tomando banho por perto. Esfrego minha pele com vigor, limpo a garganta e começo a cantar para atrair meu alvo:
— "Meu coração está livre. Alguém quer cuidar dele? Estou te dando a chance de ser o dono do meu coração..."
Funciona... O barulho de água na direção dele silencia, substituído por um som de movimento perto da margem. O Comandante Yai deve estar vindo para cá. Escondo meu sorriso e continuo cantando:
— "Meu coração está livre como um belo edifício. Se você não reservar, não conseguirá um quarto. Se for devagar, alguém levará meu coração. Se perder a chance, vai se arrepender."
Prolongo a nota para dar um charme. Escolhi essa música especificamente para ele. O Comandante Yai finalmente aparece. Ele cruza os braços sobre o peito e se apoia em uma árvore na margem, fixando o olhar em mim. Finjo me virar e vê-lo pela primeira vez.
— Oh... Comandante Yai, o senhor estava tomando banho por aqui? Eu não o vi.
Vou dar o troco por ele ter me acusado de espiá-lo durante o treino de esgrima.
— O senhor estava me espiando?
— Espiando você? — Ele parece ao mesmo tempo divertido e irritado. — Existe algo agradável para se olhar?
— Se olhar com cuidado, há muitas coisas agradáveis para se ver, Comandante — digo com naturalidade. — Bem, o senhor estava parado no escuro, sem fazer barulho. Como eu poderia saber o que o senhor estava pensando?
— O que eu teria pensado se não fosse algo irritante? Você estava reclamando tão alto que até os pássaros e ratos no fundo da mata podiam ouvir.
— Eu não estava reclamando. Estava cantando — retruco frustrado. — As pessoas de Seehasingkorn não cantam? Vocês só lutam? Cantar enquanto toma banho é uma forma de aliviar o estresse, Comandante Yai. Tente, se não acredita em mim.
Ele balança a cabeça.
— Inútil.
E sai andando a passos largos sem olhar para trás. Oh. Ei, ele vai simplesmente me deixar aqui assim? É difícil encontrar uma chance de conversar com ele! Faço menção de segui-lo, mas percebo que estou pelado. Quero conversar, não seduzi-lo (ainda). De qualquer forma, não conseguiria alcançá-lo mesmo se me vestisse correndo. Tudo o que posso fazer é esticar o pescoço como um bobo. Penso na última palavra que ele disse antes de ir:
“...Inútil.”
Mordo o lábio, refletindo. O que ele quis dizer? Que minha sugestão era inútil? Ou que eu era inútil? O pensamento me enfurece. Como ele ousa?! Se ele quisesse construir casas, eu projetaria cada prédio e até supervisionaria a construção para ele agora mesmo! Mas estamos viajando no meio do mato. Não tenho chance de mostrar minhas habilidades! Isso é enlouquecedor. Comandante Yai... seu prepotente metido. Você me paga!
No dia seguinte, acordo antes do amanhecer e marcho com determinação até o grupo que está acendendo o fogo para o café. O homem com quem falei ontem se chama Lom. Ele parece surpreso ao me ver.
— Vim rachar lenha como prometi ontem — digo com firmeza.
Nunca quis tanto rachar lenha na minha vida. Lom parece nervoso por eu estar falando com ele, mas responde:
— Agora? Costumamos preparar a lenha ao entardecer.
— Vou fazer agora. Vocês podem ir cozinhar. Eu cuido da lenha — digo. — E quando a noite cair, a lenha já estará pronta para a janta e os soldados poderão acender as fogueiras direto.
Vendo minha resolução, Lom cede. Minutos depois, grandes pedaços de madeira estão espalhados no chão, esperando que eu os transforme em gravetos. Avisto o Comandante Yai perto dos cavalos. Ele acorda cedo, eu já sabia disso.
Foco no trabalho e coloco um tronco no cepo. Arregaço minha roupa e seguro o machado com força. Abra os olhos e veja, Comandante. Não sou tão inútil quanto você pensa. Levanto o machado e o desço com toda a minha força. Ouço um "THUD!" quando a lâmina racha a madeira ao meio. Olho para o meu trabalho com os olhos quase lacrimejando. Ai... meus ombros estão queimando.
Cerro os dentes e racho outro pedaço sem sequer olhar para o Comandante Yai. Foco na batalha contra a pilha de madeira. Finalmente, uma grande pilha de lenha está pronta. Devolvo o machado para Lom com um sorriso, embora meu corpo inteiro doa. Durante a jornada de hoje, sinto gratidão toda vez que fazemos uma pausa. Exagerei na lenha hoje cedo, e agora meu corpo dói constantemente. No entanto, me forço a continuar caminhando como os outros, como se nada tivesse acontecido. Quando a comitiva finalmente para para acampar, solto um suspiro de alívio.
Enquanto os outros fazem suas tarefas, subo na carroça de bagagem estacionada longe do resto e me encosto em uma pilha de cobertores, exausto. Observo servos entrando na mata para armar armadilhas. De repente, sou despertado por um grito.
— Ei! Peguem ele!
Levanto a cabeça. A gritaria continua.
— Bloqueiem o caminho! O javali entrou! Fechem a passagem agora!
Quando coloco a cabeça para fora, acordo totalmente. Um javali vem disparado na minha direção com servos nos calcanhares. Apesar de gordinho, ele é rápido. É um javali jovem, coberto de pelos pretos rígidos, com presas curvando-se nos cantos da boca. Meus olhos se arregalam quando um servo aponta para mim:
— Ei! Bloqueie o caminho dele! Não deixe ele escapar!
