> O Desejo Dela <
Como arquiteto, sempre me fascinei pela simetria estrutural: a maneira como uma ponte suspensa distribui forças opostas para criar equilíbrio, ou como um edifício modernista equilibra forma e função em uma dança precisa de tensões. No entanto, na madrugada seguinte àquela conversa reveladora com Mariana – aquela em que ela, com uma calma que desarmava qualquer defesa, qualificou minhas explicações biológicas e neurocientíficas como “estranhamente reconfortantes” –, percebi que meu desejo cuckold havia atingido um ponto de inflexão similar. O que antes era uma construção unilateral, uma torre de Babel erguida solitariamente em minha mente, agora incorporava um elemento externo: a agência dela. Em termos científicos, era como se meu experimento psicológico tivesse saído do laboratório isolado e ingressado em um ecossistema vivo, onde variáveis independentes – no caso, a vontade autônoma de Mariana – começavam a influenciar os resultados de forma imprevisível.
Refleti sobre isso enquanto o sol nascente filtrava pelas persianas do escritório, tingindo os papéis espalhados com um tom alaranjado que evocava, curiosamente, a resposta inflamatória do corpo humano: um mecanismo de defesa que, paradoxalmente, pode intensificar a vulnerabilidade. Minha vergonha, essa constante companheira, não havia desaparecido; ao contrário, ela se mascarava agora sob o manto de uma observação científica rigorosa. Eu me via como um pesquisador em um estudo de caso único, documentando a evolução de um fetiche que, segundo teorias evolutivas como as propostas por Geoffrey Miller em “The Mating Mind”, poderia ser interpretado como uma estratégia adaptativa para lidar com a incerteza da paternidade em sociedades monogâmicas impostas. Mas, em meu caso, era mais: uma tentativa de racionalizar o irracional, de transformar a humilhação em dados quantificáveis. Quantos batimentos cardíacos por minuto durante a excitação? Qual o pico de dopamina liberado ao imaginar a traição consentida? Eu anotava mentalmente essas métricas, como se estivesse compilando um artigo para o “Journal of Evolutionary Psychology”, embora soubesse, no fundo, que isso era apenas um véu para a nudez emocional que me aterrorizava.
Os dias subsequentes foram um período de observação controlada, um fase de coleta de dados em um experimento que eu mesmo havia iniciado, mas que agora escapava ao meu controle exclusivo. Mariana, com sua inteligência afiada de editora, parecia ter internalizado minhas reflexões noturnas. Notei alterações sutis em seu comportamento, que eu catalogava como “variáveis comportamentais femininas em resposta ao estímulo cuckold”. Por exemplo, na manhã seguinte à conversa, ela escolheu uma blusa decotada para o trabalho – não excessivamente provocante, mas o suficiente para realçar a curvatura de seus seios, que eu sabia serem objeto de olhares alheios. Em termos observacionais, isso poderia ser comparado ao fenômeno da sinalização sexual em biologia evolutiva, onde fêmeas de certas espécies exibem traços para atrair múltiplos parceiros, maximizando a diversidade genética da prole. Mas aqui, era consensual: ela me lançou um olhar cúmplice ao sair, dizendo “Hoje tenho reunião com aquele autor novo, o que acha dessa roupa?”. Minha resposta foi um aceno afirmativo, disfarçando o tremor em minha voz com uma análise interna: o ciúme que sentia era análogo à resposta de estresse agudo, com liberação de cortisol, mas misturado a uma excitação serotonérgica que elevava minha frequência cardíaca para cerca de 110 bpm.
