Quando um casal de mulheres resolve adotar um filho ou realizar uma inseminação assistida, a dupla maternidade não é uma questão, porque o procedimento já é reconhecido juridicamente. O sistema entende que existem duas mães desde o começo: tudo sai registrado do jeitinho certo, e ambas constam no registro desde o início, sem necessidade de disputa, autorização ou posterior reconhecimento.
Mas, no caso da inseminação caseira, é preciso tomar algumas medidas para poder ter acesso ao que deveria ser o nosso direito. É necessário entrar com um processo judicial; algumas pessoas fazem isso pela Defensoria Pública. Nós optamos por contratar uma advogada por ser mais rápido. Como descobrimos a gravidez com quatro semanas e alguns dias, estávamos, de certa forma, um pouco atrasadas e, obviamente, o nosso desejo era que o(a) neném viesse para casa com o campo de filiação completo.
Foi bem rápido porque já sabíamos o que seria necessário. Conversamos com a advogada, enviamos os registros que seriam anexados e só nos restava aguardar.
Era algo que me incomodava bastante; porém, resolvi abstrair para não preocupar Júlia. Ela já tinha muita coisa na cabecinha e eu não queria atormentá-la com mais uma.
Isso aconteceu em uma semana cheia de afazeres. Eu estava muito ocupada, me dividindo em diversas funções, correndo de um lugar para o outro e ficando esgotada ao fim do dia.
Em um desses dias, estava em chamada de vídeo com Juh, no horário do almoço, e conversávamos sobre como o dia tinha decorrido. Ela estava um pouco desanimada com as questões da alimentação e disse que o coração se encontrava apertado de tanta saudade.
Minha muié resignificou a palavra “grude” nessa gestação, e era muito fofo observar como ela não percebia isso e queria estar o tempo inteiro comigo.
Prometi que ia tentar chegar mais cedo e isso fez a gatinha soltar um sorriso genuíno. Brinquei que ia ajudá-la nos exercícios que precisava fazer. Falei em um tom malicioso e ela meio que prendeu o riso, apenas virou o celular para o lado para que eu visse quem estava ali: era Milena estudando. Fiz sinal de que estava fechando a boca com um zíper e mudamos de assunto.
À noite, adiantei tudo que eu podia para cumprir com a minha palavra e consegui ir bem.
Recebi uma mensagem de Júlia assim: “Amor, traz manga verde? Estou com muuuuita vontade.”
Senhoras e senhores que gentilmente acompanham a nossa história, é no mínimo engraçado, para não dizer surpreendente, que minha esposa digite essa frase. Eu liguei para ela imediatamente, rindo do cenário esquisito.
— Eu preciso ouvir da sua boca que é isso mesmo que você quer — zoei.
— É sério, amor! Eu preciso muito. Estava dormindo e acordei com essa vontade louca de manga com sal — ela falou.
— Para quem duvida dos desejos que podem surgir na gravidez, tá aí… um testemunho vivo, porque eu estou ouvindo e continuo não acreditando — brinquei.
— Huuuuum, vai trazer? — Juh questionou.
— Vou correr para ver se acho algum lugar aberto. Não quero que meu filho nasça com cara de manga — disse-lhe, rindo.
— Vem logo que eu estou com saudade — ela disse, se despedindo.
— Já, já eu chego aí, cheia de manga — afirmei, finalizando a ligação.
Dei uma olhada no horário e estava bem tarde. Passei pelos mercados próximos e… nada! Resolvi pesquisar na internet e encontrei dois lugares abertos. Voei para os dois e até encontrei manga, mas nenhuma verde. Decidi levar algumas mesmo assim.
Assim que entrei em casa, vi Juh deitada no deck da piscina, na companhia de Brad.
— Oxen… Abandonaram essa muié linda aqui, foi? — perguntei, e a gatinha se assustou com a minha chegada.
Ela parecia longe, pensativa, e tinha um olhar triste.
— Eu nem percebi que você chegou — Juh comentou, esticando os braços para mim.
Deitei junto com ela e fui agarrada com força por seus braços.
— Por que você tá assim, amor? Tristinha e aqui sozinha — eu quis saber.
— Não estou sozinha, estou com Brad — ela respondeu, e eu ri.
Dei alguns beijinhos na cabeça dela e a encaixei melhor nos meus braços para dar carinho de um jeitinho mais confortável.
— Eu estou me sentindo uma chata e não quero machucar ninguém. Só queria você comigo. Estão achando que eu estou em reunião no quarto, mas tem um tempão que eu estou aqui te esperando… Eu só queria isso aqui: você comigo — Juh falou, com a voz cortada.
