De passagem

Um conto erótico de R. Valentim
Categoria: Gay
Contém 1394 palavras
Data: 24/01/2026 18:37:04
Assuntos: Beijo, crossdresser, Gay

A pior chuva dos últimos dez anos, foi assim que chamaram o temporal daquela noite: um castigo de Deus para os religiosos ou simplesmente um fechamento irônico de um dia inteiro de azar para os desacreditados. É interessante como um fenômeno facilmente explicado pode ter consequências e significados tão diferentes dependendo da perspectiva de quem observa. Em uma parada de ônibus qualquer da cidade, podemos ter um bom exemplo disso.

De um lado, um adolescente de dezessete anos se agarra ao casaco tentando escapar do frio intenso e das gotas de chuva que o vento sopra em seu rosto corado de tanto chorar; do outro, um homem de vinte e dois anos, muito bonito, usando uma roupa de policial justa em seu corpo malhado. Dois estranhos sentados em uma parada de ônibus.

— Você está legal? — perguntou o homem mais velho.

— Sim. — respondeu o jovem, claramente mentindo, pois seu “sim” foi seguido por um gemido e um fungado de choro.

— Tá bom. — O homem deu de ombros, puxando um cigarro do bolso e acendendo na tentativa de se aquecer. No entanto, depois da primeira tragada, o jovem ao seu lado começou a tossir por causa da fumaça.

— Desculpe. — o jovem se apressou em falar.

— Tudo bem. — disse o homem, soltando o cigarro e apagando-o com o sapato.

Os dois ficaram em silêncio por mais algum tempo. O jovem lançava olhares para o homem de vez em quando, todavia não dizia uma única palavra. O jovem estava mesmo triste, isso era visível; já o homem estava irritado com algo. Como eu disse, para um aquele momento era um grande castigo, enquanto para o outro se tratava apenas de carma e má sorte. Porém, a verdade era outra.

— Você é policial? — o jovem perguntou.

— Não. — o homem respondeu.

— Mas você está vestido de policial. — o jovem insistiu em sua dúvida.

— Sou stripper. — O rosto do jovem ficou ainda mais corado.

— Stripper do tipo que tira a roupa? — disse o jovem.

— Todos os strippers são do tipo que tiram a roupa. — o homem respondeu, rindo da ingenuidade do jovem.

— Eu sei, queria saber se você faz. — o jovem gesticulava, constrangido demais.

— Quer saber se faço programa, se transo por dinheiro?

— É. — o jovem estava muito envergonhado.

— Não, só tiro a roupa.

— Legal. — o jovem falou, atraindo a atenção do homem. — Quer dizer, desculpe. — interrompeu o próprio pensamento e apenas se desculpou.

— Tudo bem. Por que está chorando?

O jovem respirou fundo, ficou de pé e abriu o casaco, revelando que estava usando uma blusa cropped e uma saia de couro preta. Isso não respondia à pergunta do homem, porém o fazia admirar a beleza do corpo do rapaz. Sua pele branca, com poucos pelos, parecia delicada e macia; seu rosto corado lhe dava um ar de inocência e uma clara vergonha de estar se mostrando para um estranho.

— Está chorando porque o tênis não combina com a saia. — o homem brincou, na intenção de tranquilizar o rapaz.

— Não, essas roupas não são minhas. — o jovem falou, cobrindo-se novamente.

— Por que está de saia e chorando no meio de uma tempestade? — o homem perguntou de novo.

— E por que está vestido de policial e sem casaco no meio desse frio? — o jovem devolveu a pergunta.

— Fui demitido. — o homem respondeu.

— Por quê? Você parece ser um gato, quer dizer, muito bonito… ou melhor… — o jovem se embaralhou todo, arrancando risadas do homem.

— Soquei um cliente. — O garoto arregalou os olhos. — Trabalho no Lucky Thirteen, quer dizer, trabalhava. Lá temos a regra de que os clientes não podem tocar, só que tem um idiota que sempre quer quebrar essa regra e vive no meu pé para que eu faça um programa para ele.

— Mas você não faz programa. — o jovem falou.

— Pois é, só que o babaca não aceita “não” como resposta só porque tem grana.

— Por isso bateu nele?

— Meu dia já estava uma merda desde cedo. Descobri que meu colega de apartamento não estava pagando nosso aluguel e agora vamos ser despejados. O filho da puta não atende minhas ligações, simplesmente sumiu. Quando cheguei no trabalho já estava puto, aí esse babaca apareceu com o papo furado de sempre.

— Aí você acertou ele?

— Não. Disse que não, só que ele bebeu um pouco a mais. Na hora da minha apresentação ele subiu no palco e tentou me agarrar; daí sim acertei ele e fui demitido logo em seguida.