À noite, quando ela retornou, iniciei o que chamei internamente de “fase de debriefing relacional”. Sentados à mesa de jantar, com um vinho tinto que evocava a cor do rubor erótico, abordei o tema com a precisão de um entrevistador em um estudo qualitativo. “Mariana”, comecei, “depois de nossa discussão, tenho refletido sobre a simetria do desejo. Em psicologia social, autores como Anthony Giddens em ‘A Transformação da Intimidade’ argumentam que relacionamentos modernos envolvem negociações constantes de poder e prazer. O que você sente, especificamente, ao considerar essa… exploração?” Ela sorriu, um gesto arqueado que revelava dentes brancos e perfeitos, e respondeu com uma franqueza que me desestabilizou: “Daniel, sua análise científica é fascinante, mas vamos ao ponto. O que me intriga não é só te agradar; é a sensação de poder. Imaginar que eu poderia escolher outro homem, e você aceitar isso… é libertador. Como se eu saísse de um script monogâmico imposto pela sociedade patriarcal.” Suas palavras ecoaram teorias feministas, como as de Simone de Beauvoir em “O Segundo Sexo”, onde a mulher é vista como o “outro” definido pelo olhar masculino; aqui, porém, Mariana invertia o paradigma, tornando-se a agente ativa.
Essa inversão de poder era o cerne de meu estudo autoimposto. Em observações anteriores, meu fetiche era masoquista, uma erotização da inadequação percebida – talvez enraizada em complexos freudianos de castração simbólica. Mas agora, com Mariana assumindo o controle narrativo, o experimento ganhava uma dimensão simbiótica. Durante o jantar, ela descreveu, com detalhes clínicos que eu apreciava, um encontro hipotético: “Imagine eu em um bar, conversando com um estranho. Ele me toca o braço, e eu não recuo. Você assistindo, sentindo essa mistura de dor e prazer.” Minha reação fisiológica foi imediata: ereção involuntária, acompanhada de uma onda de náusea que eu quantifiquei como um pico de noradrenalina. Mascarei isso com uma analogia: “É como em neurociência cognitiva, onde a ambivalência emocional ativa o córtex pré-frontal e a amígdala simultaneamente, criando um estado de hipervigilância erótica.”
A transição para o quarto foi natural, um continuum do diálogo intelectual para o físico. Deitados na cama, com a luz suave do abajur projetando sombras que lembravam diagramas de circuitos neurais, Mariana assumiu a iniciativa. “Vamos testar isso verbalmente”, sugeriu ela, com uma voz que mesclava autoridade e sedução. Enquanto suas mãos exploravam meu corpo, ela narrava cenários: “E se eu saísse com o Rodrigo amanhã? Ele me beijando no pescoço, enquanto você espera em casa.” Cada palavra era um estímulo controlado, e eu media as respostas: meu pulso acelerado, a transpiração aumentada, o orgasmo que se aproximava com uma intensidade que superava qualquer experiência anterior. Em termos científicos, era análogo ao condicionamento pavloviano, onde o estímulo condicionado (a narrativa de infidelidade) eliciava uma resposta incondicionada (excitação sexual), mas com uma camada de vergonha que eu tentava disseccionar como um patologista examina um tecido.
No entanto, a vergonha persistia, um resíduo não quantificável que eu tentava enquadrar em modelos psicológicos. Segundo a teoria da dissonância cognitiva de Leon Festinger, meu desejo contraditório gerava tensão interna, resolvida por racionalizações como essa “pesquisa”. Mas, ao observar Mariana atingir o clímax – seus gemidos mais altos do que o usual, talvez influenciados pela fantasia compartilhada –, percebi que o experimento estava evoluindo para além de mim. Seu prazer não era derivado; era autônomo. Em antropologia cultural, isso se assemelhava a rituais de inversão de papéis em sociedades matrilineares, onde a mulher detém o poder reprodutivo, desafiando normas patriarcais.
Os dias seguintes intensificaram essa dinâmica. Eu compilava um “diário de campo” mental, registrando observações diárias. Na terça-feira, Mariana mencionou casualmente um almoço com colegas, incluindo um editor atraente que, segundo ela, “tem um jeito charmoso de argumentar”. Eu incentivei, disfarçando o ciúme com uma referência à competição espermática: “Em biologia reprodutiva, a presença de rivais potenciais aumenta a qualidade do sêmen, uma adaptação evolutiva.” Ela riu, mas seus olhos brilhavam com uma curiosidade que eu interpretava como sinal de engajamento genuíno. À noite, repetimos o ritual verbal durante o sexo, com ela adicionando detalhes sensoriais: “Sinto o cheiro dele, forte e masculino, diferente do seu.” Minha resposta foi um misto de êxtase e humilhação, que eu analisava como uma liberação de endorfinas compensatória, similar ao “runner’s high” em atletas de endurance.