— Estou aqui, amor… Eu também queria passar mais tempo com você — respondi, nos aproximando ainda mais.
Ficamos um tempinho de dengo: ela toda derretida por mim e eu completamente boba com quão amorosa Júlia estava. Ela é uma pessoa que, por si só, já exala carinho; contudo, a dose parecia ter sido multiplicada.
— Você trouxe manga? Eu quero muito uma manguinha verde com sal — Juh perguntou, lambendo os lábios.
— Oh, amor… Eu procurei em todos os mercados abertos. Até trouxe manga, mas não encontrei nenhuma verde. Só que você não precisa se preocupar, tá? Amanhã cedinho eu vou correr e, na volta, trago um saco para você — garanti, fazendo carinho na bochecha dela.
— Ahhhh, eu queria agora… Poxa… — Juh lamentou, chateada.
— Se eu não encontrar, vou lá no seu pai buscar. Sempre tem — falei.
— E se a gente for na Cidade Baixa? Lá tem vários pés! — Júlia disse, animada, já se levantando.
— AGORA? — perguntei, assustada.
— SIM! — ela respondeu, cheia de entusiasmo, pegando a chave do carro no meu bolso.
— Amor… Pelo amor de Deus… A gente vai roubar manga? — perguntei, seguindo-a.
— Credo, não é roubar… Todo mundo pega! — Juh se explicou.
— Gatinha, me escuta… Você não tá percebendo que é uma ideia louca sair daqui esse horário atrás de manga? — perguntei, tentando ser cautelosa.
— Mas eu quero muito… Ali subindo a Ladeira do Bonfim eu sei que tem… — ela respondeu, em um tom de quem queria me convencer.
— Não, amor. Amanhã nós vamos, eu te prometo… — falei, deixando-a contra a porta do carro porque ela pretendia entrar.
— Se você não quer ir, eu vou — Júlia disse, já impaciente.
Ela tentou se desvencilhar de mim, me empurrando, mas não conseguiu. Comecei a achar graça e rir da situação e Júlia foi se irritando com a minha persistência, mas eu não percebi.
— SAI DA MINHA FRENTE, LORENA! — ela gritou.
— Ei, ei… Calma aí… Não precisa disso… — falei e a puxei para mim. Ela já estava em lágrimas.
— Você não está me levando a sério — Juh falou triste, contra o meu peito.
— Você consegue dizer em voz alta o motivo da nossa discussão? — perguntei, querendo rir, mas me controlei.
— Porque eu quero manga! — Juh respondeu com facilidade, voltando a chorar.
— Não fica assim… Juro que amanhã a gente resolve isso, gatinha… — falei e segurei o queixo dela para dar alguns beijos.
A bichinha até concordou, mas não estava nada satisfeita. Saiu dos meus braços e foi chorando para dentro de casa.
Respirei fundo, olhei para o meu estado de quem só desejava banho e cama e, a contragosto, aceitei retornar para a rua atrás de manga verde para saciar o desejo da minha grávida preferida.
— Está bem, vamos nessa… — falei e entrei no carro.
Não precisei repetir. Ela correu para dentro de casa e, em segundos, Júlia estava sentada ao meu lado com um pote de sal nas mãos.
Infelizmente, Salvador está deixando de ser uma capital arborizada; mas, na Cidade Baixa, realmente tem muita mangueira, e eu sabia o local ao qual ela se referia. O problema é que nem sempre estão cheias. É um local turístico e, muitas vezes, o governo municipal se dispõe a fazer a poda, mesmo que seja em área privada.
— Você está indo brava? — Juh perguntou em tom baixo.
— Mimada — debochei.
Ela ficou toda caladinha, acredito que com vergonha.
— Eu queria tirar essa roupa, esse cheiro de hospital de mim, tomar um banho, deitar na cama com minha mulher e descansar… Foi uma semana puxada para mim — disse-lhe, repousando a mão em sua coxa para um carinho.
— Desculpa, amor — Juh pediu e encostou a cabeça na janela.
— Está tudo bem. Vamos atrás dessa manga para chupar ela no caminho e me chupar inteira quando chegar em casa — falei para dissipar o climão. Funcionou, porque minha gatinha riu.
Paramos exatamente onde ela queria: na Ladeira do Bonfim. Estava tudo muito escuro e caminhamos até a mureta que dá acesso ao pé de manga. É um muro baixinho só para quem o vê da rua; do lado interno, há um desnível acentuado, formando um vão que pode chegar a cerca de 20 metros de altura (estou chutando) até o solo.
— Ali!!! — Juh apontou com a lanterna.
— Olha a altura que está, amor — pontuei.