Em pânico, olho para os lados sem saber o que fazer. Ao mesmo tempo, o Comandante Yai abre a cortina da tenda e aparece. Javali maldito! Por que você vem para o meu lado?! No entanto, não posso deixá-lo escapar, não com o Comandante Yai olhando! Não posso deixar que ele pense que sou inútil. Em um segundo, decido: pulo da carroça e tropeço porque meus joelhos cedem. Sem desistir, agarro uma pedra no chão, me levanto e corro em direção ao maldito bicho.
— HWAAAK!!!
Eu urro e atiro tudo o que consigo agarrar: pedras, lenha, o que for. BONG! Uma concha atinge a cabeça do javali com precisão cirúrgica. Não é o suficiente para derrubá-lo, mas ele perde o equilíbrio e cambaleia para o mato alto. Três homens pulam dos arbustos com lanças e o param minutos depois. Gritos de vitória ecoam pelo acampamento.
Lágrimas brotam nos meus olhos, não de alegria, mas pela dor que se espalha pelo meu corpo. À noite, sento-me perto do fogo com o Capitão Mun, cheio de hematomas. Muitos homens agora sorriem para mim de forma mais amigável. O Capitão Mun é chamado e volta com um prato grande de carne de javali grelhada.
Ele passa o prato para mim e diz:
— É seu.
— Hum? — O Comandante Yai disse que você pode ficar com o prato inteiro.
Seguro o prato grande em minhas mãos. A carne está recém-grelhada e bem fatiada, com uma aparência apetitosa e um cheiro aromático. Olho para aquilo, desanimado. Coitado de mim... me matei de trabalhar por ele e fui recompensado com um prato de carne de javali.
Nesta noite, fico me revirando na carroça ao lado do Capitão Mun. Conseguir uma forma de me aproximar do Comandante Yai exige tanto sangue, suor e lágrimas assim? Será que vou desmaiar antes de conquistar seu coração? Não... não acredito que cheguei a um beco sem saída. Os seres humanos evoluíram da Idade da Pedra para a era moderna com inteligência. Somos Homo sapiens, a espécie genial, e não nos rendemos a obstáculos facilmente.
Finalmente, tenho um plano. Esse plano se chama "Cavar um buraco para pegar peixe". Neste caso, vou chamá-lo de "Cavar um buraco para pegar o Comandante", porque criei esse plano especialmente para ele.
Abro um sorriso convencido no escuro. Posso matar dois coelhos com uma cajadada só. Esse plano, além de ser o método para eu ficar mais perto do Comandante Yai, pode convencer os outros a abrirem seus corações e me aceitarem como amigo. Com os punhos cerrados, grito entusiasmado:
— Isso! — e logo solto um gemido, porque meu corpo todo dói.
Pela manhã, enquanto todos arrumam suas coisas para retomar a jornada, caminho na direção oposta para coletar pedras pela área. Seleciono cuidadosamente os tamanhos e formatos preferidos. Em pouco tempo, tenho tudo o que preciso. Durante o dia, gasto meu tempo de descanso trabalhando na minha invenção. Cada pedra é parcialmente pintada com marcas pretas para ser distinguível. Escolho um pedaço de pano e desenho um padrão de quadrados. Finalmente, tenho tudo o que preciso.
É o equipamento para jogar xadrez. Quando a luz do sol desaparece e a brisa fresca toma conta antes do pôr do sol — momento em que muitos já completaram suas tarefas e estão relaxando da exaustão da viagem —, levo meu equipamento até o Capitão Mun, meu primeiro jogador. Ele não parece muito interessado a princípio, mas aceita jogar comigo para passar o tempo. Porém, após a primeira partida, o Capitão Mun cai de cabeça na minha armadilha. Ele pede outra rodada logo após a janta.
A segunda partida é seguida pela terceira, a quarta e a quinta. A diversão aumenta a cada vez.
Os outros começam a se interessar e se reúnem para assistir. Explico as regras e como cada peça se move de forma diferente — peões, bispos, torres, cavalos e reis. Logo, eles começam a pedir para jogar, e eu os recebo com um sorriso. É exatamente por isso que eu estava esperando. Em três dias, a popularidade do jogo dispara, espalhando-se como mofo em comida estragada. Tornei-me uma pessoa aceita por todos os grupos, como um mestre de xadrez com toneladas de alunos.
Eles jogam xadrez sempre que têm uma chance. Nos intervalos, após as refeições. Até tomam banho rápido só para poderem jogar logo. Nada de bocejos ou cochilos durante a guarda noturna. Eles jogam com empolgação. Tanto os jogadores quanto os espectadores se divertem e ficam acordados sem precisar de cafeína.
Finalmente, minha hora chegou. Após terminar de comer e tomar banho, enquanto dobro minhas roupas e o Capitão Mun joga com outros caras perto do fogo, um soldado se aproxima de mim.
— O Comandante Yai chamou você — diz ele.
— Para onde? — pergunto.
— Na tenda dele. Ele também disse para levar o seu pano de xadrez.
— Tudo bem. Já estou indo.
Respondo calmamente, como se não fosse nada demais. Quando me viro e percebo que ninguém está olhando, meus lábios tremem e abro o sorriso que espero que ninguém veja. A alegria se espalha por cada poro da minha pele. Finalmente, o peixe grande nadou para o buraco que eu cavei. Puxo o conjunto de xadrez que preparei de dentro de um pano embrulhado, mordendo o lábio para não sorrir como um pervertido.
...Ha.
Comandante Yai... desta vez é o senhor quem está me convidando para a sua tenda.