A tensão cria um manto lento ao redor de você, como se o ar tivesse aprendido a respirar junto com o seu corpo. As vozes ao fundo se desfazem em um murmúrio distante, pratos batendo, risos que não pedem resposta. Você percebe a própria respiração ficando mais profunda, mais ritmada, enquanto a fumaça desenha curvas preguiçosas no espaço. É ali, nesse intervalo quase imperceptível entre um pensamento e outro, que você sente minhas mãos encontrarem você, primeiro como um acaso, depois como uma decisão silenciosa. O mundo reduz o volume. O foco se estreita. Tudo começa a acontecer por dentro.
Você sabe que não deveria notar tão intensamente, e ainda assim nota. A proximidade não é nova, mas hoje ela pesa diferente, carregada de algo que não precisa ser dito. Há regras não escritas circulando entre vocês, e cada uma delas é sentida como um fio esticado demais. Quando nossos olhares se cruzam por um segundo a mais do que o aceitável, algo se reconhece sem pedir permissão. Não há culpa explícita, apenas consciência. Você sente o corpo responder antes da mente formular qualquer defesa, um leve aquecer sob a pele, um ajuste quase imperceptível de postura, como se o corpo soubesse que está sendo visto de um jeito específico.
Minhas mãos continuam ali, acompanhando você com naturalidade calculada, sempre presentes, nunca apressadas. Um toque na lateral, um apoio que se prolonga um pouco além do necessário, o polegar descrevendo um movimento lento que parece casual para quem observa, mas não para você. Eu controlo o ritmo sem anunciar, e você percebe, aceita, se deixa conduzir. Quando me aproximo para falar algo trivial, a voz baixa chega antes do sentido das palavras, e o intervalo entre elas cria um espaço onde sua atenção se aprofunda ainda mais. Você respira, espera, sente. Não há imposição, apenas uma direção clara.
O tempo começa a se esticar. Cada segundo carrega mais densidade do que deveria. Seu corpo acumula pequenas tensões, não desconfortáveis, mas vivas, elétricas. O calor já não vem apenas da brasa, mas de dentro, subindo devagar, encontrando a pele por caminhos sutis. Você percebe o próprio pulso, a expansão do peito a cada inspiração, a maneira como um simples toque agora reverbera por mais tempo. Minhas mãos não exploram, sugerem. Não avançam, prometem. E nessa antecipação controlada, seu desejo cresce primeiro na mente, moldando imagens, sensações, expectativas que se sobrepõem à realidade imediata.
Quando a noite começa a cair e as luzes se acendem, algo já ficou marcado em você. Não houve um gesto definitivo, não houve ruptura visível, e ainda assim você sai diferente. O corpo permanece sensível, atento, como se aguardasse a continuidade de algo que não terminou ali. A memória dos toques, da presença constante, da condução silenciosa, continua ativa, pulsando sob a pele. Mesmo longe, você ainda sente.
Mesmo em silêncio, algo em você responde. E esse desejo, agora acordado, não se desfaz com o fim do churrasco — ele permanece, calmo e intenso, esperando o próximo momento em que o mundo volte a ficar baixo o suficiente para você ouvir apenas o que acontece dentro.