— Mas, se eu subir aqui, alcanço — ela falou, animada com a ideia, já sentando no muro.
— Você está fora de si, só pode estar doida! Júlia, você não vai subir aí, entendeu? Não vai! — decretei em tom baixo, firme e bem sério.
— Lore, você não precisa falar assim comigo — Juh falou com os olhos marejados e a voz de choro.
Nesse instante, o celular escorregou da mão dela e caiu do outro lado.
Eu a arrastei para mim e ficamos olhando para onde ele estava, ainda aceso.
— Se liga nessa altura, amor… Se você cai daí, além de se quebrar toda, você morre — falei, abraçando-a.
A bichinha despencou nos meus braços, com um choro descontrolado. Eu a agarrei bem forte, tentando trazê-la para a realidade e mostrando que não era má vontade, somente uma situação complicada de se resolver naquele momento.
O sentimento dela por uma manga foi mexendo comigo e, em um surto de loucura, já que o choro não cessava, eu a soltei e subi na mureta para tentar puxar uma galha.
Não estava podado, porém isso não significava que estava acessível. Já vi aquela árvore bem cheia, ao ponto de nem precisar subir no muro para pegar a fruta. Infelizmente, não era o caso dessa vez.
Minha concentração foi tirada quando comecei a ouvir latidos. Além do perigo de morrer, eu ia ser devorada por um cão. Isso me fez recordar que, sempre que passava por ali, via alguns avisos de “cuidado, cão bravo” ou “cuidado, cão agressivo”… Pelo visto, não era à toa.
— AMOR, DESCE DAÍ!!!! — Juh gritou, com medo.
E, enquanto eu me preparava para descer, uma luz muito forte parou sobre o meu rosto. Imediatamente coloquei a mão nos olhos e pulei para trás. Quando consegui olhar novamente, havia um senhor de mais ou menos setenta anos, com cara de irritado, olhando para a gente.
— Moço, desculpa. Eu só queria uma manga verde — Júlia falou, chorando.
— Ela está grávida e… Enfim, desculpa a loucura… — completei.
Não posso afirmar porque não vi, mas pela postura, acredito que ele estava armado.
— Vai entrando no carro — sussurrei para Juh.
— Vem também — ela respondeu no mesmo tom, e fomos nos distanciando aos poucos.
— Vão para o portão que eu dou!!! — o senhor exclamou com voz firme.
Fiquei com medo de ir, mas Juh… essa muié silenciosamente comemorou erguendo os braços, como se tivesse recebido a melhor notícia do mundo.
Fiz a volta, parei na frente do portão da casa, desci e pedi que ela não saísse de jeito nenhum dali. Júlia apenas concordou.
Fui me aproximando devagar e, sorrindo, o coroa, na maior boa vontade, me entregou um saco de manga verde.
— Desculpa o incômodo. Eu não queria mesmo atrapalhar, mas… — eu ia dizendo e ele me interrompeu.
— Tenho dez filhos. Sei como são esses desejos de gravidez. Você é uma boa amiga para acompanhá-la a essa hora por aqui. Boa sorte e que Deus dê uma boa hora! — ele disse.
Agradeci e o deixei, pensando que éramos apenas amigas. Estávamos com muita sorte, e eu não desejava abusar disso.
Quando já estava voltando para o carro, lembrei do celular.
— Moço, o celular dela caiu no seu terreno. Será que tem salvação? — perguntei, rindo.
— Vou dar uma olhada — ele disse e retornou.
Minutos depois, me entregou o celular. Estava apenas sujo de terra e com alguns arranhões. Dos males, o menor.
— Muito obrigada de verdade. Que Deus abençoe o senhor! — agradeci e dei um abraço nele.
Entrei no carro quieta, dei o aparelho a Júlia e coloquei a sacola de mangas entre suas pernas. Imediatamente ela puxou uma.
— Você tem uma faca, amor? — Juh perguntou.
— Tenho canivete — respondi, apontando para o porta-luvas.
Com pressa, ela partiu a manga, espalhou sal e, assim que tentou encostar entre os lábios, rapidamente pôs a outra mão na boca, soltando o som de ânsia de vômito.
Eu estava puuuuuuuta da vida, sem paciência por toda a situação. Só queria chegar em casa, tomar banho e dormir, mas me preocupei. Diminuí logo a velocidade e fui prestando mais atenção ao que estava acontecendo.
— Vou vomitar… Abre o vidro — foi a única coisa que Juh falou.
Mas não deu tempo. No mesmo instante, o carro se encontrava completamente tomado por um vômito inesperado, espirrando pelo painel, pelo banco e um pouco na minha calça, enquanto a manga verde, intacta, ainda descansava na mão dela, como prova viva de que o desejo não chegou nem perto de ser realizado.