O clímax psicológico do período veio na sexta-feira, durante um evento social que planejei como o “primeiro teste de campo controlado”. Era um happy hour em um bar no Itaim, frequentado por profissionais da área editorial e arquitetônica – um ambiente rico em variáveis sociais. Com consentimento mútuo prévio, estabelecemos regras: Mariana flertaria levemente com alguém, enquanto eu observava à distância, simulando o voyeurismo inerente ao cuckold. Em termos metodológicos, era um experimento quasi-experimental, com eu como sujeito e observador simultâneo.
Chegamos separadamente, para maximizar a autenticidade. Eu me posicionei no balcão, fingindo ler um artigo no celular sobre “a sociologia do adultério em sociedades pós-industriais”, enquanto monitorava Mariana. Ela, com um vestido justo que acentuava sua silhueta atlética – resultado de anos de yoga –, atraiu olhares imediatos. Um homem, alto e bem-vestido, aproximou-se: um publicitário, pelo que ouvi fragmentos da conversa. Ele tocou seu braço ao rir de uma piada dela, um gesto que durou três segundos – eu cronometrei mentalmente. Minha reação foi visceral: taquicardia, sudorese palmar, ereção incômoda. Em observação científica, isso espelhava a resposta de luta ou fuga, mas redirecionada para o eixo hipotálamo-pituitária-gonadal, ativando a testosterona paradoxalmente baixa em cenários de submissão.
Mariana não avançou além do flerte verbal; um sorriso, uma inclinação de cabeça, um comentário sobre literatura que o fez se aproximar mais. Durou vinte minutos, tempo suficiente para eu coletar dados: minha imaginação preenchia lacunas com cenários explícitos, elevando a excitação a níveis quase insuportáveis. Quando ela se despediu e veio até mim, fingindo um encontro casual, sussurrou: “Gostou do show?” No carro de volta, o silêncio era carregado, quebrado apenas por minha análise: “Foi como um estudo de etologia, observando padrões de acasalamento em um habitat natural.”
Em casa, o sexo foi o ápice do experimento. Mariana, agora no controle total, descreveu o flerte em detalhes: “Ele me achou atraente, Daniel. Queria me levar para dançar.” Suas palavras, proferidas enquanto montava em mim, intensificaram tudo: o ritmo acelerado, os gemidos dela que ecoavam uma satisfação profunda. Meu orgasmo veio com uma força que me deixou trêmulo, seguido de uma onda de vergonha que eu tentei racionalizar como “pós-coital tristesse”, um fenômeno neuroquímico descrito por Spinoza e confirmado por estudos modernos em psiquiatria.
Na solidão da madrugada, retornei ao escritório para o fechamento ensaístico. Meu “estudo” sobre o cuckold havia revelado a emergência do desejo feminino como variável pivotal. Em psicologia feminista, autoras como Eva Illouz em “Por Que o Amor Dói” argumentam que a intimidade moderna é um campo de negociações emocionais, onde o poder é fluido. No cuckold, o corno entrega controle, mas ganha uma conexão autêntica, livre de ilusões possessivas. Sociologicamente, isso reflete paradoxos da modernidade: a monogamia como norma, mas o desejo por transgressão como liberação. Minha vergonha, mascarada em ciência, era o preço dessa autenticidade.
Contudo, Mariana havia sugerido, antes de dormir: “Talvez na próxima, eu vá além do flerte.” O experimento prosseguia, e eu, o pesquisador, era também o sujeito, preso em uma simetria de poder que prometia revelações profundas – ou destruição total.