— Ora, por que não fica nua de uma vez? Seria muito mais prático.
O desafio da minha mulher ficou vibrando no ar, como uma daquelas notas de um piano que ninguém se atreve a interromper.
Minha filha não hesitou. Com um movimento ágil, as mãos subiram pelas costuras daquela camiseta preta desbotada e, num gesto que jogou qualquer resquício de pudor para debaixo do tapete, ela a puxou pela cabeça. A camiseta voou para um canto qualquer, e lá estava ela, sob a luz da tarde, exatamente como veio ao mundo — mas um mundo que, claramente, já não era mais o da infância.
Ela ficou ali, parada, com uma mão na cintura e um sorriso que era metade travessura, metade desafio. O meu olhar, por mais que eu tentasse manter a dignidade, fazia um inventário inevitável: os seios novos, firmes, apontando para o futuro; a curva suave dos quadris que se abriam para as pernas longas; e, no centro de tudo, aquela exuberante floresta escura, o triângulo de pelos densos e rebeldes que ela decidira ostentar como uma bandeira de liberdade.
— E então, pai? — perguntou ela, inclinando a cabeça com uma malícia leve. — O que achou do figurino agora?
Eu limpei a garganta, buscando o tom de bom humor que sempre nos salvou das situações difíceis. Dei um sorriso de canto de boca e soltei o veredito:
— É... Com certeza, você realmente cresceu!
Ela soltou uma gargalhada limpa, daquelas que ecoam pelo corredor, e minha mulher acompanhou o riso.
— Viu só, amor? — disse minha mulher, já desabotoando a própria blusa com a naturalidade de quem tira um par de óculos. — O problema de vocês, escritores, é que gostam muito de metáforas. Às vezes a realidade é melhor sem nenhum adjetivo por cima.
Em poucos segundos, a blusa e a calça jeans da minha mulher formaram uma pequena pilha de civilidade abandonada no chão. Ela se juntou à filha, e ficamos os três ali, num arranjo que faria qualquer um perder o fôlego. Minha mulher, com a plenitude de suas formas maduras, e minha filha, com a vitalidade da juventude, trocavam olhares de mútua aprovação.
— Olha só, mãe — provocou a menina, apontando para o meu colo, onde eu já não conseguia mais disfarçar o óbvio — parece que o papai gostou do que viu.
Minha mulher deu um passo à frente, observando o volume que insistia em destacar através do meu jeans. Ela riu, uma risada cúmplice e cheia de memórias.
— Pois é, filha. Pelo visto, o seu pai ainda é um homem de reações muito... diretas.
A menina deu um passo em minha direção, parando bem à minha frente, a poucos centímetros dos meus joelhos. A visão daquela mata escura, tão próxima agora, era de uma honestidade desconcertante.
— É melhor ir se acostumando, pai — disse ela, piscando o olho e me dando um beijo estalado na bochecha. — O senhor vai ter que aprender a conviver com a sua filha exatamente assim: peladinha.
Eu, rendido àquela nova ordem doméstica, só pude rir também, aceitando que, naquela casa, a moral acabava de ser derrotada pela mais absoluta e divertida transparência.