Parei o carro e desci com ela, que se agachou e continuou vomitando.
— O cheiro da manga… — Juh falou e logo voltou a vomitar.
Fiquei com pena, mas não tinha condições daquela sacola toda melada ir para a mala. Foi direto para a lata de lixo mais próxima.
Fomos em completo silêncio para casa: Juh encolhida no banco de trás, se limpando com papel higiênico e lenço umedecido, e eu apenas tentando ignorar o odor insuportável que ficou no carro, acelerando para chegar o mais rápido possível em casa.
Assim que chegamos, comecei a tentar tirar o grosso e Juh veio tentar me ajudar.
— Desculpa… Eu não queria… — ela começou a dizer.
— Amor, por favor, só sobe e vai tomar um banho… Deixa eu terminar isso aqui sozinha — falei, impaciente.
Assim que essas palavras saíram da minha boca, me arrependi. Apesar de estar puta com tudo que havia acontecido, não gosto de agir dessa maneira, de deixar chegar a esse ponto, de não pensar no que estou dizendo e muito menos nas consequências que minhas palavras podem causar.
Lavei o carro inteiro e, durante aquele tempo, fiquei pensando em como proceder. Com certeza minha gatinha não conseguiria dormir. Ela entrou toda tristinha e eu tive zero tato para conduzir a situação diante da noite turbulenta que tivemos.
— O que eu faço, Brad? — perguntei para o dog, antes de entrar.
Ele me olhou com uma cara de “não me mete nisso, não. Assuma seus b.o’s, fia”, e eu até ri um pouco imaginando isso.
Subi bem devagar. Juh estava deitada na pontinha da cama, agarrada em um dos seus travesseiros e de costas para mim. Tomei um banho e a abracei por trás, depositando vários beijos no pescoço dela e tentando ganhar espaço na cama.
Ela virou-se, com um biquinho chateado nos lábios e rostinho de quem havia chorado bastante, e me abraçou em silêncio.
— Perdão… Eu falei sem pensar — falei e dei um selinho nela.
— Desculpa… Por tudo… Foi tudo culpa minha desde o início, não sua… Desculpa… — Júlia falou pausadamente, com a voz trêmula.
— Pesei no tom. Não gosto de perder o controle — complementei e comecei a fazer carinho nela.
Juh estava muito, muito, muito vulnerável, e eu conseguia sentir isso. Então, meu desejo naquele momento era encher aquela mulher de carinho e assegurá-la de que, apesar dos momentos conturbados, nós sempre teríamos uma à outra no fim do dia.
— Vamos descansar, tá? Você precisa e eu também… Relaxa e vamos esquecer tudo isso — disse-lhe, e ela concordou.
— Falhei nos exercícios de hoje, falhei como esposa, falhei em curtir o nosso tempo juntas — ela falou, nitidamente chateada.
— Amanhã eu te ajudo com os exercícios, teremos o dia inteiro juntas e, como esposa, você nunca falha. Te proíbo de repetir isso — disse e a beijei.
Passei a mão na barriguinha dela e também dei um beijinho.
— Eita, neném, você vem com tudo, não é? — brinquei.
— Vamos ter o dia inteiro juntas? — Juh perguntou, um pouco mais animada, quando retornei aproximando nossos rostos.
— Meu único compromisso é correr, mas você ainda estará dormindo, e levar o carro para uma boa lavagem. Depois, sou toda sua — respondi, com um sorriso no rosto, e a beijei novamente.
— Eu prometo que não vou fazer nenhuma chatice — ela disse, me agarrando forte.
— Você não é chata, amor… Está grávida, sofrendo diversas mudanças por dentro e por fora. Tem uma vida crescendo no seu ventre, muitos hormônios no talo, sua alimentação mudou, sua rotina está diferente… É completamente normal sair do eixo nessas circunstâncias, e nós duas vamos enfrentar isso como sempre enfrentamos qualquer coisa que entra no nosso caminho. Juntas! É pela nossa filha… Quer dizer, filha ou filho — falei, rindo no fim.
— Eu te amo tanto… — minha gatinha falou, me puxando para um beijo.
— Eu também te amo muito! — respondi, tomando seus lábios novamente.
Fisicamente, eu estava esgotada e nem percebi quando apaguei. Acordei e nem consegui fazer minha corridinha, porque estava delicioso ficar ali, nos braços do meu amô. Não consegui sair e prolonguei por mais algumas horas a minha permanência ali, sentindo o cheirinho e o calor da pele dela tão próximos a mim.