— Mas foi ele quem te agarrou. — o jovem falou, indignado.

— Pois é, mas ele é um dos principais clientes, muito amigo do dono e tem muita grana.

— Sinto muito. — disse o jovem.

— Tudo bem, vou arrumar outra coisa. Mas fala aí, por que mesmo você estava chorando?

— Tem um cara…

— Um bom começo. — o homem pontuou.

— Ele é da minha escola, temos a mesma idade, ele é o cara mais lindo do mundo, e meio que sou apaixonado por ele desde sempre. — Os olhos do jovem tinham um misto de dor e brilho.

— E ele fez algo com você?

— Não. É que este ano caímos na mesma sala do terceiro ano.

— Bom.

— Pois é, criei coragem e me aproximei dele, ajudando a estudar, fazendo trabalhos em equipe. Com o tempo ficamos amigos.

— Ser amigo de um crush é sempre difícil. — disse o homem, demonstrando empatia.

— Sim, mas ele meio que me deu uma abertura semana passada.

— Ah, muito bom! E você aproveitou?

— Não exatamente. Levei um tempo até acreditar que fosse real e não coisa da minha cabeça, mas ele foi específico: disse que queria ficar comigo.

— Então não entendi por que você está chorando. Foi tão ruim assim?

— Na verdade, não foi. — o jovem respirou fundo. — Sou virgem. Nunca nem beijei na boca.

— Sério?

— Pois é. Ele me disse para ir à casa dele hoje e que me mostraria como é o beijo, e você sabe…

— Ele queria tirar sua virgindade, mas isso ainda não explica as roupas. — pontuou o homem.

— Depois da aula fui para a casa dele, mas estava muito nervoso. Quando cheguei, conversamos um pouco e ele disse que seria melhor se eu me vestisse como uma mulher.

— Ele te deu essas roupas?

— Sim, são da irmã dele. — Os olhos do jovem se encheram de água de novo. — Fui ao banheiro e me vesti, mas quando saí ele estava com uns amigos e eles tiraram fotos minhas vestido assim. Foi horrível.

— Que babaca. Se você quiser, posso dar um coro nesse moleque.

— Tudo bem. Fui um idiota de ter acreditado nele. Na hora fiquei com tanta vergonha que só peguei um casaco para me cobrir e saí correndo.

— E agora está voltando para casa?

— Sim, mas acho que eles já devem ter mostrado a foto para todo mundo.

— Parece que seu dia foi uma merda que nem o meu. — disse o homem. — E, se eu posso falar, azar desse babaca: você está gato com essa roupa.

— Sério? — o rapaz perguntou, envergonhado.

— Sério. A propósito, me chamo Jean.

— Sou o Carlos. — disse o rapaz, estendendo a mão.

O ônibus finalmente chegou e ambos subiram. Não havia quase ninguém além do motorista. Sentaram-se no fundo, um ao lado do outro. Jean era ainda mais lindo sob a luz do ônibus, e isso deixava Carlos desconcertado. Para ele, homens bonitos nunca o notariam ou sequer lhe dariam uma chance, mas Jean conversava e o olhava com um visível interesse.

— Então, Carlos, que tal eu tirar seu BV? — Carlos engasgou com a própria saliva.

— Ah… sim, mas você tem certeza?

— Claro. Seria um desperdício você ter se arrumado todo e não beijar ninguém. — Carlos riu da piada de Jean. — E ninguém deixa a Baby de canto.

— Essa cantada é velha. — Carlos disse, rindo.

— Citar os clássicos faz parte do meu charme. — respondeu Jean.

Jean e Carlos riam ali no ônibus, longe da chuva. O dia deles pareceu melhorar, pelo menos um pouco. Ambos sabiam que, ao descer, ainda teriam de enfrentar seus problemas, mas durante aquele encontro, durante aquele breve momento, se deixaram levar. Jean segurou o queixo de Carlos, encarou seus olhos por um instante e, percebendo que ele não iria recuar, aproximou-se e encostou seus lábios nos dele.

Um beijo doce e gentil. O primeiro beijo de Carlos, com um desconhecido dentro de um ônibus, tarde da noite e no meio da maior tempestade dos últimos dez anos. Mesmo assim, aquele foi o melhor beijo de sua vida.

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Comentários

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E lá vamos nós para mais uma aventura com o Rafa!! Começou com tudo!

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Foto de perfil de Xandão Sá

Você precisa saber da piscina

Da margarina

Da Carolina

Da gasolina

Você precisa saber de mim

Baby baby

Eu sei que é assim

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